12.25.2009

Feliz dia de Mitra

25 de dezembro é e sempre será para mim o dia de Mitra, mesmo que cantem neste dia parabéns ao Nazareno.

Pode ser tão contraditório ver o 25 de dezembro como o dia de Mitra quanto colocar renas finlandesas com pisca-pisca coreanos em um país tropical, mas em geral as contradições e as mentiras, mais do que as certezas e as verdades, movem os destinos do mundo.

Mas deixemos as teorizações de lado, pelo menos por enquanto. Beba a Mitra na noite de hoje e seja feliz entre os seus.

Mithras, Lord Of Ages, below you we march!
Invincible sun, the flame of life, you dwell within our hearts!
(refrão de Lord of Ages, do Blood Axis)

12.22.2009

Histórias de amantes II

Na esquina da rua dela ele parou para comprar os bombons que tanto gostavam de compartilhar nas tardes dos sábados, nas tardes cheias de sexo e lascívia dos sábados.

Ela o esperava observando a rua pela janela. Ele se aproximava como sempre, o mesmo horário, o mesmo cabelo semi-úmido balançando com o vento, o mesmo sorriso que ela julgou há tempos atrás o mais belo sorriso do mundo (é próprio do amor exagerar e em especial as tolices).

E assim as tardes de sábado daqueles amantes tinham bombons, espera, sexo, cabelos semi-úmidos, sorrisos e lascívia, em ordenações mais ou menos repetitivas. Ambos tinham aceitado que as coisas seriam assim, e a repetição era encarada como um ritual ao qual se dedicavam satisfeitos.

Mas não há deus tão poderoso que convença um coração a sempre se curvar diante do mesmo altar: ela o esperava observando a rua pela janela e nesta espera imaginava que palavras utilizar para lhe dizer isso.

12.20.2009

Histórias de amantes - uma introdução tardia

O post anterior deu início a uma série de pequenos escritos cuja idéia surgiu neste curto período pós-morte de meu amado computador Dell (há uma vida de coisas nele e espero realmente que eu consiga recuperar tudo).

O nome da série é Histórias de amantes. Será composta de narrativas curtas sobre situações ideais vivenciadas por amantes de qualquer tempo ou lugar: brigas, traição, júbilo, mentiras, prazeres, distância, etc. Despudoradamente me inspirei em um zine feito pelo amigo Ian há anos atrás, onde havia pequenas e saborosas histórias de amantes libertinos. Vou escanear algumas páginas do zine (quando eu o encontrar no meio de minhas infinitas coisas) e colocar aqui, prometo (minhas promessas em geral não são cumpridas, mas pelo menos eu aviso que não são).

Diferente das histórias feitas pelo Ian, o foco das minhas é decididamente pessimista. Não sou um libertino, embora os admire pela sua sinceridade e com eles tenha aprendido muito sobre muitas coisas. Nas vivências dolorosas de meus amantes ideais há um inegável traço monogâmico, mas isso não quer dizer que eu o considere a causa das desventuras retratadas. A infelicidade parece não ter critérios para se multiplicar: antes se espalha sem pedir permissão ou respeitar compromissos.

Os amantes retratados nas histórias muitas vezes são responsáveis pela própria infelicidade, mas também em muitas outras vezes apenas sofrem as vicissitudes de um Destino do qual não conseguem compreender as razões. Alguns são voluptuosos, sonhadores, inconseqüentes; outros mantém-se firmes e resolutos em um amor que parece não ser afetado pelas fraquezas humanas. Explorar os contrastes é meu desafio aqui - não apenas no campo estético, mas também no ideal, já que escrever para mim sempre foi uma atividade dupla: de um lado o prazer de contar histórias, de brincar com as palavras; de outro uma espécie de gnose, de investigação de si e do mundo pelo maravilhoso artifício da escrita.

Espero que apreciem, e sem moderação, as histórias destes amantes. Hasta luego ;-)

12.19.2009

Histórias de amantes

Ela chorou, completamente entregue ao seu desespero e dor que pareciam infinitos (a dor que sentimos é amplificada pela loucura de nos acharmos únicos, e na verdade somos cinzas e pó, apenas cinzas e pó).

Ele nada fazia a não ser chorar também, igualmente triste, igualmente sentindo o mesmo pesar, mas mantendo a serenidade, talvez pela exigência de se portar como insensível, inabalável perante aquele aperto na garganta que antecede as lágrimas, que antecede os choros memoráveis dos apaixonados (memoráveis porque insistimos na loucura de nos acharmos únicos, e na verdade somos cinzas e pó, apenas cinzas e pó).

Tudo porque entre os apaixonados houve um desentendimento, e não cabe a nós investigar suas causas: os efeitos, neste caso, são excessivamente mais interessantes. Pois eles contém a chave interpretativa de seus corações, a lente que perscruta os detalhes, os meandros de suas imperfeições, imperfeições que lhes são negadas porque todo amor comporta uma espécie de cegueira.

Os apaixonados estão sentados frente a frente. Limpam os olhos. Dão-se as mãos. O contato físico é pequeno, é suave, é feito quase com temor, mas ativa os laços psíquicos que os unem, ativa as regiões espirituais de suas almas em comunhão. Há quem jure que tudo isso existe porque insistimos em embelezar a atração carnal com atributos que lhe são estranhos, que tudo é um teatro que antecede a ejaculação, mas insistimos em permanecer no palco, gostamos de estar lá, quase imploramos por estar (e tudo isso porque insistimos na loucura de nos acharmos únicos, e na verdade somos cinzas e pó, apenas cinzas e pó).

Pouco importa tudo o que foi dito para aqueles dois: beijam-se apenas, e naquele contato de salivas ficam sutilmente maravilhados. Dali sugam o néctar de seu amor, daquele amor construído entre tempestades, e provam um na língua do outro (provam das cinzas e pó que são o outro) o mesmo açucarado sabor dos primeiros dias, a mesma febre de sensações dos primeiros dias.

12.18.2009

Ranking das melhores livrarias de 2009

Por sugestão da companheira de trabalho Michelle, cheguei a este curioso ranking das melhores livrarias e sebos paulistas de 2009, postado no Alquimia do Verbo.

Fiquei especialmente curioso com o sebo que levou o melhor na categoria "Melhor subterrâneo frio, escuro e assustador de sebo" (?). Urge ir até lá neste sábado em busca de novas aquisições.

Abaixo, reproduzo ipsis litteris, incluindo apenas os links para as devidas lojas e sebos. E não deixem de visitar a postagem original:

1. Melhor Livraria
Martins Fontes da Avenida Paulista. Tem a maior variedade de livros na área de Humanidades - metros e metros de estantes carregadas, inclusive com obras difíceis de achar.

2. Melhor atendimento em Livraria:
Não avaliado. Poucos atendentes mostram boa vontade ou conseguem fazer alguma coisa além de olhar para a mesma prateleira que você e dizer "não tem, né?". Há exceções pontuais.

3. Melhor atendimento em Livraria Especializada:
Luís, gerente da Livraria Francesa, na Barão de Itapetininga. Sabe qual é o estoque de cor, leu metade dos livros, te chama pelo nome e não fica empurrando qualquer coisa. E é mó legal.

4. Melhor preço:
Livraria da Unesp na Praça da Sé. Dá 15% de desconto para professores em todos os livros e 20% nos livros da própria Unesp. Estudantes conseguem se explicarem sua difícil vida de estagiário.

5. Melhor programa de fidelidade:
Mais Cultura, da Livraria Cultura. A cada R$ 300 gastos você tem R$ 10 de desconto. No da Fnac, paga-se R$ 30 de anuidade para ter 2,5% de desconto nos livros. Faça as contas.

6. Melhor sebo:
Álvares Machado e o José de Alencar, um na frente do outro, na rua Álvares Machado. Pertencem ao mesmo dono, Celso, e estão com o melhor acervo. Preços camaradas com desconto à vista.

7. Melhor subterrâneo frio, escuro e assustador de sebo:
O prêmio, pelo 18o. ano consecutivo, vai para o Treze Listras, na Rua Aurora. Você está no meio de São Paulo e consegue ouvir um silêncio lancinante no subsolo.

8. Melhor sebo "o-dono-não-sabe-quanto-vale-o-que-tem"
Messias, aquele da Praça João Mendes. Garimpando dá para achar raridades a preço de banana. Mas tem que garimpar.

9. Melhor sebo "o-dono-sabe-muito-bem-o-que-tem"
Sebo Parangolé, na Praça Carlos Gomes. Tem de tudo, o acervo é ótimo, o lugar é limpo e organizado e cada centavo gasto nisso é cuidadosamente repassado no preço dos livros.

10. Revelação 2009
A Saraiva, depois de anos apanhando feio da Cultura, resolveu reagir, está com um estoque bom. Destaque para a loja do Iguatemi de Campinas, que bota a Cultura do mesmo shopping no bolso.

12.16.2009

Ausência

Estou afastado do blog pelo menos até o final da próxima semana. O motivo: meu computador, meu amado Dell foi para o espaço. Devido a isso, tenho que permanecer longe daqui.

Em contrapartida, não deixei de escrever. Terminei um conto na última sexta-feira e estou em processo de construção de um outro. Ambos, contudo, não pretendo publicar aqui: fazem parte de um projeto mais ambicioso, que é um livro. É uma desgraça falar de publicação de livros em um país que não lê, como Olavo Bilac já tinha dito há décadas atrás. Mas em geral eu faço coisas estúpidas, como as demais pessoas em geral, e eis que passo dias e dias escrevendo. Veja a dimensão da tortura que me imponho, e da forma mais gratuita possível.

De mais a mais, relí Borges e o novo do Crumb. O primeiro me levou para seus universos fantásticos, para sua narrativa aristocrática e atemporal, para seu estilo envolvente que dispensa comentários. O outro foi capaz de transformar o texto bíblico em algo grandiosamente visual, conferindo ao gênero da história em quadrinhos um status que -assim espero- seja reconhecido em ampla escala (ter esperanças é tolo e vão, mas continuo tendo esperanças e em geral para causas perdidas).

"Gênesis" vale também pela saborosíssimas notas de Crumb, que trazem para a superfície as camadas subterrâneas do texto bíblico e mostram o embate nele retratado: o embate entre o matriarcado e o patriarcado, que saiu vencedor e funda a religião que enformou todo o Ocidente. Abraão, Isaac e Jacó, assim, surgem não apenas como homens religioso, mas cristalizações ideais do sistema patriarcal; suas mulheres e, principalmente, suas muitas vezes atitudes estranhas surgem como resquícios de um passado patriarcal, consciente e paulatinamente apagados pela constante reescritura dos textos bíblicos ao longo dos séculos. Qual a outra forma de explicar senão como uma referência ao poder matriarcal o fato de que "mulheres estéreis" ocupem muitas páginas do Gênesis? Se eram estéreis, por que dar a elas tanta imporância? Para Crumb, isso só se explica de uma forma: estas mulheres não eram estéreis, mas sacerdotisas do antigo culto que não procriavam por opção. Eram mulheres sagradas, possuídoras de extremo prestígio nas comunidades hebréias de então. A vitória do patriarcado tratou de escamoteá-las sob o anátema da esterilidade.

Enfim, a estas discussões estúpidas me dedico. Espero que meu "computador novo" chegue logo (na verdade, o computador emprestado da namorada gentil). Hasta, chicos.

12.07.2009

A literatura de Horácio Quiroga


Ontem terminei a leitura de uma seleção de contos do escritor argentino (ou uruguaio, para alguns) Horacio Quiroga. Este autor chamou-me a atenção pelo título de um dos seus livros, "Cuentos de amor de locura y de muerte" (assim mesmo, sem vírgulas). E pelo que conheci através desta seleção de contos, o título é bem apropriado para sintetizar a obra de Quiroga.

É discutível considerar a vida de um autor para tecer considerações sobre sua obra, mas no caso de Quiroga, cujos escritos são permeados por mortes violentas e inesperadas, é elucidativo: seu pai morre acidentalmente em um expedição de caça, quando Quiroga ainda tinha 3 meses(nasceu em 3/12/1878); anos mais tarde, seu padrasto morre vítima de um tiro; já adulto, após retornar de uma fracassada tentativa de se tornar escritor em Paris ("no tengo alma de bohemio", reconheceu), seus dois irmãos morrem; pouco depois da morte dos irmãos, Quiroga mata acidentalmente com um tiro de pistola seu melhor amigo; sua primeira esposa, vítima de constantes crises depressivas, se suicida em 1915; a segunda o abandona, em Missiones, deixando o já adoentado Quiroga sozinho; e em Buenos Aires desde 1936, toma uma forte dose de cianureto ao descobrir, em 19 de fevereiro de 1937, que seu câncer é terminal.

Um outro elemento fundamental para sua prosa é a selva e as terras das fronteiras. Sua primeira visita a Missiones, no nordeste argentino, ocorreu em 1903, quando acompanhou como fotógrafo uma expedição até as ruinas jesuítas do local. O episódio fez com que nascesse em Quiroga uma paixão por aquelas terras inóspitas, onde a Natureza se mostra uma mãe implacável e que distribui desafios constantes aos seus filhos.

Em seus contos a imagem do rio Paraná emoldura uma realidade onde os homens são testados pelo rigor do clima, pela constante ameaça das cobras, pelo isolamento. Neste ambiente, a morte é vista como inevitável e os homens, impotentes, a vislumbram quase incrédulos quando ela se faz presente. Assim, não é a morte o tema central de seus contos -interpretação que uma primeira leitura autoriza- mas sim "la perplejidad del hombreal enfrantarse con ella; más aún, es la resistencia tenaz del hombre a reconocer que muere, el rechazar esa idea, la no aceptación de esta conciencia", como bem percebeu Pedro Luis Barcia.

É justamente esta perplexidade que torna o texto de Quiroga, em muitos momentos, de uma leitura assaz desagradável. E desta seleção que tive a oportunidade de ler, o conto "El almohadón de plumas" está no topo da lista. Deixo para vocês o conto, em sua versão original:

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El almohadón de plumas

Su luna de miel fue un largo escalofrío. Rubia, angelical y tímida, el carácter duro de su marido heló sus soñadas niñerías de novia. Ella lo quería mucho, sin embargo, a veces con un ligero estremecimiento cuando volviendo de noche juntos por la calle, echaba una furtiva mirada a la alta estatura de Jordán, mudo desde hacía una hora. Él, por su parte, la amaba profundamente, sin darlo a conocer.

Durante tres meses -se habían casado en abril- vivieron una dicha especial.

Sin duda hubiera ella deseado menos severidad en ese rígido cielo de amor, más expansiva e incauta ternura; pero el impasible semblante de su marido la contenía siempre.

La casa en que vivían influía un poco en sus estremecimientos. La blancura del patio silencioso -frisos, columnas y estatuas de mármol- producía una otoñal impresión de palacio encantado. Dentro, el brillo glacial del estuco, sin el más leve rasguño en las altas paredes, afirmaba aquella sensación de desapacible frío. Al cruzar de una pieza a otra, los pasos hallaban eco en toda la casa, como si un largo abandono hubiera sensibilizado su resonancia.

En ese extraño nido de amor, Alicia pasó todo el otoño. No obstante, había concluido por echar un velo sobre sus antiguos sueños, y aún vivía dormida en la casa hostil, sin querer pensar en nada hasta que llegaba su marido.

No es raro que adelgazara. Tuvo un ligero ataque de influenza que se arrastró insidiosamente días y días; Alicia no se reponía nunca. Al fin una tarde pudo salir al jardín apoyada en el brazo de él. Miraba indiferente a uno y otro lado. De pronto Jordán, con honda ternura, le pasó la mano por la cabeza, y Alicia rompió en seguida en sollozos, echándole los brazos al cuello. Lloró largamente todo su espanto callado, redoblando el llanto a la menor tentativa de caricia. Luego los sollozos fueron retardándose, y aún quedó largo rato escondida en su cuello, sin moverse ni decir una palabra.

Fue ese el último día que Alicia estuvo levantada. Al día siguiente amaneció desvanecida. El médico de Jordán la examinó con suma atención, ordenándole calma y descanso absolutos.

-No sé -le dijo a Jordán en la puerta de calle, con la voz todavía baja-. Tiene una gran debilidad que no me explico, y sin vómitos, nada... Si mañana se despierta como hoy, llámeme enseguida.

Al otro día Alicia seguía peor. Hubo consulta. Constatóse una anemia de marcha agudísima, completamente inexplicable. Alicia no tuvo más desmayos, pero se iba visiblemente a la muerte. Todo el día el dormitorio estaba con las luces prendidas y en pleno silencio. Pasábanse horas sin oír el menor ruido. Alicia dormitaba. Jordán vivía casi en la sala, también con toda la luz encendida. Paseábase sin cesar de un extremo a otro, con incansable obstinación. La alfombra ahogaba sus pasos. A ratos entraba en el dormitorio y proseguía su mudo vaivén a lo largo de la cama, mirando a su mujer cada vez que caminaba en su dirección.

Pronto Alicia comenzó a tener alucinaciones, confusas y flotantes al principio, y que descendieron luego a ras del suelo. La joven, con los ojos desmesuradamente abiertos, no hacía sino mirar la alfombra a uno y otro lado del respaldo de la cama. Una noche se quedó de repente mirando fijamente. Al rato abrió la boca para gritar, y sus narices y labios se perlaron de sudor.

-¡Jordán! ¡Jordán! -clamó, rígida de espanto, sin dejar de mirar la alfombra.

Jordán corrió al dormitorio, y al verlo aparecer Alicia dio un alarido de horror.

-¡Soy yo, Alicia, soy yo!

Alicia lo miró con extravió, miró la alfombra, volvió a mirarlo, y después de largo rato de estupefacta confrontación, se serenó. Sonrió y tomó entre las suyas la mano de su marido, acariciándola temblando.

Entre sus alucinaciones más porfiadas, hubo un antropoide, apoyado en la alfombra sobre los dedos, que tenía fijos en ella los ojos.

Los médicos volvieron inútilmente. Había allí delante de ellos una vida que se acababa, desangrándose día a día, hora a hora, sin saber absolutamente cómo. En la última consulta Alicia yacía en estupor mientras ellos la pulsaban, pasándose de uno a otro la muñeca inerte. La observaron largo rato en silencio y siguieron al comedor.

-Pst... -se encogió de hombros desalentado su médico-. Es un caso serio... poco hay que hacer...

-¡Sólo eso me faltaba! -resopló Jordán. Y tamborileó bruscamente sobre la mesa.

Alicia fue extinguiéndose en su delirio de anemia, agravado de tarde, pero que remitía siempre en las primeras horas. Durante el día no avanzaba su enfermedad, pero cada mañana amanecía lívida, en síncope casi. Parecía que únicamente de noche se le fuera la vida en nuevas alas de sangre. Tenía siempre al despertar la sensación de estar desplomada en la cama con un millón de kilos encima. Desde el tercer día este hundimiento no la abandonó más. Apenas podía mover la cabeza. No quiso que le tocaran la cama, ni aún que le arreglaran el almohadón. Sus terrores crepusculares avanzaron en forma de monstruos que se arrastraban hasta la cama y trepaban dificultosamente por la colcha.

Perdió luego el conocimiento. Los dos días finales deliró sin cesar a media voz. Las luces continuaban fúnebremente encendidas en el dormitorio y la sala. En el silencio agónico de la casa, no se oía más que el delirio monótono que salía de la cama, y el rumor ahogado de los eternos pasos de Jordán.

Alicia murió, por fin. La sirvienta, que entró después a deshacer la cama, sola ya, miró un rato extrañada el almohadón.

-¡Señor! -llamó a Jordán en voz baja-. En el almohadón hay manchas que parecen de sangre.

Jordán se acercó rápidamente Y se dobló a su vez. Efectivamente, sobre la funda, a ambos lados del hueco que había dejado la cabeza de Alicia, se veían manchitas oscuras.

-Parecen picaduras -murmuró la sirvienta después de un rato de inmóvil observación.

-Levántelo a la luz -le dijo Jordán.

La sirvienta lo levantó, pero enseguida lo dejó caer, y se quedó mirando a aquél, lívida y temblando. Sin saber por qué, Jordán sintió que los cabellos se le erizaban.

-¿Qué hay? -murmuró con la voz ronca.

-Pesa mucho -articuló la sirvienta, sin dejar de temblar.

Jordán lo levantó; pesaba extraordinariamente. Salieron con él, y sobre la mesa del comedor Jordán cortó funda y envoltura de un tajo. Las plumas superiores volaron, y la sirvienta dio un grito de horror con toda la boca abierta, llevándose las manos crispadas a los bandós. Sobre el fondo, entre las plumas, moviendo lentamente las patas velludas, había un animal monstruoso, una bola viviente y viscosa. Estaba tan hinchado que apenas se le pronunciaba la boca.

Noche a noche, desde que Alicia había caído en cama, había aplicado sigilosamente su boca -su trompa, mejor dicho- a las sienes de aquélla, chupándole la sangre. La picadura era casi imperceptible. La remoción diaria del almohadón había impedido sin duda su desarrollo, pero desde que la joven no pudo moverse, la succión fue vertiginosa. En cinco días, en cinco noches, había vaciado a Alicia.

Estos parásitos de las aves, diminutos en el medio habitual, llegan a adquirir en ciertas condiciones proporciones enormes. La sangre humana parece serles particularmente favorable, y no es raro hallarlos en los almohadones de pluma.

11.26.2009

Em defesa do romance - Vargas Llosa


No site da Revista Piaui há um ótimo texto do Mario Vargas Llosa, cujo mote principal é a defesa da literatura. Para ele, "um mundo sem literatura teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal."

Embora o texto tenha excelentes momentos (como quando aborda a relação entre literatura e prazer sexual, no qual Llosa sustenta que tanto o amor quanto o prazer "seriam mais pobres, privados de delicadeza e de distinção, da intensidade a que chegam todos aqueles que se educaram e estimularam com a sensibilidade e as fantasias literárias") a aposta que o leitor faz na literatura como um fator humanizante chega a dar sono. A depuração do intelecto nem sempre vem acompanhada da depuração do caráter. Sarney, por exemplo, é um dos maiores bibliófilos do Brasil. Esse é um dos pontos onde o texto de Llosa falha vergonhosamente.

Outro ponto é a aposta na literatura como passaporte para a civilização. Ele diz:

"Uma humanidade sem romances, não contaminada pela literatura, se pareceria com uma comunidade de tartamudos e afásicos, atormentada por problemas terríveis de comunicação causados por uma linguagem ordinária e rudimentar."

Não preciso sublinhar no trecho acima a desconfiança de Llosa pelas culturas não letradas. Em certa medida, ele está correto: parece haver um salto qualitativo nas realizações culturais de um povo quando este passa da oralidade para a escrita. Mas voltemos os olhos para outras culturas, onde literatura tal como a defendida por Llosa nem de longe existia.

A Índia, por exemplo. O Rig Veda, composição poética de mais de seis mil anos (para alguns doze mil anos) era eminentemente oral. Não eram textos literários, no sentido ocidental do termo. Sua função era eminentemente religiosa. Contudo as noções morais ali colocadas, os dilemas humanos e tudo o mais revelam um apuro comunicativo altamente desenvolvido, muito distantes da animalização que Llosa julga encontrar nas sociedades que não lêem/produzem romances.

E para nos atermos a exemplos mais próximos no tempo e espaço, podemos lembrar dos incas, subjugados pelos letradíssimos espanhóis na sua sede por ouro, e que mesmo não possuindo literatura deram mostras inegáveis de uma cultura desenvolvida em grande escala. Os relatos dos primeiros colonizadores, em muitos pontos, salientam as maneiras educadas e respeitosas nos tratos entre si dos povos originários.

Llosa, longe de perceber estes fatos incontestáveis, faz uma aposta ilusória no fator humanizante da literatura. Tal afirmação só pode sobreviver pela arrogância ocidentalizante de que o conhecimento, por si só, é capaz de moldar o caráter. A vivência acadêmica na USP tratou de esfregar na minha cara que essa é uma das maiores mentiras já inventadas.

Obviamente não defendo o embrutecimento e a opção voluntária pela burrice Uma das coisas mais irritantes para mim é a ignorância. Mas afirmar que a literatura é o motor principal da abertura das consciências soa como piada aos meus ouvidos.

Parece que o conhecimento depura o ser apenas quando acompanhado de vivências e reflexões. Da mesma forma que não basta ler Alfred de Musset para se tornar um exímio amante, sendo necessário algumas garotas (ou garotos) para se realizar como tal. O mundo, a grande experiência do mundo, os perigos e oportunidades que ele oferece compõem a arena onde nos arriscamos diariamente. E nesses riscos diários as páginas dos livros, por mais importantes que sejam, parecem não são ser decisivas.

11.25.2009

Preâmbulos

Há dias em que apenas uma chuva de ácido sossegaria minha sede de mandar este universo e cada uma dos seres humanos que nele habitam para o nada de onde todas as coisas que existem, definitivamente, nunca deveriam ter saído.

Até lá, preencherei os dias entre a contemplação deste desastre e tentativas de tornar menos miserável o dia-a-dia. Há sempre o fracasso como possibilidade entre um e outro, e é bom lembrar disso, como maneira de equilibrar a arrogância, natural companheira minha.

Hoje ainda posto umas reflexões que tive sobre este texto do Mario Vargas Llosa. Ou talvez amanhã. A herança colonial sempre será a desculpa para o eterno para-depois e para-amanhã que costumamos aplicar a quase tudo. Gosto de boas desculpas, essas fantasias que em geral encobrem a fraqueza.

11.21.2009

As cruzes que os homens carregam

As cruzes humanas, pesadas, megalíticas cruzes, atormentam as costas dos desgraçados que as carregam. Suas formas são as mais diversas: ora são dívidas, às vezes são paraísos artificiais, outrora uma família que nos deixava feliz e agora só nos vitima com desgostos.

Há cruzes que são filhos inesperados, os quais é obrigatório amar, mesmo que nada nos ligue a eles a não ser as lembranças de um coito sem brilho, apenas mais um coito entre tantos, e que resultou em um ventre fecundo e um novo ser amaldiçoado desde a concepção. Para outros a cruz é um amor cuja voracidade engoliu a tudo, até mesmo da dignidade este amor fez refeições, a tudo devorou, como em geral acontece.

Tudo isso, todas essas cruzes, quando compartilhadas, pesam menos - é o que dizem. Mas a aqueles que renunciaram à própria renúncia, a aqueles cujo prazer supremo é rolar a pedra depois e depois, que mediante o efeito das noites em claro compreenderam a cíclica marcha das eras, lua após lua, sol após sol, a esses nenhuma cruz será mais pesada que o ar que os constrangem. A esses que, do peso infinito das horas, em uma alquimia que apenas os fortes conhecem, são capazes de rir e manter-se firmes, as cruzes que carregam jamais poderão ser compartilhadas totalmente - e cientes disso caminham para as altas montanhas, cientes disso descem para as profundezas dos abismos.

11.20.2009

Vania Zouravliov

Vania ZouravliovNa última vez que o casal Índio e Sascha aportaram por aqui conversamos, entre kekabs e cafés com damasco, sobre as ilustrações de um cara chamado Vania Zouravliov. Hoje, a Sascha finalmente me enviou um link com muitos dos trabalhos deste cara.

A imagem acima, que ilustra o post, é do Vania. E algumas das maravilhas dele eu coloquei logo abaixo. São todas belíssimas. Aprecie-as sem moderação:

Vania Zouravliov




Outros trabalhos do Vania você pode conferir aqui.

11.17.2009

As listas e a cultura

Hoje eu li uma entrevista com o Umberto Eco onde ele fala da importância que as listas desempenham para a cultura ocidental. Segundo ele, listar coisas faz parte do desejo humano de criar uma certa ordem em meio ao caos e estabelecer limites para o incompreensível. Daí surgiram dicionários, enciclopédias, legislaturas, museus - realizações estas que são como as grande listas de nossa cultura, registros das conquistas e criações dos homens nos mais diversos campos do conhecimento.

Fazer listas é inegavelmente um ato cultural, e na literatura elas ocorrem amiúde. E no cânone da literatura ocidental, uma das mais marcantes listas ocorre na Íliada. Conhecida como "o catálogo das naus", extende-se dos versos 484 a 877 do canto II , e é uma enorme lista de todos os povos e generais que participaram do cerco a Tróia, enumerados um a um, com as respectivas quantidades de navios e homens levados para a expedição guerreira.

De certa forma, o catálogo é um corpo estranho no poema: quebra-se a narrativa para enumeração de soldados. Há um debate secular sobre este trecho da Ilíada, mas todos concordam que um dos efeitos da passagem é mostrar a grandiosidade nunca vista da expedição, para que o leitor pudesse medir as dimensões do confronto; e justamente estas dimensões, épicas por excelência, foram as responsáveis pela popularidade da guerra. É mais ou menos isso que Eco diz neste trecho da entrevista:

Na "Ilíada", ele tenta transmitir uma impressão do tamanho do exército grego. Primeiro ele usa metáforas: "Assim como um grande fogo florestal investe contra o topo de uma montanha e sua luz é vista de longe, enquanto marchavam, o brilho de suas armaduras reluzia nas alturas do céu". Mas não fica satisfeito. Ele não consegue encontrar a metáfora certa, então implora às musas para que o ajudem. Então ele chega à ideia de listar os nomes de muitos, muitos generais e seus navios.

Na edição bilíngüe com tradução de Haroldo de Campos, pouco antes de começar a lista das naus, o poeta evoca as musas com os seguintes versos:

(...) o total de nomes da multidão, nem tendo dez bocas, dez línguas, voz inquebrantável, peito brônzeo, eu saberia dizer, se as Musas, filhas de Zeus porta-escudo, olímpicas, não derem à memória ajuda, renomeando-me os nomes."

O gênero épico prescreve a evocação das musas como auxílio ao poeta, para o sucesso da narrativa. E momentos antes de efetuar a lista dos povos que se movem contra Tróia, nada mais adequado: a tarefa, o poeta sabe, é enorme. Justamente sobre essa dificuldade Eco fala logo em seguida:

O trabalho de Homero se depara constantemente com o tópos do inexpressível. As pessoas sempre farão isso. Sempre fomos fascinados pelo espaço infinito, pelas estrelas incontáveis e galáxias além das galáxias. Como uma pessoa se sente olhando para o céu? Ela acredita que sua língua não é suficiente para descrever o que vê.

Foi lendo este ponto da entrevista que me lembrei da mais recente versão para o cinema da guerra de Tróia, lançada em 2004. Procurei rememorar como a tediosa listagem das embarcações feita por Homero foi transposta para as grandes telas. Se você viu o filme, talvez se lembre de uma cena presente na primeira meia hora, que não dura mais do que poucos segundos, onde o mar Egeu aparece coalhado por milhares de embarcações. A cena é breve, mas a impressão produzida pela imagem de um mar repleto de barcos dá a dimensão da guerra que está prestes a começar.

O que podemos concluir disso? Que a sintaxe própria da linguagem do cinema, estruturada na imagem, difere da do texto épico, baseada na escrita. A escrita não tem a simultaneidade radical da tela do cinema, onde todos os barcos podem ser vistos ao mesmo tempo: é o acúmulo descritivo da lista que permite ao texto homérico criar a impressão de grandiosidade do exército que acompanha Agamêmnon.

De certo modo, a literatura força o leitor a produzir a imagem da armada gigantesca, em um esforço imagético impulsionado pela leitura. Claro que o nível de detalhamento da imagem do Egeu dominado por naus dependerá em larga medida do repertório do leitor, dos seu nível de interesse pelo texto lido e também da tradução utilizada. Mas se a leitura do texto épico proporciona este exercício mental, ou melhor, se a literatura é ela inteira um exercício de (re)criação de imagens, a transposição de textos literários para as telas do cinema anula este prazeroso desafio e nos dá as imagens prontas, acabadas. No caso específico da Ilíada, a grandiosa lista de Homero me obrigou a vencer, na primeira leitura que dela realizei, uma espécie de enfado por tão longa e tediosa descrição; contudo o efeito almejado é soberbo, e ainda terei a paciência (e o tempo, recursos escasso) para fazer um mapa com os nomes das regiões citadas (e não a lista uma espécie de atlas escrito daqueles tempos?). Já no cinema, nenhuma referência geográfica é dada: mostra-se o mar infinito tomado por barcos de todos os tipos e tamanhos. A visão é terrível, acentuada pelo movimento da câmera e pela trilha sonora; adequa-se, para citar Paul Veyne, ao nosso intenso gosto moderno, que só admite a arte como excesso, grandiosidade, estremecimento.

Neste sentido, a lista proposta por Eco não satisfaz mais. Em geral são chatas, para alguns até mesmo insuportáveis. O cinema nos fornece uma possibilidade de reproduzir a impressão de grandiosidade da lista poupando o esforço intelectivo de recriar a imagem da armada enorme. São linguagens diferentes e, claro, é preciso entendê-las tal e qual; mas as deficiências da lista como recurso literário não são abordadas por Eco na entrevista. Poderíamos levar em conta que a Ilíada é um exemplo demasiado gasto, com seus 26 séculos de idade; mas mesmo em autores recentes, como Eça de Queirós, a leitura das partes descritivas (que nada mais são do que listas) é por muitos evitada. Mesmo para os que gostam de literatura e até mesmo para aqueles que a encaram como profissão. Listas demandam cuidado, apuro, paciência. São inegavelmente um produto cultural escrito (ou mesmo falado, se pensarmos que a Ilíada e muito da tradição épica antiga são sobretudo versões escritas de poemas orais, e nisso Milman Parry é a melhor fonte a consultar).

Frente a isso, retomo certos aspectos de meu post anterior para finalizar dizendo que certamente seria muito interessante ver Eco problematizando as listas de nossa cultura (uma cultura fundada em inúmeras listas), contrapondo-a com um ambiente onde a imagem ganha mais espaço e deixa a leitura como um item necessário, porém fadado a simplificações de forma e conteúdo que, se as previsões pessimistas se confirmarem, tornará cada vez mais difícil a formação de leitores capazes de efetuar leituras em profundidade. Isso ode ser uma boa explicação para a crescente popularidade dos romances históricos, que transformam a árida matéria dos livros de História em excitantes enredos. Ou mesmo para o fenômeno Dan Brown, cujos livros recheados de informações sobre arte, literatura, arquitetura, etc são verdadeiras minas de ouro para as editoras, e os leitores em geral oferecem, ao final da leitura, uma confortável sensação de inteligência e erudição - feita de retalhos toscos, mas mesmo assim garante um certo brilho de sagacidade na mesa do bar. Nada contra a mesa do bar, mas esta sensação de conhecimento é apenas isso mesmo, uma sensação, e nada mais além disso.

11.09.2009

O romance e os novos processos de leitura


Este post é uma espécie de continuidade da idéia apenas esboçada no post anterior -de que romances com uma "sintaxe cinematográfica" poderiam ser um fator de inovação da linguagem romanesca. Embora eu não tenha encontrado uma resposta definitiva, logo após a publicação do post deparei com dois artigos que me fizeram pensar mais a respeito, ampliando o escopo do problema.

O primeiro foi um artigo publicado no The New York Times, que comenta sobre "Level 26: dark origins", o novo romance de Anthony Zilker, criador da série CSI. O romance, lançado em setembro, está disponível, além da versão impressa, em formato e-book, áudio livro e também para iPhones. Mas não é só isso: os leitores do romance são encorajados a visitar um site com vídeos baseados em passagens do livro.

O NYT chama livros como "Level 26" de "hybrid books" ou, de forma ainda mais ousada, de "vooks" (neologismo de gosto duvidoso, sem dúvida). Ainda neste artigo, Judith Curr, editora da Atria Book, diz que "você não pode mais ser linear com o seu texto" e que "todo mundo está tentando pensar em como livros e informação [multimídia] ficarão melhor combinados no século 21". Esta combinação do livro com vídeos e sites, diz-se, proporcionarão uma interação maior do leitor com a obra, em uma experiência cognitiva que não se limitará mais a leitura do que está no papel.

Além da interação leitor-obra, as redes sociais e os blogs poderão ser meios de criar/potencializar um tipo de interação que nos anos passados era muito mais difícil (e na maioria dos casos impossível): a interação autor e leitor. Através destas ferramentas, o autor pode escrever um livro online e, mediante os comentários recebidos, promover (ou não) alterações. Susan Katz, editora da Harper Collins Children´s Books, aposta que no futuro será mesmo muito comum que "o autor seja visto como um líder de um grande grupo e escolherá a dedo a partir destas sugestões [dos leitores]". Isso, aliás, já está acontecendo: Kevin Kelly, desde 2004, está escrevendo um livro que conta com a participação de muitos de seus leitores. Cada post é discutido por uma série de pessoas em todo o mundo, e o próprio Kelly incentiva a prática neste texto onde explica suas motivações colaborativas.

O processo de leitura é de natureza linear. Formamos palavras através de letras, orações através de palavras e enfim textos com a (co)ordenação de tudo isso. E essa linearidade típica da leitura ocorre essencialmente no tempo. Os elementos discursivos são como que somados, colocados um na "frente" do outro, e daí se produzem os sentidos. Agora, com todas as possibilidades de interação promovidas por vídeos e redes sociais nos processos de leitura, ocorre como que uma quebra neste percurso linear. Romances como "Level 26" pretendem ampliar a experiência cognitiva, conferindo-lhe aspectos de simultaneidade. O texto "salta" do papel de uma forma muito mais concreta do que apenas na imaginação do leitor.

Esssa mescla do visual com o romance é algo ruim? Nenhuma resposta convincente pode ser dada a esta pergunta, pelo menos por enquanto. Considero até mesmo a minha pergunta um absurdo: juízos de valor sobre fatos culturais em geral deformam nossa visão sobre o fato. E o fato é que o romance, gênero literário essencialmente problemático (pois produto do zeitgeist da modernidade), está sofrendo abalos consideráveis em um contexto onde a imagem ganha espaço cada vez maior. Já em 1974 o alemão Adorno tinha dito que

"Assim como a pintura perdeu muitas de suas funções tradicionais para a fotografia, o romance as perdeu para a reportagem e para os meios da indústria cultural, sobretudo para o cinema."

E mais isso aqui:

"Noções como a de 'sentar-se e ler um livro' são arcaicas. Isso não se deve meramente à falta de concentração dos leitores, mas sim à matéria comunicada e à sua forma." (as duas citações extraídas de Notas de Literatura I, página 56, Duas Cidades/Editora 34, 2008)

As partes grifadas corroboram meu ponto de vista: a forma do romance está aquém de nosso tempo. Sua forma não corresponde mais totalmente aos anseios do homem atual. Isso já está sendo discutido há tanto tempo que me sinto idiota ao ler o que escrevi (digo isso como um alerta, para que o leitor não pense que descobri isso sozinho; sou de um convencimento absurdo, mas para certas coisas é preciso ter modéstia); e apenas para lembrar uma experiência radical de questionamento da linguagem romanesca, eu cito "Memórias sentimentais de João Miramar", de Oswald de Andrade, romance devastador que empurra os limites expressivos do romance para um pouco mais além das linhas estabelecidas naquele Brasil de 1924.

Voltemos ao mundo dos processos de leitura e das inovações promovidas por vooks e redes sociais. Neste artigo interessantíssimo do site The Frontal Cortex, discute-se como a leitura pelo computador se relaciona com os processos neurais. O que me chamou a atenção não foi saber que a dificuldade e incômodo que muitos expressam ao ler pelo computador é, neurologicamente falando, o mesmo que nos afeta ao ler um texto impresso com fonte não amigável (por exemplo, a letra gótica medieval), e que a prática contínua da leitura online elimina o desconforto da mesma forma que nos acostumamos com fontes indecifráveis (é incrível como a minha namorada, que é mais nova do que eu, lê com muita naturalidade no computador, e isso me faz pensar que há uma questão geracional ainda não devidamente estudada sobre por que as pessoas reclamam que não gostam de ler no computador). O que me suscitou interesse nesse artigo foram as palavras da neurocientista Maryanne Wolf, que acenou para a necessidade de estudar, até mesmo fisiologicamente, os processos cognitivos das novas gerações, submetidas que estão a vídeos, fotos e gifs animados que interferem no processo de leitura. Nunca se produziu tanto conhecimento e livros como hoje em dia, mas frente a tantas distrações , segundo ela será cada vez mais difícil a formação de leitores capazes de imersão profunda em textos longos e complexos.

Cortázar disse que o romance não tem leis, "a não ser a de impedir que a lei da gravidade entre em ação e o livro caia das mãos do leitor." Hoje a literatura ocorre além das páginas dos livros e se funde com vídeos, música, discussões em redes sociais. Muitas vezes, o romance que cai das mãos do leitor só faz isso para deixá-las livres e assim investigar um site onde o personagem conta detalhes da trama apenas sugerida nas páginas de papel. Se isso não é uma reconfiguração das leis do romance, então não sei o que pode ser.

11.04.2009

"Miguel e os demônios", do Mutarelli

Este mês faz um ano que li "A arte de produzir efeito sem causa", o primeiro romance de Mutarelli lançado pela Companhia das Letras. Lembro que ganhei o livro na sexta-feira à noite, durante minha festa de aniversário; a festa acabou, todos foram embora; antes de ir para a cama, lá por volta das 2h00 da manhã, peguei o livro e só o larguei pela manhã, varando a madrugada na leitura, até chegar ao final. Foi um de meus melhores aniversários.

Na última sexta-feira comprei o novo romance do Mutarelli, "Miguel e os demônios, ou Nas delícias da desgraça". E da mesma forma que em seu último romance, as 115 páginas foram lidas em apenas algumas horas. Tem tudo: tortura, sexo sujo, pedofilia, satanismo (a constante presença das moscas ao longo do romance me parece ser uma alusão a Belzebu, demônio cujo nome significa "senhor das moscas") e coisas ainda mais bizarras. O estilo do velho Muta está, neste novo trabalho, mais direto, mais seco. Tentei ver arestas e sobras relendo algumas páginas antes de começar a escrever este post - mas nada encontrei. A precisão e a secura de seu estilo, burilados desde os tempos do insuperável "Transubstanciação" (e será sempre uma pena que ele não desenhe mais), parecem ter alcançado em "Miguel e os demônios" um patamar superior, com recursos narrativos que flertam com a linguagem do cinema, como no trecho:

- Pelo cheiro, o presunto está aí há uns três dias - diz Pedro,
Miguel concorda, com a cabeça. Examina o cadáver. Parece em transe. Pedro vai para a viatura e aciona a central pelo rádio.

Sépia.
Terreno baldio. Imagem borrada, luz difusa. Lembrança.
Um menino solitário brinca com um graveto. Miguel, menino. Detalhe da mão do menino erguendo o graveto para o céu. O graveto acompanha o percurso de aviões que passam. Esquadrilha da Fumaça. O menino tropeça em algo e cai. Percebe um cão vira-latas morto a seus pés. O menino se levanta e com o graveto cutuca, levemente, o cão.

- Miguel!
Miguel retorna do transe e percebe que faz o mesmo com a carcaça do homem. O plástico derretido encapa as mãos e a cabeça. (...)


Se isso é experimentalismo do Muta ou o romance foi composto pensando na telona pouco importa: o resultado é um texto que joga responsabilidades para o leitor. Forçosamente, o leitor recria as imagens sugeridas pelo texto, baseado em seu repertório imagético.

Daí é possível entender por que a Companhia das Letras chamou o novo livro de "antirromance" na contracapa. Confesso que ao ler "Neste antirromance policial do autor de O cheiro do ralo..." eu desconfiei de imediato do tom marqueteiro. Mas de certa forma pode-se dar o mérito ao texto do Muta pela mescla radical com a linguagem cinematográfica. Afinal hoje, apesar da decadência cultural como um todo, lê-se muito mais do que antes; e apesar disso, é inegável que vivemos em tempos intensamente visuais (a maioria esmagadora de meus amigos são designers ou de alguma forma ganham a vida trabalhando com imagens). Frente a isso, uma pergunta que eu ainda não respondi: um romance como "Miguel e os demônios", cuja leitura é também um exercício prático de criação de imagens (de imagens cinematográficas, vale lembrar) pode ser considerado um precursor da renovação da linguagem romanesca?

Ainda não tenho a resposta. Se você achar alguma, me conta. Enquanto isso, vá ler "Miguel e os demônios" e deixa de perder tempo com este blog. Fade.

10.21.2009

O Livro Vermelho de Jung



"Os anos onde eu capturei as imagens interiores foi o mais importante período da minha vida. Todo o restante [da minha obra] derivou daquilo. Começou naquele período, e os detalhes posteriores são quase sem importância. Minha vida inteira consistiu em elaborar o que irrompeu do inconsciente e inundou-me como um fluxo enigmático que ameaçou me quebrar. Aquilo foi o tema [para minha obra] e material para mais de uma vida. Todo o restante foi apenas a classificação objetiva, a elaboração científica e a integração na vida. Mas o início numinoso, que continha tudo, foi naquele então. "

Estas foram as palavras de Jung a respeito de Liber Novus, o livro onde o autor registrou o assim chamado "confronto com o inconsciente". Mergulhando em um processo de isolamento e semi-ascetismo, Jung iniciou uma auto-exploração dos limites de sua psique, cristalizadas nas páginas desta obra inédita, escrita durante os anos 1914 e 1930.

Não é, nem de longe, um livro comum: trata-se de uma obra de arte. Jung não apenas escreveu sobre como também nos legou um registro pictórico do "confronto", com belíssimas e perturbadoras ilustrações onde motivos nórdicos, hindus e de diversas outras culturas misturam-se em uma atmosfera alucinante. Cada página é um convite para a investigação lenta e deliciosa dos detalhes da obra - ou pelo menos é isso o que posso adivinhar ao contemplar alguns excertos em PDF que a Philemon Foundation deixou disponível em seu site.

O "Livro Vermelho" foi lançado no último 9 de outubro pela editora americana W.W. Norton & Company, em uma edição fac-similada que reproduz fielmente o mais importante livro de Jung. Tudo foi preservado: cores, tamanho do livro, acabamento em couro vermelho na capa. São 404 páginas de primor editorial que custam US$ 195.

O inconsciente coletivo, os arquétipos, o processo de individuação e outros conceitos junguianos estão esboçados nas impressionantes páginas deste livro que, mesmo sem nunca ter sido publicado, já pode ser considerado um dos mais influentes do século XX.

E como no blog O Livreiro, fica no ar a questão: no Brasil, teremos uma edição digna deste livro? Pois para mim parece claro que o projeto editorial de uma obra é também parte da obra. Publicar os textos do Liber Novus sem suas ilustrações (ou com ilustrações em tamanho reduzido, ou em p&b) seria o mesmo que publicar quadrinhos do Crumb apenas com os diálogos.

Pelo valor que a edição americana tem, dificilmente veremos este livro editado por aqui.  [NOTA DO EDITOR: o livro foi lançado no Brasil pela Editora Vozes em uma edição caprichadíssima, que não  deixa nada a desejar comparando com a original. O preço gira em torno de R$ 480,00 e isso está longe de ser barato, todavia o primor editorial é tão alto que até é possível justiificá-lo. O restante do post segue tal e qual publiquei em 21/10/2009, porque acho que ainda permanece válido]

Os custos de produção de edições fac-similadas são muito altos, ainda mais para tiragens reduzidas - e para um livro como este, preciso dizer que a tiragem seria reduzidíssima? Segundo um amigo que trabalha no ramo editorial, a Editora Record, uma das maiores do Brasil, chega a ter tiragens de 300 cópias em alguns lançamentos. Tiragens maiores são obviamente mais caras, mas com custo individual menor. Porém, a chance de encalhar muitos livros aumenta. Assim, as editoras optam por tiragens reduzidas, que representam menos chance de encalhe, mas com preço por unidade mais alto. Resultado: em um país que lê pouco, quem quer ler paga caro.

O post começou feliz pelo lançamento do Jung e terminou amargo. Não consigo concluir nada: apenas releio o que escrevi e vejo um emaranhado de problemas. E de tudo isso, fica uma nota mental: arranjar 195 dólares e um amigo legal que vá de férias para Nova York. economizar para comprar a  primorosa edição nacional lançada pela Vozes.

(uma imagem do Livro Vermelho, e com certeza a única imagem em cores deste blog, em respeito ao projeto editorial da obra.)

10.18.2009

Caim, novo livro do Saramago

Ví ontem na Fnac o novo livro do escritor português Saramago. Ainda não o comprei, mas farei isso durante os próximos dias. É um livro pequeno e, provavelmente, daqueles que se lê em uma tacada só.

Para atiçar a vontade, coloco abaixo um trecho do livro que roubei do site "O Globo". Não sei dizer se exatamente gostei do que li neste trecho. Mas ninguém pediu minha opinião e, por isso, vou ficar é quieto e deixá-los ler:

(...) Sucedeu então algo até hoje inexplicado. O fumo da carne oferecida por abel subiu a direito até desaparecer no espaço infinito, sinal de que o senhor aceitava o sacrifício e nele se comprazia, mas o fumo dos vegetais de caim, cultivados com um amor pelo menos igual, não foi longe, dispersou-se logo ali, a pouca altura do solo, o que significava que o senhor o rejeitava sem qualquer contemplação. Inquieto, perplexo, caim propôs a abel que trocassem de lugar, podia ser que houvesse ali uma corrente de ar que fosse a causa do distúrbio, e assim fizeram, mas o resultado foi o mesmo. Estava claro, o senhor desdenhava caim. Foi então que o verdadeiro carácter de abel veio ao de cima. Em lugar de se compadecer do desgosto do irmão e consolá-lo, escarneceu dele, e, como se isto ainda fosse pouco, desatou a enaltecer a sua própria pessoa, proclamando-se, perante o atónito e desconcertado caim, como um favorito do senhor, como um eleito de deus. (...) A cena repetiu-se, invariável, durante uma semana, sempre um fumo que subia, sempre um fumo que podia tocar-se com a mal e logo se desfazia no ar. E sempre a falta de piedade de abel, os dichotes de abel, o desprezo de abel. Um dia caim pediu ao irmão que o acompanhasse a um vale próximo onde era voz corrente que se acoitava uma raposa e ali, com as suas próprias mãos, o matou a golpes de uma queixada de jumento que havia escondido antes num silvado, portanto com aleivosa premeditação. Foi nesse exacto momento, isto é, atrasada em relação aos acontecimentos, que a voz do senhor soou, e não só soou ela como apareceu ele. (...) Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida dele se tu não tivesses destruído a minha, Quis pôr-te à prova, E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou o dono soberano de todas as coisas, E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um momento fosses realmente misericordioso, que aceitasses a minha oferenda com humildade, só porque não deverias atrever-te a recusá-la, os deuses, e tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado, Esse discurso é sedicioso, É possível que o seja, mas garanto-te que, se eu fosse deus, todos os dias diria Abençoados sejam os que escolheram a sedição porque deles será o reino da terra, Sacrilégio, Será, mas em todo o caso nunca maior que o teu, que permitiste que abel morresse, Tu é que o mataste, Sim, é verdade, eu fui o braço executor, mas a sentença foi dada por ti, O sangue que aí está não o fiz verter eu, caim podia ter escolhido entre o mal e o bem, se escolheu o mal pagará por isso, Tão ladrão é o que vai à vinha como aquele que fica a vigiar o guarda, disse caim, E esse sangue reclama vingança, insistiu deus, Se é assim, vingar-te-ás ao mesmo tempo de uma morte real e de outra que não chegou a haver, Explica-te, Não gostarás do que vais ouvir, Que isso não te importe, fala, É simples, matei abel porque não podia matar-te a ti, pela intenção estás morto, Compreendo o que queres dizer, mas a morte está vedada aos deuses, Sim, embora devessem carregar com todos os crimes cometidos em seu nome ou por sua causa (...)

10.16.2009

O Velho Safado disse

“Peguei minha garrafa e fui pro meu quarto. Fiquei só de cueca e deitei na cama. Nada estava em sintonia, nunca. As pessoas vão se agarrando às cegas a tudo que existe: comunismo, comida natural, zen, surf, balé, hipnotismo, encontros grupais, orgias, ciclismo, ervas, catolicismo, halterofilismo, viagens, retiros, vegetarianismo, Índia, pintura, literatura, escultura, música, carros, mochila, ioga, cópula, jogo, bebida, andar por aí, iogurte, congelados, Beethoven, Bach, Buda, Cristo, heroína, suco de cenoura, suicídio, roupas feitas a mão, vôos a jato, Nova Iorque, e aí tudo se evapora, se rompe em pedaços. As pessoas têm de achar o que fazer enquanto esperam a morte. Acho legal ter uma escolha.

Eu tinha feito a minha. Ergui a garrada de vodca e dei um vasto gole.”

(trecho do livro Mulheres, do Charles Bukowski, um dos homens mais sábios do mundo)

9.03.2009

O Consumidor (ou o supremo mimado)

Como vivemos em um mundo onde a ética do dinheiro prevalece sobre absolutamente todos os aspectos da existência, qualquer verme pode se dar ao direito de vociferar e inflar-se de "orgulho" por simplesmente ter dado algum valor monetário para adquirir alguma coisa (em geral bastante estúpida). O homem, então, deixa de ser um indivíduo: transforma-se nessa abstração doentia, o "consumidor".

Preciso admitir que paulistanos são os mais afetados por essa demência. Reclamam de tudo, como crianças mimadas. Principalmente em restaurantes e hotéis: queixam-se dos copos sujos, lanches que demoram, camas mal arrumadas, garçons grosseiros. Gostam de ser tratados como nobres, mas se esquecem -ou melhor, não possuem a decência de admitir a desgraça- de que somos todos miseravelmente plebeus neste mundo de shopping centers e fundos de pensão.

8.29.2009

Enquanto Agonizo, de William Faulkner - brevíssima resenha

William FaulknerTerminei a leitura de "Enquanto Agonizo", de William Faulkner, romance de 1930 que narra a saga dos Bundren, uma família de brancos pobres do interior do Mississipi. O período de composição da obra, segundo análise dos manuscritos, cerca de oito semanas - entre 25 de outubro e 29 de novembro de 1929. Faulkner escreveu o romance quando trabalhava como vigia noturno na usina hidrelétrica da Universidade do Mississipi e, segundo nota do editor que corrigiu o manuscrito, na maioria das vezes de madrugada - um exemplo de dedicação ao ofício de escritor e também a prova de que era um péssimo vigia.

A história: Addie Bundren, matriarca da família, morre. Para cumprir a palavra dada à esposa, que pediu para ser enterrada em sua cidade natal, Anse, o marido, leva os filhos Jewel, Darl, Cash, Dewey Dell e Vardaman a empreender uma desvairada viagem para levar o corpo de Addie Bundren ao seu descanso final. E o trajeto, que desde o começo já se mostrava um enorme desafio, transforma-se em uma seqüência de erros e golpes de azar que esta família enfrenta sem nem mesmo perceber, com qualidades dignamente estóicas.

Duas coisas a pontuar sobre a estrutura da obra: os capítulos recebem o nome dos personagens, que assumem o papel de narradores em primeira pessoa. Isso produz uma polifonia caleidoscópica no texto, onde um mesmo acontecimento é, por vezes, narrado de diferentes pontos de vista. Além disso, Faulkner conseguiu dar a cada um dos Bundren (cujos nomes registram a maioria dos capítulos) uma voz particular, identificável por certos traços estilísticos: frases que se repetem, escolha das palavras e até mesmo detalhes de pontuação. E no personagem Vardaman, o mais jovem dos Bundren (tudo indica que não deve ter mais do que dez anos), esta caracterização adquire seus contornos mais bem-sucedidos, com uma dicção acelerada, às vezes quase caótica, reflexo daquele espanto tipicamente juvenil perante o mundo, que se expressa na dificuldade de encaixar a realidade nas palavras e na incompreensão de certos rituais do mundo adulto. Cito abaixo um pequeno trecho de um dos capítulos mais legais de Vardaman, onde ele observa os urubus que os acompanham desde o início de sua jornada:

"Darl e Jewel e Dewey Dell e eu estamos subindo a colina, atrás da carroça. Jewel voltou. Veio pela estrada e subiu na carroça. Ele veio andando. Jewel não tem mais cavalo. Jewel é meu irmão. Cash é meu irmão. Cash tem uma perna quebrada. Nós consertamos a perna de Cash, então ela não dói. Cash é meu irmão. Jewel é meu irmão também, mas ele não está com a perna quebrada.
Agora eles são cinco, altos em pequenos e altos círculos negros."

Outro aspecto que me chamou a atenção é o estado de quase incomunicabilidade existente entre os personagens. Eles pouco se falam ao longo do romance. É o mundo interior de cada um que tece a narrativa, um mundo de desconfiança, lacunas e de densa melancolia. Isso me fez lembrar "Vidas Secas", do mestre Graciliano Ramos, cujos personagens também padecem do mesmo problema de comunicação. Mas excetuando esta coincidência e o fato de que ambos os romances retratam famílias de regiões rurais, nada mais há em comum entre os textos de Faulkner e do escritor alagoano. Contudo, aos que gostaram de Vidas Secas, tenho certeza de que também se deliciarão com a batalha dos Bundren pelo Mississipi. Como eu também me deliciei, praticamente lendo o livro todo em uma noite de pouco sono.

Edição de onde o trecho acima foi retirado: FAULKNER, Willian. Enquanto agonizo. [tradução Wladyr Dupont]. Editora Mandarim. São Paulo, 2001.

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8.17.2009

Emil Cioran fala sobre ateísmo



Eu já tinha assistido a este vídeo sem legendas (e obviamente compreendido um nada) mas ontem recebi o link para uma versão com legendas em inglês. Aos amantes do filósofo, um presentão. E aos que não o conhecem, pode ser um convite para se apaixonar pela obra deste nobre senhor. E para os que não gostam e acham Cioran uma porcaria pessimista e estúpida, dêem o fora daqui (neste momento, em pleno domingo, é que eu desejaria ser mais mais infantil e dizer para todos aqueles que nunca leram Cioran e insistem em criticá-lo -coisa que, aliás, ocorre amiúde e não apenas com ele- um sonoro e retumbante F.O.A.D.).





8.12.2009

Preconceito lingüístico: um mito

É já assunto um pouco frio, mas a matéria "Os preconceitos da pronúncia" da revista Língua Portuguesa suscitou novamente em mim aquele sono e cansaço toda vez que leio/ouço falar de uma das bandeiras de luta mais estúpidas do pensamento politicamente correto: o preconceito lingüístico.

O técnico de futebol da seleção, Joel Santana, foi alvo de piadas por seu inglês no limite do incompreensível. O vídeo do YouTube, em seus 42 segundos, pode explicar o motivo da piada muito melhor do que qualquer explicação que eu possa dar. Temos dois tipos de estupidez nesta questão: de um lado temos os chatos defendendo o fim do preconceito lingüístico, e do outro iletrados que postam comentários como "q retardado! achando q pode falar ingles!" e dispensam acentuação e outras letras que julgam desnecessárias, praticamente reinventado as normas da ortografia pela ótica da burrice.

O defensor do fim do preconceito lingüístico acredita que o mundo vai melhorar quando todos os brasileiros tiverem a chance de falar My equipe pray very naisse sem ter o perigo de alguém filmar e colocar no YouTube. O iletrado ridiculariza os Joéis Santanas e não sabe nem conjugar o verbo amar no presente do subjuntivo, mas passou as tardes após o colégio em uma sala do CCAA aprimorando seu inglês para as férias na Disney ou qualquer outro paraíso playboy para bem nascidos. Ambos, sem exceção, merecem uma surra de realidade.

É claro que quando o Joel Santana falou foi engraçado. Não há problema em rir dele. Pessoas riem umas das outras o tempo todo pelos mais diferentes motivos. Rir do outro é importante para reconhecer nele o profundo ridículo que todos nós somos. Mas a bandeira politicamente correta, quando empunhada, merece todas as formas de escárnio, assim como os imbecis que denigrem brasileiros falando uma língua estrangeira sem a pronúncia "correta" - coisa que não existe, basta para tal comparar os sotaques de Santa Catarina e Salvador.

Termino com uma citação de "A correspondência de Fradique Mendes", do genial Eça, que muito diz a respeito do servilismo lingüístico que, de um lado, proíbe o riso e, do outro, instiga o escárnio vazio:

"Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua de sua terra: - todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro. (...) Além disso, o propósito de pronunciar com perfeição línguas estrangeiras, constitui uma lamentável sabujice para com o estrangeiro. Há aí, diante dele, como o desejo servil de não sermos nós mesmos, de nos fundirmos nele, no que ele tem de mais seu, de mais próprio, o Vocábulo."

8.10.2009

Deus, escutai a nossa prece

Por favor, Deus, dê-me 50 gotas de Dramin, um sono pesado de 12 horas ininterruptas, um expurgo de todos os muitos pecados do passado (meus pecados retornam como pesadelos, acordo suado no meio da noite, grito e não há ninguém aqui para ouvir); uma manhã com sol, um calor luminoso das primeiras horas, para que eu desperte como um bicho qualquer, desses que vivem sem eira nem beira e dependem somente da Natureza-mãe-bastarda-de-todos; sim, Dramin, dê-me minhas 50 gotas que tanto preciso, ou qualquer outra coisa que coloque a alma em profunda paz, em profundo repouso e faça meus olhos doloridos mais tranqüilos; pois cansa-me buscar respostas para tantas perguntas, cansa-me estar sempre alerta, cansa-me muito a maldita consciência sempre alerta o tempo todo, todos os dias.E peço a Ti, Deus para o qual nunca mais orei desde a perda da Inocência, quero um novo batismo no Letes e deixar-me ser levado, em completo esquecimento, nas águas sem glória deste rio que a tudo absolve...

7.30.2009

A mística do guarda-chuva


Dias atrás tomei uma decisão fulminante: vou comprar um guarda-chuva decente. Um guarda-chuva caro. Um guarda-chuva incapaz de se dobrar ao vento, como todos aqueles últimos colecionados nos anos passados, comprados às pressas na saída de algum metrô em imprevisíveis dias chuvosos. É quase como uma mudança de eras que ocorre com um homem quando este decide finalmente comprar o guarda-chuva definitivo, aquele que não durará uma estação e sim anos, longos anos, e o acompanhará por dias e noites em pluviais travessias pela cidade.

Certamente há algo de ridículo no que acima escrevi. Mas o ridículo é uma questão de perspectiva, de interpretação, e é possível encontrá-lo em qualquer acontecimento, mesmo aqueles que se querem sérios e carrancudos. Eu mesmo achei engraçado quando um amigo contou-me meses atrás sobre sua decisão de comprar um guarda-chuva decente após anos utilizando aqueles cujas varetas entortam inexplicavelmente. Mas não há nada de engraçado nisso e agora eu consigo entender perfeitamente a mudança espiritual que um homem sofre após comprar seu primeiro guarda-chuva de verdade.

É necessário que eu explique melhor.

Primeiro de tudo é importante dizer que o primeiro guarda-chuva decente de um homem não pode ser comprado em um camelô. Isso serve para quem está com pressa e definitivamente não é disso que estou falando. Este guarda-chuva decente é antes de tudo um símbolo e, portanto, sua aquisição deve ser realizada obedecendo a uma determinada liturgia. Em outras palavras: deve ser adquirido em uma loja, e quanto mais especializada melhor. Esqueça os shopping centers: eles tornam o ritual um fracasso. Uma loja de rua, aquelas antiquadas, sem nenhum apelo de modernidade, com seu dono vetusto do outro lado do balcão e incapaz de sorrir porque a vida de hoje já lhe causa enjôos, é o templo ideal, o Pantheon onde se encontra não só guarda-chuvas, mas bolsas, chapéus, luvas, bengalas e utensílios para tabacaria. O preço deve ser no mínimo dez vezes maior do que o dos camelôs, a haste curva, ter uma ponta perfurante e me recuso a dizer que para este guarda-chuva a única cor aceitável é negra.

Depois da compra o primeiro passeio com o guarda-chuva é tão importante quanto sua aquisição (tanto melhor se estiver chovendo, já se deixa a loja batizando-o com as gélidas águas ex caelo). E é neste momento, neste passeio na rua munido de um guarda-chuva, que opera-se uma espécie de curiosa alquimia, ou revelação, arrisco a dizer quase iniciática, entre um homem e seu primeiro guarda-chuva. Sentir-se protegido por este objeto secular, cuja forma nunca foi superada mesmo após tantas descobertas científicas, é quase como experimentar uma comunhão mística com todos os homens de eras de antanho (sou da opinião de que objetos/lugares antigos estão impregnados de uma carga energética das pessoas que os utilizaram no passado). O passeio é agradável e parece que estamos distantes (espiritualmente distantes) de toda a agitação ao redor. Olha-se com desgosto para os guarda-chuvas coloridos , prova inconteste do mau gosto e da deselegância. Às mulheres em geral utilizam cores variadas para suas sombrinhas: o guarda-chuva negro só tem transcendência mesmo para um homem. A mulher o utiliza como um objeto que a impede de ficar molhada; já para um homem o guarda-chuva é uma espécie de cetro. Uma mulher com um guarda-chuva negro é uma visão urbana totalmente aceitável; um homem apressado que abre um guarda-chuva multicolorido não consegue ser levado a sério.

O formato fálico do guarda-chuva, acho, é um elemento que explica por que somente homens são capazes de manter com estes objetos uma relação quase fraternal: todo homem é amigo do próprio pênis e teme por ele mais do que pela própria vida, e esta relação se estende ao guarda-chuva. Perceba também que o guarda-chuva tem o mesmo formato de uma espada ou uma lança, objetos que são por excelência masculinos e que ao longo da história foram símbolos de poder, tanto espiritual quanto temporal. Até hoje são comuns garotos brincando com guarda-chuvas como se fossem gladiadores, o que mostra a especial ligação que o homem possui com este objeto. Bengalas também se assemelham a guarda-chuvas e figuram ao lado deles como objetos de elegância e masculinidade.

Graciliano Ramos andava para qualquer lugar que fosse com seu guarda-chuva negro debaixo do braço. Certa vez, de viagem (se não me engano ao Rio de Janeiro), em um dia de pleno sol, lhe perguntaram o porque levar um guarda-chuva em um dia tão bonito, sem nenhuma nuvem. Respondeu em um resmungo: “A gente nunca sabe.” Certamente o escritor alagoano, com seu estilo duro, azedo, implacável, foi um dos iniciados na mística do guarda-chuva. Lamentava aqueles que não o traziam consigo. Detestava aqueles que chegavam molhados aos encontros, com as roupas grudadas no corpo, os cabelos desalinhados pelas gotas sem clemência. O (suposto) Borges de “Instantes” (“Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas”) odiaria a resposta de Graciliano. Assim como Graciliano desprezaria este Borges fictício autor de poemas hippies, e o trataria como um moleque, como um cego reacionário que nada entende da grandiosidade interior que um guarda-chuva negro, adquirido no momento certo e mediante determinado ritual anteriormente explicado, confere àquele que o possui.

E nas tempestades que arrasam as ruas, hoje caminho com meu guarda-chuva negro, elevando-o tal como um objeto de culto (o que de fato ele é, apesar da incredulidade geral). Ao fazer isso, sou indivíduo do presente, mas estabeleço uma conexão metafísica com um tempo que já passou. Há melancolia na figura do homem que caminha sob a chuva empunhando um guarda-chuva; uma espécie de nostalgia também; mas nenhum destes sentimentos é acompanhado de compaixão. Ao contrário: a melancólica e nostálgica imagem do homem que caminha com seu guarda-chuva negro é uma imagem de nobreza, de sobriedade, de afirmação de uma vontade de permanecer incólume perante as atribulações, as desgraças, os descaminhos. O comprar o primeiro guarda-chuva decente é, para um homem já feito, o equivalente ao Crisma na tradição católica: confirma-se a introdução do indivíduo no universo adulto. E tal como na celebração da Eucaristia, o homem que sai de casa com seu guarda-chuva negro renova um pacto entre o presente e o passado. E este pacto, que no catolicismo é a hóstia consagrada, na mística do guarda-chuva é um novo olhar, um melancólico e nostálgico olhar para o presente, um olhar que não se perde nas primeiras gotas de chuva, por mais densa que esta seja, e consegue ir além da cortina da água, consegue escapar da força das úmidas rajadas ex caelo e permanecer distante e livre de seus efeitos.



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