9.30.2008

de la polifonía del que siempre suele decirlo todo antes que yo


Soledades


Ellos tienen razón
esa felicidad
al menos con mayúscula
no existe
ah pero si existiera con minúscula
seria semejante a nuestra breve
presoledad

después de la alegría viene la soledad
después de la plenitud viene la soledad
después del amor viene la soledad

ya se que es una pobre deformación
pero lo cierto es que en ese durable minuto
uno se siente
solo en el mundo

sin asideros
sin pretextos
sin abrazos
sin rencores
sin las cosas que unen o separan
y en esa sola manera de estar solo
ni siquiera uno se apiada de uno mismo

los datos objetivos son como sigue

hay diez centímetros de silencio
entre tus manos y mis manos
una frontera de palabras no dichas
entre tus labios y mis labios
y algo que brilla así de triste
entre tus ojos y mis ojos

claro que la soledad no viene sola

si se mira por sobre el hombro mustio
de nuestras soledades
se vera un largo y compacto imposible
un sencillo respeto por terceros o cuartos
ese percance de ser buenagente

después de la alegría
después de la plenitud
después del amor
viene la soledad

conforme
pero que vendrá después
de la soledad

a veces no me siento
tan solo
si imagino
mejor dicho si sé
que mas allá de mi soledad
y de la tuya
otra vez estás vos
aunque sea preguntándote a solas
que vendrá después
de la soledad.

Mario Benedetti, poeta, contista e ensaísta uruguaio nascido em Paso de los Toros, em 14 de setembro de 1920. Sua extensa obra foi traduzida em mais de 20 idiomas diferentes. No Brasil, seus livros são encontrados com razoável facilidade.

9.23.2008

Da sutileza de certos desejos

Não sabia como tudo aquilo começara mas de repente viu-se metido dentro do bolso de uma calça. Acuava-lhe um muro feito de jeans escuro, o corpo levemente espremido em tão diminuto espaço, os desesperados bracinhos empurrando a parede-tecido, enquanto esperneava desajeitado para iniciar a escalada e descobrir do bolso de quem se tratava. Os dedinhos-grãos-de-arroz agarravam com firmeza a borda do bolso, fez força incrível, e a minúscula cabeça eleva-se lentamente daquela curiosa toca, mostrando ao mundo olhinhos medrosos que espantados miram a tudo maravilhados, aturdidos, quase lacrimando, pontinhos verdes aqueles olhos arregalados num rosto lívido-leitoso.
E via um mundo enorme de coisas enormes que se espalha sem fim para todos os lados. Carros do tamanho de caminhões, caminhões do tamanho de prédios, prédios que não cabem nas ínfimas medidas de M., que forçado por fortuitas forças passeava pela cidade naquele bolso anônimo tomado por um sentimento de confusão.
É como se agora cronópio fosse mas, disso tinha certeza, não era um personagem, e havia mil lembranças que o abasteciam com provas muitas. Era um homem, oras bolas, e não aquilo, curiosa micromutação cujas razões desconhecia. E enquanto a perplexidade perante seu novo estado atormentava-lhe o espírito, M. continuava com a cabecinha para fora do bolso, atento ao mundo enorme que com seus olhos-pontinhos via, tremendo de medo quando um novo transeunte passava perto de sua morada-prisão: desagradava-lhe a idéia de após uma desajeitada trombada, destas que na Paulista ocorrem aos montes, sucumbisse tal como inseto esmagado, a manchar com uma pasta de sangue e ossinhos partidos a calça que o carregava cativo. Era preciso sair dali, ir embora daquela cela-tecido. Curvou o pescocinho para baixo, óculopercorrendo o trajeto que no bolso começava e ia até a barra da calça. A uma altura daquelas, pular seria um suicídio. Mas ali permanecer também seria, e embora não tenhamos notícias de casos de encolhimentos súbitos como o de M., não é possível que alguém receba com simpatia um homem de cinco centímetros no bolso da calça. O previsível gesto de boas-vindas é um grito acompanhado de uma mão nervosa dando tapas naquela coisa sem nome que ali apareceu; talvez, controlando o medo inicial, o proprietário do bolso quisesse inspecionar a curiosa coisinha e ter certeza de que seus olhos não se tinham colocado em engano; traria para perto do rosto aquela criatura diminuta que se debate agitada, então capturada por dedos em pinça; ainda mais assustado o observador do que o observado, só minutos depois dessa tortura visual decidir-se-ia a fazer algo, por exemplo guardar o monstrinho em um pote para exibir aos amigos. Se fosse ainda mais vulgar, esqueceria as leituras de Debord e investiria no espetáculo, expondo o seu achado em noite bizarra no Gran Rex. Os donos da casa hábeis seriam em alimentar no público o interesse para ver a prova viva-vivíssima de que Cortázar falava sério, en esta noche el Gran Rex hará Corrientes brillar aún más con la primera presentación de catala nunca vista por ojos humanos, bailada por un auténtico cronopio Seria obrigado a sapatear e balançar o débil corpinho a noite toda, sob ameaças de um mata-moscas bem seguro nas mãos do dono do bolso, que seria seu algoz ou empresário, palavras sinônimas. Vendo por este lado, a trombada fatal com um transeunte mostra-se uma alternativa menos sofrida, bastaria um encontrão para a rápida morte, como um atropelamento de um cão por um ônibus cheio. Torna-se-ia a citada mancha de sangue e ossinhos partidos, uma meleca rubra, uma coisinha à-toa que não se sabe de onde veio, apenas está ali, sujando e sendo impertinente.
É importante o leitor saber que no momento em que olhou do alto de seu bolso-prisão, M. pode ver os pés de quem o levava clandestino consigo - pés que calçavam sapatos femininos, delicados sapatos femininos. Isso o deixou mais contente, afinal partilhar da intimidade de um bolso de mulher é mais agradável do que fazê-lo em qualquer outro bolso; ressalva apenas para a ingenuidade de M., já que o uso de sapatos femininos, nos tempos atuais, não é exatamente uma exclusividade das fêmeas. E a este pensamento estranho, o julgar-mais-agradável-um-bolso-de-mulher, deve ser creditado unicamente ao irreparável espírito conquistador de M., sempre pronto a arremessar-se em aventuras, mesmo as mais irresponsáveis, aquelas que exigem sacrifícios, longas esperas por longos invernos, cartas molhadas de lágrimas e todos os ridículos expedientes dos que insistem em amar, mesmo que abundem os exemplos a comprovar o quão ingrato tem sido o Amor com aqueles que o servem. A fuga do bolso-prisão, de repente, tornara-se um plano esquecido, antigo; a curiosidade, mãe do Progresso, mas também da Desgraça, em M. acendia um absurdo desejo; e se segundos antes queria ir embora dali, agora tencionava saber quem era aquela que o carregava consigo. E ainda apoiando-se na borda do bolso, virou o pescocinho para cima. Mas impossível definir desse modo o rosto dela: o leitor que, ao andar, mire o bolso da própria calça e imagine a visão que dali se tem. O que conseguiu apenas foi vislumbrar uns fios de cabelos dourados, um pedacinho do queixo, as sinuosas curvas dos seios que despertavam mais atenção do que qualquer cabelo ou queixo, previsíveis os homens e suas vontades, mesmo quando reduzidos a cinco centímetros. Seja como for, sentiu-se mais tranqüilo, e deixou-se ficar naquele bolso, com os olhos-pontinhos ainda mais atentos, sem temer os transeuntes, os barulhos sem fim, as portas das lojas, as árvores, o caos da cidade em suas horas luminosas. Quantas mil possibilidades de penetrar no universo secreto de uma mulher teria com aquela sua nova nano-estatura. No momento oportuno escaparia de seu cela-tecido, vasculharia as bolsas dela, aprenderia seus segredos, comeria as balas deixadas ali por precaução. Organizaria as moedas, preciosos discos de metal, e passaria muitas horas lustrando-as, magníficas seriam as moedas dela. A recompensa seria os passeios clandestinos em um bolso da calça, a comunhão secreta dos enigmas femininos, desvendados um a um por uma cautelosa invasão de privacidade, feita de artimanhas e jogos, sem tréguas. Deixaria bilhetinhos secretos, pequenos poemas de cronópio apaixonado, entre as cédulas da carteira dela. Cheia de surpresa ela sorriria, ainda sem saber o que pensar a respeito daqueles papeizinhos marotos que se multiplicavam, e ainda mais intrigada com as rosas vermelhas colocadas vez por outra nos bolsos de suas roupas preferidas.
**********
Assistiam a um filme na sala. Ela acabou dormindo sobre as coxas de M. Passeou as mãos sobre os lisos cabelos dourados dela. Com cuidado, a carregou adormecida para o quarto. Colocou-a na cama, sentando-se ao lado. Ela despertou, olhos confusos.
- O filme acabou?
- Sim. Você dormiu. Te trouxe pra cá.
Ela estendeu os braços, puxando-o lentamente para si. M. curvou-se. Ela falou baixinho:
- Por que não me acordou?
- Não quis, você dormia tão profundamente.
Beijou-lhe o rosto, bocejando sonolenta.
- Teve uma hora que você riu
- Ahn?
- Quando você dormia. Você riu. Lembra?
- Não muito bem... Sonhei com várias coisas, inclusive você.
- O que eu fazia?
- Não sei bem, mas tinha algo a ver com minha calça.
- Gosto delas, principalmente quando não estão em você.
Ela riu do gracejo cafajeste, dando-lhe um tapinha de reprovação no braço. Disse a M.:
- Se eu pudesse, te carregava sempre comigo, como um chaveiro.

8.26.2008

Campos do Jordão - por Lucas Zaparolli


“Pois está-se à sombra da sabedoria como se está à sombra do dinheiro: a utilidade do saber consiste em que a sabedoria dá vida ao que a possui.”

Eclesiastes, 7,12.



Quão contraditoriamente surreal pode parecer após ingerir dois terços de ácido lisérgico ver um dono de Porsche jogando banana numa lixeira cor-de-rosa enquanto um mendigo a espera ávido para subnutrir-se não conseguiria transmitir: ainda menos poderia explicar a sensação de perguntar o preço de uma mera empada e ter como resposta R$ 8,30. Mas ao que se interessa em breves frases gratuitas, cheias de cores, frustração e dor, segue algo que desejo significativo.

Nem por vinte e quatro horas permaneci na cidade de Campos do Jordão; cheguei às treze do sábado e fugi num meio-dia chuvoso que encerrava a seca de mais de mês que assolara São Paulo. Na ida, conhecidos residentes do Crusp, república estudantil da Usp, discutiam, eufóricos, sobre Lula, PSDB e o DVD a ser exibido na Van: Mc Créu ou Pedro e Paulo, Rafael e Mateus, Mário e Dunha, qualquer dupla dessa estirpe. Enrubesço-me ao afirmar que o Créu venceu: no entanto, quiçá por sorte, o DVD do Mc quebrara e ouviu-se a dupla por infindáveis três horas.

No portal de entrada da cidade sente-se o paradoxo: casas em estilo germânico, a Suíça brasileira, erguendo-se em pompa, em vão almejando ocultar a favela que se subleva onivergonhosa acima da rua principal. Previsivelmente não aconteceu o alojamento previsto no pacote que comprara – R$ 25,00 a ida, volta e estadia. Os organizadores (?) pechincharam uma casa onde uma família – família mesmo, com cachorro e uma linda filha de quatro anos – pretendendo findar o acabamento de seu sobrado, num sublime ato de prostituição, precificou sua preciosa privacidade pequeno-burguesa para vinte e três uspianos, entre eles peruanos, colombianos, moçambicanos, por fascinantes "dez reais a cabeça" por noite. Ficamos somente uma.

Muamba instalada, seguimos famintos entre belíssimas cerejeiras rubras com folhas que secavam ao frio acanalhado da cidade-ilusão à Fantástica Fábrica de Chocolates Araucária. Sim, a cidade é infestada de Araucárias: uma árvore altíssima, monstruosamente elegante, cujos ramos, pomposos, não protegem quem está embaixo, repleta de vãos por onde se escorre o frio lancinante do universo. Não tenho câmera fotográfica, melhor, a memória dilacera o bastante. Fábrica de Chocolate: grossos casacos de pele louros assinando cheques sujos de números em troca do cacau que negros maceram: R$ 1,30 uma trufa tal qual uma azeitona. Adquiri uma barra de chocolate extra amargo por uma dúzia de contos: nem esse extra amargor do cacau pisado amarga a boca dos que lá possuem tantos valores. Fugimos de lá e fomos à Pedra do Crioulo. Eu que prevenido levara provisões da capital, comia-as no percurso, ao contrário dos outros cruspianos que desejavam com ardor uma refeição. Chegamos à Pedra onde, de acordo com um dos universitários "escravos se escondiam há cem anos dos capitães-do-mato" – a escravidão acabou, em tese, há mais de século! Além disso, próximo daquele sagrado local de refúgio e desejo de liberdade, uma placa de vende-se diante de uma mansão informava seu preço: R$ 1.000.000,00.

Uma imensa pedra com cavidades que formam grutas, esconderijos, abrigos, é a chamada Pedra do Crioulo. Após escalar a mais ampla parte da pedra, para no cimo visualizar o todo em seu completo panorama, alcei o monte que a circunda em busca de uma bela paisagem para deleitar, gratuitamente, minha alma. Percorri quinze minutos solitário na mata e, ao encontrar um lugar onde se pode ver a cidade inteira – inclusive sua favela – sitiada por uma verde cadeia montanhosa que envolve e encerra a cidade e sua vida em si própria, deparo-me com um casal e uma espécie de caseiro do lugar. Indaguei, ambicioso, se havia outra vista ainda mais bela para cima e a resposta, inesperada por minha ingenuidade, não tarda: "esse é local privado!": ou seja, fora negociada a imagem da imensidão, precificaram a divindade do horizonte espraiado junto dum pedacinho da crosta terrestre e o arremataram, como cães, marcando território com seu nome! Dou as costas – reflito no porquê do surgimento e distinção entre o vocábulo latino dare e donare e se os usavam – e regresso ao chão, implacável local de pouso, enquanto a dama de pedigree, ridiculamente linda, olhava-me sabe-se lá com o quê em mente: se na opressora altura do céu, se no vale verdejante deste mundo.

De volta à Van pus fim no derradeiro lanche e notei que as pessoas ao meu redor não se alimentavam há oito horas. Não de todo inesperado uma moça na Van em que eu estava desmaiou de fome: néscios do que fazer, verifiquei a pulsação e acordei-a; ela reafirmou sua fome mas, como alguns persistentes ainda queriam visitar o Pico do Imbiri, seguimos em frente, vimos o amplo céu espremendo a cidade e a cordilheira em derredor; novamente a menina desmaiou e, agora sim, voltamos para a casa da família que nos cedeu seu uno sonho por dez reais. Na sala da habitação, fotos dos outros filhos formados, metidos em suas becas, com suas expressões sonsas expelindo um riso que evitei ao máximo definir, semblante numa amálgama quimérica e paradoxal entre o que se poderia ser e o ser que é vendo seus desejos presos no arquivo das nove as dezoito.

Surpreendera-me no jornal um programa tentador: "show de luzes sincronizadas com música clássica no portal da cidade". Gratuito. Os cruspianos foram jantar e eu ao portal. Diamantes levaram-me aos céus e encontrei Lucy. Quarenta minutos caminhando, cheguei à entrada da cidade: artificiais palmeiras luminosas sugerindo não sei qual ilusória sensação de acolhimento caloroso se agitavam ao vento de 15º C – com impressão térmica de 9º C – primeiro ao som de Assim Falou Zaratustra, depois, e para minha surpresa por último, de um piano com uma guitarra distorcida que não pude discernir. Assim, em vinte minutos, findou-se o espetáculo gratuito que realizaram para "integrar" a pobre sociedade do Centro Comercial com o glamour anual do Festival de Inverno infectado de ricos no Centro Turístico, separados ambos por alguns minutos inefáveis e um abismo aterrador. Frustrado, aproximei-me do Centro de Recepção de Turistas e um atendente viera ter comigo. Formado em Ciências Sociais pela Usp, em Gastronomia pelo Senac de Campos, serviu-me gentilmente um chá de laranja pronto enquanto afirmava que "duas gotas de baunilha no choconhaque dá o toque de frescura que prova que o mundo é gay". Ao passo em que ele, de formação marxista, tentava convencer-me que é preciso ser rico e eu acanhadamente rebatia dizendo que, ainda pobre, jamais alguém me poderia privar o bom-gosto, via pessoas que entravam em busca do "melhor hotel da cidade" e praguejavam ao ouvir que não havia vagas, enraivecendo-se quais crianças que nunca sentiram a recusa e, dessarte, saíam bufando, batendo o pé de volta aos seus confortáveis automóveis, preparando o GPS para buscar o “melhor”. Emulo Cioran: essas pessoas são “como um vivo que, para congratular-se de não estar morto, faria estardalhaço em um caixão...” de ouro.

Farto daquilo, retornei a pé pela avenida principal da cidade, sob o lisérgico luar, informando-me com os policiais onde poderia encontrar uma bebida chamada Amélia, indicada pelo sociólogo, usada para disfarçar o frio local. Não sabiam, não encontrei, não disfarcei. Sentei-me em frente a um chafariz com as cores do arco-íris iluminando a água que em jarros fora moldada a desafiar a gravidade, ocultando sua natural estaticidade com jatos coloridos, irrepreensivelmente acanalhados; atrás de mim, ao invés de amarelos blocos de pedra no asfalto sinalizando aos motoristas a interdição de acesso, vasos de flores restringiam a rua: orquídeas de várias cores junto de margaridas vivas sob o frio-canalha que me proibi de sentir, cuja intensidade menos requer abrigo que ostentação pública de lascivas marcas e luxuosos talhes.

Retornei ao alojamento, bebi conhaque, li algumas páginas de Lobo da Estepe, do Hesse, cuja dualidade do ser (que são milhares) e a idéia da burguesia sustida pelos próprios lobos cada vez mais compreensíveis se tornam e adormeci no pequeno sofá, no Centro Comercial da cidade, enquanto os festeiros cruspianos desfrutavam o Centro Turístico da mesma.

No meu regresso à casa vira mendigos em ruas desertas caçando comida em lixeiras cor-de-rosa; jovens em carros importados – sazonais donos da região – em alta velocidade seguiam em direção ao centro turístico; crianças agasalhadas diziam no gabo da sua gordura rosada que "Campos do Jordão é a melhor cidade do mundo". Em meio a tudo isso, com a consciência alterada pelo ar ácido da noite, a alma amargada pelo chocolate entalado na garganta, o peito congelado pelo álgido universo ao redor, refleti: o mais fatídico segundo de todos os tempos na vastidão das galáxias foi quando luziu o primeiro raio de racionalidade, o mais vergonhoso, o mais hediondo, o momento em que o Mundo, espantado, parou: o um minuto de silêncio cósmico. Dias depois, abafada a indignação, relacionei essa reflexão com o cristianismo e confirmei que, para Deus, também, o momento de maior pesar sucedeu-se quando Eva, ludibriada, preferiu a fruta do conhecimento, da Razão, à Árvore da Vida, da qual fomos privados. Deixamos de ser irracionais para sermos imbecis inumanos.

Os festeiros retornaram acordando quem tentasse dormir: acordei. Narraram, ébrios, que uma das meninas que fora conosco, a enfermeira que seguia na outra Van e ajudou a moça em seu segundo desmaio, uma negra de 1,90 m, esguia, fora assediada sexualmente no Centro Turístico e levou o ser desprezível à delegacia onde o chefe de polícia, educadamente, recusou registrar ocorrência, desculpou-se com a agredida e disse que "acertaria as contas com o assediador". Ou seja, negociação de honra e pessoas. O que a moçambicana poderia fazer? Outras tantas coisas assim sucederam, mas o dinheiro imaculou o incólume nome da cidade. O herói dos nossos tempos.

Apesar de toda a anfetamina, dormi para esquecer que pude estar num lugar como aquele, onde o mais angustiante texto beckettiano, o mais impotente silogismo cioraniano, far-me-ia gargalhar perante a situação em que me encontrava. Não me interessei em conhecer o Centro Turístico – onde foram realizadas as apresentações de música erudita que tanto me apeteceram no rádio – o que vi bastou-me: sei, por conseguinte, que lá seria em excesso lancinante e a situação limítrofe mais aterradora. Minha dor interna foi tanta por pensar que domingo amanheceu em lágrimas, depois de mais de um mês sem chuva. Não pude captar o azul-perdão dos olhos do mendigo, ele me captou e enterrou-me em mim e na minha impotência vergonhosa, e nenhuma alma perceberia, na alva posterior, o silêncio que me erguera de onde jazia em pensamentos.

Pela manhã os cruspianos ligaram a televisão e assistiram qualquer coisa que passasse. Um deles, absolutamente problemático, com sua voz irritante, saiu para comprar café da manhã: pão de ovo, de milho, manteiga, leite, chocolate, etc.: R$ 50,00 ao todo em tudo que ele decidira sozinho que queria comer. Era oito da manhã. Até as quinze horas ele ficaria cobrando R$ 3,00 de cada pessoa que ele supusesse que houvera tomado café. Arduamente criticado, debatia em excesso, com sua voz grotesca, defendendo-se por ter, gentilmente, nos levado café, o mesmo que ele escolhera para si próprio sem nos consultar.

Mesquinhezas à parte descobri, com o mapa cedido pelo guia turístico, que havia na rua onde me alojara um Convento das Beneditinas que não distava cem metros. Trespassei a discreta entrada e um corredor de belíssimos cedros com odoríferos troncos, fazendo as vezes de incenso natural, preparavam a alma para o sonho, o irreal. Uma placa indicava que diariamente as monjas apresentavam, gratuitamente, Canto Gregoriano às quinze para as dezoito. Quão arrependido fiquei de haver-me iludido com o decepcionante "show de luzes" de ontem e não as ter visto, gastando minha pílula de paraíso na trilha da Odisséia no Espaço, do Strauss, decorada com palmeiras lucíferas. Fulvas margaridas e crisântemos enfeitavam o sagrado silêncio daquelas construções largas, calorosas, impecáveis, enquanto a chuva continuava a encher a lagoa artificial, repleta de Dourados, com uma pequena ilha no meio e três bancos de madeira, de onde possivelmente as celibatárias, em dias quentes, admiram a delicada natureza, e subtraem-se de seus instintos louvando aquele simulacro de obra divina feita pelos homens. Admirabilíssimo foi um arco de rosas que leva a uma caverna, natural, mas transportada para lá artificialmente, portando no centro, puríssima, uma imagem intocável de Nossa Senhora da Conceição. A artificialidade mimetizando Natura em seu estado bruto: o cume da ilusão no convento, dentro da cidade construída sobre blocos de ilusão e concreto, sustentado à vista pelo Real.

Voltei à casa, anulei-me entre os cruspianos e decidiram por mim que visitaríamos o Palácio do Governador. Por R$ 2,50, num dia chuvoso, era o máximo que eu poderia querer se se pudesse querer algo quando se vive em manada. Trotamos para lá.

Muitos policiais nos receberam, inclusive membros da Guarda Pessoal do Governador, fantasiados no seu misto de Cavaleiros e Bobos da Corte. No alto se erigia o Palácio-Museu, em seu estilo Tudor, o local onde o honrado Governador do Estado desfruta seus momentos de folga mantidos pela verba pública, na cidade mais exorbitantemente cara, com sua atroz desigualdade onde o silêncio abrupto varia entre o mendigo que padece e a lixeira decorada: sentia as “sombrias alegrias do ódio”. Após ser obrigado a revestir com uma fazenda felpuda o tênis, para não riscar o assoalho, iniciei a visita. No primeiro de uma centena de aposentos, um lustre magnífico, constituído em bronze e cristal, iluminava, em homenagem ao centenário da imigração japonesa, cerâmicas modeladas em forno de alta temperatura espalhadas sobre uma mesa rústica envernizada e sobre uma lareira, a primeira das sete que ainda veria. Armários peruanos, lustres de turmalina azul e cristal, lareiras em mármores bancos, pretos e rosas, espelhos de vidro especial emoldurados em bronze, um piano francês, livros de todos os assuntos, tapetes persas, candelabros de prata, castiçais fixos em ouro, roupas de cama alvíssimas: uma ínfima parte do que há para gozo do homem exemplar. Os Operários, da Tarsila, com três Estudos de Nu e seu genial Auto-Retrato; Paisagem de Campos do Jordão, do Milliet; Ventania, da Anita; belíssimos Di Cavalcanti; Volpi; Vicente do Rego Monteiro; esculturas em bronze, gabinetes cristãos medievais, Brecheret, inclusive A Bailarina; um quarto do tamanho de dois apartamentos do Crusp, todo mobiliado com artigos do século XVIII. Uma infinidade de lustres em inúmeras outras salas cuja entrada fora-nos vetada. Taças de cristal, de prata, de bronze: tudo para uso do eleito. Senti-me numa Idade Média às avessas: servos da gleba em favelas mais vastas e ostentadoras que o Palácio; camponeses implorando corvéias; a talha indo do servo ao nobre e voltando para aquele no Fome Zero; rejeição espiritual ao pensamento; eleições oficiais de tiranos: a decadência absoluta no seu mais requintado traje de gala.

Nos fundos da casa, passando por uma ampla espécie de estufa sem flores, à moda oriental, com uma pequena fonte central que espalha o rumor da sua queda d´água por todo o recinto de acústica perfeita, há uma capela modernista: construída por Paulo Mendes da Rocha sobre um pequeno lago, povoado de peixes de distintas cores numa água cristalina, comportando cerca de sessenta pessoas, possui um cofre ao lado do púlpito, que encerra um vinho que nunca terei condições de beber e uma hóstia que jamais me poderá saciar. Também há na capela, construída com o mesmo tipo de pedra que a Catedral da Sé, uma diminuta pia batismal e outra escultura moderna: uma espécie de Cristo crucificado transmutando-se em Pomba, uma amálgama de Filho e Espírito Santo talhado em madeira envolto em cordas trançadas da cabeça aos pés e, no peito, um buraco vazio – não há Sagrado Coração. Quem assistir a um culto na capela verá, inevitavelmente, às costas do orador, o morro que se ergue em neblina, lodo e madeirite.

Noutro jardim existe um sino brônzeo, presente chinês, que fiz questão de tocá-lo: impressionante como em cada lugar que se bate ressoa um som distinto, indo do mais retumbante trovão à nênia mais pungente e ao mais sutil e aprazível tom angelical. Uma fineza imerecida brindada reciprocamente entre países que não tem costume de tocar sino para anunciar a hora de comer.

Fugi de lá desejando que o mundo também fosse de cristal e, ao movimento mais tênue, tudo fosse ao ares. Paramos numa lanchonete: R$ 8,30 a empada! Com excessivo temor refugiei-me na Van. No percurso de volta, todos por inúmeros motivos exasperados, não pensaram sequer em DVD. Tendo chegado à Capital, fui ao mercado e comprei arroz, carne de soja, creme de leite, batata palha e água tônica: R$ 8,70.

Num extremo o Real mantendo o sonho; noutro, o sonho subsistindo apesar do real. Quais seriam as notas do Canto Gregoriano? Qual o preço da fé e da dor? A lembrança da fugacidade da memória foi o brinde da cidade, amargo suvenir.

Lucas de Lacerda Zaparolli de Agustini estuda Latim na USP, observa as bizarrices da vida neste grande submarino amarelo e é amante de Cioran, jazz e enteógenos. O e-mail dele é

8.25.2008

Viajantes e seus relatos

Viajar, conhecer outros lugares e culturas, mergulhar no cotidiano de outras gentes: uma das experiências mais interessantes que uma pessoa pode se dar. Ao conhecermos lugares distantes damo-nos conta da complexidade das relações humanas; chega até nós o espanto perante hábitos absurdos e, ao mesmo tempo, a curiosidade de compreendê-los; encontramos homens e mulheres que não apenas se vestem de modo muito diferente do nosso, mas também experimentam paixões e sofrimentos de uma forma até certo ponto incompreensível; e afetados por todas as novidades que nos cercam, a fragilidade e as contingências de nossas concepções de vida ficam expostas, nuas, ridicularizadas; o universo se alarga em possibilidades e, igualmente, a nossa insignificância neste mundo onde a diferença e a relatividade atuam como fatores decisivos.

Como não poderia deixar de ser, a literatura registrou a experiência de muitos viajantes ao longo dos séculos. De certa forma, podemos até mesmo considerar o relato de viagem como um gênero específico, híbrido por excelência: não se trata de um documento histórico, mas também não é puramente ficcional, embora tenha muito de ambos. Pode ser escrito após o término da viagem, baseado nas anotações esparsas que o viajante foi recolhendo ao longo de seu trajeto; mas também pode ser que estas anotações feitas às pressas no quarto do hotel sejam o resultado final, sem maiores cuidados e revisões. A carta de Pero Vaz de Caminha ao imperador, relatando o descobrimento, pode ser considerado o primeiro registro de uma literatura de viagem feita em solo brasileiro.

Desde que comecei a ler o Viagem à Itália, de Goethe, meu interesse por relatos de viagem tem crescido. É uma forma especial de, pelos olhos do outro, conhecer e aprender sobre lugares os mais diversos. Mais interessante ainda é a possibilidade de acompanhar, passo após passo, as mudanças que se operam no viajante. A "mística da estrada" que faz com que os homens ampliem o escopo de suas habilidades e saberes.

Motivado por este interesse, publicarei aqui no Dissolve//Coagula uma série de 3 textos que, sem dúvida, pertencem ao gênero literatura de viagem. São impressões de 3 viajantes distintos, cada um colaborando com um texto sobre uma cidade e as impressões/vivências nelas experimentadas. A primeira cidade a ser tratada será Campos do Jordão, com texto de autoria do amigo Lucas. Em processo final de revisão, publicá-lo-ei na quarta-feira dia 27. Os próximos - um sobre Buenos Aires e outro sobre New York - permanecem sem previsão de quando serão publicados, mas acredito que seja logo na seqüência.

Não só esta experiência de publicar textos sobre um assunto específico é nova para mim, como será a primeira vez que publicarei textos de pessoas próximas. E sem medo de parecer demasiado "marketeiro", posso garantir que a leitura valerá muito a pena. Esperarei, ansioso, os comentários.

6.07.2008

Solidão


Tem a solidão isto de comum com o silêncio e a escuridade: espanta e aturde quem nela cai; mas, logo que o ouvido, desadormentado dos sons fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos, desofuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar espectros de raios, fosforescências indecisas, que são como que os infusórios das trevas, descerrou-se o negrume em brilhantismo, a calada aviventou-se de diálogos, a solidão, que parecia o nada, é o teatro com o seu drama, é um mundo novo com um sistema completo de existências imprevistas e apropriadas.

Que admira? A solidão medita, e a meditação cria. Os sentidos pastam só no que lhes oferecem a natureza, a fortuna, o acaso: a divindade interior, a alma, tem comércios inefáveis com o íntimo e ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Patmos, divisa uma Jerusalém celeste; nas cogitações de Sócrates, aparece o Omnipotente; nos êxtases de Platão, reflexos da Trindade; nos cálculos taciturnos de Galileu, firma-se o céu, volteiam as plantas; Colombo faz surgir do fundo dos mares a América; Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hipógrafo, o pégaso do vapor, magia, poesia, potência escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes e amanhã, talvez, dos ares; a solidão cismadora dá a Eneida a Virgílio, mostra a Lineu os amores e o sono das plantas, a Dante o Inferno, a Fourier o paraíso terrestre, a Newton e a Laplace o código dos astros, a Daguerre os talentos artísticos do Sol, ao Gama o caminho do Oriente, ao soldado Camões o da imortalidade, põe na mão de Gutembergue a chave do cofre das ciências, na de Vicente de Paulo a da caridade, na de Say a da riqueza pública, na de Pestalozzi e Froebel a da escola séria e fecunda. Arquimedes, a sós com a natureza e com o seu génio, descobre os meios de destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexões criadoras, no seu gabinete, como num antro, não sente o estrondo da cidade, já senhoreada dos inimigas; não acorda à voz do soldado de Marcelo, que, de espada desembainhada, lhe ordena que o siga; sem o sentir, é degolado. Cai a grande cabeça, irmã entre irmãs, no meio das esferas celestes que está arquitectando. Só de tão extraordinária concentração podiam brotar os seus tão extraordinárias inventos e descobrimentos.

Lavoisier, outro dos martirizados pelo materialismo descrente e brutal, depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança científica, condenado ingrata e cegamente à guilhotina, que é o que pede aos verdugos revolucionários, seus juízes? Uma dilação de quinze dias. Só uma dilação! Só de quinze dias! Para quê? Para concluir trabalhos úteis à Humanidade, que neste momento o desconhece. Rematados eles, já não terá pena de morrer. Recusam-lha. Então, caminha, sereno, a depor no cadafalso uma cabeça, maior, talvez, que a de Arquimedes, e ainda na véspera coroada de loiros pelo Liceu.

Tanto a actividade fecundante, recolhida por instinto para os penetrais mais sagrados do ânimo, donde se conversa em êxtases com Deus e com a natureza, com o Pai Omnipotente e com a filha formosíssima, nossa irmã, fica inacessível aos maiores cataclismos externos, às catástrofes das Siracusas, ao caos, providencial, porém medonho, de uma revolução francesa!

O homem que nasce pertencente à escassa família deste naturalista, pai da química, e daquele geómetra, pai da mecânica, mesmo com os braços cruzados sobre o peito, mesmo com os olhos fechados, mesmo dormindo e sonhando, está servindo como operário; mas, abaixo dele, há ainda, não menos veneráveis, os prestigiosos cismadores do mundo da Arte, mundo não menor, nem talvez, em última análise, menos útil que o da Ciência.

André Chénier, espécie de Lavoisier da poesia, convocado também para o festim da morte, não é dos prazeres efémeros da existência que leva saudades: bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente que se lhe estava ali dentro formando, como em cérebro olímpico, uma nova musa gentilíssima. Quem lha revelara? A meditação solitária, que sabe tudo e tudo profetiza.

Boníssima solidão! Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são para os vales: nas tuas entranhas se filtram, dos teus recôncavos rebentam as génios possantes e profundos que vão derramar por longe a fertilidade. Mas tu não és só mãe às torrentes caudais: uma fontinha entre lapas, desconhecida, não se goza menos do teu favor. Sobre o pouco liberalizas dons, como sabre o muito; próvida para o imenso, próvida para o limitado. Solidão, Egéria das almas eleitas! Solidão, buscada por Cristo, abraçada por Jocelyn, adorada por Petrarca, explorada em tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau, do Infante de Sagres, de todos as videntes, de todos as descobridores, de todos os inventores, de todos as Baptistas! Solidão, ninho das rolas como das águias, perdoa, se eu não sabia ainda apreciar-te!

(Trecho de A Chave do Enigma, de António Feliciano de Castilho, por sugestão do Lucas)

5.30.2008

A língua de Cristo luta contra a extinção

Lí hoje no site da revista Históra Viva:

"Foi declarado pelas Nações Unidas que 2008 é o Ano Internacional das Línguas. Há tempos, a diversidade lingüística é um assunto que preocupa especialistas, já que, ao longo das próximas gerações, estima-se que mais da metade das 7 mil línguas faladas no mundo corre o risco de desaparecer. Isso significa que uma língua some a cada 15 dias.

No mapa das línguas em risco está o aramaico, aquela que foi supostamente a língua materna de Jesus Cristo, hoje falada só na região de Maalula, perto de Damasco, na Síria. Uma das línguas com maior permanência na história, com mais de 3 mil anos, que chegou a se espalhar por todo o Oriente Médio, o aramaico tornou-se um dialeto local (que não é mais escrito), falado atualmente por cerca 1.800 moradores de Maalula, segundo dados da Unesco.

Diferentemente de línguas indígenas ou africanas, que provavelmente morrerão sem deixar registros, o aramaico é bastante estudado por lingüistas e historiadores. Mas isso não a torna uma língua viva. Para tanto, ela precisa ser praticada em seu local de origem. Em Maalula, onde 25% da população é muçulmana, foi inaugurada, no ano passado, uma escola que dá aulas de aramaico. A idéia é fazer com que as crianças da cidade aprendam a falar e escrever a língua que vem dando sinais de cansaço, na cidade onde, entretanto, a missa ainda é rezada na língua de Cristo."

Preservar uma língua está muito além da simples manutenção de um idioma: trata-se de um resgate da própria história, resgate de uma outra cultura, de uma forma peculiar de ordenar o caos dos dados que a realidade fornece.

Alexander Stille, no livro A Destruição do Passado, trata exatamente disso. Para o autor, o ritmo de transformações das últimas décadas está destruindo anarquicamente milênios de história cristalizados em templos, estátuas, obras de arte, ruínas, línguas, etc. Futuramente, isso causará um vácuo na memória das sociedades; e incapazes de falar sobre seu passado, a ausência de referências sobre erros e acertos pretéritos pode contribuir para que os primeiros se repitam, porém agravados.

Não se trata de um saudosismo vazio clamando a volta de tempos passados, mas de um olhar agudo sobre o que passou e a reinvindicação legítima do patrimônio das realizações humanas. E além disso, na confusão de tantas coisas perecíveis que nos circundam hoje, coisas que já nascem predestinadas a morrer - nas artes, no cinema, nos jornais - experimentar a sensação de eternidade que emana de certas obras e lugares é algo revigorador. Não se fica impassível perante a notícia de que, ainda hoje, há missas rezadas em aramaico - ou ao menos não se deveria ficar.

Veja a matéria original aqui

5.23.2008

Sobre Literatura, Lukács e Crítica


Lendo Lukács, encontrei esta passagem:

"A literatura baseada na observação e descrição elimina sempre, em medida crescente, o intercâmbio entre a praxis e a vida interior. Talvez nunca tenha havido uma época na qual, como ocorre na nossa, ao lado da grande literatura oficial, pululasse tanta literatura de aventuras vazia e simplista. E não nos iludamos pensando que tal literatura seja lida somente por `gente inculta´ e que as elites se atenham à grande literatura moderna: comumente, dá-se o contrário. No mais das vezes, os modernos clássicos são lidos em parte por senso de dever e, em parte, pelo interesse no que concerne ao conteúdo que reflete (se bem que de modo enfraquecido e atenuado) os problemas do tempo. Para distração, entretanto, devoram-se os romances policiais" (LUKÁCS, György. Ensaios sobre Literatura, Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1965).

Trata-se de trecho do ensaio "Narrar ou Descrever", onde o autor examina as duas técnicas e suas implicações, para além das dimensões puramente literárias. Inicialmente comparando dois romances modernos, Naná de Zola e Ana Karênina de Tolstói, Lukács escolhe um elemento comum aos dois: a presença, em um dado momento, de uma corrida de cavalos. Enquanto Zola, com o seu rigor, descreve em minúcia cada detalhe da corrida, com uma enorme riqueza de detalhes mas sem, contudo, integrar tal descrição de modo orgânico ao romance - podendo até mesmo ser descartada para a compreensão geral da trama - em Tolstói a narração da corrida está intimamente ligada ao andamento dos fatos, e cada etapa da corrida corresponde a uma ação decisiva entre os personagens - e isto é tão fortemente marcado que, ao término da corrida, o enredo toma rumos absolutamente diferentes, com Ana confessando a Karenin, seu esposo, o envolvimento com Wronski, um dos participantes da corrida. Em outras palavras: enquanto que o descrever é puramente acessório e "se perde no inessencial", como diz Lukács mais à frente, o narrar mostra-se como o próprio vir-a-ser das personagens e das situações por eles vividas. A descrição não se preocupa com o processo: o produto lhe é suficiente. Já a narração não existe sem o processo: é pela exposição deste que ela ganha vida. Assim, a literatura que se vale da descrição é, de certa forma, conservadora, por não mostrar a própria dinâmica de formação das coisas do mundo. A narração, por ser uma elucidação das relações entre os homens e as coisas e dos homens entre si, produz um tipo de texto onde a realidade pode ser desvendada em seus fundamentos, um texto repleto de dinâmicos elementos humanos.

Muitas outras idéias são arroladas no andamento do ensaio; mas como este post não tem a pretensão de esgotá-lo, mas tão somente discutir brevemente algumas das idéias nele contida, ficarei apenas com a crítica presente no trecho acima citado, que diz respeito a uma literatura que pouco ou nada diz sobre "os problemas do tempo". Crítica que, como vejo, permanecesse atualíssima, e que podemos inclusive transplantar para o domínio de outras artes - a música, por exemplo - para nos conscientizarmos de que há a ausência total de uma arte que consiga captar os convulsos movimentos deste zeitgeist que nos envolve a todos - e que me perdoem a silepse e seu exagero, mas ela é proposital e visa marcar com cores fortes o momento.

Um pouco adiante Lukács fornece uma "fórmula" para vencermos esta esterilidade:

"A íntima poesia da vida é a poesia dos homens que lutam a poesia das relações inter-humanas, das experiências e ações reais dos homens. Sem essa íntima poesia não pode haver epopéia autêntica, não pode ser elaborada nenhuma composição épica apta a despertar interesses humanos, a fortalecê-los e avivá-los. A epopéia - e, naturalmente, também a arte do romance - consiste no descobrimento dos traços atuais e significativos da praxis social. A arte do poeta épico reside precisamente na justa distribuição dos pesos, na acentuação apropriada do essencial. A sua ação é tanto mais geral e empolgante quanto mais este elemento essencial - o homem e sua praxis social - aparece, não na forma de um rebuscado produto artificial virtuosístico, mas como algo que nasceu e cresceu naturalmente, quer dizer, como algo que não é inventado e sim, apenas, descoberto"

Desculpemos o marxismo de Lukács, ou melhor, ignoremos por completo as opções políticas deste autor e suas (nem tão secretas) vontades de instrumentalizar a literatura para as barricadas da revolução, e dele apanhemos o que nos interessa aqui, ou seja, sua arguta análise a respeito de como somente quando a literatura se vale da mais pura matéria humana esta consegue ganhar o viço que todo clássico tem; de como somente quando o escritor espreme as palavras, arquiteta as sentenças, passa horas a buscar a exata expressão, somente aí, no esmero de sua arte, é que nos vemos perante obras literárias de fato. Ou, para exemplificarmos de um modo mais específico: literatura como arte - e não literatura como entretenimento, aquele tipo de leitura que nos mantém ocupados nos fins de semana, nas rodoviárias, entre um aeroporto e outro (e cujo papel é exatamente este: fazer passar o tempo) sem nos proporcionar uma outra percepção sobre o ser.

Perante tudo isso, pergunto: que artistas, hoje em dia, estão à altura desta missão? Que mentes, iluminadas por uma audaciosa chama, têm forças para definir as novas fronteiras da conveniência, empurrando para o esquecimento os conceitos gastos que determinam nossa visão da vida? Uma arte tal, como creio e Lukács aponta, necessita, de modo a obter a matéria bruta necessária, vincular-se de modo umbilical à relações inter-humanas. Mais do que isso: precisa ter em si uma disposição de elevar estas relações a um patamar renovado, para longe do círculo da mediocridade atual; e aqui retomo a distinção entre narrar e descrever de Lukács, comentando que a representação da vida cotidiana em toda a sua miséria, por si só, nada tem de potencialmente transgressor. Pode servir, no máximo, como um retrato da decadência, muitas vezes digna das lágrimas dos bem-afortunados ou da simpatia das almas filantrópicas que julgam a si mesmas como socialmente ativas, mas cujas existências nada mais fazem que reproduzir ipsis litteris tudo aquilo que dizem repudiar. Contudo, incapazes de absorver a essência mesma da vida cotidiana, se apegam em sua camada mais superficial. Esta literatura nada mais faz que descrever, como um porco jornal policial, sem ir para além dos fatos, sem colocar a "íntima poesia da vida" em evidência.

5.14.2008

Meio-dia

"Quem chegou, ainda que apenas em certa medida, à liberdade da razão, não pode sentir-se sobre a Terra senão como andarilho - embora não como viajante em direção a um alvo último: pois este não há. Mas bem que ele quer ver e ter os olhos abertos para tudo o que propriamente se passa no mundo; por isso não pode prender seu coração com demasiada firmeza a nada de singular; tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade. Sem dúvida sobrevêm a um tal homem noites más, em que ele está cansado e encontra fechada a porta da cidade que deveria oferecer-lhe pousada; talvez além disso, como no Oriente, o deserto chegue até a porta, os animais de presa uivem ora mais longe, ora mais perto, um vento mais forte se levante, ladrões lhe levem embora seus animais de tiro. É então que cai sobre ele a noite pavorosa, como um segundo deserto sobre o deserto, e seu coração se cansa de andança. Se então surge o sol da manhã, incandescente como uma divindade da ira, se a cidade se abre, ele vê, nos rostos dos que aqui moram, talvez ainda mais deserto, sujeira, engano, insegurança, do que fora das portas - e o dia é quase pior do que a noite. Bem pode ser que isso aconteça às vezes ao andarilho; mas então vêm, como recompensa, as manhãs deliciosas de outras regiões e dias, em que já ao alvorecer da luz ele vê, nas névoas da montanha, os enxames de musas passarem dançando perto de si, em que mais tarde, quando ele, tranqüilo, no equilíbrio da alma antes do meio-dia, passeia entre árvores, lhe são atiradas de suas frondes e dos recessos de folhagem somente coisas boas e claras, os presentes de todos aqueles espíritos livres, que iguais a ele, em sua maneira ora gaiata, ora meditativa, são andarilhos e filósofos. Nascidos dos segredos da manhã, meditam sobre como pode o dia, entre a décima e a décima segunda badalada, ter um rosto tão puro, translúcido, transfiguradamente sereno: - buscam a filosofia de antes do meio dia."
(F. Nietzsche - Humano, Demasiado Humano, parágrafo 638)

5.13.2008

Madrugadas de Maio

"Tu levaste-me além de mim, para aquelas nebulosas paragens de si mesmo que todos nós temos e que raramente ousamos desbravar. Só em você encontrei um mundo como o meu, feito da ambição sem limites de conhecer a tudo, de entender as razões fundantes das coisas, o que se esconde nas tessituras íntimas dos conceitos secretos. Só o exercício dos anos me possibilitou aclarar no intelecto essas idéias, e já não sei ao certo se passou dois ou três desde quando te conheci; mas que importa o tempo, afinal? Tu conheces mais de minha alma do que toda a gente, até mesmo aquilo que não desejo saber você adivinha; nas nossas cartas sem fim apenas um detalhe, um adjetivo, ou mesmo um mal empregado singular é suficiente para que você, com a agudeza de julgamento que é apenas sua, me leia em profundidade.

E se muitas vezes a critiquei por seu comportamento tempestuoso, hoje eu sei que ele se deve a um extremo de sinceridade que não tolera o mínimo desvio. Tal rigor, muito mais forte que todos os vícios do mundo, te edifica a uma nobreza a qual jamais vi. Não é a nobreza fácil, aquela dos hipócritas, feita de tudo que é artificial e ostentador: é algo que está em cada gesto seu, na ausência completa de egoísmo, na sua recusa a todas as podridões que a turba venera, no seu elitismo que com nada se importa a não ser a retidão aos seus próprios desígnios. E essa nobreza ganha no marmóreo branco de sua pele ­– e eu me lembro de cada detalhe dessa pele – uma tal beleza que faz você surgir como escultura, exemplo de perfeição em arte, contudo sempre humana, demasiada humana, uma Überfrau que fumava comigo vaporosos cigarros nas madrugadas frias. Conhecê-la no íntimo oculto, na sua mais sensual verdade, e ver desabrochar em flor o suave perfume de seu sexo quente me fez experimentar o gozo como a pequena morte que ele é, para depois ressuscitar, suado e ofegante, no delicado gesto de seus braços a envolver meu pescoço, puxando-me mais uma vez para si, no silêncio cúmplice de tudo que é sublime – e então nasceu o desejo de permanecer naquele torpor para todo o sempre, alheios ao mundo, surdos para a sinfonia de seus sons perturbadores. Eu seria então seu eterno adorador, eternamente prostrado aos pés de seu altar úmido, a alcova seria o templo onde você, magnífica, reinaria como uma violenta deidade, cheia de feminis caprichos, aqueles dengos que fazem das mulheres seres tão curiosos e que em você encontro em estado ideal. Festas sem fim eu suportaria, homenagens, rituais de devoção que exigem penumbra e velas e sacrifícios, ali estaria eu, tudo fazendo para sua felicidade divina e para meu gozo viril.

Por desígnios para sempre ocultos - o Destino, sabemos, é mudo - agora tu és uma deusa que deixou sua cidade para conquistar outros domínios. E no coração deste seu adorador, embora esteja mais do que presente a certeza que seus divinais planos alcançarão a glória, há um vazio feito de saudade que eu esqueço sempre quando tu acenas através de suas cartas. Desde os antigos que se diz que as cartas são como conversas onde, pela força sibilina da palavra escrita, os distantes se fazem próximos, mesmo que no curto espaço da leitura de duas folhas de papel. É sempre uma juvenil felicidade aquela que se apossa de mim ao ver mais uma delas chegando com notícias suas, trazendo novidades que preenchem os intervalos entre meus afazeres diários com mil reflexões e vontade de, mais uma vez, celebrar ao seu lado os ritos do desejo, em nossa alcova, seu templo. Templo no qual ainda existe seu cheiro, a sua marca, os seus traços. Templo no qual reinamos absolutos, você e eu, na união entre o humano e o divino, entre as potencialidades da vida e do além-da-vida, nos espasmos que meu corpo fez sobre o seu e tudo que lembro são violências prazerosas, são ímpetos imprevisíveis, são vontades de permanecer, eternos e saciados, naquela esfera luminosa que toma conta de nós no clímax sacrificial.

Hoje é dia 12. Ainda é tão cedo que é possível ver muitas estrelas. Um vento delicioso está soprando e deixando tudo ainda mais gélido. Não há sequer uma nuvem no céu, só o éter azul cobrindo o orbe de um lado a outro. O Sol, tímido ainda, está se levantando lentamente na linha do horizonte. Você tem razão: maio é o mais lindo dos meses.”

4.23.2008

Esperando o Tempo


“Eu tinha certeza que vc ia lembrar. Muito obrigada, gosto muito de vc! Bjos” – esta era a resposta que M. recebera do cartão que enviara logo cedo a L., felicitando-a pelo aniversário recém-comemorado. E mesmo que nada ali fosse mais do que palavras, procedimentos ditos protocolares para agradecer às felicitações que recebemos, M. ficou é meio enevoado com aquilo, e perdeu o início da noite lendo e relendo a minúscula resposta, jurando que ali havia sentidos ocultos que podiam ser desvendados.

Há algo a mais, eu deveria é ter ligado, queixava-se a si mesmo pela decisão agora claramente incorreta de enviar o cartão, evitando os gaguejos desajeitados que viriam ao escutar a voz dela. Pois a presença de L., mesmo a mínima presença de sua voz ao telefone, era suficiente para este homem já feito que era M. tremer igual vara-verde, nas cidades grandes não se usa mais esta comparação, o leitor urbano que imagine um pedaço de pau que não pára quieto para compreender um pouco o que acontecia. E até que M. enganava bem, a ponto que ela nem percebia, ou fingia não perceber, mulheres são sempre mais engenhosas que os homens e principalmente nas artes do engano.

Não tinha certeza como começara a paixão. Ela existia, simplesmente. Certo dizer que M. desde que ela entrou na repartição já a notava com olhos ávidos de homem, mas a paixão mesmo era difícil perceber a origem. Só sabemos que a primeira vez que conversaram foi na volta do almoço, na alameda dos cafés, aquela conversa que nem vale a pena transcrever aqui pela trivialidade de tudo que é dito, mas que para M. foi como uma orquestra dos mais belos sons que, suaves, baixinhos, saiam da boca de L. – e se nasceu antes ou logo ali esta paixão, o fato é que M. desejou ouvir aquela voz todos os dias. E se há algo com o que possamos medir este sentimento, lembremos que avalia-se a estatura de um amor pela capacidade que os amantes têm de se ouvir mutuamente, mesmo por horas, sem que a irritação ou o fastio tome o lugar do desejo e da admiração.

Para M. era claro: estava gostando da menina. Contudo, só bem tarde soube de algo importante: L. tinha um namorado, com o qual pretendia se casar. Um frio congelante para M. ouvir isso da boca de L., em uma das conversas diárias que tinham, ela que parecia já tão disposta a aceitar um convite para o cinema, convite este nunca feito mas que, se feito e aceito, é mais do que claro na terminologia do coração que o filme pouco importa, o aceite da garota significa já uma vitória. M. ficou triste por dias, mexer com mulher alheia era contra seus princípios, mesmo que as danadas se fizessem fáceis, já deu os seus escorregões adúlteros e sabe que o preço é sempre mais alto do que o produto merece. L. era um caso diferente, nunca se mostrara disponível de fato, nunca dera um mínimo escorregão moral, permanecia ao mesmo tempo intocável e, por vezes, parecia deixar claro que apenas esperava uma atitude de L. Isso colocava ainda mais confusão na sua cabeça, principalmente quando L. chegava na repartição sempre tão sorridente e passava pela sua mesa a desejar bom dia. Certa vez ela chegou e, após os cumprimentos, emendou “Nossa, M, sonhei com você esta noite” - era o fim da picada, que mulher sonha com um homem e conta assim sem estar interessada, há certos desprendimentos modernos que M. jamais entenderia, mas se a ferida dos últimos dias doeu mais depois das palavras de L., na mesma proporção uma felicidade infantil o fez quase brilhar os olhos com filhotes de lágrimas, mas segurou firme e riu um largo sorriso, acompanhando o brilho que L. lançava com sua voz algo manhosa, detalhando os acontecimentos do sonho, de como M. estava engraçado na confusão onírica e de como ele a salvava de mil monstros terríveis. Fosse um pouco mais esperto ele completaria dizendo que nas estórias o herói sempre beija a mocinha ao final, e perguntaria malicioso a L. se no sonho a história também acabava assim, mas ele é tímido como um tatu e se esconde de tudo, e inebriado ficou apenas a ouvir a voz dela e a inflamar no peito mais uma flecha de Cupido, esperando um sinal de L. que, enfim, permitisse a ele algo mais do que apenas suas sempre tão vivas palavras.

2.21.2008

Absinthia Taetra


"Green changed to white, emerald to an opal: nothing was changed. The man let the water trickle gently into his glass, and as the green clouded, a mist fell from his mind. Then he drank opaline. Memories and terrors beset him. The past tore after him like a panther and through the blackness of the present he saw the luminous tiger eyes of the things to be. But he drank opaline. And that obscure night of the soul, and the valley of humiliation, through which he stumbled were forgotten. He saw blue vistas of undiscovered countries, high prospects and a quiet, caressing sea. The past shed its perfume over him, today held his hand as it were a little child, and to-morrow shone like a white star: nothing was changed. He drank opaline. The man had known the obscure night of the soul, and lay even now in the valley of humiliation; and the tiger menace of the things to be was red in the skies. But for a little while he had forgotten. Green changed to white, emerald to an opal: nothing was changed."

Este texto é de autoria do poeta inglês Ernest Dowson (1867-1900), cuja obra em geral é associada ao Decadentismo de autores como Baudelaire, Guy de Maupassant e Lautréamont. Curiosamente, a ele cheguei não pela via literária, mas musical: o texto acima foi base de uma composição na obra-prima "Absinthe - Le Folie Verte", produção conjunta dos grupos Blood Axis e Les Joyaux de la Princesse.

O tema, como claro está, é o absinto. Bebida dos poetas, dos artistas e boêmios do XIX, em especial na França, seus efeitos alucinógenos eram tidos como a mais sublime das inspirações, capazes de elevar o intelecto para além das barreiras do normal, de permitir a criação em sua forma mais intensa e voraz. O pequeno texto de Dowson pretende, justamente, transformar em literatura o estado espiritual provocado pela ingestão do absinto. E não apenas os artistas, mas também a burguesia e as camadas mais pobres consumiam a Fada Verde - o consagrado epíteto que ganhou devido a sua coloração - a ponto de, em 1910, registrar-se na França o consumo anual de 36 milhões de litros de absinto. ver verbete na Wikipedia a respeito

Outros poemas e textos de Ernest Dowson pode ser encontrados no site do Project Gutenberg, uma iniciativa de Michael Hart, o criador do e-book, cuja meta é encorajar a produção e distribuição de e-books gratuitamente, das mais diversas áreas do conhecimento. Há um conteúdo absolutamente gigantesco. Ainda não tive tempo de vasculhá-lo como deveria, mas aqui fica a nota mental para fazê-lo mais tarde.

Baixe a música Absinthia Taetra.
Veja a imagem original do quadro de Albert Maignan que ilustra este post.
Mais telas inspiradas no absinto de V. Oliva, Edgard Degas e Edouard Manet.
Veja filmes mudos do século XIX que falaram sobre o absinto.

2.18.2008

Ni Dieu Ni Maitre

"…et dont nous avons tous l'ordre de ne sortir que morts ou vainqueurs, vous gonfliez vos âmes d'ardeur et de décision. C'est à vous que je pense en écrivant, à vous qui devrez mourir en acceptant le baptême de la mort avec la sérénité de vos ancêtres, à vous qui devez passez par-dessus vos morts, et par-dessus leurs tombaux en brandissant dans vos mains le drapeau triomphant, en chantant « et si c'était à refaire, je referais ce chemin…"

"…j'écris au nom de notre famille, je ne me soucis d'aucune des règles imposées à nous – je n'ai pas le temps. J'écris au courant de la plume, sur le chant de bataille, au milieu des combats. A l'heure présente, nous sommes encerclés de toutes parts. Nos ennemis nous frappent lâchement, et la trahison nous dévore, mais nous restons debout, inébranlables, invincibles, immortels…"


"...e da qual todos nós temos a ordem de só sair mortos ou vencedores, você infla a sua alma de ardor e decisão. É em você que eu penso escrevendo, em você que deveria morrer aceitando o batismo da morte com a serenidade dos seus ancestrais, em você que deveria passar por cima de seus mortos, e por cima de suas tumbas brandindo em suas mãos a bandeira triunfante e cantando 'e se fosse refazer, eu refaria este caminho...´"

"... eu escrevo no nome da nossa família, eu não me preocupo com as regras impostas à nós, eu não tenho tempo. Eu escrevo no curso da pluma, na canção de batalha, no meio dos combates. Na hora presente, nós estamos cercados por todas as partes. Nossos inimigos nos espancam covardemente, e a traição nos devora, mas nós permanecemos de pé, inabaláveis, invencíveis, imortais..."

(Introdução da música "Ni Dieu Ni Maitre", do grupo industrial/folk Rome, de Luxemburgo)

2.02.2008

Good Reads

Se você esquece de comer, tomar banho, fazer a barba e encontrar sua namorada quando está lendo, Goodreads é o seu site ideal. É mais um site de "relacionamento", sim, mas dedicado aos
livros: você faz uma lista dos livros preferidos, que leu ou está lendo, faz seus comentários e deixa o mundo saber disso.

Ainda estou no processo de aprendizagem dos recursos oferecidos pelo Goodreads. Mas aproveita e vá lá no meu perfil ler a resenha que fiz sobre "Identidade", do Zygmunt Bauman. Abaixo, trecho do livro para despertar seu interesse, especialmente escolhido por tratar de Internet e, ironicamente, da onda de sites de "relacionamento" (sim, sempre com aspas):

Hoje em dia, nada nos faz falar de modo mais solene ou prazeroso do que as "redes" de "conexão" ou "relacionamentos", só porque a "coisa concreta" - as redes firmemente entretecidas, as conexões firmes e seguras, os relacionamentos plenamente maduros - praticamente caiu por terra.

Agora chega. Vá ler minha resenha e conhecer mais sobre este interessante escritor polonês.




1.30.2008

C´est la vie

Chuva incessante, frio, roupas pesadas demais para um janeiro que mal começou e já quer terminar. Ou este mundo está fora do eixo ou Deus está querendo nos castigar com a impressão de um mais um triste carnaval.

1.21.2008

O Mercado e a Alma

Um dia de dezembro, quente e abafado. Nem bem tinha levantado da cama e o corpo completamente suado já estava. Calor maldito, disse ao por os pés no chão e sentir o contraste do piso frio com o bafo quente do quarto, mormaço que deixava os músculos preguiçosos, as pernas cheias de manha, o corpo como que surrado. Mas era preciso enfim levantar-se, depois água ao rosto para despertar, mais um pouco para a boca sedenta, então trocar de roupa e sair. Combinara com uns amigos uma ida ao Mercado Municipal para as compras da ceia de Ano Novo. Não iriam viajar, não tinham o dinheiro, e os dias de folga no trabalho eram tão exíguos quanto as suas economias. Resolveram então se reunir, comprariam tudo que as ceias em família têm, passariam uma tarde a preparar os pratos e à noite se fartariam e estourariam espumantes.

Ainda sentado na cama M. brigava com a sedutora preguiça quando o telefone tocou. Vem logo, o Mercadão hoje deve fechar cedo, era A. alertando o amigo, afinal já passava das dez da manhã e possivelmente ao meio-dia todo o comércio fecharia as portas. A necessidade fez M. vestir qualquer coisa e esquecer de qualquer higiene, foda-se, é o último dia do ano, pra quê se arrumar. Chegando ao prédio de A. tomou o elevador e olhou no espelho, a qualquer desejo de vaidade não haveria mais lugar, se estivesse ridiculamente vestido teria que suportar, e na totalidade dos desastres do mundo o que é uma desastrosa escolha de roupas, suportamos todo dia a ofensa de um relógio no pulso para lembrar que somos escravos do tempo, perto disso o olhar de gargalhadas da garota linda que passou não é nada. M. já estava papeando com A. na cozinha, ontem eu e a D. compramos algumas coisas no mercado aqui do lado, dá uma olhada nestas azeitonas chilenas, estavam baratas.
- Chama logo a D., cara. Não quero demorar muito lá.
- Vamos.

Da casa de A. até o Mercado Municipal era um caminho de uns trinta minutos em zigue-zague pelas ruas do centro da Cidade. O centro é o lugar onde se encontra a alma de qualquer cidade, a sua essência e a realização mais plena de sua forma. Isso nada mais é que um acúmulo de obviedades, certamente alguém poderá reclamar, mas o que importa é ver nisso tudo apenas o preâmbulo para vislumbrar o que, enterrado, vai no coração de M.; pois para ele o centro da Cidade encarnava também as excrescências, as deteriorações de um modelo ideal, a memória estilhaçada de um tempo que se perdeu mas presente sempre está, ao leitor atento isso certamente parecerá um equívoco, como afinal algo que se perde pode permanecer?, a pergunta é inevitável, para solucionar a questão basta que lembremos de alguém querido que morreu. M. olhava o Teatro Municipal, a Igreja da S., o Grande Viaduto, a Praça da Coisa Pública, e entre estes pontos os cortejos sem fim das gentes de todos os tipos e de todos os lugares, escadarias antes santas são agora poleiros de miseráveis pedindo esmolas, mas caçadas não se anda sem esbarrar em vendedores ambulantes e suas mercadorias eternamente suspeitas, fanáticos profetizando o fim do mundo com olhos demoníacos, putas que cheiram a perfume de oito reais sorrindo para qualquer um, senhores de caminhar lento que não se encaixam na paisagem de pura velocidade, como reminiscências de um tempo onde só se tinha pressa de vez em quando. Tudo isso, os mendigos, os ambulantes, os fanáticos, as putas e os velhos emaranhados entre indescritíveis outros tipos, são milhares, aqui só lembramos aqueles pelos quais M. mais interesse nutre. Ainda é preciso falar do cheiro que igual não há em nenhum outro lugar. Como isto era possível, claro era apenas o cheiro incomparável daquelas ruas sebentas, imaginava-se cego e de todos os cheiros do mundo os únicos que distinguiria sem sombra de dúvida era o de café, merda e o do centro. Talvez justamente o cheiro tão característico fosse a prova maior que aquela Cidade tinha uma alma, não se podem ver as almas, mas dizem que elas existem e é possível senti-las, o mesmo se dá com os cheiros, que não podem ser vistos, apenas sentidos.

E no Mercado o cheiro-alma da Cidade ficava ainda mais forte e misturava-se ao odor das frutas da estação,das verduras, das carnes, das pessoas que amassavam na quase orgia dos corredores estreitos. Prove uma uvinha, mais doce aqui não há, disse o vendedor orgulhoso de tão gordo, e entre os dedinhos espertos deixa escapulir um punhado de róseas uvas para as mãos de A. Quantos dias eu conseguiria viver apenas comendo as frutas dadas como amostra, M. perguntou a si mesmo. Viver naquela cidade era caro demais, fizera planos de gastar menos no ano que chegava, quem sabe as economias ajudassem a comprar um carro, mas um empecilho de ferro a piorar o trânsito da cidade.

Começou a ver todas aquelas pessoas se fartando de frutas cristalizadas, de ameixas, de tremoços, de queijos, eram famílias inteiras a compartilhar risos e sacolas. Todos pareciam felizes, e isto fez M. colocar em cheque sua felicidade, sua satisfação para com o mundo, com sua vida. Pois era um ano pesado o que embora ia, estranho atribuir uma massa física ao ano, mas é como se 2007 lhe pesasse nos ombros. Enquanto isso o vendedor gordo generosamente distribuía suas uvas, e era tão satisfeito que enojava. A. e D. logo adiante inspecionavam uns provolones, e mais gente chegava suada de tão apressada. Sei lá por que diabos uma ternura brotou no coração de M. enquanto ali parado estava, atrapalhando com seu imobilismo o livre trânsito das pessoas e suas sacolas, de-tudo-expectador, a pensar nos quitutes que comeria naquela noite e em quais novas paixões e desastres se envolveria no ano que nascia.

1.20.2008

Literatura e Filosofia


Inspirado pelo post anterior sobre Deleuze, andei a pensar nestes dias a respeito das relações existentes entre literatura e filosofia, ou melhor dizendo, da literatura e seus "personagens filosóficos".

Aqui, obviamente, é impossível não lembrarmos de alguns nomes. E em minha lista, Raskholnikov ocupa o topo, pela sua fúria destruidora de mundos, cujos questionamentos não pouparam sequer a si mesmo. Mas apenas ele não basta, e também podemos colocar aqui Herman Hesse, Álvaro de Campos, Saramago, Kundera... (se alguém estranhar que comecei com um personagem e continuei a lista apenas com autores, aviso que para mim Raskholnikov é tão real quanto eles, e até mais vivo que muita gente que anda por aí, cheia de saúde).

Eu tinha 17 anos quando li Crime e Castigo. Hoje, 12 anos e muitos outros romances depois, posso dizer que os que mais gostei foram aqueles que mais filosofia me trouxeram. É por isso que "Seara Vermelha" me causa tédio: ali há enredo, há personagens, há situações, há cenários, mas me falta o choque de idéias e questionamentos que encontro ao ler "Crônica da Casa Assassinada". O que os separa não é apenas a opção política, Jorge Amado o comunista, Lúcio Cardoso o católico liberal, mas a amplitude das questões que afetam as personagens e o próprio narrador. Tampouco isso se determina pelo comunismo chato de Jorge Amado, já que Saramago é um vermelho de carteirinha e me fez chorar e destruir uns dois conceitos antiquados sobre a vida com "O Ano da Morte de Ricardo Reis".

Imagino que romances Cioran escreveria, se tivesse estômago para criar um mundo e nele colocar personagens. Aspirante que era a ser um eterno objeto, certamente consideraria a tarefa desonesta demais. Este texto ainda não acabou e certamente escreverei mais a respeito do diálogo sempre fecundo entre literatura e filosofia.

1.10.2008

O ABCD de Deleuze

Um amigo que adora estragar shows musicais me forneceu este interessante link com uma longa entrevista com Gilles Deleuze. Para cada letra do alfabeto, um tema é proposto para discussão (A de animal, B de beber, etc), ponto de partida para que o filósofo do desejo nos presenteie com saborosíssimos pontos de vista, plenos de espirituosidade.

Ainda não terminei de ler. Fui até a letra D. Mas foi o suficiente para me apaixonar e, se você ler, vai entender por que eu disse isso.

Por hora eu me calo. Agora, vá até a página e comece sua leitura.

Zumbis!

83%

Não há absolutamente sentido algum neste post, mas convido você a fazer o teste acima e saber quais são suas probabilidades de sobrevivência se, de repente, sua cidade for invadida por zumbis.

Sim, eu amo Madrugada dos Mortos e daria tudo para viver naquele filme por ao menos uma hora (e devidamente armado de uma AK47, é claro).

Não, eu não fui e não irei JAMAIS ao Zombie Walk e acho que quem foi merece tanto desprezo quanto qualquer jogador de RPG.

1.03.2008

O sonho de uma mulher desesperada

Deitada sobre colchas amarrotadas ela dorme. O quarto é o de sempre, o quarto dos brinquedos de outrora, o quarto com as cores do aconchego familiar, o universal quarto que nos sempre vem à mente quando sentimos o cheiro de lençóis limpos. E tudo nele é feminino e delicado, permita o leitor que eu dê um palpite e chame aquele quarto de mimoso, o adjetivo cabe perfeitamente, basta percorrer com o olhar de uma parede até a outra para perceber isso: os móveis leves, de cores suaves, aqui um detalhe de rosa, ali um ursinho, logo embaixo a bonequinha preferida, agora deixada aos cuidados do pó e da Memória, uma caixinha para os brincos, ao lado pulseiras, uma negra e brilhante corrente de Swarovski, perfumes em frascos detalhados, uns livros descansando em uma prateleira pequena, no lado oposto o guarda-roupa, ali estão roupas de todas as fases, há até oculto os sapatinhos dela ainda um bebê de meses, bonita lembrança do passado, mais ainda se pensarmos o quão pequenos eram os pezinhos de S., não que hoje ainda não sejam, mas mesmo assim a comparação entre o ontem e o agora causa um certo espanto.

(“Saiba você pois que há mulheres que conseguem ser maravilhosas até mesmo quando um certo desleixo as afeta. Elas conseguem provocar suspiros de paixão não pelo salto alto ou pela ousadia de um decote, mas principalmente pela insolência de um cabelo despenteado, pelo olhar de nojo endereçado a tudo, pela petulância ao acender um cigarro e baforar a fumaça como quem diz ‘eu simplesmente não suporto nenhum de vocês’. Todo homem se depara com uma mulher dessas, e acredite, elas sabem como proporcionar muita diversão.”)

E delicado não é apenas o quarto, mas também a maneira sem cuidados dela ali deitar Olhando-a assim, enquanto ela dorme, com o corpo desajeitado e semicoberto por fino lençol, percebe-se o seu sono tranqüilo, a frieza de um sono que não se atormenta por nada – ou melhor, a aparência de um sono que não se atormenta por nada. Pois se possível fosse vasculhar os sonhos de outrem, a S. atribuiríamos um sono cheio de tormentos, um sono que não descansa o corpo mas o mutila por mil imagens que se repetem, por mil vibrações oníricas que o abalam.

(“A minha eu conheci faz alguns anos. Pois bem: tudo que ela me trouxe, no dia em que foi embora a desgraçada levou em dobro. Eu podia ter lá meus problemas, todo mundo tem, mas sério, eu ainda conseguia manter uma certa dignidade; sempre achei os românticos idiotas, sempre achei os que sofriam por amor dignos de pena, mas graças a ela eu me vi perdido. E eu acho que para sempre.”)

Ela suspira mais fundo, lentamente começa a se movimentar na cama, até que se vira por completo e deita de bruços, todo o movimento realizado como se cada músculo pesasse toneladas, e mesmo assim é inegável a harmonia toda deste balé de adormecida. Mas neste momento, onde o mexer-se na cama parece fruto da arte, não há nada de equilíbrio nos sonhos de S.: ela está correndo, parece ser em uma floresta, está nua, suja e apavorada, há pessoas acampadas em barracas próximas, com horrendas deformidades, ela grita por socorro mas ninguém a ajuda, apenas a observam e ficam a rir, e ela continua a correr. Qual o significado deste sonho, S. perguntou a si quando o teve pela primeira vez, não encontrou resposta e continuou sonhando. São quatro meses e as mesmas imagens se repetem, existe mensagens escondidas nele, uma amiga com tendências esotéricas sentenciou, mas isso não foi o bastante para que o oculto sentido se manifestasse e muito menos para que, na noite seguinte, o tormento de S. não se repetisse.

(“Sabe o que eu desejei então? Que a maldita jamais tivesse paz. Isso mesmo. Paz, você nunca terá, eu disse. Na cara dela, no dia que ela foi embora. Falei isso e ri, ri de satisfação, ri inebriado de vingança, entorpecido de vingança. Nunca mais a vi, desde então. Melhor assim.”)

Agora ela não se mexe, mas solta um gemido. Nas pessoas que dormem, um gemido significa desejo de despertar motivado pelo medo daquilo que se sonha. S. sente medo, mas não consegue acordar, e segue correndo desesperada em seu sonho, ainda na floresta, mas agora passando no meio das barracas, que se multiplicaram, e os aleijados mal-cheirosos riem ainda mais alto, e para onde quer que ela olhe só há floresta e aleijados que riem sem parar, e S. geme ainda mais alto, principalmente quando percebe que as centenas de aleijados que a cercam têm o mesmo rosto, rosto de um homem que ela não consegue distinguir bem, mas que lhe é familiar, no mundo dos sonhos não há limites precisos para nada, e podemos desconfiar de S. quanto a esta familiaridade, já que mesmo acordado cometemos equívocos e tomamos por x o que na verdade é y. De qualquer modo, a impressão dos rostos iguais é profunda o suficiente para que os gemidos fiquem longos, doloridos. Estranho que gemidos ocorram tanto em momentos de medo e dor quanto de prazer, isso faz supor que até mesmo as imagens horríveis que S. suporta sejam no fundo motivos de delícia, mesmo que inconfessáveis. A cabecinha se agita um pouco, como se quisesse enfim se levantar e despertar, mas isso ainda não ocorre e tudo que vemos é um novo movimento do que chamamos logo antes de balé, já não há nada da graça de outrora, mas um alvoroçado mudar de posição, neste ponto a delicadeza de S. diminui e fica presente a mulher-voraz, a mulher que no auge do clímax grita e se movimenta em espasmos, não que S. esteja tendo um orgasmo, mas as pernas se movimentando rápido sugerem o gozo.

(“Hoje eu acho que deveria ter ido além. Sabe, uns tapas bem dados pra ela saber o que deve e o que não deve fazer com um homem que a ama. Mas eu só a peguei pelo braço e dei uns belos chacoalhões, maldizendo cada segundo da vida dela. Talvez dar os tapas não mudasse nada, ela iria embora uma hora ou outra mesmo, mas eu ficaria muito mais satisfeito. Só sei que, quando a agarrei e gritei, eu pude ver o medo que ela tinha de mim. Só aí eu me dei conta que já não havia mais nenhum amor nela, que nenhum esforço de reconquista seria possível. O melhor era deixá-la ir, já que na verdade há muito tempo ela não estava mais perto de mim.”)

No sonho, ela continua correndo, e há milhares de aleijados sufocando-a, ela pula por cima deles, dos que se arrastam, mas há outros que sustentados por pernas ossificadas se esfregam nela, e riem sem parar, ela cai e levanta, mãos tentam segurá-la, nem as lágrimas comovem os atrevidos, na verdade é isso que os deve excitar. Um dos monstros a pega pelo braço, arrasta-a para perto do rosto contorcido e grita, S. então finalmente distingue a face tão familiar, ela não pode acreditar no que enfim vê, e seu choro é intenso e desesperado, as mãozinhas agarram os lençóis, puxam-no para si, já está com as costas empapadas de suor, e tão presente é o medo que de seus olhos vemos escorrer lágrimas, balbucia algumas palavras, mas não é possível entender nada, entrecortada que estava a fala pelo gemido e pelo sono. Logo em seguida ela desperta, repletos de lágrimas os olhos, o choro que ainda não terminou, a expressão de confusão e medo nada se assemelha ao delicado semblante de antes. Já sabia que sonharia aquilo tudo novamente, exatamente igual, no dia seguinte. E a surpresa de reconhecer o rosto dele naquelas faces e corpos abomináveis a tomava por completo e produzia uma sensação desagradável. Pois era estranho logo ele assim surgir, como parte deste pesadelo tão incomum, e ao mesmo tempo tão real, mesmo que absolutamente improvável. Não conseguiu voltar a dormir e chegou a temer que não voltasse nunca mais.