9.23.2008

Da sutileza de certos desejos

Não sabia como tudo aquilo começara mas de repente viu-se metido dentro do bolso de uma calça. Acuava-lhe um muro feito de jeans escuro, o corpo levemente espremido em tão diminuto espaço, os desesperados bracinhos empurrando a parede-tecido, enquanto esperneava desajeitado para iniciar a escalada e descobrir do bolso de quem se tratava. Os dedinhos-grãos-de-arroz agarravam com firmeza a borda do bolso, fez força incrível, e a minúscula cabeça eleva-se lentamente daquela curiosa toca, mostrando ao mundo olhinhos medrosos que espantados miram a tudo maravilhados, aturdidos, quase lacrimando, pontinhos verdes aqueles olhos arregalados num rosto lívido-leitoso.
E via um mundo enorme de coisas enormes que se espalha sem fim para todos os lados. Carros do tamanho de caminhões, caminhões do tamanho de prédios, prédios que não cabem nas ínfimas medidas de M., que forçado por fortuitas forças passeava pela cidade naquele bolso anônimo tomado por um sentimento de confusão.
É como se agora cronópio fosse mas, disso tinha certeza, não era um personagem, e havia mil lembranças que o abasteciam com provas muitas. Era um homem, oras bolas, e não aquilo, curiosa micromutação cujas razões desconhecia. E enquanto a perplexidade perante seu novo estado atormentava-lhe o espírito, M. continuava com a cabecinha para fora do bolso, atento ao mundo enorme que com seus olhos-pontinhos via, tremendo de medo quando um novo transeunte passava perto de sua morada-prisão: desagradava-lhe a idéia de após uma desajeitada trombada, destas que na Paulista ocorrem aos montes, sucumbisse tal como inseto esmagado, a manchar com uma pasta de sangue e ossinhos partidos a calça que o carregava cativo. Era preciso sair dali, ir embora daquela cela-tecido. Curvou o pescocinho para baixo, óculopercorrendo o trajeto que no bolso começava e ia até a barra da calça. A uma altura daquelas, pular seria um suicídio. Mas ali permanecer também seria, e embora não tenhamos notícias de casos de encolhimentos súbitos como o de M., não é possível que alguém receba com simpatia um homem de cinco centímetros no bolso da calça. O previsível gesto de boas-vindas é um grito acompanhado de uma mão nervosa dando tapas naquela coisa sem nome que ali apareceu; talvez, controlando o medo inicial, o proprietário do bolso quisesse inspecionar a curiosa coisinha e ter certeza de que seus olhos não se tinham colocado em engano; traria para perto do rosto aquela criatura diminuta que se debate agitada, então capturada por dedos em pinça; ainda mais assustado o observador do que o observado, só minutos depois dessa tortura visual decidir-se-ia a fazer algo, por exemplo guardar o monstrinho em um pote para exibir aos amigos. Se fosse ainda mais vulgar, esqueceria as leituras de Debord e investiria no espetáculo, expondo o seu achado em noite bizarra no Gran Rex. Os donos da casa hábeis seriam em alimentar no público o interesse para ver a prova viva-vivíssima de que Cortázar falava sério, en esta noche el Gran Rex hará Corrientes brillar aún más con la primera presentación de catala nunca vista por ojos humanos, bailada por un auténtico cronopio Seria obrigado a sapatear e balançar o débil corpinho a noite toda, sob ameaças de um mata-moscas bem seguro nas mãos do dono do bolso, que seria seu algoz ou empresário, palavras sinônimas. Vendo por este lado, a trombada fatal com um transeunte mostra-se uma alternativa menos sofrida, bastaria um encontrão para a rápida morte, como um atropelamento de um cão por um ônibus cheio. Torna-se-ia a citada mancha de sangue e ossinhos partidos, uma meleca rubra, uma coisinha à-toa que não se sabe de onde veio, apenas está ali, sujando e sendo impertinente.
É importante o leitor saber que no momento em que olhou do alto de seu bolso-prisão, M. pode ver os pés de quem o levava clandestino consigo - pés que calçavam sapatos femininos, delicados sapatos femininos. Isso o deixou mais contente, afinal partilhar da intimidade de um bolso de mulher é mais agradável do que fazê-lo em qualquer outro bolso; ressalva apenas para a ingenuidade de M., já que o uso de sapatos femininos, nos tempos atuais, não é exatamente uma exclusividade das fêmeas. E a este pensamento estranho, o julgar-mais-agradável-um-bolso-de-mulher, deve ser creditado unicamente ao irreparável espírito conquistador de M., sempre pronto a arremessar-se em aventuras, mesmo as mais irresponsáveis, aquelas que exigem sacrifícios, longas esperas por longos invernos, cartas molhadas de lágrimas e todos os ridículos expedientes dos que insistem em amar, mesmo que abundem os exemplos a comprovar o quão ingrato tem sido o Amor com aqueles que o servem. A fuga do bolso-prisão, de repente, tornara-se um plano esquecido, antigo; a curiosidade, mãe do Progresso, mas também da Desgraça, em M. acendia um absurdo desejo; e se segundos antes queria ir embora dali, agora tencionava saber quem era aquela que o carregava consigo. E ainda apoiando-se na borda do bolso, virou o pescocinho para cima. Mas impossível definir desse modo o rosto dela: o leitor que, ao andar, mire o bolso da própria calça e imagine a visão que dali se tem. O que conseguiu apenas foi vislumbrar uns fios de cabelos dourados, um pedacinho do queixo, as sinuosas curvas dos seios que despertavam mais atenção do que qualquer cabelo ou queixo, previsíveis os homens e suas vontades, mesmo quando reduzidos a cinco centímetros. Seja como for, sentiu-se mais tranqüilo, e deixou-se ficar naquele bolso, com os olhos-pontinhos ainda mais atentos, sem temer os transeuntes, os barulhos sem fim, as portas das lojas, as árvores, o caos da cidade em suas horas luminosas. Quantas mil possibilidades de penetrar no universo secreto de uma mulher teria com aquela sua nova nano-estatura. No momento oportuno escaparia de seu cela-tecido, vasculharia as bolsas dela, aprenderia seus segredos, comeria as balas deixadas ali por precaução. Organizaria as moedas, preciosos discos de metal, e passaria muitas horas lustrando-as, magníficas seriam as moedas dela. A recompensa seria os passeios clandestinos em um bolso da calça, a comunhão secreta dos enigmas femininos, desvendados um a um por uma cautelosa invasão de privacidade, feita de artimanhas e jogos, sem tréguas. Deixaria bilhetinhos secretos, pequenos poemas de cronópio apaixonado, entre as cédulas da carteira dela. Cheia de surpresa ela sorriria, ainda sem saber o que pensar a respeito daqueles papeizinhos marotos que se multiplicavam, e ainda mais intrigada com as rosas vermelhas colocadas vez por outra nos bolsos de suas roupas preferidas.
**********
Assistiam a um filme na sala. Ela acabou dormindo sobre as coxas de M. Passeou as mãos sobre os lisos cabelos dourados dela. Com cuidado, a carregou adormecida para o quarto. Colocou-a na cama, sentando-se ao lado. Ela despertou, olhos confusos.
- O filme acabou?
- Sim. Você dormiu. Te trouxe pra cá.
Ela estendeu os braços, puxando-o lentamente para si. M. curvou-se. Ela falou baixinho:
- Por que não me acordou?
- Não quis, você dormia tão profundamente.
Beijou-lhe o rosto, bocejando sonolenta.
- Teve uma hora que você riu
- Ahn?
- Quando você dormia. Você riu. Lembra?
- Não muito bem... Sonhei com várias coisas, inclusive você.
- O que eu fazia?
- Não sei bem, mas tinha algo a ver com minha calça.
- Gosto delas, principalmente quando não estão em você.
Ela riu do gracejo cafajeste, dando-lhe um tapinha de reprovação no braço. Disse a M.:
- Se eu pudesse, te carregava sempre comigo, como um chaveiro.

6 comentários:

  1. Anônimo4:07 AM

    Por quê não era eu??

    E este fim de post me fez ciúmes. Sei que não posso, mas sempre tive ciúmes de você.

    E por falar em não poder, sábado te liguei e ainda bem que não funcionou. Senão eu teria feito coisa 'errada'.

    Ah, rí da parte que ressalta que "o uso de sapatos femininos, nos tempos atuais, não é exatamente uma exclusividade das fêmeas", rs...

    Nem escrevi bonito hoje.

    Beijo bem grande, com aquele abraço de 45 min...

    A.

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  2. Fala, Leandro!
    Beleza?

    Indo direto ao assunto, em minha ingenuidade achava realmente que teu talento com as palavras e suas delicadas (porém difíceis, pra mim) colocações se resumissem apenas às letras da banda a qual faz parte Life is a Lie. Mas andei lendo os textos brilhantemente escritos e cordialmente divulgados aqui no blog, e enxerguei com fascínio que estava realmente enganado!
    Espero ansiosamente por uma turnê nordestina da banda, e que passem por aqui terras pernambucanas, à fim de trocarmos leves idéias e algums copos de cerveja. Que isso não seja apenas desejo utópico e capricho do acaso(inspirei-me em um dos textos, hehehe)!

    Abraço.

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  3. Paulo Oliveira4:45 PM

    Espero ver "ad aventuras de M." publicadas um dia.

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  4. Srta A.,

    Ligaste-me? Meu celular nem recebeu ligação sua! Tá blefando comigo ;-)

    Vitor,

    Obrigado! Mesmo que a banda não vá, eu tô querendo ir, mesmo que seja pra dublar as músicas e conhecer as pessoas. Muita gente nos convida para fazermos shows por aí, a questão é $$$ e, principalmente, tempo. E que o Acaso nos ajude! Ele costuma ser um cuzão comigo (e não só comigo), mas às vezes ele nos oferece surpresas admiráveis, algumas delas são bem cheirosas, usam sapatos pretos e adoram mimos... você tá ligado! ;-)

    Paulo,
    Que os santos, principalmente, São Roque, o ouçam!

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  5. HAHAHAHAHAHAHAHAHA
    Você não costuma ser o único a sofrer maldições dele!
    Mas beleza, mesmo que o LIAL não venha, avise-me quando aparecer por Hellcife!
    Qualquer coisa, aí está meu e-mail/msn: vgcvp@hotmail.com

    Valeu, abraço.

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  6. Bem divertido.

    Depois dessa, eu me sinto inspirado para escrever uma história que se passa dentro da bolsa de um travesti.

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