8.29.2012

Adaptar para diminuir?


Li hoje no caderno cultural da Folha um crítico lamentando a adaptação de "New York, New York", musical de Martin Scorcese, para os palcos brasileiros. Ele diz que apenas por um pouco não se perde a essência dramática do texto graças ao abuso de situações totalmente caricatas, graças ao "vício dos palcos brasileiros achar que o público deve rir o tempo todo".

Compartilhando imensamente desse ponto de vista, para mim sempre foi um enigma entender o porquê de adaptações de obras antigas eram, quando aqui encenadas, sofrerem uma modernização que as nivelava ao nível de um Zorra Total (tive essa sensação pela primeira vez ao ver Filosofia na Alcova, no Espaço Satyros, anos atrás, e foi decepcionante). Nunca consegui uma resposta satisfatória, até ler o texto que reproduzo abaixo, publicado originalmente no Euterpe, um excelente blog que se dedica à música clássica. 

Certamente, esse texto interessará aos que não conseguem entender as razões que motivam certas opções "atualizadoras" em peças e montagens antigas - que não são uma exclusividade dos palcos nacionais, diga-se. A quem puder (e quiser) compreender, o texto a seguir falará claramente.

A malícia do desejo erótico e sua nova vítima: o mito
Ontem o Theatro Municipal de São Paulo apresentou a última récita da montagem de Götterdämmerung, “O Crepúsculo dos Deuses” de Wagner. A produção com regência da Orquestra Sinfônica Municipal de Luiz Fernando Malheiro e direção de André Heller-Lopes é a realização da primeira montagem do Anel do Nibelungo criada por uma produção totalmente brasileira, o que assume uma ambiciosa prova de fogo para o que podemos fazer de melhor à altura do projeto colossal de Wagner. 

Mas não pretendo resenhar a produção da ópera – que já foi um sucesso merecido, deixou a todos otimistas e encerrou suas apresentações ontem. Pretendo comentar uma das escolhas da concepção da montagem, chamada de “Anel Brasileiro” não apenas por ter produtores brasileiros, mas também pelas referências cênicas que transpuseram vários elementos da ópera da sua atemporalidade mítica para a cultura e o folclore brasileiros.

Antes que isso pareça problemático em si, é preciso observar que esse tipo de transposição pode ser feito com coerência e não é incomum hoje em dia, embora não corresponda ao nosso desejo purista que gostaria mesmo é de assistir a uma produção tradicional de Wagner em Bayreuth, e embora represente mais um insight alternativo que, no Brasil, já é uma tendência que supera totalmente a existência de leituras tradicionais.

Concepção
Mas entre bois bumbás, iaôs e fitas do Senhor do Bonfim, uma leitura que a princípio parecia desempenhar uma escolha feita dentro das margens do libreto terminou se mostrando profundamente radical: logo no primeiro ato, depois de se despedir apaixonadamente de Brünnhilde para partir em busca dos feitos heroicos do dia, Siegfried chega ao palácio dos Gibichungen recebido por Gunther e, bem, “rola um clima”. Não apenas Gunther já era retratado como um filho de militares aburguesado e afeminado, mas o seu encontro com Siegfried assumiu uma tensão homoerótica que interferia na própria legenda do libreto projetada acima do palco – após o pacto de amizade estabelecido entre ambos, as referências de Siegfried a Gunther como irmão eram colocadas entre aspas (qual a surpresa em saber que foi o próprio diretor quem traduziu as legendas?). 

Insisto em descrever essa tensão pra que não dependamos de supostas sutilezas: frases de Gunther a Siegfried como “wohin du schreitest, was du ersiehst, das achte nun dein eigen: dein ist mein Erbe, Land und Leut’ - hilf, mein Leib, meinem Eide! Mich selbst geb ich zum Mann” (“por onde caminhares, o que quer que vejas, considera agora teu: tua é minha herança, terra e gente – penhora, meu corpo, meu juramento! A mim mesmo, como homem, ofereço a ti”), ao invés do penhor das posses e da própria vida em função de uma palavra de lealdade e de aliança, ganharam na encenação dos cantores o tom de um processo de sedução. No fim do ato não deu outra: após Siegfried assumir a aparência de Gunther com o uso do Tarnhelm e tomar a própria Brünnhilde como sua noiva (lhe estapeando e tudo!), Gunther aparece em cena (o que não é indicado pelo libreto) e, depois de um sestroso sinal para que Siegfried não diga mais nada, ambos …se beijam! (as luzes se apagam na hora h, mas o recado está dado). Não seria preciso mais nada, mas no segundo ato, quando Brünnhilde está de um lado sofrendo pela traição de Siegfried, Gunther aparece de outro sofrendo do mesmo amor gorado…

E…?
Não é inédita a inclinação a enxergar desejo e paixão nas entrelinhas de narrativas que não dizem nada a respeito disso, mas mais do que um Gunther homossexual e mais do que qualquer outra liberdade da concepção do diretor, esta escolha de um caso entre Siegfried e Gunther acarreta consequências drásticas e ao mesmo tempo muito reveladoras para o significado de todo o ciclo de Wagner, o que, após seis apresentações desde o dia 12, eu não encontrei sendo discutido pela crítica. Vejam que, embora possa parecer um desatino feito meramente para um efeito transgressor que nessa condição até mesmo se auto indulgencie de qualquer comentário, a profunda incompreensão que essa escolha revela envolve um significado elementar na obra de Wagner que vale ser comentado. Além disso, nada sendo por acaso, essa escolha pode ter explicação em uma tendência muitíssimo marcante, quem diria, na própria cultura brasileira, o que também merece ser observado. 

Um Siegfried ordinário 
A oferta de amizade (“sei mein Freund”) leal entre Gunther e Siegfried, que na produção brasileira se transformou em tensão erótica, acontece antes de Siegfried ser ludibriado pelo efeito da poção que o leva a trair o amor de Brünnhilde. Isto significa que esse caso entre ambos não pode ser influenciado pela poção, e que Siegfried simplesmente decidiu “se oferecer como homem” para Gunther porque estava com vontade. Mas isso nos dá um Siegfried que não é, como dirá Brünnhilde, “der Reinste” (“o mais puro”), nem que “lautrer als er liebte kein andrer” (“mais puro que ele nenhum outro amou”). Não por acaso, na montagem brasileira esse é um Siegfried que aparece agindo de maneira vulgar, que estapeia Brünnhilde – embora se guarde de deitar com ela, preservando o pacto de sangue jurado com Gunther -, que agarra excitado as ninfas do Reno – embora faça menção à atual fidelidade a Gutrune na sua reflexão sobre o comportamento sedutor das mulheres -, e que, menos do que heroico, é ridiculamente ameaçado por essas mesmas ninfas, que o acuam como tigresas (?) – embora ele tenha matado um dragão sem ter aprendido a lição do medo.

A função heroica dada a Siegfried pelo mito é desconstruída em muitos aspectos, de onde não há remorso em transformar o seu pacto de sangue com Gunther – uma imagem medieval tradicional – em um concerto de fundo amoroso. Mas duas coisas essenciais em Wagner saem prejudicadas: 1) o status do herói para o mito; e 2) o passo tomado por Brünnhilde na expiação dos pecados desencadeados pelo desejo de poder que vitimou um herói puro. 

Quanto ao status do herói para o mito, a teoria a respeito é abundante e se ilude quem pensa que o herói é uma idealização que achata as complexidades da realidade. Realismo puro e simples que justifique o retrato de banalidades não tem nada de complexo, e aniquila a função arquetípica do mito de transcender a própria realidade – pois não há nada melhor no mundo ficcional para se compreender as consequências morais de um ato do que o impulso de um herói. Mas se Siegfried é ordinário – ou seja, não sacrifica inclinações levianas em favor de uma dimensão de sentido superior para as suas ações -, que sentido há na atenção que ele ganha dos próprios deuses como um herói livre diante do destino, ou no seu brinde fiel ao amor de Brünnhilde antes de tomar a poção que o ludibriaria, se pouco antes ele simplesmente se oferecia para Gunther e depois seria seu amante? 

Quanto ao passo expiatório tomado por Brünnhilde, o ciclo de violência e de vingança desencadeado pela maldição do anel só é interrompido pela oposição por excelência à renúncia-do-amor que a originou. E como se opor a essa renúncia? Aceitando o amor e renunciando ao poder, como o faz Brünnhilde na sua autoimolação. Este gesto só alcança o status verdadeiro de uma expiação porque envolveu a queda de um justo sacrificado: Siegfried, o herói puro e livre, que não é ajudado pelos deuses, é enganado e corrompido em sua dignidade por conta de sua inocência, presa fácil dos aproveitadores. E Brünnhilde, tomando posse do conhecimento desse processo insustentável de violência, vem ritualizar o seu desfecho na redenção pelo amor que nasceu com Siegfried (o que na música é mostrado literalmente pela aparição do leitmotif chamado “Redenção pelo amor”). Se Siegfried não for puro, qual pureza foi sacrificada na redenção pelo amor nesse processo?

Por que fazer isso? 
A malícia que troca o mito de Wagner por um suposto realismo em que tudo é sujeito a deixar de ser o que seria para se transformar em pura hipocrisia não é uma leitura isolada. É na verdade fruto de uma mentalidade tão arraigada que nós mesmos a essa altura não temos a menor dificuldade em assumirmos uma desconfiança tão absoluta quanto possível em nome de um conhecimento mais verdadeiro. O problema é quando isso nos leva a um relativismo estéril, em que sem saber responder ao sentido daquilo de que aprendemos a desconfiar indiscriminadamente – sem saber justificar o sentido da existência de um herói, por exemplo -, nós ficamos sem nada.

Sem a capacidade de se justificar o sentido de qualquer coisa, tudo o que resta no mundo se torna disfarce: a única realidade verdadeira, desvelado todo o fingimento, torna-se facilmente reduzida a desejo e a egoísmo, o que não dá espaço para a sinceridade senão na “maldade” desse desajuste de pessoas convivendo, em última instância, apenas por interesse. É claro que, como todo relativismo, este cai na contradição de apenas se firmar como visão de mundo caso receba um privilégio incompatível com tudo o mais que é relativizado – quer dizer, assume-se convictamente o princípio de se relativizar a tudo, menos a posição de onde essa crença é fundada! (a consequência não seria também esta perder o valor que reivindica?). Mas essa postura se torna significativa quando arriscamos vê-la como um fruto de diferentes raízes do nosso tempo: niilismo, pós-modernidade, materialismo, existencialismo sartreano, não faltam apostas e todas devolvem alguma identificação com o ponto caricatural que esse extremo alcança. Pensando em nossa cultura, lembro de Paulo Prado rastreando na luxúria, na cobiça e na melancolia da colonização brasileira os seus traços psicológicos formadores. Seja como for, as palavras do próprio diretor André Heller-Lopes e suas contradições com a prática parecem assumir as consequências: ”Nada do original foi mudado, nós respeitamos a tradição. No entanto, tudo é visto a partir dos olhos da cultura brasileira”.


Livros insignificantes: resenha de "Devastação", de René Barvajel


Sebos são grandes depósitos de lixo cultural. Isso não significa que tudo o que neles encontramos é ruim - pelo contrário, encontrei alguns dos meus livros mais significativos nesses apaixonantes lugares. Chamo-os assim por neles ficar estocado tudo o que nossa cultura considerou supérfluo: vasculhe o leitor as prateleiras de literatura de um sebo e, entre autores assaz conhecidos, serão encontrados incontáveis nomes que nunca figurarão nos livros escolares, nas revistas especializadas, nos debates acalorados da boêmia letrada de uma cidade qualquer. E isso assim será para todo o sempre, e não apenas na literatura: música, cinema, poesia, todas as disciplinas. A cultura forma o seu cânone através de um processo seletivo que condena ao anonimato das prateleiras dos sebos tudo aquilo que ela considerou supérfluo.

Um dia propus a mim mesmo um peripatético roteiro pelos sebos do gloriosamente imundo centro velho de São Paulo. Ali há muitos deles, concentrados entre o espaço que vai da Praça da Sé até a República. O único objetivo em mente era vasculhar, justamente, as prateleiras mais esquecidas de literatura e, no lixo supérfluo ali encontrado, quem sabe descobrir algo que fosse curioso/desconcertante/enigmático. Tendo como pressuposto que as escolhas das gerações anteriores depuraram a imensa produção literária - depuração esta que foi um processo coletivo envolvendo os modismos do momento, a análise dos críticos, as resenhas nos jornais, a escola, o departamento de publicidade das editoras e (impossível não considerar) uma certa dose de acaso - a minha busca estava repleta de dificuldades. Diante de meus olhos, centenas de livros dos quais nunca ouvi falar, legiões de autores que sequer sabia de onde eram. 

Graças a tal andança, surgiu a idéia de uma série de posts (sem periodicidade, como sempre) sobre livros que são insignificantes. Livros que ninguém comenta, de autores que ninguém cita, que nunca virarão estampas de camisetas como aquelas do Bukowski, que palermas utilizam na esperança (perdida) de mascarar a própria ignorância. Mas mesmo que existissem camisetas desses autores supérfluos, não importaria absolutamente nada porque, afinal, nunca ninguém se importou com eles - e talvez exista muitos bons motivos para isso.

Ok, introdução feita. Agora, a resenha sobre o primeiro livro da série.

"Devastação (ou a volta à Natureza)" é um livro do francês René Barjavel. Lançado em 1943 com o título "Ravage", foi editado aqui no Brasil pela lendária Círculo do Livro em 1976 (as capas dessa editora eram sempre geniais, e até hoje exalam uma cafonice que me encanta). Encontrei-o em um sebo bem ruim ali na avenida São João, perto do Rei do Mate. O título logo me despertou a atenção; a partir dele era fácil imaginar o que o livro apresentaria: explosões, queda, ruína, cenários apocalípticos, entropia anticivilização, etc. Por mim estava OK (sou daqueles que esperam ansiosamente a estréia de filmes hollywoodianos sobre catástrofes climáticas, cometas que colidem com a Terra, etc), ainda mais pela bagatela de 4 reais.

Cheguei em casa e fui na Wikipedia procurar mais informações sobre o autor. Eis o que encontrei por lá:
René Barjavel (January 24, 1911 – November 24, 1985) was a French author, journalist and critic who may have been the first to think of the grandfather paradox in time travel. He was born in Nyons, a town in the Drôme department in southeastern France. He is best known as a science fiction author, whose work often involved the fall of civilisation due totechnocratic hubris and the madness of war, but who also favoured themes emphasising the durability of love.
René Barjavel wrote several novels with these themes, such as Ravage (translated as Ashes, ashes), Le Grand SecretLa Nuit des temps (translated as The Ice People), and Une rose au paradis. His writing is poetic, dreamy and sometimes philosophical. Some of his works have their roots in an empirical and poetic questioning of the existence of God(notably La Faim du tigre). He was also interested in the environmental heritage which we leave to future generations. Whilst his works are rarely taught in French schools, his books are very popular in France.
Bom, já tinha uma idéia, ainda que meramente protocolar, sobre o livro que tinha em minhas mãos. E por ser o primeiro livro dessa série, creio que tive muita sorte, pois em "Devastação" encontrei passagens dotadas de uma beleza muito específica, que é a de descrever catástrofes. Descrições estas que sempre são acompanhadas de um discurso extremamente crítico em relação ao mito do progresso e, mais do que isso, à civilização como um todo. Hoje isso pode ser familiar a qualquer um que se interesse por temas filosóficos e sociais: até mesmo em jornais diários é possível encontrar textos que discutem os limites estruturais da civilização ocidental e os impactos indubitavelmente destrutivos que o nosso modo de vida causa ao planeta. Porém, em 1943, quando o livro foi lançado, acredito que tal discurso não era algo assim tão popular (um olhar desconfiado perante a sociedade capitalista e seus caminhos obviamente já existia desde o século XIX, mas entre criticar o capitalismo até condenar a civilização há um passo que acredito ser gigantesco). Não sei dizer se o romance gerou algum impacto no momento em que foi lançado, até mesmo porque o mundo girava em uma roda de fogo naqueles anos e prestar atenção a livros soaria como uma bobagem. Mas como Barjavel aparece, pelo menos nos links que visitei, como um autor de ficção científica, deve ter sido de imediato relacionado àquele tipo de literatura que se lê "para passar o tempo", como literatura de entretenimento para quem gosta de robôs, demônios, viagens no espaço e outras bobagens nessa linha. Imediatamente assim relacionado a esse tipo de literatura, o potencial efeito questionador do livro ficou, assim, um tanto quanto obscurecido.

o sebo onde comprei o livro, ali na Avenida São João, próximo ao Largo do Paiçandu.
Resumindo o livro da maneira mais simples possível: estamos no ano 2052 e o mundo alcançou um nível tal de desenvolvimento tecnológico que viagens intercontinentais podem ser realizadas através de trens velocíssimos; carnes de todos os tipos são produzidas em laboratório, e a matança de animais não é mais necessária; telefones projetam imagens tridimensionais dos falantes, como se fossem reais; os carros voam; as cidades crescem sobre outras cidades, e vemos uma Paris (cidade onde se passa o romance) como uma imensa megalópole que guarda a antiguada arquitetura do século XX debaixo das estruturas da Cidade Elevada, posicionada vertiginosamente a mais de 500 andares do solo; estufas enormes mantém a produção de vegetais e frutas de modo constante: não há mais intervalos das colheitas, o solo produz o tempo todo sem a necessidade dos antiquados ciclos naturais; até mesmo a morte parece ter sido vencida: os cemitérios foram extintos, e em todas as casas existe uma espécie de mortuário onde os entes que se foram permanecem empalhados, em dimensões reduzidas, geração após geração - revitalizando o antiqüíssimo culto ao gens em uma roupagem sofisticada. Nesse mundo de maravilhas tecnológicas sem precedentes, subitamente a energia elétrica perde sua propriedade de se transmitir por fibras metálicas. Sem eletricidade, a vida torna-se impossível, iniciam-se distúrbios e saques, a barbárie irrompe - é desse ponto crítico que a saga dos personagens François e Blanchete começa, na busca por um único objetivo: fugir da cidade enlouquecida pela destruição e ir rumo ao campo, onde estariam a salvo.

Um enredo simples, banal ao extremo, e até mesmo bastante previsível. Entretanto, ele convence justamente por isso: a vida atual é impossível sem eletricidade. Imaginemos que, de uma hora para outra, acabasse a energia em toda uma cidade. No começo, as pessoas esperariam, resignadas que são, com suas velas a postos. Mas imaginemos que a espera se alongasse por um dia inteiro, e depois por outro, e por muitos outros mais até perder-se a conta: Barvajel imaginou esse mundo, e ao fazer isso tocou no ponto mais frágil da civilização, no elemento invisível que funciona como o sangue desse complexo organismo de relações sociais/políticas/econômicas que se instaurou mundialmente e determina o modo de vida de bilhões de seres - esse sangue invisível chamado Eletricidade. Citando um trecho do livro:

Mas a eletricidade não desapareceu, meu jovem amigo. Se ela tivesse desaparecido, nós não existiríamos mais, teríamos retornado ao nada, nós e o universo. Nós, esta mesa, este seixo, tudo isso não são senão combinações maravilhosas de força. A matéria e a energia são uma única coisa. Nada pode desaparecer, ou tudo desaparecerá junto. O que se passa é uma mudança nas manifestações do fluído elétrico. Uma mudança que nos aborrece, que demoliu todo o edifício da ciência que construímos, mas que sem dúvida não tem nem mais nem menos importância para o universo que a batida da asa de uma borboleta. (...) Capricho da Natureza, advertência de Deus? Vivemos num universo que acreditamos imutável porque sempre o vimos obedecer às mesmas leis, mas nada impede que tudo possa bruscamente começar a mudar, que o açúcar se torne amargo, o chumbo leve, e que a pedra voe ao invés de cair quando a mão o solte. Não somos nada, meu jovem amigo, não somos nada...

É o tema anticivilizacional que se faz presente, a desconfiança perante os rumos do "progresso" infinito mediante os esforços da Razão. 

Barvajel também antecipa/flerta com a crítica foucaultiana sobre a biopolítica, isto é, sobre como os poderes  instituem práticas e modalidades de controle dos corpos. Abaixo o trecho:

Em 2026, uma vaga de nervosismo e de pessimismo ameaçou a nação e provocou uma recrudescência enorme de divórcios e suicídios. Avisado pelo Grande Conselho Médico, o governo lançou um decreto urgente. Toda a população passou pela cadeira de choque. (...) O resultado foi tão convincente que uma lei instituiu um exame mental anual obrigatório para todo mundo (...) Os que eram simplesmente nervosos, ansiosos, teimosos, afetados, gagos, tímidos, os que ficavam ruborizados por nada, e os que dormiam em pé, os sem memória, os faladores noturnos, os distraídos, os comedores de mosca, os rangedores de dentes, os medrosos, os pretensiosos, os tagarelas, os taciturnos, os boquiabertos, os excitados, os mudos, os coléricos, os contritos, em poucas palavras, os desarranjados, recebiam apenas uma pequena sacudidela que os repunha no caminho certo do homem médio de que eles tendiam a se desviar.

O que motivou, afinal, o fim da eletricidade? Isso não fica claro no livro: não se sabe se foi um capricho da Natureza, ou o prometido ataque de uma arma secreta do "Imperador Negro" (um déspota de origem africana que governava a América do Sul: esses franceses não perderiam a chance de estigmatizar mais uma vez o continente...). Isso não compromete a história, mas chega-se ao final com a enorme interrogação latejando na mente. Ou talvez fosse esse o objetivo exato de Barvajel: as catástrofes acontecem simplesmente porque acontecem, sem nenhuma razão aparente, sem nenhuma explicação a amenizar nossas dores. 

Catástrofe que não foi sentida por todos igualmente: após um tempo indeterminado fugindo de uma Paris transformada em cenário de violência e fome, o grupo de peregrinos finalmente alcança um povoado rural. Ao encontrar um velho camponês, François, o líder do grupo, os apresenta como sendo "os sobreviventes da catástrofe":

O velho levantou em direção a François seu rosto negro de sujeira e de rugas, abriu a boca, pigarreou, fez um grande  esforço e rangeu:
- Que catástrofe?
Fica clara a mensagem: o mundo que terminara era o mundo da Cidade, o mundo da civilização. O mundo rural, a esfera da Cultura, pouco ou nada sentiu o abalo que aqueles citadinos famintos e machucados deixaram para trás. Lentamente, vão se adaptando ao modo de vida encontrado na região rural, que continuou sua marcha de modo muito mais tranquilo e sem os sobressaltos bárbaros que destruiram Paris (e possivelmente todas as demais cidades do mundo, se é que foi um fenômeno global - a incerteza domina o livro). Nesse mundo rural, gradualmente, vemos o autor caminhando agora em largas descrições, cuja temporalidade se acelera: anos se passam em apenas duas, três páginas. Os eventos, narrados com maior velocidade, mostram como o mundo rural foi se adaptando à nova realidade sem eletricidade; de como pequenas propriedades, por necessidade de garantirem a própria segurança (havia grupos saqueadores, apesar de em menor quantidade quando comparado a Paris), foram se aglutinando em cooperativas; de como essas cooperativas foram aos poucos evoluindo para comunidades mais fortificadas, como pequenos castelos; e de como entre elas existia um pacto de honra e reciprocidade - em suma, o mundo pós-eletricidade vai ganhando contornos cada vez mais feudais. A figura do chefe, cristalizada em François, ganha contornos heróicos e patriarcais, a ponto de que, por necessidade de repovoarem o mundo, é instituída a poligamia (para os homens); novas comunidades surgem, todas sob o mesmo espírito de manter-se fixadas a uma terra, aos costumes frugais, completamente hostis ao mundo da técnica e do progresso, até que nas novas gerações as antigas máquinas se transformam em carcaças de um passado que felizmente jamais retornará.

Convenhamos que se trata de um final um tanto quanto forçado, e que parece ter sido encaixado à narrativa de modo até mesmo arbitrário. Essa sensação de estranhamento deve-se, justamente, à mudança de ritmo que o romance adota em seu final, onde ao grande nível de detalhamento presente na primeira e na segunda partes (a vida em Paris e depois a fuga para o campo) adota-se na terceira e última uma descrição en passant que recobre quase sessenta anos. Além dessa questão formal, a aposta que Barvajel faz de um retorno a um modo de vida feudal não convence nem mesmo o medievalista mais entusiasta em reviver os gloriosos anos da vassalagem. Em suma: trata-se de um final decepcionante, apostando em um otimismo sem reservas que contrasta terrivelmente com o quadro de descrença que o autor pinta sobre a civilização nas primeiras partes do livro, e que termina por tornar opacas as excelentes descrições dos acontecimentos que transformaram Paris em uma cidade completamente enlouquecida após o fim abrupto da eletricidade.

8.26.2012

"I, Pet Goat II" - o vídeo e sua simbologia


Conheci esse vídeo hoje através de um amigo (obrigado!), e já o assisti incontáveis vezes. E cada vez que o assisto, descubro novos elementos. 

De longe, é um dos vídeos mais interessantes que já assisti em toda a minha vida. Só a a sua extrema carga simbólica (que ainda não consegui apreender totalmente, e tenho a modéstia de reconhecer que dificilmente conseguirei) renderia um volumoso tomo de análises. É inegável a força que tais símbolos conservam, a ponto de não ter nenhuma fala no vídeo, e ao mesmo tempo ele ser capaz de comunicar muito mais coisas em seus breves de sete minutos do que a tediosa verborragia de muitas pessoas por aí. Fez-me refletir que calar, mais do que falar, é o que importa nesse mundo.

Uma obra de arte que mostra como os sofisticadíssimos recursos de animação podem ser utilizados para fins muito mais profundos do que na produção de blockbusters para crianças e adultos infantilóides. Abaixo, traduzi um artigo publicado no site The Vigilant Citizen, que aborda alguns aspectos do simbolismo de "I, Pet Goat II". Recomendo, entretanto, assistir ao vídeo algumas boas vezes antes de lê-lo - afinal, o grande encanto é a sensação de perplexidade e fascínio que os símbolos suscitarão. Valerá, e muito, cada segundo de sua atenção.


O simbolismo esotérico do vídeo "I, Pet Goat II"

“I, Pet Goat II” é uma animação carregada com mensagens silenciosas e simbolismo esotérico. O filme não tem diálogos e cada símbolo conta uma parte de uma história que abrange os campos da história, da política, conspirações ocultas e espiritualidade. Vamos olhar para o significado esotérico por trás da sensação viral "I, Pet Goat II".

Produzido pela produtora canadense Heliofant, "I, Pet Goat II" é uma animação que rapidamente se tornou viral através da internet. Elogiado por suas proezas visuais e seu fantástico imaginário, o vídeo deixou muitos confusos sobre o significado de seu simbolismo.

Política, conspirações e operações de manipulação por falsas bandeiras são misturados com espiritualidade esotérica e simbolismo oculto de maneira grandiosa e hipnotizante.

Após assistir ao vídeo, muitos podem dizer algo como "O que diabos eu acabei de assistir?". A história é um pouco não-linear e há muitos elementos enigmáticos do filme. Esse artigo não vai decodificar totalmente cada quadro do vídeo, mas muitas das mensagens são facilmente compreensíveis devido ao seu alto nível de simbolismo.

Em geral, o filme parece ser sobre o clima político e social da década passada - com presidentes fantoches, terrorismo e estratégias de controle mental. Então, através do surgimento de uma figura similar a  Cristo, deixamos toda a tristeza para trás para entrar uma nova era de sol. Em suma, a história é sobre o triunfo da iluminação espiritual contra as forças das trevas. Vamos olhar para o filme e em alguns de seus muitos detalhes.

O vídeo começa com uma cena interessante: uma bode dentro de uma caixa, no que parece ser algum tipo de campo de concentração. O bode tem um código de barras em sua cabeça com o número "666" debaixo dela. Se "I, Pet Goat" é sobre a liberação das forças das trevas, esta primeira cena parece representar exatamente o oposto. Será que o bode representa aqueles que foram "encaixotados", sofrendo uma lavagem cerebral pelo sistema corrupto? O uso do pronome "eu" no título implica que o cabra pode ser, de fato, o próprio espectador.

O Puppet Show que é a política
Na primeira parte do vídeo, um mestre das marionetes escondido controla George "Dubya" Bush dentro de uma sala de aula. Quando os aviões bateram no World Trade Center em setembro de 2001, Bush estava dentro de uma sala de aula fazendo uma leitura do livro "My Pet Goat"  para as crianças. O chão quadriculado ao estilo de uma loja maçônica da sala de aula pode significar que esta farsa tinha um componente ritualístico para ele.

Bush dança, faz caretas assustadoras e diz coisas aleatórias para manter as massas sem pistas sobre a verdade. Acima de Bush há um gráfico interessante mostrando a evolução da humanidade a partir de peixes para macaco e depois ao homem segurando uma arma. O que é a etapa final da evolução? O homem iluminado, representado por um sol em torno de sua cabeça.

Bush usa um chapéu de burro, este chapéu cônico que foi dado aos estudantes "mais lentos" para humilhá-los. Quando Bush se dá conta de que é um tolo, ele se transforma em Obama, um homem encantador e distinto usando um boné de graduação. Ele começa agradável e amável, mas depois começa a rir o público. Enquanto ele parecia ser a resposta e contraponto perfeitos para a idiotice da era Bush, o fato é que ele é simplesmente um outro fantoche controlado pelo mesmo mestre das marionetes, que permanece oculto.

Enquanto a maioria do público está totalmente alheio ao que está acontecendo, uma menina não está comprando isso.

Enquanto as massas parecem ser surdas, mudas e cegas (e contidas por arame farpado), esta menina percebe que "esta maçã não é dela e deixa-a cair". Obama se mostra preocupado com o despertar dessa menina. (Nota:a  maçã é o símbolo do Pecado, e ao deixá-la cair de suas mãos, a menina está rejeitando o caminho do Mal - e tanto é que, da maçã, da pecaminosa maça, surge uma Flor de Lótus, símbolo oriental da Iluminação Espiritual. Esse símbolo retornará adiante.)

Estamos, então, levado para o mundo frio de neve em volta da escola. Em uma parede, há uma pichação com uma mensagem importante por trás disso: na parede da escola há uma pichação dizendo "Salmo 23".

O versículo bíblico que é referido pelo grafite parece prever a viagem telespectadores estão prestes a embarcar: "O Senhor é meu pastor, nada me faltará. Ele me faz repousar em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas, porque refrigera a minha alma. Ele me guia pelos caminhos corretos por amor do seu nome. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte não temerei mal algum, porque tu estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam. Você prepara uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos. Unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Certamente a sua bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor para sempre."


Um mundo em decadência
O mundo lá fora está escuro, frio e, literalmente, em decadência. É triste, corrupto e tudo está a tremer e ruir. Em um ponto, duas torres - clara alusão ao WTC - caem. Depois, aprendemos que foi um trabalho interno: Bin Laden está usando um crachá da CIA, insinuando para o fato de que ele era uma ferramenta usada pelo governo americano para avançar sua agenda. A lua crescente, um símbolo associado com o Islã, é invertida, que pode ser uma forma de dizer que tudo o que a Al-Qaeda faz é uma perversão e uma exploração do Islã.


Enquanto vazamentos de óleo de todos os lugares, uma estrela de seis pontas aparece sob a Estátua da Liberdade, rebatizada pelos criadores do filme "A Dama da Servidão". É a estrela de seis pontas (ou Estrela de David) aparecendo sob a Senhora da Servidão uma forma de dizer que os EUA são altamente influenciados por Israel?

Enquanto o mundo está desmoronando, muitas instituições antigas desaparecem ou são destruídas.

Esta mesquita é destruído por caças
Esse trabalhador latino está afundando, junto com sua foice e o martelo - representando o desaparecimento do marxismo em países do Terceiro Mundo. No site oficial do Heliofant é dito: "Depois de anos de exploração econômica e da degradação ambiental, Juan" Pepito "tem uma sensação decididamente afundando."


Controle das massas
O mundo está sob o controle de um malvado feiticeiro chamado Drako. De acordo com os criadores do filme, Drako é: "O Feiticeiro, a mão invisível e espírito de loucura buscando o controle cada vez maior através de trapaças, mentiras, venenos, bandeiras falsas, eventos, guerras e montanhas de leis e burocracia para desviar a energia dos habitantes da Terra. Ele teme a luz do dia como ele teme a própria vida, e opera nas sombras. Seu maior poder é o seu poder sobre a emissão da moeda."

Isso soa com o que chamamos de Illuminati? Sim, sim, sim.

Da mesma forma que os Illuminati procuram fazer lavagem cerebral em crianças desde o nascimento, Drako coloca suas garras nesse nascituro chamado Ludovic.

Olho reptiliano Drako o espera o nascimento de Ludovic

Na tradição esotérica, o símbolo do ovo de serpente entrelaçada é conhecido como o ovo órfico. Em suma, ela representa a semente latente de vida e do potencial infinito da criação.

Quando o ovo é chocado e a criança nasce, Drako literalmente toma o controle de sua mente de uma forma assustadora e parasitária.

Drako tem a pirâmide e "O Olho que tudo vê" encontrado na nota de dólar dos EUA em seu queixo. Não só representam o fato de que ele controla a moeda, como também representa os Illuminati. Debaixo dos olhos Drako há o ditado "Ordo ab Chao" - slogan favorito da elite ocultista. Além disso, o cara tem apenas um olho aberto. Ele poderia, assim, representar mais o Illuminati?

O Libertador
Em meio a todo esse caos, uma figura surge com o poder de renovar todas as coisas.

Navegando em um barco egípcio cerimonial, Jesus Cristo parece estar em transe.


A figura similar a Cristo tem um terceiro olho sobre a glândula pineal, que se refere ao conceito de iluminação espiritual. O triângulo acima do olho representa a divindade, significando que a iluminação leva ao contato com a própria natureza divina. Os símbolos na testa de Cristo estão em completa oposição a pirâmide no queixo do Drako. Embora ambas as figuras tenham símbolos similares em seus rostos, Cristo os tem "direito" e Drako em reverso / invertido, o que significa que ele (e os Illuminati) corromperam estes símbolos antigos.

Chamado pelos criadores do vídeo "O Fogo da Verdade", a figura de Cristo não é para ser o próprio Jesus Cristo, mas uma representação do conceito de Cristo Íntimo como definido pelo gnosticismo. De acordo com esta corrente esotérica do cristianismo, o Cristo Íntimo é o potencial encontrado em todos para chegar a divindade através da iluminação espiritual. No site Heliofant, O Fogo da Verdade é descrito como:

    "É VOCÊ! quando você está na consciência de sua filiação com o Divino e da irmandade da humanidade! "

Quando a figura de Cristo respira o Fogo da Verdade sobre o mundo, alguns personagens oprimidos ou angustiado voltam à vida, como Ludovic, a criança com cabeça de ovo. Além disso, Aali, um menino muçulmano que apareceu golpeado e morto sobe de volta à vida.

O pequeno Aali sobe nos destroços da mesquita destruída, girando vestido e um tradicional traje dervixe. O menino está executando a antiga arte de dança Sufi, que é praticada pelos dervixes sufis da ordem de Mevlevi. Os dervixes são uma corrente esotérica antiga do Islã. "Os mistérios da fé islâmica estão agora sob a guarda dos dervixes - homens que, renunciando ao mundo, resistiram ao teste de mil e um dias de tentação. Jelal-ud-Din, o grande poeta persa sufista e filósofo, é credenciado por ter fundado a Ordem Mevlevi, ou os "dervixes dançantes", cujos movimentos exotericamente significam os movimentos dos corpos celestes e esotericamente resultam no estabelecimento de um ritmo que estimula os centros de consciência espiritual dentro do corpo do dançarino." - Manly P. Hall, The Secret Teachings of All Ages

O renascimento do menino muçulmano como um dervixe sinaliza que existe uma ligação entre ele eo  Cristo interno: ambos representam iniciação em escolas esotéricas, escolas que têm um objetivo comum - o contato com a divindade através da iluminação espiritual. Outras religiões com correntes esotéricas como o hinduísmo (representada por um Shiva dançante), também são representados no filme.

Quando a figura de Cristo sai da Catedral, o edifício (que era guardada por um gárgula) desmorona atrás dele.
Nesta nova era de iluminação espiritual, edifícios elaborados pelo homem tornam-se desnecessários e ultrapassados. Eles, portanto, desintegrar-se-ão e desaparecerão.
Quando a noite se transforma em dia, a figura de Cristo abre os olhos de fogo e navega em direção à luz do sol. Flores de lótus, símbolo da iluminação espiritual na filosofia oriental, aparecem novamente no vídeo, surgindo atrás dele, confirmando para os telespectadores de que o caminho para a liberdade é, na verdade, um caminho espiritual.

Em Conclusão
""I, Pet Goat II" tem recebido muitos elogios por sua habilidade técnica e sua narrativa original. Embora não haja nenhuma narração ou diálogo, uma história elaborada é entregue usando a língua mais antiga e universal na História: símbolos. Através de símbolos, o filme consegue entregar uma crítica mordaz da civilização ocidental de hoje, para descrever seus males numerosos e mesmo prever sua queda inevitável. Mais importante, uma decodificação completa do simbolismo do filme revela uma poderosa mensagem de iluminação espiritual com base em antigos mistérios. Embora este aspecto esotérico do filme possa não ser entendida por muitos, é o cerne do filme e é apresentado como a solução definitiva para os males e corrupção do mundo de hoje. A conclusão do filme é, portanto, muito pessoal: ou você se torna um bode de estimação com um 666 em sua testa ou então um Cristo com um terceiro olho na testa. Esta noção de iluminação pessoal é definitivamente gnóstica e é comum à maioria das escolas esotéricas de todas as civilizações.Concordando ou discordando com a conclusão espiritual do filme, é mais que óbvio que os criadores de "I, Pet Goat II" são conhecedores de temas esotéricos. Cada cena tem uma profunda história subjacente - seja histórica, política ou espiritual - que levaria páginas e páginas para explicar minuciosamente. Aí está o poder dos símbolos: eles podem simplesmente ser admirado por sua beleza estética ou podem, quando totalmente compreendidos, revelarem uma história profunda sobre a humanidade, Deus e muito mais.

Fonte: http://vigilantcitizen.com/moviesandtv/the-esoteric-symbolism-of-the-viral-video-i-pet-goat-ii/

8.20.2012

Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn


































Esboço do Cthulhu com data de 1934 feito por seu criador, Howard Phillips Lovecraft (20/08/1890 a 15/03/1937).


8.12.2012

Exposição "Gatinhos fofinhos"


Conheci o Shoker faz alguns anos, no circuito psychobilly de São Paulo. E como é comum nesse tipo de subcultura, acabamos por conhecer apenas uma faceta das pessoas, mesmo que se mantenha algum grau de relacionamento com ela. Assim, após anos de contato, eis que descobri que Shoker é, também, um artista de engenhosa habilidade, produzindo telas que já abocanharam duas recentes exposições em São Paulo.

A mais recente série de telas dele, "Gatinhos fofinhos", foi analisada recentemente para a exposição que ocorreu na festa de dois anos da casa Lab, na rua Augusta. Rigorosamente analisada, diga-se de passagem, e trazendo à tona as diversas camadas de significado e influências pop que instigam sua produção. Resolvi publicar essa análise aqui. Você pode ver as obras e saber mais sobre o Shoker em sua página do Facebook: https://www.facebook.com/shokerart

Gatinhos fofinhos
O tema unificador da coleção, como seu curioso título "Gatinhos Fofinhos" indica, está no uso sugestivamente exagerado de padrões decorativos com o formato dos felinos sobre cenários bélicos, místicos, industriais e psicodélicos. Dentre as obras expostas, dou destaque para "Ronronando", na qual o interior de gatos movidos por engrenagens é retratado - engrenagens estas que remetem diretamente ao ícone da 'clockwork fruit', eternizado na arte de "Laranja Mecânica" de Anthony Burgess. Tomo esta obra por exemplar pelo fato de ela poder, de forma elucidativa, trazer à luz o tipo de registro conceitual que ganha corpo no trabalho do artista conforme nos deparamos com o restante de suas obras. Autodidata no campo, o início do envolvimento prático de Shoker com o campo das artes plásticas não se dá nas academias, mas diretamente na prática, mais propriamente em seu trabalho conjunto com o ex-restaurador da Pinacoteca do Estado e artista multitalentos Luiz Antônio Barbosa, o "Labar"( @Luiz Antonio Barbosa ). Na condição de pupilo, Shoker aprende com o mestre o ofício da restauração de patrimônio histórico e técnicas mistas exploradas por grandes nomes do Modernismo brasileiro. As marcas mais evidentes destes anos de aprendizagem se deixam ver na série em atual desenvolvimento - sugestivamente entitulada 'Restauração de patrimônio histórico' - na qual restaura-se, ao invés de painéis e catedrais, escapamentos e objetos de uso pessoal de tempos imemorais - objetos achados relegados ao esquecimento que tomam forma novamente nas mãos do artista, recuperando não apenas seu estatuto de coisa propriamente dito, como também ganhando marcas do questionável gosto atual pelo decorativo, pelo ingênuo, pelo 'cute'. Em outras palavras: há neste rito de passagem da técnica, digamos, do mestre para o pupilo, um polêmico questionamento acerca dos fins da arte enquanto repositório de resultados histórico-culturais, da convicção daquilo que precisa ser restaurado, para quem algo precisa ser restaurado... Aqui reside o cerne conceitualmente frutífero presente nos trabalhos do jovem pintor. Ao voltarmos nossa atenção para a coleção 'Gatinhos Fofinhos', reencontramos o mesmo jogo com a razão de ser do objeto de arte, ainda que em chave distinta. Nela, opta-se pela exposição de signos quaisquer espalhados pelo mundo (pentagramas, baús de armamentos, vasos), sendo retratados na tela sempre em conjunto com padrões decorativos. Este se trata não de um decorativo que representa, mas que sobra, que banaliza, ao menos em face daquilo que ele traz por trás de si. Ele é um decorativo que lá está ironicamente com o fim de garantir seu apelo para nosso tipo de geração de fruidores de imagens; uma geração de especialistas em coisas que lhe causam apelo visual, cujo apetite estético é alimentado por mecanismos que nos propõem o mundo sem que tenhamos que sair de casa. A última série que tive oportunidade de ver, 'Jogatina frenética', instalação autodeclarada "mista: beneficiada por técnicas como 'cocaína sobre tela' e mais objetos achados", deixa ver o interesse no uso de técnicas multivariegadas do artista - assim como seu repertório ganhando corpo e maior solidez. Aguardo desenvolvimentos posteriores deste empenho em explorar algumas questões básicas da expressividade artísticas - estranhamente repletas de tabús e protecionismos por parte da academia - a partir da delicada percepção de que produzir algo em um formato 'artístico' corre o constante risco de resultar em uma incorporação de mais um objeto a este gigantesco repositório de signos que reconhecemos sob a alcunha de 'artes plásticas'.

8.06.2012

Blue Sabbath Black Cheer




Nascida em Seattle em 2005, extensa produção em K7s, vinil e CDs, "black acid noise doom drone hate", várias (e catárticas) apresentações ao vivo, "the end of the world".

Baixei na sexta os LPs que o Blue Sabbat Black Cheer fez em colaboração com o Irr. App. (Ext.) ("Skeletal Copula Remains", de 2009, e o "Skeletal Imposition, de 2011") e ficou em looping durante toda a madrugada de ontem para hoje. Eu tinha aqui o "Doom mantra" e o "The endless blockade", duas mosntruosidades de perturbação e horror (anti)musical, e esses lançamentos colaborativos reacenderam o interesse pela banda.

Site oficial da banda aqui. Vídeo + fotos  + artes de alguns de seus muitíssimos lançamentos abaixo.









Tarifa Zero



Quando ouvi há tempos atrás falar do projeto Tarifa Zero - aquele que faria com que o transporte público fosse gratuito em São Paulo - de imediato considerei uma idéia legal, mas impraticável em todos os sentidos. 

Até que eu assisti ao vídeo acima e mudei de opinião: o Tarifa Zero é perfeitamente possível de ser implantado e, mais do que isso, é uma necessidade cada vez mais premente. E não apenas pelo transporte "gratuito" em si, mas por dar um fim ao absurdo das concessões que são fechadas como acordos entre criminosos; por diminuir os gastos públicos com manutenção de ruas e avenidas; e principalmente por afetar a lógica de organização da cidade como um todo, colocando sob um prisma mais público a locomoção diária e a apropriação do espaço pelas pessoas, colocando em segundo plano a adequação de todas as vias urbanas para o fluxo de automóveis - como acontece hoje em dia. 

Inclusive, você sabia que em São Paulo durante o período de 1990 a 1992, teve na zona sul um projeto piloto do Tarifa Zero, que ligava um terminal de ônibus gratuitamente com várias linhas dos bairros próximos? E que, como esperado, aumentou bastante a utilização dos ônibus, mas sem prejuízo do serviço? E contrariando todas as perspectivas catastróficas (que transparecem claramente preconceitos de classe) não houve vandalismo, nem quebra-quebra, nem nada disso?

Além das questões referentes ao transporte público há dois elementos que aparecem indiretamente no vídeo, que não dizem respeito ao Tarifa Zero em si, mas que gostaria de comentar. O primeiro: para cargos públicos, sejam quais forem, é necessário que o indivíduo tenha uma formação minimamente adequada. Desde os tempos da Suméria, questões públicas tem componentes ideológicos (que já são complexos) e técnicos (por vezes ainda mais complexos que os antecessores). Sendo assim, quando vejo tipos folclóricos como Tiririca sendo eleitos, me pergunto: eles teriam a capacidade de analisar questões complexas, de cruzar informações e emitir um juízo adequado a respeito delas? Teriam uma ampla visão para enxergar as minúcias, pensar a cidade (ou estados, ou até mesmo o país) em uma perspectiva de médio e longo prazo? O Inferno está abarrotado de almas cheias de boas intenções e, na política, elas podem embelezar os discursos, mas poucos frutos trazem para a vida prática. Já o outro elemento é algo ainda mais difícil de ser visto, em especial no estágio atual de decadência do mundo: para enfrentar determinadas questões públicas é necessário ter um grau quase heróico de coragem. Bate-se de frente com interesses, com egos inflados, com esquemas criminosos mamando nas tetas dos submundos do poder. Que homens públicos atuais teriam tal capacidade? 

É sobre isso e muito mais que Lúcio Gregori, idealizador do Tarifa Zero, fala no vídeo. Vale muito a pena assistir.

Mais sobre o Tarifa Zero em http://tarifazero.org