3.26.2010

Cioran por Boué


Atualizamos o blog da UGRA com uma entrevista com Simone Boué, a mulher de Cioran.

Talvez a única pessoa no mundo que compartilhou da intimidade com o velho romeno, a leitura da entrevista, publicada na revista El Malpensante, de Bogotá, revela alguns aspectos cotidianos do pensador.

Vejam http://ugrapress.wordpress.com/2010/03/25/cioran-por-boue/

Algum dia volto a escrever aqui. Nunca escrevi muito e envergonha-me escrever qualquer coisa após contínuas noites lendo Gogol e Cioran. Na verdade, é preguiça, esgotamento e uma autocrítica que não perdoa vírgulas mal colocadas. Ao inferno tudo que respira.

3.18.2010

Kashiwa Daisuke

Há algumas experiências que são especiais e que nos valem lembranças inúmeras. Também há músicas assim: chegam até nós com seus acordes banais e então nos vemos hipnotizados. Retiram-nos do ambiente prosaico e vulgar do cotidiano, colocam a vida em um novo patamar de Beleza em sua duração de minutos. Mesmo quando as ouvimos de novo, a fruição estética da primeira audição nunca se repete. Ainda nos emocionamos, mas o impacto não é -e jamais será- o mesmo.

Falei dos minutos que duram as canções. Na verdade, as grandes canções são apreciadas fora da escala de tempo ao qual estamos submetidos. Um professor meu disse certa vez que um relógio no pulso só pode ser visto como uma ofensa; é uma espécie de grilhão, mas discreto; aprisiona em larga escala e, pior, pagamos por ele, ou o ganhamos com imensos sorrisos de satisfação. É como se, ao abrir as portas da senzala, fossemos entrando nelas aos saltos.

É por isso que, quando conhecemos certas músicas, elas nos inspiram uma sensação de profundo deleite; respiramos com a leveza que apenas os libertos experimentam; o tempo de duração da melodia nos escapa, e é como se mergulhássemos em um ambiente onde nenhum ponteiro ou ampulheta faz sentido. O ritmo eterno de auroras e crepúsculos nada nos diz. Apenas ouvimos, e de cada nota escorre um saboroso líquido que embebeda a alma.

Kashiwa Daisuke é uma das bandas que conseguem criar canções assim. Eu fui apresentado a essa preciosidade por um amigo. A música abaixo é a primeira do Kashiwa Daisuke que eu ouvi. Na verdade, trata-se de um trecho, pois a versão completa tem mais de 30 minutos. Nada mais posso dizer a respeito: apenas ouça. Certas coisas são ridículas quanto comentadas e estou me sentindo ridículo por ter escrito tantas infelicidades para tentar explicar a música mais maravilhosa que já pude ouvir em toda a minha vida.

3.12.2010

Blog da UGRA mostra a última entrevista com vocalista do WORSHIP


Na verdade, possivelmente a última entrevista, que ficou por anos perdida nas anotações do Drógäss. A única certeza é que, pouco depois dela ter sido finalizada, o Fukked Up Mad Max se matou.

Hoje subimos a entrevista no blog da UGRA, com um link para baixar a demo do BEER VOMIT, um projeto noisecore dele. Você, amante da essência do underground anos 90, rockeiro doidão ou simplesmente um sujeito interessado em uma entrevista sobre (anti)música, misantropia e afins, vai gostar.

Eis o link http://ugrapress.wordpress.com/2010/03/11/beer_vomit/

3.10.2010

Trecho de um diário de Lúcio Cardoso


Desde a leitura que fiz de Crônica da casa assassinada -talvez o livro mais injustiçado da literatura brasileira- o nome de Lúcio Cardoso figura na minha lista dos escritores que conseguiram fazer de seus textos uma espécie de organismo vivo, um texto que vibra e pulsa em cada novo período.

Relendo anotações velhas antes de ir para a cama, encontrei esse trecho que transcrevi de seu diário, obra lançada em 1970 pela José Olympio. Os diários são sempre fabulosos: isentos dos caprichos estilísticos que muitas vezes afogam as explosões do sentimento, suavemente transmitem uma autenticidade que o romancista se esforça para obter. As personae são abolidas, e o escritor não tem motivos para esconder os recalques, as taras e as imprecisões que os editores observariam com severidade. Fluem os ódios e os abismos, a intimidade é devassada, o desejo voyerista do leitor farta-se aos montes. E no trecho que compartilho com vocês, vemos um Lúcio algo profético, que vê na Tijuca dos anos 1960 um pesadelo hedonista que estava apenas começando, sintomas da Kali-yuga que hoje vivenciamos em estado hipertrofiado:

"Vou com Fregolente à Barra da Tijuca, onde durante algum tempo, infeliz e sem repouso, viajo através de uma multidão feia, triste e sem nenhuma dúvida profundamente desgraçada. Só a desgraça alimenta uma tal sede de divertimento. Aliás, é sempre este o aspecto de um aglomerado que se reúne à procura de esquecimento: os limites humanos surgem com avassaladora nitidez e o rebanho festivo adquire um aspecto confrangedor, de coisa abandonada e amaldiçoada. Não é precisamente nesses minutos, nesses e não em outros, que ousamos desejar para toda essa gente uma catástrofe comum, uma guerra, uma inundação ou até mesmo um ataque coletivo de insânia ou de crueldade - qualquer coisa enfim que agite essas carnes moles que se estendem ao sol, domesticadas pela preguiça, pelo álcool e por uma sensualidade grosseira e sem profundidade?

Talvez o amanhã pertença a gente dessa espécie - talvez sejam eles os coordenadores do mundo em que começamos a viver. Mas são tão melancólicos e tão estritamente confinados à sua miséria, que possivelmente estão muito longe de perceber o que se passa. O Deus antigo, o Deus do terror e das hecatombes, bem poderia agora esparzir esse sangue bruto ao longo das areias mornas - bem poderia brandir um raio ou soprar uma rajada morna de demência - qualquer coisa finalmente que fizesse sangrar essas almas cativas, tornando-as acordadas e viris. Há uma determinada sonolência da alma, que só o castigo e o medo conseguem afastar. Os ferros do tempo dos escravos ou as tenazes ardentes da Inquisição, tudo serviria para fazer vir à tona das faces uma sombra de sentimento ou de espírito. Mas é inútil sonhar, eles apenas vivem uma agonia sem sentido, enquanto aconchegam ao sol brando, sem amor e sem piedade, as velhas carnes mal-tratadas.

(Inútil conter, é muito forte o sopro de impiedade que me atravessa. Ó carnes abastadas e domingueiras! Custa a crer que tenha havido um mistério da Encarnação, e que um Deus autêntico tenha descido a este mundo para redimir tal rebotalho... Sim, as revoluções, que são exteriores, podem lidar com isto - mas a religião, que fará desta vontade assassinada?) "

Em tempo: Lúcio Cardoso era um católico. Por católico não entenda a "religião" de Padres Marcelos ou outros alucinados quaisquer. Muito menos busque pontos de contato com a degeneração evangélica, que nada mais que é que um culto do desespero e da moral de rebanho em uma configuração ideal. O catolicismo de Lúcio se explica por um forte sentimento de antimodernidade, por uma rejeição do materialismo filosófico e por uma atitude trágica perante a vida. Sobre esse assunto, qualquer coisa que eu diga seria desnecessária, já que nesse artigo tudo está dito com muito mais propriedade: http://www.filologia.org.br/soletras/8/02.htm

3.09.2010

Histórias de Amantes VIII


VIII

Gostavam de passar as tardes juntos, caminhando pelas longas praias da cidade, usufruindo da companhia um do outro, da agradável sensação de ser alvo dos mimos e cuidados de alguém. E de fato tudo entre eles era sincero e bonito, mesmo quando visto de longe; devido a isso, uma enorme quantidade de corações feridos os miravam tocados pela inveja, ou então com um suspiro, que nada mais é do que uma inveja impotente e ressentida.

As areias das praias, acostumadas que estavam com os passos daqueles amantes, em uma certa tarde sentiram a falta deles. Na tarde seguinte também. E igualmente na outra. Foi assim por incontáveis dias, até que a mulher apareceu sozinha, sem aquele homem segurando sua mão nos passeios sem fim ao longo das areias das praias. Desnecessário dizer que seu caminhar era mais lento, que sua cabeça pesava em uma atitude de subserviência ao Irremediável - e dizer isso é o suficiente, já suspeitamos do que ocorreu, já nos entristecemos por aquela mulher deixada sozinha para caminhar na praia, relembrando as conversas com aquele homem que agora era uma coisa, um amontoado de células que se desfazem, um arremedo da virilidade que tantos prazeres lhe tinha proporcionado.

Passo após passo ela todavia continua andando, e os olhares da inveja que outrora acompanhavam seu caminhar agora não existem mais. Aqueles passeios vespertinos, celebração de um amor calmo e inabalável, são agora nada mais do lembranças; em seu luto, tentou manter acesas a todas elas, como uma ode ao seu querido que se foi para o Nada; apesar disso, teve que reunir forças sobre-humanas para voltar à praia, para mais uma vez percorrer, agora solitária, aquele trajeto que por anos pertenceu inteiramente a eles. E naquele cortejo fúnebre de uma mulher só os ventos litorâneos pareciam cantar uma nênia antiqüíssima, e ela chorava a cada novo passo com toda a força de seu ser despedaçado. Com cicatrizes profundas, daquelas que rasgam o espírito, conhecia uma verdade que não pode ser ensinada, conhecia um mistério que só se penetra pela experiência: que dor nenhuma, absolutamente dor nenhuma nesse mundo é comparável àquela de ser testemunha da morte de alguém que se ama.

3.06.2010

Novos mitos


Joseph Campbell, em O Poder do Mito, resume a história do Ocidente através de uma fórmula simples: os edifícios mais altos de uma cidade indicam qual é o seu centro dominante -e desse centro emanam os seus valores e mitos.

Na Idade Média, a religião era o grande prisma, o grande ponto de contato entre os indivíduos. A Catedral de Chartres, em França, é o exemplo dado por Campbell. Nos séculos dos príncipes, com o advento das Luzes, os palácios substituíram as catedrais em grandeza e magnitude. O poder político como soberano, consagrado pela fórmula "l´État c´est moi". Na contemporaneidade, são os edifícios que abrigam as grandes corporações que se arremessam como titãs na direção dos céus. Igrejas e prédios governamentais são anões comparados a eles. O paradigma dessa nova configuração arquitetônica de poder: as Torres Gêmeas.

Da espiritualidade para o Nada econômico, temos um percurso imenso e cujos detalhes não me permito aqui listar. Há livros inúmeros que tratam disso. Inquieta-me ainda -e esse post é uma inquietação, uma pergunta feita com sofrimento- as palavras de Campbell, que diz que os mitos são como sonhos: não é possível prever quais serão os próximos. Que assim seja: abraço essa impossibilidade como uma verdade revelada. Todavia, insisto em premonições sem brilho algum, em possíveis configurações de como, enfim, serão esses mitos que ainda não existem, ou talvez existam mas não cristalizados: as novas mitologias serão cunhadas com heróis carregando cifrões em suas frontes preocupadíssimas com as variações na Bolsa. Deselegantes, vestirão seus ternos feitos em série e carregarão não mais espadas e pesados escudos, mas celulares e notebooks cheios de arquivos inúteis. Sua jornada espiritual será amparada por receitas de tarja preta, seus ensinamentos compartimentados em PDFs de MBA, sua iluminação um nada feito por frases polidas colhidas de livros de auto-ajuda. Serão heróis estúpidos, orgulhosamente estúpidos, mas julgarão a si mesmos como homens a frente de seu tempo. Experientes em produzir ilusões, serão ainda melhores em consumi-las: praticamente todo o tempo de suas vidas será dedicado a apreciar prazeres irreais. Inconscientes de que são parte do mundo, passarão os dias em um hedonismo insaciável. A vida será vista como um passeio por um parque de diversões, as noites só terão sentido se forem dedicadas ao riso e risíveis serão aqueles que se preocupam com qualquer coisa que esteja além do baixo ventre. Anatematizados pelos heróis modernos todos aqueles que se esgueiram na noite da Dúvida e do Erro, bem aventurados os que se apegam a qualquer Certeza, a qualquer Convicção -pois o apegar-se é o primeiro traço desse tipo novo de herói, e principalmente se esse apego tiver como objeto coisas sólidas e embrutecidas.