3.01.2017

Thursatru: o lado sinistro da religiosidade nórdica


Thursatru pode ser definido como uma tradição mágico-religiosa moderna originada da antiga crença escandinava nos poderes de Ginnungagap (o Caos Primordial), poderes esses denominados Thurses (singular Thurs), geralmente traduzidos como “gigantes”. Essa crença ancestral é o substrato do Thursatru, que a desenvolve dentro de uma perspectiva do Caminho da Mão Esquerda e da Gnose Anticósmica. E embora não exista nenhuma evidência concreta de que os povos do norte da Europa adorassem essas forças, o estudo dos textos presentes nas Eddas evidencia que havia uma crença muito bem estabelecida na existência de Ginnungagap e que dele provinha uma série de forças obscuras e poderosas – forças essas que antecediam a criação dos homens e até mesmo a dos deuses. 

A seguir, buscarei resumir os pontos principais dessa tradição, tendo como base o livro þursakyngi volume 1, segunda edição, lançado pela Ixaxaar em 2014. Seu autor, Ekortu, além do livro citado, lançou também o þursakyngi volume 2, que descreve de modo mais aprofundado a gnose de Loki, e também (assinando como Vexior, seu codinome anterior) as obras Panparadox e Gullveigarbók, além de artigos para a revista Clavicula Nox nas edições I, II e IV, todos pela editora Ixaxaar. Você pode acessar o site da editora aqui e ver o (genial) site de Ekortu nesse link aqui.

Para iniciar esse texto, é importante desde já estabelecer uma distinção entre Asatru e Thursatru, pois a similaridade de nomes pode levar a uma falsa conclusão de que este último nada é mais que uma degeneração e versão “malvada” do primeiro.

Detalhe da lombada do livro, com o apuro característico das edições da Ixaxaar

O Asatru nasce na Islândia em 1972 com o intuito de reconstruir a antiga religiosidade nórdico-germânica, tendo como panteão os Ases (deuses da luz e criadores/protetores dos homens, como Odin e Thor) e os Vanires (deuses ligados à fertilidade, como Freya).  Rapidamente se disseminou para outras regiões, sendo reconhecido como religião no seu país de origem e também, alguns anos depois, na Dinamarca e na Noruega.  Ao longo dos anos espalhou-se pelo mundo, alcançando Portugal, Espanha e até mesmo Argentina e Brasil. Mas é nos Estados Unidos que obteve um avanço significativo, com centenas de entidades Asatru espalhadas por todo o território. Esse crescimento teve como impulso tanto o interesse por paganismo iniciado a partir da década de 70 como também, infelizmente, no entusiasmo com que adeptos da supremacia branca ingressaram no Asatru, buscando uma religiosidade que se originasse em suas imaginárias raízes ancestrais (na verdade, um pretexto para dar ao seu ódio certo ar de legitimidade).


O Thursatru não tem absolutamente nada a ver com isso: não busca reconstruir nenhuma religiosidade “autêntica”, mas sim, de modo consciente, criar uma fusão de tradições nórdicas com inovações modernas, acreditando que o sincretismo é não somente fonte de poder, mas também algo que opera em sintonia com o aspecto amórfico e anticósmico dos Thursa. Além disso, o Thursatru não distingue magia de religião (o Asatru é uma religião bastante exotérica) e volta-se radicalmente para a jornada interior do adepto e pela busca de um conhecimento supramundano. É uma tradição cuja perspectiva da existência tem muitas similaridades com a gnóstica, concepção onde os deuses criadores (seja Odin, Jeová, Zeus, Allah, etc) são tiranos responsáveis pelo aprisionamento da essência divina primordial do homem no seu corpo físico. Por isso, qualquer tipo de racismo ou nacionalismo nada tem a ver com Thursatru, posto que nessa tradição a única coisa que importa é o espírito. Embora nascendo com cores regionais, no seio da mitologia de um povo específico, transcendeu essa barreira meramente mundana e se coloca como uma tradição mágico-religiosa universal, aberta a qualquer um cuja devoção seja sincera.

É com base nessas premissas que se funda o objetivo principal do Thursatru: liberar o adepto das amarras cósmicas, entendidas como barreiras para sua evolução espiritual. Essa liberação é obtida através da criação de um nexo onde o adepto pode receber a thursastafir, ou gnose thursa, conhecimento acausal e desconhecido até mesmo pelos deuses Ases. Na criação de tal nexo, a principal dificuldade é vencer o que os textos gnósticos chamam de “intoxicação demiúrgica” (Ekortu faz uma recorrente aproximação entre Thursatru e gnoticismo). Ímpetos destrutivos, hedonismo e busca constante por distração e entretenimento são algumas das características dessa intoxicação, cujo poder aniquilador não conhece limites. O trabalho espiritual na via Thursatru visa opor-se a isso dissolvendo o hugr (ego) e liberando a Chama Negra das amarras demiúrgicas, posto que hugr coloca estreitos limites sobre como você identifica a si mesmo e aos demais (vaidades, desejos, preconceitos, etc – tudo entra aqui). “Consciente” de si mesmo, podemos acreditar que vivemos uma existência plena e livre quando, na verdade, apenas respondemos a estímulos pré-programados. É necessário morrer muitas vezes para vencer a morte e espiritualmente conectar-se com a Luz Thurs que emana dos domínios anticósmicos. Cito um trecho:

"Because of layers of cosmic powers which tie you down onto earth, you must search and find Thursian guidance and assistance; without their blessing, receiving and guidance you will always be a worthless tumor of flesh wandering the earth as a blind and weak slave, superficially loving yourself and your hugr."

Importante destacar aqui que, quando falamos em estabelecer um nexo com os poderes thursa, trata-se de forças fora das determinações de moralidade que conhecemos. Mais do que isso: são forças que agem, de modo radical e odioso, contra a criação - e nós somos parte dela. O trabalho com elas é, portanto, feito de extremos: uma vontade sincera e profunda encontrará gnoses radicalmente transformadoras e liberadoras, enquanto outra que seja vacilante e viciosa obterá um acúmulo de desgraças destrutivas e implacáveis. Ao aprendiz é recomendado cautela, mas também perseverança.


A criação do mundo: Ginnungagap
Nos escritos épicos, os Thurses são identificados com os gigantes primordiais que residem nas regiões limítrofes (e interditas aos deuses demiúrgicos) de Múspelheimr, ao sul, e Nieflheimr, ao norte de Midgard (Terra do Meio, que é o nosso plano causal). 

Em Múspelheimr há as chamas destruidoras da existência, relacionadas com as figuras de Sutr e Loki. O primeiro fica à porta desse reino incandescente, empunhando a espada que liberará as forças do Caos na batalha final de Ragnarök. Já Loki é o emissário do Caos no plano causal, a divindade-gigante que tem como objetivo trazer o distúrbio e a dissolução para o mundo manifestado. Seu papel nas narrativas mitológicas como um ardiloso maquinador de armadilhas para os deuses harmoniza-se com essa concepção.

Nieflheimr é o território da escuridão e do frio implacável. Nele reina suprema Hel, conhecida como “A Negra” (In Svarta), o aspecto feminino e terrível dos Poderes Thursa. Sua ancestralidade está além de qualquer compreensão humana. Cito um trecho do livro:

“The Nifl-powers or Rime-Thurses, Hrímthursar, are primordial powers even their alien world, and they are wise and powerful beyond cosmic comprehension. They are The Ones called ÚR, which is such an old conception that there is no synonym for it in modern English. ÚR could de explained to mean “the very uncontaminated origin of an essence”, and that is what they are: primordial antecedents, Fathers of great grandfathers and Mothers of great grandmothers”.


Esses dois mundos limítrofes são os portais para os elementos dissolutivos da criação que emanam de Ginnungagap – o abismo do Caos Primordial, onde reside o verdadeiro Deus Absconditus (outra concepção gnóstica que Ekortu aplica ao Thursatru). Quando teve início a criação de Asgard pelos Ases, o gigante Aurgelmir penetrou o cosmo através de Ginnungagap e enfrentou os deuses. Na batalha ele foi morto, os Ases despedaçaram o seu corpo e, com ele, fizeram o nosso mundo: seu sangue formou o oceano, os rios e todas as águas existentes; sua carne, o húmus e a terra; seus ossos, as montanhas; e com seus dentes, as rochas e as pedras. Disso é possível concluir que a criação demiúrgica tem um substrato acósmico que permite compreender o mundo de dois modos distintos: um mundano e outro sinistro. Por exemplo, a terra é tanto regida por Freya, deusa da fertilidade e da colheita, como também é, sinistramente, um atributo corporal de Aurgelmir, e pode ser tomada como veículo de comunicação com forças dissolutivas da vida. Nisso se explica também a relação especial que o Culto aos Thurses tem com rios e lagoas, considerados locais onde flui o sangue de Aurgelmir e portais poderosos para conexão com Hel e seus atributos necrosóficos.  

O livro ainda contém indicações práticas de como realizar o culto aos Thursa: montagem do altar, consagração de armas mágicas, correspondência entre elementos para feitura de espaço ritual, etc. Por ser o primeiro grimório de uma (aparente) série de três livros, é uma introdução mais do que completa.

A perspectiva de þursakyngi abriu meu olhar para elementos da mitologia nórdica geralmente negligenciados, estabelecendo paralelos entre os panteões da Europa Central e da Escandinávia que me escapavam. A interpretação de Ekortu, que estabelece uma ligação forte e genuína entre a gnose anticósmica e a crença em Ginnungagap, basilar em Thursatru, é instigante, especialmente a aposta de que no ecletismo e na correlação entre diferentes tradições o adepto encontrará fontes de poder. A todos os interessados pelo Caminho da Mão Esquerda, o Thursatru é uma tradição que vale a pena ser estudada.



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