12.28.2012

O burguês, por Hermann Hesse


"O “burguês”, como um estado sempre presente da vida humana, não é outra coisa senão a tentativa de uma transigência, a tentativa de um equilibrado meio-termo entre os inumeráveis extremos e pares de opostos da conduta humana. Tomemos, por exemplo, qualquer dessas dualidades, como o santo e o libertino, e nossa comparação se esclarecerá em seguida. O homem tem a possibilidade de entregar-se por completo ao espiritual, à tentativa de aproximar-se de Deus, ao ideal de santidade. Também tem, por outro lado, a possibilidade de entregar-se inteiramente à vida dos instintos, aos anseios da carne, e dirigir seus esforços no sentido de satisfazer seus prazeres momentâneos. Um dos caminhos conduz à santidade, ao martírio do espírito, à entrega a Deus. O outro caminho conduz à libertinagem, ao martírio da carne, à entrega, à corrupção. O burguês tentará caminhar entre ambos, no meio do caminho. Nunca se entregará nem se abandonará à embriaguez ou ao ascetismo; nunca será mártir nem consentirá em sua destruição, mas, ao contrário, seu ideal não é a entrega, mas a conservação de seu eu, seu esforço não significa nem santidade nem libertinagem, o absoluto lhe é insuportável, quer certamente servir a Deus, mas também entregar-se ao êxtase, quer ser virtuoso, mas quer igualmente passar bem e viver comodamente sobre a terra. Em resumo, tenta plantar-se em meio aos dois extremos, numa zona temperada e vantajosa, sem grandes tempestades ou borrascas, e o consegue ainda que à custa daquela intensidade de vida e de sentimentos que uma existência extremada e sem reservas permite. Viver intensamente só se consegue à custa do eu. Mas o burguês não aprecia nada tanto quanto o seu eu (um eu na verdade rudimentarmente desenvolvido). À custa da intensidade consegue, pois, a subsistência e a segurança; em lugar da posse de Deus cultiva a tranqüilidade da consciência; em lugar dos ardores mortais, uma temperatura agradável. O burguês é, pois, segundo sua natureza, uma criatura de impulsos vitais muito débeis e angustiosos, temerosa de qualquer entrega de si mesma, fácil de governar. Por isso colocou em lugar do poder a maioria, em lugar da autoridade a lei, em lugar da responsabilidade as eleições."

Trecho de "O lobo da estepe", do Hermann Hesse.

12.21.2012

Fim do mundo


Escrevo isso nos momentos que antecedem o Fim do Mundo, o 21/12/2012, que todos sabem que não irá acontecer mas ficam alardeando, com o cinismo fanfarrão que é a insígnia  máxima da cultura moderna [o período anterior é completamente contraditório e assim permanecerá, como prova de que a doença cínica contamina a todos, e não me excluo do séquito dos enfermos]. O ano, pesado, arrasta-se ao seu final e, como quase todo mundo, proponho-me a fazer um balanço do ano dois mil e doze de Nosso Senhor.

Nas leituras, gastei boa parte do meu tempo em 2012 com René Guénon. Ainda estou nos princípios da extensa obra dele, seguindo as instruções de leitura contidas neste guia do Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais . Resolvi empreender a leitura completa das obras de Guénon por um motivo: o crescimento de pessoas, editoras, encontros e grupos que levantam a bandeira da Tradição Primordial mesclando-a com política, ativismo e outras tendências da Via da Ação, muitas vezes com claro interesse beligerante, e que consideram a obra de Guénon um "atraso", um "erro", "passiva" demais em um mundo que pede, a todos os momentos, que se passe da contemplação para o campo de batalha. Só o tom imperativo de tais discursos, onde defende-se que estamos nos momentos extremados do Fim dos Tempos, onde em breve o mundo vai acabar, me dá uma espécie de nojo misturado com cansaço: parece que estou ouvindo as mesmas ladainhas apocalípticas daqueles crentes fanáticos que pregam na Praça da Sé, com suas Bíblias cheirando a axilas mal lavadas. Publiquei muitos textos do Alexander Dugin aqui no blog, autor pelo qual nutri bastante interesse nos últimos meses, e que é um dos que se enquadram muito bem na rubrica daqueles que defendem a "Tradição" com um tom propagandístico, partidário e político. Entretanto, após ler dois livros dele, a conclusão que chego é que pouquíssimo da Tradição encontrei em seus escritos, praticamente nada de "verdadeiramente espiritual", mas em contrapartida encontrei um tipo de pensamento que coloca no liquidificador uma série de fontes das mais contraditórias, embeleza com uma verborragia carregada de termos apocalípticos e põe na prateleira das idéias prontas para o consumo de jovens que, cansados da democracia, buscam uma nova utopia salvadora, e de preferência que tenha cheiro de mísseis e marchas militares antigas. Cansado que estou das utopias, e desde há muitos anos, passo adiante e deixo os delírios de Dugin e companhia para quem tenha interesse na loucura de acreditar em um mundo melhor, e fico com o "atrasado" René Guénon.

Na música consegui, finalmente, voltar a ter uma "rotina" com ensaios em uma banda, o que não fazia desde 2009 com o fim do Life is a Lie (que esteja repousando eternamente). Digo "rotina" assim, entre aspas, pois os ensaios foram esporádicos, até porque não se trata exatamente de uma banda no sentido tradicional do termo. Gravamos as músicas, ou pelos 99% delas, na sala da casa de um dos integrantes, graças ao maravilhoso ser humano Steve Jobs e sua empresa Apple. É incrível como um Macbook pode fazer gravações com qualidade e facilidade impressionantes. E o melhor: com custo zero, praticamente. Possibilidades enormes, sem dúvida, mas ainda confesso que é bem estranho fazer música sem estar no clima de estúdio, rodeado de amplificadores, instrumentos, etc. Creio que no primeiro semestre de 2013, finalmente, lançaremos as músicas que produzimos ao longo do ano [como em todas as bandas da qual participei, o processo de composição é bem lento, quase penoso; nunca serei um "músico produtivo", daqueles que lançam dezenas de lançamentos ao longo do ano, todos excelentes; essa afirmação, contudo, jamais tirará do meu altar de ídolos o hiper produtivo Mikko Aspa, o homem que nunca dorme e participou/é as bandas Noise Waste, Grunt, Nicole 12, Clandestine Blaze, Deathspell Omega, Bizarre Uproar, Stabat Matter (deve ter outras quinhentas) e também administra uma gravadora, uma revista, um fórum de discussões (onde sempre participa com posts gigantescos) e uma produtora de filmes pornôs]. Não ouvi muita música nova esse ano, pelo menos não na quantidade dos anos anteriores (claro reflexo de um ano agitado onde trabalhei mais do que nunca). Os que mais me chamaram a atenção foram os seguintes:

- Blood of the Black Owl - "Light the fires!"
- Preterite - "Pillar of winds"
- Aluk Todolo - "Occult rock"
- Ianva - "La mano di gloria"
- Abuse Patterns - Reproducing the Pathology

O restante do que ouvi ou é antigo ou é rock, como Madball, que me peguei ouvindo novamente tempos atrás, ou Cwill, que é velho demais e eu escutei com a vivacidade de uma recém-descoberta pois a memória abandona-me mais e mais. Entretanto, o que mais me interessa ouvir atualmente é completamente distante de música; ruídos, experimentações, elementos desconexos me animam mais que melodias. Talvez porque proporcionem um escudo sonoro mais eficaz contra o mundo exterior, isolando-me do som nauseantes das conversas no metrô. Aliás, desenvolvi esse ano uma quase-fobia, que é a de entrar no metrô sem meu MP3 player. O trajeto deixa-me sufocado: as nuvens sonoras de conversas odiosas, o som das risadas desgraçadamente agudas de algumas mulheres, os filhos da puta que gritam nos celulares e tornam públicas suas discussões sobre NADA. Uso, então, meus fones de ouvido como um casulo de onde saio somente quando cruzo a porta de minha casa.

No campo da escrita, consegui desenvolver uma parte de um novo livro - um romance, para ser mais exato. Tem pelo menos dois cadernos com um monte de folhas anotadas, rascunhos de rascunhos, que precisam de uma ordem ainda. Não é algo que eu tenha deixado morrer, mas claramente releguei a um segundo plano, seja por compromissos profissionais, seja por ver em boa parte dos escritos uma vaidade enorme, que me fez ter muita vergonha de existir. No final das contas, muito da literatura é feito sobre vaidade, ou pelo menos a vaidade é a mola propulsora do escritor, que deseja publicar e ver seu nome "imortalizado" em uma folha de papel. Declarada ou não, ela sempre está. Mas acho que exagerei em muitas partes, e a meta é reescrever tudo o que foi feito, com o firme propósito de tornar minha sensibilidade quase nula em tudo o que virá. Nada do que sentimos, é importante; o mundo passa muito bem sem nossas queixas, nossas alegrias, nossas esperanças. Isso é tão claro para mim que chega a ser desonroso publicar qualquer linha que exceda o justo limite de uma vaidade controlada com férrea disciplina. Justamente por isso, a tendência é escrever menos e menos, até extinguir-me. 

Em relação à vida pessoal, este ano consegui solidificar laços muito importantes, tanto amoroso quanto de amizade. Foi excelente a convivência que tive com poucas mas valorosas pessoas, que não necessito nomear aqui. Conquistei, também, alguns novos amigos, pessoas com as quais aprendi muitas coisas e mantenho uma relação que desejo aprofundar no novo ano. Ao mesmo tempo, foi possível ver com mais clareza ainda o que me distancia de um monte de outras pessoas, o que me distancia de suas paixões e ambições, de suas perturbadas maneiras de existir e relacionar-se com os demais. Envoltas em um maremoto de contradições, anseios descontrolados e atitudes irresponsáveis, a maioria das pessoas me deixa com uma sensação de enorme preguiça. Considero-me, de certo modo, bastante diferente delas; não comungo de seus sonhos, de seus "problemas", de suas rotinas. Coloco-me o direito, apenas, de manter-me distante de tudo aquilo que não considero saudável, assim como de empurrar com um gesto, violento se necessário, qualquer ameaça ao meu círculo de convivência. É muito trabalhoso ter muitos amigos, e na verdade ter muitos amigos é no fim das contas não ter nenhum amigo de verdade. Por isso é melhor ter sempre cada vez menos e assim acumular mais - uma matemática estranha que parece saída de um livro de auto-ajuda, mas é o que a vida tem me mostrado na base do exemplo.

Para dar o clima de tensão necessário para a entrada de um novo ano, uma bela canção para encerrar o post:

9.12.2012

A estética do intenso e o fim da arte clássica



Publiquei o ensaio abaixo, pela primeira vez, no blog do projeto Ugra Press, no longínquo ano de 2010. Organizando antigos documentos, encontrei o arquivo original e, relendo-o, percebi que alguns detalhes poderiam ser melhorados e, algumas partes, retiradas. Acredito que agora cheguei a um texto mais denso e definitivo, e que poderá ser, no futuro, complementado por novas reflexões, se a vida me permitir.
Ele surgiu após a leitura de um livro do intrépido Paul Veyne, autor que já figurou aqui recentemente em uma resenha, e que não cansará de ser evocado em novos escritos. Veyne afirma que nós, leitores contemporâneos de literatura, padecemos de um preconceito: só nos apetece textos que transbordem, que exagerem, que sejam intensos. 
Estará Veyne, o homem mais feio do mundo, correto ao propor isso? É esse o ponto de partida para o texto que segue. A seção de comentários, ao final, estará lá esperando para receber críticas e instigar debates.

O intenso sabor moderno

“Quanto a mim, creio que importa bastante que a obra de arte seja a obra de um homem completo. Mas como é possível que se atribuísse outrora tamanha importância ao que hoje é considerado tão naturalmente como irrelevante? Um amador, um connaisseur do tempo de Júlio II ou de Luís XIV, ficaria muito espantado se lhe contassem que quase tudo o que ele considerava essencial na pintura é hoje não somente negligenciado como está radicalmente ausente das preocupações do pintor e das exigências do público. Além disso, quanto mais este público é refinado, mais ele é avançado, ou seja, está distante dos antigos ideais a que me refiro. Mas é do homem total que estamos, assim, nos distanciado. O homem completo está morrendo.” (Paul Valéry, Degas, dança, desenho)

No epílogo de seu livro A Elegia Erótica Romana, o historiador francês Paul Veyne tenta fornecer ao leitor uma explicação cujo tom assume, em determinados momento, uma espécie de pedido de desculpas: se o leitor sentiu tédio ao ler as traduções das elegias realizadas ao longo do livro, deve atribuir tal tédio não às imperícias do tradutor mas, unicamente, ao nosso gosto moderno moldado pela intensidade. O que exatamente  Veyne quis significar ao empregar a palavra intensidade e como ela influencia nossa sensibilidade literária serão as questões que tentarei problematizar ao longo desse texto.
Apesar de, segundo Veyne, a estética de hoje ser moldada pelo intenso, houve períodos onde esse valor não impregnava a criação e a apreciação das obras. Um desses períodos foi o da arte clássica, ou pelo menos das manifestações artísticas que de alguma maneira mantiveram-se fiéis ao seu credo. Tal credo, dito de forma extremamente abrangente (o que para muitos será uma blasfêmia, já que resumirei em breves linhas uma produção de mais de dois mil anos), tinha como pedra angular o conceito da imitação de modelos perfeitos, ou mímese. Algumas obras eram consideradas a mais alta realização do Belo, sendo o artista tanto melhor quanto mais conseguisse se aproximar, através da imitação, desse ideal de beleza. Se eu quisesse escrever um poema épico e vivesse na Roma do século II d.C., deveria me inspirar na Odisséia de Homero, ou na Eneida de Virgílio, e através de tais modelos consagrados construir o meu texto - a ponto de mesmo de copiar, literalmente, partes inteiras desses poemas que me precederam.
A imitação deveria ocorrer mediante a observação de alguns limites, já bem determinados pela tradição. Como esse texto pretende dar conta de literatura, farei uma brevíssima explicação dos três ingredientes principais dessa arte, segundo a estética clássica: gêneros, técnicas e faculdades.
Os gêneros dividem-se em três: épicolírico dramático. Em uma conceituação ampla, pode-se dizer que o gênero fornecia para o escritor do período clássico um campo de ação muito nítido: era tácito que só caberia escrever um poema épico se nele estivessem presentes feitos de algum herói aristocrata. Se quisesse retratar situações envolvendo membros das classes baixas deveria, de acordo com a lei dos gêneros, escrever uma comédia, sendo inconcebível pensar em uma poesia épica onde cozinheiras, escravos e ladrões estivessem presentes. Era principalmente o tema ou, em termos rigorosamente clássicos, a matéria do poema que definia a forma do texto.
Concomitante à boa adequação às leis do gênero, havia também uma coleção de técnicas para a correta realização da mímese. Tais técnicas, de substância retórica, podem ser resumidas em quatro: a verossimilhança (o que é dito deve parecer crível), os caracteres ou personagens (que devem agir de acordo com critérios verossímeis, isto é, se se tratam de personagens históricos devem agir de acordo com os fatos, se mitológicos de acordo com o pano de fundo lendário, etc), o maravilhoso (intervenção de leis divinas, imprevistos que deturpem/contrariem as leis da natureza, etc) e a unidade (o texto deve ter uma coerência espacial e temporal bem definidas, sendo reprovável narrativas que tentem dar conta de recortes espaciais ou temporais demasiado longos).
Por último mas não menos importante, o escritor clássico deveria valer-se de três faculdades: a imaginação, emoção e a razão. Tais faculdades, comuns a todos os homens, são os grandes instrumentos do escritor. Delas, por assim dizer, “brotam” as palavras. Todavia, a estética clássica reconhece o primado da razão sobre todas as outras: o ajuste racional mantém o que é imaginado dentro dos limites da verossimilhança, assim como impede que a emoção transborde no texto a ponto de que a clareza e a unidade fiquem comprometidas. Permitia-se e valorizava-se o gênio e o furor poético, fruto da inspiração das Musas, mas mesmo aqueles, se não submetidos aos bons cuidados da razão, perdiam sua validade. O contrário também era condenado: uma arte puramente racional, sem a ocorrência da sensibilidade e da imaginação, já não seria mais arte e sim filosofia.
Podemos ver nessa grosseira e sem dúvida lacunar explanação que estamos diante de uma estética sólida e minuciosamente construída: suas muitíssimas peças se encaixam com natural perfeição, relacionam-se e ajustam-se equilibradamente em infinitas combinações. Dou ênfase ao “infinita”: muitas são as acusações de que as exigentes prerrogativas da literatura clássica e sua ambição de copiar modelos perfeitos agiam como limitadores da originalidade e da capacidade expressiva dos escritores antigos. Isso não é verdade: a inovação sempre esteve presente, embora não se medisse o valor de um escritor por meio dela, e arrisco dizer que tampouco estava nomeada. Leituras atentas de obras clássicas mostram que os autores se permitiam tentativas de mesclar os inseparáveis gêneros: por exemplo Virgílio, que no canto I da Eneida narra a paixão da rainha de Cartago, a exuberante Dido, com versos que poderiam muito caber em um poema lírico (o tratamento de temas amorosos nunca antes acontecera em uma épica, pelo menos não com as cores quentes que Virgílio ali empregou). Obviamente, tudo ocorre de forma muito sutil e nossa sensibilidade moderna, distante do latim clássico há séculos, só percebe isso após anos de dedicados estudos. De qualquer modo, o importante é manter no espírito algumas coisas antes de continuarmos: que a estética clássica era composta de rígidas regras de composição; que quando essas regras eram “burladas”, tudo ocorria de forma muito sutil e elegante; e que nenhum escritor imaginava tais regras como um obstáculo.
Tudo isso, ninguém contesta, acabou. Essa literatura está morta.
Todavia conceitos têm uma vida mais extensa do que as épocas que os viram nascer: mesmo que seja difícil se emocionar com as elegias traduzidas pelo Paul Veyne, o fato é que a literatura ocidental se desenvolveu baseada nos pressupostos que orientaram a escritura daquelas elegias. É a partir daqui que saímos de um estágio puramente explicativo e quase escolar para tentar dar conta da mudança que ocorreu: como o Ocidente migrou de uma estética orientada por padrões clássicos para uma outra que subverte tais padrões, onde o intenso adquire um valor antes inédito.
Afirma Veyne no livro já citado que o “momento intenso” surge com o Romantismo. É a partir dele que começarão a surgir escritos que subvertem os padrões de clareza, da objetividade e da perfeição em nome de um transbordamento. Mas o que seria isso? Veyne cita Hippolyte Taine, escrevendo sobre William Cowper, um pré-romântico:

 “Ele não tem o ar de pensar o que escutamos, não fala a não ser a si mesmo. Não insiste sobre suas idéias, como os clássicos, para colocá-las em relevo ou salientá-las; anota a sensação, e depois é tudo. Não são mais palavras que se escuta, mas emoções que se sente. Nisto consiste a grande revolução do espírito moderno; o espírito, ultrapassando as regras conhecidas da retórica e da eloqüência, penetra na psicologia profunda e não emprega mais as palavras a não ser para enumerar as emoções.” (grifos meus)

Palavras, antes utilizadas para apresentação de idéias tecnicamente ordenadas pelas faculdades do escritor, admitem agora, com os escritores românticos, apenas um senhor: as emoções.  Toda a preceptiva clássica será, a partir do Romantismo, diluída em nome de uma bandeira de luta que não admitirá compromissos: a liberdade criativa do artista em expressar a si mesmo, e expressar-se intensamente. Será sob essa bandeira que não apenas os românticos construirão seu discurso, mas também muitíssimos outros e, no século XX, será a vez das vanguardas, última pá de terra no túmulo nos conceitos estéticos de verniz clássico.
Voltemos ao Romantismo. O fato de que hoje o Goethe de Os sofrimentos do jovem Werther seja lido com voracidade não muda o triste destino de todos aqueles que, no século XVIII, se mataram após ler essa obra que já contém em si muito da intensidade que os futuros escritores românticos irão explorar. Trechos de Werther tais como “Eu não sei, a cada dia, o que vou amar no dia seguinte” mostram que operava-se no espírito da época uma crise sem resposta: era como se sufocado estivesse algo que precisasse queimar e corromper os próprios limites. Marshall Berman foi perspicaz em analisar o Manifesto Comunista como a primeira obra de arte moderna: seu vocabulário rico em grandiosas imagens de destruição não é mero esforço retórico para agenciamento de militantes, mas registra em nível estilístico (inconsciente?)  uma ânsia expressiva intensa e, por isso, anticlássica. Aliás – e Veyne sublinha isso – não parece ser coincidência que os séculos da intensidade estética e das vanguardas artísticas sejam, também, os séculos mais burgueses. Eram os últimos séculos de um mundo antigo, regido por princípios antigos, por legislações régias herdeiras da Tradição já esquecida, onde o impessoal tinha um peso importante (no mundo feudal, o indivíduo era o seu estamento).  Não admira que um grupo de comerciantes cada vez mais ricos, em um mundo onde o dinheiro circulava cada vez mais, se julgasse no direito de possuir mais poder, e reclamasse para si mais atenção e possibilidades de auto-afirmação – que é o mesmo que ultrapassar a limitação do estamento, uma quebra na regulação impessoal do feudalismo. Disso nasceu conseqüências de todas as naturezas, inclusive estéticas. Veyne me parece muito correto ao propor que a marca distintiva dessa estética é a intensidade, e que ela não respeita, na sua ânsia expressiva, qualquer distinção de gênero, qualquer freio às emoções. 
“Emoção intensa, associada a uma intensa ostentação de imagens: eis o que é a poesia destes dois últimos séculos”: Veyne deve ter em mente Rimbaud nesse momento; mas embora não cite, já que as citações dele são sempre européias , nessa mesma rubrica do intenso eu consigo colocar Walt Whitman, que no poema Song of Myself produz um imenso cortejo de versos que transbordam intensidade:

Do you see O my brothers and sisters?
It is not chaos or death… it is form and union an plan… it is eternal life….

it is happiness.

The past and present wilt…. I have filled them and emptied them,

And proceed to fill my next fold of the future.


Entendemos melhor a Veyne quando lemos coisas assim: perto de linhas como essa, versos de Propércio, de Horácio ou de qualquer outro poeta antigo nos parecem… opacos.  Mas é nesse juízo que temos uma armadilha difícil de perceber: quando encontramos algum “brilho” em um texto literário não estamos vendo algo que, a rigor, não existe? Toda estética é um conjunto de escolhas quase sempre inconsciente, e a estética do intenso, que acostumou nosso gosto a apenas aceitar imagens em abundância, gritos altissonantes e emoções que transbordam não é a mais correta, mas uma das possíveis. Falta à arte uma essência.
Para conduzir ao final dessa reflexão, cito Veyne:

“A renúncia à clareza começa com Rimbaud (…) consome os últimos restos de prosaísmo e de redundância que facilitavam o entendimento, mas diluíam o grau de intensidade (…) . Aconteceu algo grosseiramente comparável na pintura; é a busca da intensidade que levou à densificação insuperável de um Cézanne,  à simplificação da forma e, finalmente, à abstração, para que nenhum elemento de paisagem ou de figura venha distrair o espectador da pura contemplação estética e diluir a intensidade da pura pintura. No romance, o mesmo desdém pelas velharias retóricas resultou de início no realismo burguês”.

Talvez ele tenha sido um pouco duro ao falar que no processo de intensificação da pintura tenha existido um estágio de simplificação da forma. Decerto, nem toda simplificação formal demanda um empobrecimento: o soneto é uma forma simples se comparada à épica, mas nem por isso de menor riqueza estética. O mesmo se pode dizer do romance burguês: a simplicidade e a crueza do relato realista e a sua radicalização no Naturalismo são “reações” contra as exigências retóricas, mas nem por isso são textos “menores”. A escrita automática dos surrealistas é a radicalização absoluta da negação das exigências de estilo de origem clássica, e a receita de Tzara para fazer um poema através de recortes de jornais, embora anedótica, segue a mesma via.  Ambas, se lidas em si, talvez não nos digam nada, mas possuem um significado e filiam-se ao gosto pelo intenso apontado por Veyne.
A conseqüência que me parece a mais imediata da negação dos princípios retóricos e a elevação da intensidade emocional como valor artístico principal é a legitimação da literariedade de um texto baseada apenas na opinião (isto é literatura porque eu sinto o que eu escrevo). Isso é ruim? Se você for uma das múmias da Academia Brasileira de Letras, claro que será. Se você é fã de Bukowski, vai achar que não e vai querer socar os caras da Academia. De qualquer modo, estamos no olho do furacão. Não temos um distanciamento histórico suficiente para entender o que acontece com a literatura recente (e ao dizer isso me refiro a essa que vem sendo produzida nos últimos cem anos). Foram necessários alguns bons séculos para que Veyne visse nas elegias romanas não confissões de poetas apaixonados, mas sim apenas brincadeiras literárias doutíssimas, cheias de armadilhas para leitores desatentos. Isso não impede, porém, de que algumas proposições sejam feitas.
Nesse ponto final da jornada, retomo a epígrafe desse texto: “é do homem total que estamos, assim, nos distanciado”. O tom pode parecer apocalíptico para espíritos mais sensíveis, mas é exagerado acreditar que se o registro da emoção e dos sentimentos for o único caminho para a futura literatura (por ser o mais “autêntico” e “genuinamente artístico”, o que sabemos ser uma bobagem) então estamos em um caminho de empobrecimento? Ou – e isso me parece o mais instigante e a grande herança da estética do intenso – saberemos como os sentimentos e o exagero podem ser beneficiados pelo apuro estilístico? Fazer profecias nunca foi o meu forte, mas as indagações sobre o futuro serão sempre necessárias se quisermos ver com alguma clareza aquilo que está na ordem do dia.  Como primeiro ensaio para a nossa abordagem sobre literatura aqui no blog, creio que já deixamos para você, destemido leitor desse texto, algumas delas.
Alguns dos livros consultados para a composição desse ensaio foram:
- A Elegia Erótica Romana, de Paul Veyne. Editora Brasiliense;
Folhas de relva, de Walt Whitman. Edição bilíngüe (caprichadíssima) da Iluminura;
Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade, de Marshall Berman. Editora Companhia das Letras.
     

9.11.2012

A mercantilização do livro: o "manifesto dos 451"


Livros são um excelente negócio. Por mais tenebrosas que sejam as estatísticas mostrando que o brasileiro lê menos de dois livros por ano, o mercado editorial cresce (ainda que timidamente). Em números absolutos, foram produzidos no ano passado 499.796.286 unidades de livros que correspondem a 58.192 títulos (entre inéditos e reimpressões): uma oferta quase infinita de possibilidades de leituras, que transforma as livrarias em verdadeiros shopping centers, elevando algumas ao pomposo status de atração cultural de algumas cidades - é o caso da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na capital paulista. 

Amantes de livros, e de literatura em especial, tenderiam a ver esse cenário como positivo. Afinal, melhor ter  essa abundância de livros do que não alguns poucos e mirrados lançamentos. Entretanto, o que estaria nos bastidores dessa opulência editorial, fenômeno que não é restrito ao Brasil? Como a produção de e-books e  e-readers estimula esse crescimento? Que interesses ocultos (perversos?) estão presentes nos preços fabulosos oferecidos pela Amazon? As sociedades estão de fato se beneficiando desses processos? Ou tudo não passa de um sintoma da decadência cada vez mais acelerada, onde a cultura é tão somente mais um aspecto da vida a se degradar?

São questionamentos como esses que motivou a criação do grupo "Les 451", em Paris, que lançou o seu manifesto no último dia 5 de setembro nesse site e assinado por 451 profissionais do mercado livreiro (revisores, editores, escritores, bibliotecários, etc). Entre seus signatários, o filósofo italiano Giorgio Agamben, autor que já tive a oportunidade de ler/comentar alguns textos e que foi um dos motivos a colocar aqui uma tradução do manifesto, publicado de modo inédito em língua portuguesa graças à iniciativa de Bolívar Torres e Juliana Fausto. Fica aqui meu agradecimento a ambos.

Sem mais delongas, o manifesto.

O livro e a armadilha da mercadorização
Nós, o coletivo de 451 profissionais da cadeia de negócios do livro, começamos a nos reunir há algum tempo para discutir a situação presente e futura de nossas atividades. Tomados em uma organização social que separa as tarefas, a partir de um sentimento comum – fundado em experiências diversas – de uma degradação acelerada das maneiras de ler, produzir, compartilhar e vender livros, consideramos que hoje a questão não se limita ao setor, e procuramos soluções coletivas para uma situação social que nos recusamos a aceitar.

A indústria do livro vive em grande parte graças à precariedade que aceitam muitos de seus trabalhadores, seja por necessidade, paixão ou engajamento político. Enquanto estes tentam difundir ideias ou imagens capazes de mudar nossos pontos de vista sobre o mundo, outros têm entendido que o livro é sobretudo uma mercadoria com a qual é possível conseguir lucros substanciais

Sabendo tanto como se apropriar dos grandes princípios de independência ou de democracia cultural quanto praticar a avalanche publicitária, a exploração salarial e a diversidade do monopólio, as Leclerc, Fnac, Amazon, Lagardère e outros grandes grupos financeiros querem nos fazer perder de vista uma das dimensões essenciais do livro: um elo, um encontro.

Enquanto isso, quer se trate de profissionais simbolicamente reconhecidos ou de pequenos serviços indispensáveis à toda cadeia econômica, cultural e social, as profissões ligadas ao livro são desqualificadas e substituídas por operações técnicas nas quais tomar tempo se torna inconcebível.

A indústria do livro não tem de fato necessidade senão de consumidores impulsivos, de networkers de opinião e de outros temporários maleáveis? Muitos de nós se encontram então presos às lógicas do mercado, desprovidos de qualquer pensamento coletivo ou de perspectivas de emancipação social – hoje em dia terrivelmente ausentes do espaço público.

Enfraquecida pelo critério do sucesso, a produção de ensaios, de literatura ou de poesia se empobrece, os recursos de livrarias ou de bibliotecas se esgotam. O valor de um livro se dá em função de seus números de venda e não de seu conteúdo. Não será mais possível ler senão o que é bem-sucedido. Ora, enquanto o CEO da Amazon, Jeff Bezos, declara que “atualmente as únicas pessoas necessárias para a edição são o leitor e o escritor”, certas pessoas continuam a trabalhar com livros, livrarias, gráficas, bibliotecas ou em editoras em escala humana. Apesar de nossa vontade de resistir, nós somos, como a imensa maioria, cercados pela informática, pelas lógicas gerenciais e pelos finais de mês difíceis.

Embarcamos igualmente em uma pseudodemocratização da cultura, que continua a se nivelar por baixo, e se reduzir ao empobrecimento e uniformização das ideias e dos imaginários, para corresponder ao mercado e à sua racionalidade. Atônitos, tentamos nos manter atualizados: nos viramos com os programas, as encomendas on-line, os corretores automáticos, as deslocalizações, a avalanche de novidades rasas, as ameaças dos bancos, a alta dos aluguéis e as digitalizações selvagens.

Todavia, não podemos resolver reduzir o livro e seu conteúdo a um fluxo de informações digitais e clicáveis ad nauseam; o que nós produzimos, compartilhamos e vendemos é antes de tudo um objeto social, político e poético. Mesmo em seu aspecto mais modesto, de divertimento ou de prazer, fazemos questão de que permaneça cercado por seres humanos.  

Rejeitamos claramente o modelo de sociedade que nos está sendo proposto, alguma parte entre a tela e a grande superfície, com seus bip-bips, seus néons e seus fones crepitantes, e que tende a conquistar todas as profissões. Pois, pensando na atualidade das profissões, nós pensamos igualmente em todos que vivem situações similares demais para serem anedóticas.

Dessa maneira, os médicos segmentam seus atos para melhor contabilizar, os trabalhadores se esgotam preenchendo tabelas de avaliação, os carpinteiros já não podem plantar um prego que não seja ordenado por um computador, os pastores são  convocados a equipar suas ovelhas com chips eletrônicos, os mecânicos obedecem às suas ferramentas informatizadas e a mochila eletrônica nas escolas é para daqui a pouco.  

A lista é tão longa que é preciso se agrupar para parar esta máquina cega de progresso. Em vez de esperar a próxima medida europeia de rigor ou o enésimo ataque do ministério da cultura contra a cadeia de profissões do livro, preferimos nos organizar desde já.

Por exemplo, encontrando alternativas, criando cooperativas mútuas de compra, unindo-nos por melhores condições salariais, ou ainda inventando lugares e práticas que convêm melhor à nossa visão de mundo e à sociedade em que desejamos viver.

É justamente porque tomamos a medida do desastre atual que estamos otimistas: tudo está para ser construído. Antes de mais nada, queremos parar de jogar eternamente a culpa uns nos outros e cortar na raiz a resignação e o derrotismo ambientes. Lançamos então um chamado a todos aqueles e todas aquelas que se sentem interessados a se encontrar com o objetivo de compartilhar nossas dificuldades e necessidades, nossos desejos e projetos.  


Versão original em http://les451.noblogs.org/

9.01.2012

3ADFZPA


Foi lançada a convocatória para o 3º Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas (3ADFZPA) dos mecenas do underground, a Ugra Press. Desta vez estendemos o convite aos editores de todos os países ibero-americanos.

Você pode ver mais informações sobre o projeto nesse link: http://ugrapress.wordpress.com/3adfzpa-3o-anuario-de-fanzines-zines-e-publicacoes-alternativas/

A participação é totalmente gratuita. Se você tem um zine, uma revista ou qualquer outro tipo de publicação alternativa impressa, está mais do que obrigado a participar.

8.29.2012

Adaptar para diminuir?


Li hoje no caderno cultural da Folha um crítico lamentando a adaptação de "New York, New York", musical de Martin Scorcese, para os palcos brasileiros. Ele diz que apenas por um pouco não se perde a essência dramática do texto graças ao abuso de situações totalmente caricatas, graças ao "vício dos palcos brasileiros achar que o público deve rir o tempo todo".

Compartilhando imensamente desse ponto de vista, para mim sempre foi um enigma entender o porquê de adaptações de obras antigas eram, quando aqui encenadas, sofrerem uma modernização que as nivelava ao nível de um Zorra Total (tive essa sensação pela primeira vez ao ver Filosofia na Alcova, no Espaço Satyros, anos atrás, e foi decepcionante). Nunca consegui uma resposta satisfatória, até ler o texto que reproduzo abaixo, publicado originalmente no Euterpe, um excelente blog que se dedica à música clássica. 

Certamente, esse texto interessará aos que não conseguem entender as razões que motivam certas opções "atualizadoras" em peças e montagens antigas - que não são uma exclusividade dos palcos nacionais, diga-se. A quem puder (e quiser) compreender, o texto a seguir falará claramente.

A malícia do desejo erótico e sua nova vítima: o mito
Ontem o Theatro Municipal de São Paulo apresentou a última récita da montagem de Götterdämmerung, “O Crepúsculo dos Deuses” de Wagner. A produção com regência da Orquestra Sinfônica Municipal de Luiz Fernando Malheiro e direção de André Heller-Lopes é a realização da primeira montagem do Anel do Nibelungo criada por uma produção totalmente brasileira, o que assume uma ambiciosa prova de fogo para o que podemos fazer de melhor à altura do projeto colossal de Wagner. 

Mas não pretendo resenhar a produção da ópera – que já foi um sucesso merecido, deixou a todos otimistas e encerrou suas apresentações ontem. Pretendo comentar uma das escolhas da concepção da montagem, chamada de “Anel Brasileiro” não apenas por ter produtores brasileiros, mas também pelas referências cênicas que transpuseram vários elementos da ópera da sua atemporalidade mítica para a cultura e o folclore brasileiros.

Antes que isso pareça problemático em si, é preciso observar que esse tipo de transposição pode ser feito com coerência e não é incomum hoje em dia, embora não corresponda ao nosso desejo purista que gostaria mesmo é de assistir a uma produção tradicional de Wagner em Bayreuth, e embora represente mais um insight alternativo que, no Brasil, já é uma tendência que supera totalmente a existência de leituras tradicionais.

Concepção
Mas entre bois bumbás, iaôs e fitas do Senhor do Bonfim, uma leitura que a princípio parecia desempenhar uma escolha feita dentro das margens do libreto terminou se mostrando profundamente radical: logo no primeiro ato, depois de se despedir apaixonadamente de Brünnhilde para partir em busca dos feitos heroicos do dia, Siegfried chega ao palácio dos Gibichungen recebido por Gunther e, bem, “rola um clima”. Não apenas Gunther já era retratado como um filho de militares aburguesado e afeminado, mas o seu encontro com Siegfried assumiu uma tensão homoerótica que interferia na própria legenda do libreto projetada acima do palco – após o pacto de amizade estabelecido entre ambos, as referências de Siegfried a Gunther como irmão eram colocadas entre aspas (qual a surpresa em saber que foi o próprio diretor quem traduziu as legendas?). 

Insisto em descrever essa tensão pra que não dependamos de supostas sutilezas: frases de Gunther a Siegfried como “wohin du schreitest, was du ersiehst, das achte nun dein eigen: dein ist mein Erbe, Land und Leut’ - hilf, mein Leib, meinem Eide! Mich selbst geb ich zum Mann” (“por onde caminhares, o que quer que vejas, considera agora teu: tua é minha herança, terra e gente – penhora, meu corpo, meu juramento! A mim mesmo, como homem, ofereço a ti”), ao invés do penhor das posses e da própria vida em função de uma palavra de lealdade e de aliança, ganharam na encenação dos cantores o tom de um processo de sedução. No fim do ato não deu outra: após Siegfried assumir a aparência de Gunther com o uso do Tarnhelm e tomar a própria Brünnhilde como sua noiva (lhe estapeando e tudo!), Gunther aparece em cena (o que não é indicado pelo libreto) e, depois de um sestroso sinal para que Siegfried não diga mais nada, ambos …se beijam! (as luzes se apagam na hora h, mas o recado está dado). Não seria preciso mais nada, mas no segundo ato, quando Brünnhilde está de um lado sofrendo pela traição de Siegfried, Gunther aparece de outro sofrendo do mesmo amor gorado…

E…?
Não é inédita a inclinação a enxergar desejo e paixão nas entrelinhas de narrativas que não dizem nada a respeito disso, mas mais do que um Gunther homossexual e mais do que qualquer outra liberdade da concepção do diretor, esta escolha de um caso entre Siegfried e Gunther acarreta consequências drásticas e ao mesmo tempo muito reveladoras para o significado de todo o ciclo de Wagner, o que, após seis apresentações desde o dia 12, eu não encontrei sendo discutido pela crítica. Vejam que, embora possa parecer um desatino feito meramente para um efeito transgressor que nessa condição até mesmo se auto indulgencie de qualquer comentário, a profunda incompreensão que essa escolha revela envolve um significado elementar na obra de Wagner que vale ser comentado. Além disso, nada sendo por acaso, essa escolha pode ter explicação em uma tendência muitíssimo marcante, quem diria, na própria cultura brasileira, o que também merece ser observado. 

Um Siegfried ordinário 
A oferta de amizade (“sei mein Freund”) leal entre Gunther e Siegfried, que na produção brasileira se transformou em tensão erótica, acontece antes de Siegfried ser ludibriado pelo efeito da poção que o leva a trair o amor de Brünnhilde. Isto significa que esse caso entre ambos não pode ser influenciado pela poção, e que Siegfried simplesmente decidiu “se oferecer como homem” para Gunther porque estava com vontade. Mas isso nos dá um Siegfried que não é, como dirá Brünnhilde, “der Reinste” (“o mais puro”), nem que “lautrer als er liebte kein andrer” (“mais puro que ele nenhum outro amou”). Não por acaso, na montagem brasileira esse é um Siegfried que aparece agindo de maneira vulgar, que estapeia Brünnhilde – embora se guarde de deitar com ela, preservando o pacto de sangue jurado com Gunther -, que agarra excitado as ninfas do Reno – embora faça menção à atual fidelidade a Gutrune na sua reflexão sobre o comportamento sedutor das mulheres -, e que, menos do que heroico, é ridiculamente ameaçado por essas mesmas ninfas, que o acuam como tigresas (?) – embora ele tenha matado um dragão sem ter aprendido a lição do medo.

A função heroica dada a Siegfried pelo mito é desconstruída em muitos aspectos, de onde não há remorso em transformar o seu pacto de sangue com Gunther – uma imagem medieval tradicional – em um concerto de fundo amoroso. Mas duas coisas essenciais em Wagner saem prejudicadas: 1) o status do herói para o mito; e 2) o passo tomado por Brünnhilde na expiação dos pecados desencadeados pelo desejo de poder que vitimou um herói puro. 

Quanto ao status do herói para o mito, a teoria a respeito é abundante e se ilude quem pensa que o herói é uma idealização que achata as complexidades da realidade. Realismo puro e simples que justifique o retrato de banalidades não tem nada de complexo, e aniquila a função arquetípica do mito de transcender a própria realidade – pois não há nada melhor no mundo ficcional para se compreender as consequências morais de um ato do que o impulso de um herói. Mas se Siegfried é ordinário – ou seja, não sacrifica inclinações levianas em favor de uma dimensão de sentido superior para as suas ações -, que sentido há na atenção que ele ganha dos próprios deuses como um herói livre diante do destino, ou no seu brinde fiel ao amor de Brünnhilde antes de tomar a poção que o ludibriaria, se pouco antes ele simplesmente se oferecia para Gunther e depois seria seu amante? 

Quanto ao passo expiatório tomado por Brünnhilde, o ciclo de violência e de vingança desencadeado pela maldição do anel só é interrompido pela oposição por excelência à renúncia-do-amor que a originou. E como se opor a essa renúncia? Aceitando o amor e renunciando ao poder, como o faz Brünnhilde na sua autoimolação. Este gesto só alcança o status verdadeiro de uma expiação porque envolveu a queda de um justo sacrificado: Siegfried, o herói puro e livre, que não é ajudado pelos deuses, é enganado e corrompido em sua dignidade por conta de sua inocência, presa fácil dos aproveitadores. E Brünnhilde, tomando posse do conhecimento desse processo insustentável de violência, vem ritualizar o seu desfecho na redenção pelo amor que nasceu com Siegfried (o que na música é mostrado literalmente pela aparição do leitmotif chamado “Redenção pelo amor”). Se Siegfried não for puro, qual pureza foi sacrificada na redenção pelo amor nesse processo?

Por que fazer isso? 
A malícia que troca o mito de Wagner por um suposto realismo em que tudo é sujeito a deixar de ser o que seria para se transformar em pura hipocrisia não é uma leitura isolada. É na verdade fruto de uma mentalidade tão arraigada que nós mesmos a essa altura não temos a menor dificuldade em assumirmos uma desconfiança tão absoluta quanto possível em nome de um conhecimento mais verdadeiro. O problema é quando isso nos leva a um relativismo estéril, em que sem saber responder ao sentido daquilo de que aprendemos a desconfiar indiscriminadamente – sem saber justificar o sentido da existência de um herói, por exemplo -, nós ficamos sem nada.

Sem a capacidade de se justificar o sentido de qualquer coisa, tudo o que resta no mundo se torna disfarce: a única realidade verdadeira, desvelado todo o fingimento, torna-se facilmente reduzida a desejo e a egoísmo, o que não dá espaço para a sinceridade senão na “maldade” desse desajuste de pessoas convivendo, em última instância, apenas por interesse. É claro que, como todo relativismo, este cai na contradição de apenas se firmar como visão de mundo caso receba um privilégio incompatível com tudo o mais que é relativizado – quer dizer, assume-se convictamente o princípio de se relativizar a tudo, menos a posição de onde essa crença é fundada! (a consequência não seria também esta perder o valor que reivindica?). Mas essa postura se torna significativa quando arriscamos vê-la como um fruto de diferentes raízes do nosso tempo: niilismo, pós-modernidade, materialismo, existencialismo sartreano, não faltam apostas e todas devolvem alguma identificação com o ponto caricatural que esse extremo alcança. Pensando em nossa cultura, lembro de Paulo Prado rastreando na luxúria, na cobiça e na melancolia da colonização brasileira os seus traços psicológicos formadores. Seja como for, as palavras do próprio diretor André Heller-Lopes e suas contradições com a prática parecem assumir as consequências: ”Nada do original foi mudado, nós respeitamos a tradição. No entanto, tudo é visto a partir dos olhos da cultura brasileira”.


Livros insignificantes: resenha de "Devastação", de René Barvajel


Sebos são grandes depósitos de lixo cultural. Isso não significa que tudo o que neles encontramos é ruim - pelo contrário, encontrei alguns dos meus livros mais significativos nesses apaixonantes lugares. Chamo-os assim por neles ficar estocado tudo o que nossa cultura considerou supérfluo: vasculhe o leitor as prateleiras de literatura de um sebo e, entre autores assaz conhecidos, serão encontrados incontáveis nomes que nunca figurarão nos livros escolares, nas revistas especializadas, nos debates acalorados da boêmia letrada de uma cidade qualquer. E isso assim será para todo o sempre, e não apenas na literatura: música, cinema, poesia, todas as disciplinas. A cultura forma o seu cânone através de um processo seletivo que condena ao anonimato das prateleiras dos sebos tudo aquilo que ela considerou supérfluo.

Um dia propus a mim mesmo um peripatético roteiro pelos sebos do gloriosamente imundo centro velho de São Paulo. Ali há muitos deles, concentrados entre o espaço que vai da Praça da Sé até a República. O único objetivo em mente era vasculhar, justamente, as prateleiras mais esquecidas de literatura e, no lixo supérfluo ali encontrado, quem sabe descobrir algo que fosse curioso/desconcertante/enigmático. Tendo como pressuposto que as escolhas das gerações anteriores depuraram a imensa produção literária - depuração esta que foi um processo coletivo envolvendo os modismos do momento, a análise dos críticos, as resenhas nos jornais, a escola, o departamento de publicidade das editoras e (impossível não considerar) uma certa dose de acaso - a minha busca estava repleta de dificuldades. Diante de meus olhos, centenas de livros dos quais nunca ouvi falar, legiões de autores que sequer sabia de onde eram. 

Graças a tal andança, surgiu a idéia de uma série de posts (sem periodicidade, como sempre) sobre livros que são insignificantes. Livros que ninguém comenta, de autores que ninguém cita, que nunca virarão estampas de camisetas como aquelas do Bukowski, que palermas utilizam na esperança (perdida) de mascarar a própria ignorância. Mas mesmo que existissem camisetas desses autores supérfluos, não importaria absolutamente nada porque, afinal, nunca ninguém se importou com eles - e talvez exista muitos bons motivos para isso.

Ok, introdução feita. Agora, a resenha sobre o primeiro livro da série.

"Devastação (ou a volta à Natureza)" é um livro do francês René Barjavel. Lançado em 1943 com o título "Ravage", foi editado aqui no Brasil pela lendária Círculo do Livro em 1976 (as capas dessa editora eram sempre geniais, e até hoje exalam uma cafonice que me encanta). Encontrei-o em um sebo bem ruim ali na avenida São João, perto do Rei do Mate. O título logo me despertou a atenção; a partir dele era fácil imaginar o que o livro apresentaria: explosões, queda, ruína, cenários apocalípticos, entropia anticivilização, etc. Por mim estava OK (sou daqueles que esperam ansiosamente a estréia de filmes hollywoodianos sobre catástrofes climáticas, cometas que colidem com a Terra, etc), ainda mais pela bagatela de 4 reais.

Cheguei em casa e fui na Wikipedia procurar mais informações sobre o autor. Eis o que encontrei por lá:
René Barjavel (January 24, 1911 – November 24, 1985) was a French author, journalist and critic who may have been the first to think of the grandfather paradox in time travel. He was born in Nyons, a town in the Drôme department in southeastern France. He is best known as a science fiction author, whose work often involved the fall of civilisation due totechnocratic hubris and the madness of war, but who also favoured themes emphasising the durability of love.
René Barjavel wrote several novels with these themes, such as Ravage (translated as Ashes, ashes), Le Grand SecretLa Nuit des temps (translated as The Ice People), and Une rose au paradis. His writing is poetic, dreamy and sometimes philosophical. Some of his works have their roots in an empirical and poetic questioning of the existence of God(notably La Faim du tigre). He was also interested in the environmental heritage which we leave to future generations. Whilst his works are rarely taught in French schools, his books are very popular in France.
Bom, já tinha uma idéia, ainda que meramente protocolar, sobre o livro que tinha em minhas mãos. E por ser o primeiro livro dessa série, creio que tive muita sorte, pois em "Devastação" encontrei passagens dotadas de uma beleza muito específica, que é a de descrever catástrofes. Descrições estas que sempre são acompanhadas de um discurso extremamente crítico em relação ao mito do progresso e, mais do que isso, à civilização como um todo. Hoje isso pode ser familiar a qualquer um que se interesse por temas filosóficos e sociais: até mesmo em jornais diários é possível encontrar textos que discutem os limites estruturais da civilização ocidental e os impactos indubitavelmente destrutivos que o nosso modo de vida causa ao planeta. Porém, em 1943, quando o livro foi lançado, acredito que tal discurso não era algo assim tão popular (um olhar desconfiado perante a sociedade capitalista e seus caminhos obviamente já existia desde o século XIX, mas entre criticar o capitalismo até condenar a civilização há um passo que acredito ser gigantesco). Não sei dizer se o romance gerou algum impacto no momento em que foi lançado, até mesmo porque o mundo girava em uma roda de fogo naqueles anos e prestar atenção a livros soaria como uma bobagem. Mas como Barjavel aparece, pelo menos nos links que visitei, como um autor de ficção científica, deve ter sido de imediato relacionado àquele tipo de literatura que se lê "para passar o tempo", como literatura de entretenimento para quem gosta de robôs, demônios, viagens no espaço e outras bobagens nessa linha. Imediatamente assim relacionado a esse tipo de literatura, o potencial efeito questionador do livro ficou, assim, um tanto quanto obscurecido.

o sebo onde comprei o livro, ali na Avenida São João, próximo ao Largo do Paiçandu.
Resumindo o livro da maneira mais simples possível: estamos no ano 2052 e o mundo alcançou um nível tal de desenvolvimento tecnológico que viagens intercontinentais podem ser realizadas através de trens velocíssimos; carnes de todos os tipos são produzidas em laboratório, e a matança de animais não é mais necessária; telefones projetam imagens tridimensionais dos falantes, como se fossem reais; os carros voam; as cidades crescem sobre outras cidades, e vemos uma Paris (cidade onde se passa o romance) como uma imensa megalópole que guarda a antiguada arquitetura do século XX debaixo das estruturas da Cidade Elevada, posicionada vertiginosamente a mais de 500 andares do solo; estufas enormes mantém a produção de vegetais e frutas de modo constante: não há mais intervalos das colheitas, o solo produz o tempo todo sem a necessidade dos antiquados ciclos naturais; até mesmo a morte parece ter sido vencida: os cemitérios foram extintos, e em todas as casas existe uma espécie de mortuário onde os entes que se foram permanecem empalhados, em dimensões reduzidas, geração após geração - revitalizando o antiqüíssimo culto ao gens em uma roupagem sofisticada. Nesse mundo de maravilhas tecnológicas sem precedentes, subitamente a energia elétrica perde sua propriedade de se transmitir por fibras metálicas. Sem eletricidade, a vida torna-se impossível, iniciam-se distúrbios e saques, a barbárie irrompe - é desse ponto crítico que a saga dos personagens François e Blanchete começa, na busca por um único objetivo: fugir da cidade enlouquecida pela destruição e ir rumo ao campo, onde estariam a salvo.

Um enredo simples, banal ao extremo, e até mesmo bastante previsível. Entretanto, ele convence justamente por isso: a vida atual é impossível sem eletricidade. Imaginemos que, de uma hora para outra, acabasse a energia em toda uma cidade. No começo, as pessoas esperariam, resignadas que são, com suas velas a postos. Mas imaginemos que a espera se alongasse por um dia inteiro, e depois por outro, e por muitos outros mais até perder-se a conta: Barvajel imaginou esse mundo, e ao fazer isso tocou no ponto mais frágil da civilização, no elemento invisível que funciona como o sangue desse complexo organismo de relações sociais/políticas/econômicas que se instaurou mundialmente e determina o modo de vida de bilhões de seres - esse sangue invisível chamado Eletricidade. Citando um trecho do livro:

Mas a eletricidade não desapareceu, meu jovem amigo. Se ela tivesse desaparecido, nós não existiríamos mais, teríamos retornado ao nada, nós e o universo. Nós, esta mesa, este seixo, tudo isso não são senão combinações maravilhosas de força. A matéria e a energia são uma única coisa. Nada pode desaparecer, ou tudo desaparecerá junto. O que se passa é uma mudança nas manifestações do fluído elétrico. Uma mudança que nos aborrece, que demoliu todo o edifício da ciência que construímos, mas que sem dúvida não tem nem mais nem menos importância para o universo que a batida da asa de uma borboleta. (...) Capricho da Natureza, advertência de Deus? Vivemos num universo que acreditamos imutável porque sempre o vimos obedecer às mesmas leis, mas nada impede que tudo possa bruscamente começar a mudar, que o açúcar se torne amargo, o chumbo leve, e que a pedra voe ao invés de cair quando a mão o solte. Não somos nada, meu jovem amigo, não somos nada...

É o tema anticivilizacional que se faz presente, a desconfiança perante os rumos do "progresso" infinito mediante os esforços da Razão. 

Barvajel também antecipa/flerta com a crítica foucaultiana sobre a biopolítica, isto é, sobre como os poderes  instituem práticas e modalidades de controle dos corpos. Abaixo o trecho:

Em 2026, uma vaga de nervosismo e de pessimismo ameaçou a nação e provocou uma recrudescência enorme de divórcios e suicídios. Avisado pelo Grande Conselho Médico, o governo lançou um decreto urgente. Toda a população passou pela cadeira de choque. (...) O resultado foi tão convincente que uma lei instituiu um exame mental anual obrigatório para todo mundo (...) Os que eram simplesmente nervosos, ansiosos, teimosos, afetados, gagos, tímidos, os que ficavam ruborizados por nada, e os que dormiam em pé, os sem memória, os faladores noturnos, os distraídos, os comedores de mosca, os rangedores de dentes, os medrosos, os pretensiosos, os tagarelas, os taciturnos, os boquiabertos, os excitados, os mudos, os coléricos, os contritos, em poucas palavras, os desarranjados, recebiam apenas uma pequena sacudidela que os repunha no caminho certo do homem médio de que eles tendiam a se desviar.

O que motivou, afinal, o fim da eletricidade? Isso não fica claro no livro: não se sabe se foi um capricho da Natureza, ou o prometido ataque de uma arma secreta do "Imperador Negro" (um déspota de origem africana que governava a América do Sul: esses franceses não perderiam a chance de estigmatizar mais uma vez o continente...). Isso não compromete a história, mas chega-se ao final com a enorme interrogação latejando na mente. Ou talvez fosse esse o objetivo exato de Barvajel: as catástrofes acontecem simplesmente porque acontecem, sem nenhuma razão aparente, sem nenhuma explicação a amenizar nossas dores. 

Catástrofe que não foi sentida por todos igualmente: após um tempo indeterminado fugindo de uma Paris transformada em cenário de violência e fome, o grupo de peregrinos finalmente alcança um povoado rural. Ao encontrar um velho camponês, François, o líder do grupo, os apresenta como sendo "os sobreviventes da catástrofe":

O velho levantou em direção a François seu rosto negro de sujeira e de rugas, abriu a boca, pigarreou, fez um grande  esforço e rangeu:
- Que catástrofe?
Fica clara a mensagem: o mundo que terminara era o mundo da Cidade, o mundo da civilização. O mundo rural, a esfera da Cultura, pouco ou nada sentiu o abalo que aqueles citadinos famintos e machucados deixaram para trás. Lentamente, vão se adaptando ao modo de vida encontrado na região rural, que continuou sua marcha de modo muito mais tranquilo e sem os sobressaltos bárbaros que destruiram Paris (e possivelmente todas as demais cidades do mundo, se é que foi um fenômeno global - a incerteza domina o livro). Nesse mundo rural, gradualmente, vemos o autor caminhando agora em largas descrições, cuja temporalidade se acelera: anos se passam em apenas duas, três páginas. Os eventos, narrados com maior velocidade, mostram como o mundo rural foi se adaptando à nova realidade sem eletricidade; de como pequenas propriedades, por necessidade de garantirem a própria segurança (havia grupos saqueadores, apesar de em menor quantidade quando comparado a Paris), foram se aglutinando em cooperativas; de como essas cooperativas foram aos poucos evoluindo para comunidades mais fortificadas, como pequenos castelos; e de como entre elas existia um pacto de honra e reciprocidade - em suma, o mundo pós-eletricidade vai ganhando contornos cada vez mais feudais. A figura do chefe, cristalizada em François, ganha contornos heróicos e patriarcais, a ponto de que, por necessidade de repovoarem o mundo, é instituída a poligamia (para os homens); novas comunidades surgem, todas sob o mesmo espírito de manter-se fixadas a uma terra, aos costumes frugais, completamente hostis ao mundo da técnica e do progresso, até que nas novas gerações as antigas máquinas se transformam em carcaças de um passado que felizmente jamais retornará.

Convenhamos que se trata de um final um tanto quanto forçado, e que parece ter sido encaixado à narrativa de modo até mesmo arbitrário. Essa sensação de estranhamento deve-se, justamente, à mudança de ritmo que o romance adota em seu final, onde ao grande nível de detalhamento presente na primeira e na segunda partes (a vida em Paris e depois a fuga para o campo) adota-se na terceira e última uma descrição en passant que recobre quase sessenta anos. Além dessa questão formal, a aposta que Barvajel faz de um retorno a um modo de vida feudal não convence nem mesmo o medievalista mais entusiasta em reviver os gloriosos anos da vassalagem. Em suma: trata-se de um final decepcionante, apostando em um otimismo sem reservas que contrasta terrivelmente com o quadro de descrença que o autor pinta sobre a civilização nas primeiras partes do livro, e que termina por tornar opacas as excelentes descrições dos acontecimentos que transformaram Paris em uma cidade completamente enlouquecida após o fim abrupto da eletricidade.

8.26.2012

"I, Pet Goat II" - o vídeo e sua simbologia


Conheci esse vídeo hoje através de um amigo (obrigado!), e já o assisti incontáveis vezes. E cada vez que o assisto, descubro novos elementos. 

De longe, é um dos vídeos mais interessantes que já assisti em toda a minha vida. Só a a sua extrema carga simbólica (que ainda não consegui apreender totalmente, e tenho a modéstia de reconhecer que dificilmente conseguirei) renderia um volumoso tomo de análises. É inegável a força que tais símbolos conservam, a ponto de não ter nenhuma fala no vídeo, e ao mesmo tempo ele ser capaz de comunicar muito mais coisas em seus breves de sete minutos do que a tediosa verborragia de muitas pessoas por aí. Fez-me refletir que calar, mais do que falar, é o que importa nesse mundo.

Uma obra de arte que mostra como os sofisticadíssimos recursos de animação podem ser utilizados para fins muito mais profundos do que na produção de blockbusters para crianças e adultos infantilóides. Abaixo, traduzi um artigo publicado no site The Vigilant Citizen, que aborda alguns aspectos do simbolismo de "I, Pet Goat II". Recomendo, entretanto, assistir ao vídeo algumas boas vezes antes de lê-lo - afinal, o grande encanto é a sensação de perplexidade e fascínio que os símbolos suscitarão. Valerá, e muito, cada segundo de sua atenção.


O simbolismo esotérico do vídeo "I, Pet Goat II"

“I, Pet Goat II” é uma animação carregada com mensagens silenciosas e simbolismo esotérico. O filme não tem diálogos e cada símbolo conta uma parte de uma história que abrange os campos da história, da política, conspirações ocultas e espiritualidade. Vamos olhar para o significado esotérico por trás da sensação viral "I, Pet Goat II".

Produzido pela produtora canadense Heliofant, "I, Pet Goat II" é uma animação que rapidamente se tornou viral através da internet. Elogiado por suas proezas visuais e seu fantástico imaginário, o vídeo deixou muitos confusos sobre o significado de seu simbolismo.

Política, conspirações e operações de manipulação por falsas bandeiras são misturados com espiritualidade esotérica e simbolismo oculto de maneira grandiosa e hipnotizante.

Após assistir ao vídeo, muitos podem dizer algo como "O que diabos eu acabei de assistir?". A história é um pouco não-linear e há muitos elementos enigmáticos do filme. Esse artigo não vai decodificar totalmente cada quadro do vídeo, mas muitas das mensagens são facilmente compreensíveis devido ao seu alto nível de simbolismo.

Em geral, o filme parece ser sobre o clima político e social da década passada - com presidentes fantoches, terrorismo e estratégias de controle mental. Então, através do surgimento de uma figura similar a  Cristo, deixamos toda a tristeza para trás para entrar uma nova era de sol. Em suma, a história é sobre o triunfo da iluminação espiritual contra as forças das trevas. Vamos olhar para o filme e em alguns de seus muitos detalhes.

O vídeo começa com uma cena interessante: uma bode dentro de uma caixa, no que parece ser algum tipo de campo de concentração. O bode tem um código de barras em sua cabeça com o número "666" debaixo dela. Se "I, Pet Goat" é sobre a liberação das forças das trevas, esta primeira cena parece representar exatamente o oposto. Será que o bode representa aqueles que foram "encaixotados", sofrendo uma lavagem cerebral pelo sistema corrupto? O uso do pronome "eu" no título implica que o cabra pode ser, de fato, o próprio espectador.

O Puppet Show que é a política
Na primeira parte do vídeo, um mestre das marionetes escondido controla George "Dubya" Bush dentro de uma sala de aula. Quando os aviões bateram no World Trade Center em setembro de 2001, Bush estava dentro de uma sala de aula fazendo uma leitura do livro "My Pet Goat"  para as crianças. O chão quadriculado ao estilo de uma loja maçônica da sala de aula pode significar que esta farsa tinha um componente ritualístico para ele.

Bush dança, faz caretas assustadoras e diz coisas aleatórias para manter as massas sem pistas sobre a verdade. Acima de Bush há um gráfico interessante mostrando a evolução da humanidade a partir de peixes para macaco e depois ao homem segurando uma arma. O que é a etapa final da evolução? O homem iluminado, representado por um sol em torno de sua cabeça.

Bush usa um chapéu de burro, este chapéu cônico que foi dado aos estudantes "mais lentos" para humilhá-los. Quando Bush se dá conta de que é um tolo, ele se transforma em Obama, um homem encantador e distinto usando um boné de graduação. Ele começa agradável e amável, mas depois começa a rir o público. Enquanto ele parecia ser a resposta e contraponto perfeitos para a idiotice da era Bush, o fato é que ele é simplesmente um outro fantoche controlado pelo mesmo mestre das marionetes, que permanece oculto.

Enquanto a maioria do público está totalmente alheio ao que está acontecendo, uma menina não está comprando isso.

Enquanto as massas parecem ser surdas, mudas e cegas (e contidas por arame farpado), esta menina percebe que "esta maçã não é dela e deixa-a cair". Obama se mostra preocupado com o despertar dessa menina. (Nota:a  maçã é o símbolo do Pecado, e ao deixá-la cair de suas mãos, a menina está rejeitando o caminho do Mal - e tanto é que, da maçã, da pecaminosa maça, surge uma Flor de Lótus, símbolo oriental da Iluminação Espiritual. Esse símbolo retornará adiante.)

Estamos, então, levado para o mundo frio de neve em volta da escola. Em uma parede, há uma pichação com uma mensagem importante por trás disso: na parede da escola há uma pichação dizendo "Salmo 23".

O versículo bíblico que é referido pelo grafite parece prever a viagem telespectadores estão prestes a embarcar: "O Senhor é meu pastor, nada me faltará. Ele me faz repousar em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas, porque refrigera a minha alma. Ele me guia pelos caminhos corretos por amor do seu nome. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte não temerei mal algum, porque tu estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam. Você prepara uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos. Unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Certamente a sua bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor para sempre."


Um mundo em decadência
O mundo lá fora está escuro, frio e, literalmente, em decadência. É triste, corrupto e tudo está a tremer e ruir. Em um ponto, duas torres - clara alusão ao WTC - caem. Depois, aprendemos que foi um trabalho interno: Bin Laden está usando um crachá da CIA, insinuando para o fato de que ele era uma ferramenta usada pelo governo americano para avançar sua agenda. A lua crescente, um símbolo associado com o Islã, é invertida, que pode ser uma forma de dizer que tudo o que a Al-Qaeda faz é uma perversão e uma exploração do Islã.


Enquanto vazamentos de óleo de todos os lugares, uma estrela de seis pontas aparece sob a Estátua da Liberdade, rebatizada pelos criadores do filme "A Dama da Servidão". É a estrela de seis pontas (ou Estrela de David) aparecendo sob a Senhora da Servidão uma forma de dizer que os EUA são altamente influenciados por Israel?

Enquanto o mundo está desmoronando, muitas instituições antigas desaparecem ou são destruídas.

Esta mesquita é destruído por caças
Esse trabalhador latino está afundando, junto com sua foice e o martelo - representando o desaparecimento do marxismo em países do Terceiro Mundo. No site oficial do Heliofant é dito: "Depois de anos de exploração econômica e da degradação ambiental, Juan" Pepito "tem uma sensação decididamente afundando."


Controle das massas
O mundo está sob o controle de um malvado feiticeiro chamado Drako. De acordo com os criadores do filme, Drako é: "O Feiticeiro, a mão invisível e espírito de loucura buscando o controle cada vez maior através de trapaças, mentiras, venenos, bandeiras falsas, eventos, guerras e montanhas de leis e burocracia para desviar a energia dos habitantes da Terra. Ele teme a luz do dia como ele teme a própria vida, e opera nas sombras. Seu maior poder é o seu poder sobre a emissão da moeda."

Isso soa com o que chamamos de Illuminati? Sim, sim, sim.

Da mesma forma que os Illuminati procuram fazer lavagem cerebral em crianças desde o nascimento, Drako coloca suas garras nesse nascituro chamado Ludovic.

Olho reptiliano Drako o espera o nascimento de Ludovic

Na tradição esotérica, o símbolo do ovo de serpente entrelaçada é conhecido como o ovo órfico. Em suma, ela representa a semente latente de vida e do potencial infinito da criação.

Quando o ovo é chocado e a criança nasce, Drako literalmente toma o controle de sua mente de uma forma assustadora e parasitária.

Drako tem a pirâmide e "O Olho que tudo vê" encontrado na nota de dólar dos EUA em seu queixo. Não só representam o fato de que ele controla a moeda, como também representa os Illuminati. Debaixo dos olhos Drako há o ditado "Ordo ab Chao" - slogan favorito da elite ocultista. Além disso, o cara tem apenas um olho aberto. Ele poderia, assim, representar mais o Illuminati?

O Libertador
Em meio a todo esse caos, uma figura surge com o poder de renovar todas as coisas.

Navegando em um barco egípcio cerimonial, Jesus Cristo parece estar em transe.


A figura similar a Cristo tem um terceiro olho sobre a glândula pineal, que se refere ao conceito de iluminação espiritual. O triângulo acima do olho representa a divindade, significando que a iluminação leva ao contato com a própria natureza divina. Os símbolos na testa de Cristo estão em completa oposição a pirâmide no queixo do Drako. Embora ambas as figuras tenham símbolos similares em seus rostos, Cristo os tem "direito" e Drako em reverso / invertido, o que significa que ele (e os Illuminati) corromperam estes símbolos antigos.

Chamado pelos criadores do vídeo "O Fogo da Verdade", a figura de Cristo não é para ser o próprio Jesus Cristo, mas uma representação do conceito de Cristo Íntimo como definido pelo gnosticismo. De acordo com esta corrente esotérica do cristianismo, o Cristo Íntimo é o potencial encontrado em todos para chegar a divindade através da iluminação espiritual. No site Heliofant, O Fogo da Verdade é descrito como:

    "É VOCÊ! quando você está na consciência de sua filiação com o Divino e da irmandade da humanidade! "

Quando a figura de Cristo respira o Fogo da Verdade sobre o mundo, alguns personagens oprimidos ou angustiado voltam à vida, como Ludovic, a criança com cabeça de ovo. Além disso, Aali, um menino muçulmano que apareceu golpeado e morto sobe de volta à vida.

O pequeno Aali sobe nos destroços da mesquita destruída, girando vestido e um tradicional traje dervixe. O menino está executando a antiga arte de dança Sufi, que é praticada pelos dervixes sufis da ordem de Mevlevi. Os dervixes são uma corrente esotérica antiga do Islã. "Os mistérios da fé islâmica estão agora sob a guarda dos dervixes - homens que, renunciando ao mundo, resistiram ao teste de mil e um dias de tentação. Jelal-ud-Din, o grande poeta persa sufista e filósofo, é credenciado por ter fundado a Ordem Mevlevi, ou os "dervixes dançantes", cujos movimentos exotericamente significam os movimentos dos corpos celestes e esotericamente resultam no estabelecimento de um ritmo que estimula os centros de consciência espiritual dentro do corpo do dançarino." - Manly P. Hall, The Secret Teachings of All Ages

O renascimento do menino muçulmano como um dervixe sinaliza que existe uma ligação entre ele eo  Cristo interno: ambos representam iniciação em escolas esotéricas, escolas que têm um objetivo comum - o contato com a divindade através da iluminação espiritual. Outras religiões com correntes esotéricas como o hinduísmo (representada por um Shiva dançante), também são representados no filme.

Quando a figura de Cristo sai da Catedral, o edifício (que era guardada por um gárgula) desmorona atrás dele.
Nesta nova era de iluminação espiritual, edifícios elaborados pelo homem tornam-se desnecessários e ultrapassados. Eles, portanto, desintegrar-se-ão e desaparecerão.
Quando a noite se transforma em dia, a figura de Cristo abre os olhos de fogo e navega em direção à luz do sol. Flores de lótus, símbolo da iluminação espiritual na filosofia oriental, aparecem novamente no vídeo, surgindo atrás dele, confirmando para os telespectadores de que o caminho para a liberdade é, na verdade, um caminho espiritual.

Em Conclusão
""I, Pet Goat II" tem recebido muitos elogios por sua habilidade técnica e sua narrativa original. Embora não haja nenhuma narração ou diálogo, uma história elaborada é entregue usando a língua mais antiga e universal na História: símbolos. Através de símbolos, o filme consegue entregar uma crítica mordaz da civilização ocidental de hoje, para descrever seus males numerosos e mesmo prever sua queda inevitável. Mais importante, uma decodificação completa do simbolismo do filme revela uma poderosa mensagem de iluminação espiritual com base em antigos mistérios. Embora este aspecto esotérico do filme possa não ser entendida por muitos, é o cerne do filme e é apresentado como a solução definitiva para os males e corrupção do mundo de hoje. A conclusão do filme é, portanto, muito pessoal: ou você se torna um bode de estimação com um 666 em sua testa ou então um Cristo com um terceiro olho na testa. Esta noção de iluminação pessoal é definitivamente gnóstica e é comum à maioria das escolas esotéricas de todas as civilizações.Concordando ou discordando com a conclusão espiritual do filme, é mais que óbvio que os criadores de "I, Pet Goat II" são conhecedores de temas esotéricos. Cada cena tem uma profunda história subjacente - seja histórica, política ou espiritual - que levaria páginas e páginas para explicar minuciosamente. Aí está o poder dos símbolos: eles podem simplesmente ser admirado por sua beleza estética ou podem, quando totalmente compreendidos, revelarem uma história profunda sobre a humanidade, Deus e muito mais.

Fonte: http://vigilantcitizen.com/moviesandtv/the-esoteric-symbolism-of-the-viral-video-i-pet-goat-ii/