11.18.2011

"Axe is the name of mine", de Alexander Dugin - parte 1


Esse post é a tradução do texto “Axe is the name of mine”, do russo Alexander Dugin, onde ele propõe uma bizarra e interessantíssima interpretação metafísica do romance "Crime e castigo", de Dostoiévski.

Como é um ensaio longo, esse post se divide em três partes:
Parte 1                    Parte 2                       Parte 3

Dugin é o principal intelectual do Eurasianismo, movimento surgido nos anos 1920 que clama ter a Rússia uma identidade completamente diferente da Europa Ocidental. Os eurasianistas consideram a Revolução Bolchevique como uma reação do espírito russo à sua rápida e degradante modernização, e que compete agora, aos eurasianistas de hoje, unir a grande Mãe Rússia e suas regiões de influência – Cáucaso, Irã, Georgia e, mais recentemente, Turquia – em um bloco de rejeição contra o Atlanticismo, termo geopolítico cunhado por Dugin para designar o domínio norte-americano sobre o mundo. É o Eurasianismo, segundo Dugin, uma nova revolução anti-americana, cujos aspectos são a princípio políticos e econômicos, mas também tem profundas dimensões militares, culturais e espirituais.

Não bastasse o texto de Dugin tratar de um dos meus romances prediletos, a sua interpretação metafísico-simbólica do texto é absurdamente magnífica – quer você concorde com as idéias lunáticas dele ou não. Aliás, o grande valor de Dugin está justamente na sua predisposição ao extremo, ao combate franco e aberto e, por que não dizer, a de ser o profeta-líder desse novo mundo eurasiano - pretensão que se harmoniza perfeitamente com o seu próprio semblante messiânico.

É  na voz dos extremistas que muitas vezes o dínamo do motor da história se mostra mais claramente. Dugin é um dos pensadores extremos do mundo de hoje. Ouvir o que ele tem a dizer mostra que ainda há ferocidades presentes em vários lugares do globo e que a nostalgia de uma grandiosa Rússia ainda move corações e mentes que parecem estar prontos para o assassinato.

Como é um texto relativamente longo, eu o publicarei em três partes. A próxima divulgarei na terça-feira que vem, dia 22 de novembro.

Agora, o texto.



Meu nome é machado: Dostoiévski e as metafísicas de São Petersburgo - (1a. parte)


O autor que escreveu a Rússia

O principal escritor da Rússia é o romancista Fyodor Mikhaylovich Dostoiévski. A cultura russa e a mentalidade russa reúnem-se nele, em uma espécie de síntese mágica. Toda a produção literária anterior antecipa Dostoiévski, tudo que vem depois resulta dele. Não há dúvida de que ele é o maior gênio nacional da Rússia.

A herança de Dostoiévski é imensa e quase todos os estudiosos estão de acordo com a importância central de seu romance Crime e Castigo. Se Dostoiévski é o principal escritor da Rússia, Crime e Castigo é a principal obra da literatura russa e o texto fundamental da história russa.

Conseqüentemente, não há nada acidental ou arbitrário sobre ele, e não pode haver. Certamente este livro deve conter algum misterioso hieróglifo, no qual todo o destino russo está concentrado. Decifrar este hieróglifo é o mesmo que obter o conhecimento do impenetrável Mistério Russo.

A Terceira Capital - A Terceira Rússia
O romance se passa em São Petersburgo. Este fato, em si mesmo, tem um significado simbólico. Qual é a função sagrada de Petersburgo na história russa? Pela compreensão disso chegaremos perto da posição de Dostoiévski.

São Petersburgo adquire uma significação sagrada somente em comparação com Moscou. Ambas as capitais estão em estreita ligação uma com a outra por uma lógica cíclica, por uma linha simbólica. Rússia teve três capitais. A primeira - Kiev - foi a capital de um estado nacional etnicamente uniforme, situado na periferia do Império Bizantino. Aquela região nordeste fronteiriça não desempenhou um importante papel civilizatório nem sagrado. Um lugar habitual para bárbaros arianos. Kiev é a capital da Rússia étnica.

A segunda capital - Moscou - é algo muito mais importante. Ela adquiriu uma significação especial no momento da queda de Constantinopla, quando a Rússia tornou-se o último Reino Cristão Ortodoxo, o último Império Cristão Ortodoxo restante.

Conseqüentemente alguns acreditaram: “Moscou é a Terceira Roma”. A idéia de um reino na tradição católica ortodoxa tem um especial papel escatalógico: o Estado, pelo reconhecimento da perfeição da verdade da Igreja é, em conformidade com a Tradição, o obstáculo no caminho do “Filho da Ruína”, o impedimento ao advento do Anticristo.

Alexander Dugin
O Estado Cristão Ortodoxo, constitucionalmente reconhecendo a verdade da Cristandade Ortodoxa e a influência espiritual do Patriarca, é o “cathecon” ou “impedimento” (conceito presente na segunda carta de São Paulo Apóstolo aos Tessalonissenses). A introdução do Patriarcado na Rússia tornou-se possível apenas no momento em que caiu o Império Bizantino e, conseqüentemente, o Patriarcado de Constantinopla perdeu sua sigificação escataológica. Pois essa significação é concentrada não apenas na hieraquia da Igreja Cristã Ortodoxa, mas no Império que reconhece a autoridade desta hierarquia. Assim se segue a significação teológica e escatológica de Moscou.. A queda do Império Bizantino significou, na visão apocalíptica da cristandade ortodoxa, a aproximação do período de “apostasia”, de falsidade generalizada. Apenas por um escasso tempo pode Moscou tornar-se a Terceira Roma a ponto de retardar o advento do Anticristo, postergar o momento em que sua chegada se tornará um fenômeno universal. Moscou assim é, essencialmente, a capital de um Estado novo. Não um Estado nacional, mas de um soteriológico, escatológico, apocalíptico. A Rússia de Moscou, com seu Patriarca e rei cristão ortodoxo (ou czar), é uma Rússia que é absolutamente  diferente daquela Rússia de Kiev. Não está mais na periferia do Império, mas é o último baluarte da salvação, a Arca, a terra limpa na qual a Nova Jerusalém irá descender.

São Peterbusrgo é a capital da Rússia que vem após a Terceira Roma. De certa maneira não é uma capital, não pode ser – “não haverá uma Quarta Roma”, está escrito. São Petersburgo estalebece a Terceira Rússia. Terceira pela condição, estrutura e sentido. Ela não é nem um Estado nacional, nem uma arca soteriológica. É uma estranha e titânica quimera, o “pós-morte” do país, a nação que vive e se desenvolve em um espaço que está além da história. Petersburgo é uma cidade de “Nav” (“encarnação da Morte”, em russo antigo), uma cidade do lado oposto. Assim se compreende a assonância de rio Neva (onde Petersburgo está situada) e “Nav”. A cidade do luar, da água, das construções estranhas, alheia ao ritmo da história, ao nacional e à estética religiosa. O período petersburguense da história da Rússia era o terceiro sentido de seu destino. Era um tempo de russos extraordinários, de russos que estavam além da arca. Os antigos crentes foram os últimos a embarcar na arca da Terceira Roma pelo batismo de fogo.

Dostoiévski é o escritor de Petersburgo. Ele não é compreensível sem Petersburgo. Mas Petersburgo em si permaneceria em um virtual e fantasioso estado sem Dostoiévski. Ele a revitaliza, e revela o sentido dessa enigmática cidade. Graças a Petersburgo, a literatura russa pode apresentar-se ao mundo

Se o período kieviano é o período das lendas épicas e o de Moscou o tempo da soteriologia e da teologia nacional, o de Petersburgo traz para a literatura da Rússia uma base profana que costuma ter um valioso sentido nacional, um rastro louvável de substâncias que tinham morrido. Literatura é uma proteção, uma mancha na superfície das ondas siderais, um vácuo que é lamentado com desespero. Dostoiévski prestou tanta atenção a esse chamado que perdeu tudo para ressuscitar com um heróico comportamento espiritual. Dostoiévski é mais do que literatura: é teologia, lenda épica. Por isso sua Petersburgo busca uma idéia, um sentido. Ela constantemente transforma-se na Terceira Roma. Ela agoniza e se debate na busca pelas fontes mais íntimas da nação russa.

 O principal personagem de Crime e Castigo é chamado Raskolnikov, uma referência direta ao Cisma (ou “Raskol”). Raskolnikov é um homem da Terceira Roma, geworfen (ou “atirado”) dentro da navi Petersburgo. A alma sofredora que, por uma estranha lógica, repentinamente encontra a si mesma, após sua auto-imolação no úmido labirinto das ruas de Petersburgo e seus muros amarelos, em suas avenidas encharcadas e seus sombrios céus cinzas.


A Capital
A trama de Crime e Castigo é uma estrutura análoga a de O Capital, de Marx: a profecia da futura Revolução Russa. Simultaneamente, é um esboço de uma nova teologia, uma teologia de um ser desamparado por Deus, que se tornaria o principal problema filosófico do século XX. Esta teologia poderia ser chamada de “teologia de Petersburgo”.

A história é extremamente simples e pode ser resumida assim: o estudante Raskolnikov percebe nitidamente a realidade social como uma revelação do Mal, sensação que é extremamente característica de certos ensinamentos gnósticos e escatológicos.

O cianeto de potássio da civilização; a degeneração e o vício florescem onde as conexões orgânicas, os significados espirituais e as anagógicas espirais das hierarquias que ascendem sem obstáculos ao céu estão perdidas; a percepção da realidade profana; a insuportável perda da Terceira Roma; o horror perante o encontro com a substância universal do Anticristo, com Petersburgo: Raskolnikov acredita ser absolutamente correto que o pólo simbólico do mal seja um caráter feminino pervertido (Kali), que é amaldiçoado pela religião. A decadência e degradação do mundo: isso tudo é a velha usurária, a Baba-Yaga do mundo moderno, a Mulher do Inverno, a Morte, a assassina. Fora de sua suja morada ela trefila os fios da teia de Petersburgo, enviando através de suas ruas escuras Luzhins, Svidrigaylovs, Dvorniks e Marmeladovs, os “irmãos negros”, agentes secretos do pecado capitalista.

As armadilhas do submundo envolvem tavernas e bordéis, antros de miséria e ignorância, escadarias e portões envoltos em semi-escuridão. O centro da roda do mal de Petersburgo é encontrado. Rodion Raskolnikov completa o reconhecimento ontológico. Certamente, ele é um comunista, embora esteja muito mais próximo dos socialistas revolucionários, dos narodniks.  Certamente, ele está familiarizado com os ensinamentos sociais contemporâneos. Conhece línguas estrangeiras e poderia ter se familiarizado com o Manifesto de Marx ou mesmo com o Capital. O que é importante está no começo do Manifesto: “... um fantasma ronda a Europa...”. Isto não é uma metáfora, mas uma definição precisa do modo especial de ser que se cristaliza depois que uma sociedade se torna profana, depois da “morte de Deus”: é a partir desse momento que nós estamos no mundo dos fantasmas, no mundo das visões, das quimeras, das alucinações, das tramas da morte. Pois para a Rússiafoi justamente isso que significou a “jornada de Moscou para Petersburgo”, a encarnação do Nieva dentro da cidade, dentro do fantasma-cidade. Esta encarnação nunca poderia ser tão completa como em Crime e Castigo.


O espectro comunista tornou tudo realisticamente fantasmagórico. Tendo se estabelecido na consciência do estudante, que procurava pelo perdido Logos, ele mergulha-o em uma corrente de visões distorcidas: um velho libertino arrastando uma adolescente bêbada em algum lugar; Marmeladov chorando de um modo arrependido, depois de ter vendido o último xale de sua amada para conseguir dinheiro para o álcool; o endemoniado Svidrigaylov, o enviado da eterna teia, que está sob a tutela da velha usurária, aproxima-se silenciosamente na direção da casta irmã de Rodion. Mas o que é esta ilusão? O fantasma, tendo possuído a consciência, de fato liberta o inconsciente: a realidade revelada é assustadora, intolerável, mas verdadeira. Porém seria o Mal compreensível pelo Mal? Uma ilusão revelari o caráter ilusório do mundo? Pela insanidade pode-se compreender que a humanidade vive de acordo com as leis de uma lógica doente? O fantasma do marxismo, o narcótico da revelação, o chamado gnóstico para o levante contra o maligno Demiurgo... A sangrenta dor destas feridas é mais aguda do que a imagem de uma brilhante e iluminada sala, cheia de casais elegantes rodopiando enquanto dançam.


Raskolnikov, matando a velha decrépita, comete um ato paradigmático, realiza um Feito que, de um modo arquetípico, é reduzido a práxis, tal como o marxismo a concebe: o Feito de Rodion Raskolnikov é o ato da Revolução Russa, o sumário de toda a literatura social democrata, narodnika e bolchevique. É um gesto fundamental da história russa que ocorreu logo após Dostoiévski, tendo sido preparado muito antes dele em enigmáticos pontos fundamentais do destino nacional. Toda a nossa história é dividida em duas partes: antes do assassinato da velha usurária por Raskolnikov e depois desse assassinato. Mas sendo um fantasmagórico e atemporal momento, ele lança flashes para frente e para trás dentro do tempo. Mostra a si mesmo nas revoltas camponesas, nas heresias, nas rebeliões de Pugachov e Razin, na divisão da Igreja Cristão Ortodoxa (Cisma, Raskol em russo), no advento de uma era de trevas (eventos que começam na Rússia já no século XVII), em todas as complicadas, multifacetadas e insaciáveis metafísicas do Assassinato Russo, o qual difunde-se da profundidade do nascimento eslávico até o Terror Vermelho e o Gulag. A mão levantada sobre o crânio da vítima foi impelida por uma apaixonada e profunda irrupção de raiva.

Nós, russos, somos uma nação abençoada. Por isso todas as nossas manifestações – altas e ordinárias, graciosas e terríveis – são santificadas por um sentido sobrenatural, pelos raios luminosos da cidade celeste, são ungidos por uma substância transcendente. Na abundância da Graça nacional o Bem e o Mal são misturados, lançados um contra o outro, e repentinamente as trevas se iluminam, enquanto que algo branco e cristalino transforma-se em um simples inferno. Somos tão incognoscíveis quanto o Absoluto. Somos uma nação divina. Mesmo nosso crime é incomparavelmente superior às virtudes dos outros.

Veja a 2a. parte do ensaio
Veja a 3a. parte do ensaio

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