12.21.2020

Gnose solar e mistérios lunares


No dia que o Sol alcança o ponto mais alto em sua trajetória anual, no Solstício de Verão, e onde nós aqui no Hemisfério Sul vivenciamos o dia mais longo como um símbolo da explosão de calor e luminosidade que marca o início da mais quente das estações, me pego em reflexões sobre como esses momentos de transição solar foram absorvidos pelas mais diversas religiões no mundo, dando a esse acontecimento atributos transcendentes – e de que forma podemos ter neles símbolos positivos de mudança e pontos de conexão com energias espirituais transformadoras.

Já é bastante sabido que o Natal, comemorado no 25 de dezembro, apropriou-se das comemorações do solstício de inverno que ocorriam no hemisfério norte. A data mais significativa do calendário cristão nasce portanto trazendo consigo esse momento especial da roda das estações, onde vários povos festejavam o início do inverno, estação de recolhimento onde os homens procuravam o conforto do lar para enfrentar os rigores gélidos que estavam apenas se iniciando. Comemorar o solstício de inverno, a mais longa das noites que é a noite de Yule, onde o Sol alcança o ponto mais baixo de sua trajetória no horizonte, é comemorar também o início da ascensão desse astro que, ao longo dos meses vindouros, irá pouco a pouco subir novamente até alcançar seu pico de calor e transformação. O nascimento de Cristo comemorado nesse contexto se apropria dessa espécie de “promessa de retorno” do Sol ao seu patamar de plena luminosidade, transformando-a na mensagem da Boa Nova messiânica, com o Filho de Deus feito carne para salvar o mundo.

O mito de Jesus é apenas um entre tantos outros onde deuses nascem de virgens. Mitra é um deles: amplamente cultuado pelas elites guerreiras romanas, alguns historiadores sustentam que foi por apenas uma questão de fé pessoal de Constantino que o Ocidente se tornou cristão, trocando o culto mitraico importado da Pérsia por um outro não menos exótico, vindo também do sedutor Oriente... (escrevi sobre esse assunto nesse link aqui). Nem era preciso, entretanto, ir para a Pérsia para ter um deus nascido em 25 de dezembro: em Roma já se cultuava nesse dia o deus frígio Áttis, filho de Cibelle que, tal como Maria, concebeu a seu primogênito intocada.

Cito esses exemplos não com a intenção de “desconstruir o Natal”, apontando-o como uma festa originariamente “pagã” que o cristianismo deturpou. Um estudo sério do cristianismo, especialmente do catolicismo medieval, mostra para quem quiser ver o quanto de “paganismo” existe dentro da própria fé cristã, sendo o Natal apenas um desses elementos. O que eu gostaria de demonstrar com esses exemplos é que, se não é “correto” dizer que o Natal é cristão, da mesma forma é incorreto dizer que a data é pagã: o paganismo nunca foi uma coisa única e universal, antes é um adjetivo onde se enquadra tudo aquilo que não é cristão. Há miríades de deuses, credos e divindades sob a rubrica paganismo; e querer atribuir a elas a primazia sobre uma data, como se um específico credo tivesse direito de propriedade inalienável sobre ela, é não compreender a dinâmica impermanente das sociedades humanas, como elas produzem e alteram significados e, também, como diferentes símbolos, em diferentes lugares do tempo e espaço, conseguiram trazer para as comunidades que os adotaram uma série de valores transcendentes sobre morte e renascimento, símbolos estes que traduzem certas energias presentes nos ciclos da natureza e nas infindáveis rondas do mundo acausal (ou espiritual, como queiram chamar).

O caminho que pretendo seguir com esse texto é menos o da contingência desses símbolos e suas incontáveis configurações e mais em buscar o que existe além deles, em uma perspectiva tradicional, onde as divisões entre sagrado e profano, entre mundo material e espiritual, são meramente nomenclaturas técnicas: na perspectiva da Tradição, todos os aspectos da vida são Um.

Se no hemisfério norte o Natal se comemora perto do solstício de inverno, que ocorre em 21 de dezembro, aqui no lado sul do planeta nós temos o início do verão, a estação da luminosidade e do calor, onde o Sol se mostra em toda a sua exuberância. Astro fundamental em todas as mitologias conhecidas, na esmagadora maioria considerado como símbolo da energia masculina e da ação afirmativa, o Sol é conectado com a essência da própria vida: ao redor dele a Terra gira (ou esta gira em torno daquele, como amiúde se acreditava) , assim como todas as atividades humanas giram em torno de sua ascensão e declínio no horizonte. A natureza se agita e vibra com sua tórrida presença, e se aquieta no sono quando ele se recolhe. Espiritualmente é o símbolo da vontade e da realização; assim, podemos assumir que comungar dessa energia é ter consigo o desejo de realizar da vida todas as suas potencialidades através da Ação. Não se trata, porém, de um agir descontrolado e irrefletido – isso é o Caos, donde pode-se muito obter (falarei disso mais adiante), mas que essencialmente é incapaz de criar qualquer coisa. A ação dotada de energia solar é plena, calma e soberana – não é por acaso que chamam o Sol de o “Astro Rei”. Os antigos das tradições extremo-orientais tinham para a ação tipicamente solar a expressão “ação sem agir”; com uma expressão de mesmo significado, Krishna disse a Arjuna no Bhagavad Gita que este deveria combater seus parentes na batalha de Kurukshetra sem se afeiçoar a sua ação em si, mas sim "de modo desinteressado”, isto é, desenvolver a capacidade de atuar no mundo sem se deixar levar pelo resultado das próprias ações, em se fazer o que deve ser feito com um olhar de pura transcendência e de obediência a desígnios mais elevados. Mola propulsora de uma série de acontecimentos, mas sem se identificar totalmente com suas próprias ações – ação que não é contaminada pela inconstância e tortuosidade do agir. A alegoria de ser o eixo de uma roda em movimento, que é a responsável pelo movimento mas se mantém no centro atuando e, visto de fora, como se estivesse parado, é também uma imagem da sabedoria védica, e que bem explica esse estado de pura ação que é visto como imobilismo.

Estamos falando de um alto domínio de si mesmo, da capacidade de atuar no mundo sendo como o Sol – exuberante, vivo, impulsionador da vida e fonte de inspiração para quem o contempla.  Alcançar tal domínio não significa ter um excesso de energia solar consigo, mas sim tê-la de modo equilibrado. Como sua contraparte energética, o Sol tem a Lua, astro que surge no céu quando o primeiro inicia seu movimento de descida no horizonte. Falemos agora, portanto, da misteriosa Lua, e de como ela é uma parte fundamental para todos aqueles que buscam o avivamento das energias solares.

A Lua tem uma natural conexão com energias femininas: suas fases, cujo completude leva 28 dias, relaciona-se diretamente com os ciclos menstruais. Nas mais diferentes mitologias, a Lua também foi considerada como a depositária dos aspectos obscuros da espiritualidade, relacionando-se com as energias dos submundos e das divindades agressivas e perigosas. Na árvore cabalística relaciona-se com Yesod, sephira que rege o mundo astral, as imagens do subconsciente e dos sonhos; sua contraparte qliphótica é Gamaliel, qlipha onde residem os aspectos descontrolados e obsessivos da sexualidade e do desejo em toda a sua selvageria primitiva. Como ilustração de sua natureza “maligna”, cito Blavastky do Volume I de “A Doutrina Secreta”:

“A  Lua é hoje o frio resíduo, a sombra arrastada pelo corpo novo [nota: ela refere-se aqui à Terra] para o qual se fez a transfusão de seus poderes e princípios de vida. Está agora condenada a seguir a Terra durante longos aeons, atraindo-a e sendo por ela atraída. Incessantemente vampirizada por sua filha, vinga-se impregnando-a com a influência nefasta, invisível e venenosa que emana do lado oculto de sua natureza. Pois é um corpo morto, e no entanto vive. As partículas de seu cadáver em decomposição estão cheias de vida ativa destruidora, embora o corpo que elas anteriormente formavam esteja sem alma e sem vida. Em consequência, suas emanações ao mesmo tempo são benéficas e maléficas – circunstância que encontra seu paralelo na terra, no fato de que é nas sepulturas onde as ervas e plantas medram e se desenvolvem com mais viço, sem embargo das exalações morbígenas dos cadáveres nos cemitérios. Como os fantasmas e os vampiros, e Lua é amiga dos feiticeiros e inimiga dos imprudentes. Desde as eras arcaicas até os tempos mais próximos, conhecidas são a sua natureza e suas propriedades, tanto pelas feiticeiras da Tessália e por alguns dos atuais praticantes do tantrismo na Bengala, como por todos os ocultistas; mas para os físicos permanecem um livro fechado.”

Conhecer as energias lunares através da experiência crua, vivenciando seus aspectos profundos através do mergulho em nossa psique e do contato com forças espirituais obscuras, nutre-nos com uma seiva potencialmente transformadora. Tais energias tem elementos caóticos em suas essências, advindos de sua conexão esotérica com a morte. São simultaneamente perigosas e apaixonantes: desejos desenfreados, imundícies que escondemos dos demais, silenciamentos dolorosos de coisas que nos envergonham e toda sorte de segredos que, se viessem às claras perante o mundo,  nos faria sofrer o peso da lei; também há nessas energias a vibrante dimensão erótico-thanática  que excita os sentidos, que envolve os que nela buscam se aprofundar com recompensas sedutoras que, se não se tomar os devidos cuidados, atam-nos em um sem número de correntes escravizantes. Chega-se a esse contato com as energias lunares das mais diferentes formas: meditação, cultos necromânticos, experiência psicodélicas (ayahuasca e jurema, não por acaso, são bebidas que carregam nomes femininos: a Jiboia e a Rainha, respectivamente) e outras práticas mágico-espirituais que se fundamentam em aspectos obscuros. Mas não é a única via de acesso a essas dimensões profundas emanadas da Lua: a psicologia, especialmente a linha junguiana, mostrou uma via a essas energias de um modo que a sensibilidade moderna, essencialmente ateia e materialista, conseguiu aceitar satisfeita já que é “científica” (a falsa dicotomia entre ciência e religião/espiritualidade continua muito forte hoje em dia, acirrada ainda mais durante a pandemia do Covid-19 sobre a questão das vacinas: o problema é que as posturas mais beligerantes anti e pró ciência são feitas por pessoas que grosso nada entendem de ciência, e apostam suas fichas na radicalização lacradora que não podemos nem sequer chamar de debate; especificamente no campo da psicologia, as pesquisas de Stanislav Grof, cuja abordagem da psique humana reúne em uma síntese absolutamente original as perspectivas freudianas e junguianas, o trauma do nascimento e as experiências espirituais dos povos às margens da civilização, é o que de mais atual e rico temos nesse campo, onde método científico e espiritualidade caminham conjuntamente na busca pelo conhecimento de si e do mundo, e serve como inspiração para ver essa falsa dicotomia como ela é de fato – armadilha discursiva que, sob o manto da autoridade do “especialista”, aprisiona o olhar para um recorte materialista e profano do real).


Seja qual for a via tomada para essa descida aos labirintos das energias lunares, estamos diante de um teste de força: seja pelas energias acausais agressivas com que estabelecemos contato, um mergulho profundo em nossos traumas através da terapia psicanalítica ou em rituais com uso de enteógenos, o que vivenciamos pode ser metaforicamente explicado como uma batalha. Sangramos no processo, e muitas vezes sangramos em demasia, encontrando nessas experiências os limites de nossas forças internas, que parecem desmoronar e que, se formos adiante mais e mais, de fato se esfacelarão; o raio atinge a Torre, fazendo-a cair em escombros, sangue e caos; a “terapia de choque” auto infligida coloca nosso valor sob testes rigorosos; testemunhamos, na forja de nossa Vontade, o esmorecimento do nosso Eu, até que nada mais sobre – é nesse momento de crise profunda, de uma crise que pode levar muitos a uma falência nos limites do irremediável, é nesse ponto que conseguimos nutrir nosso íntimo com potências restauradoras, sólidas e vigorosas; alimento em formato de pensamentos, imagens, sonhos, visões e todos os tipos de mensagens vindas do acausal, que muitas vezes levamos tempo para devidamente interpretar racionalmente mas que estão lá, suculentas e vivas, em seu mistério simbólico que nos deixa em estado de maravilhamento.

Para os seres do sexo masculino, os alimentos gestados no contato com a energia lunar são devidamente absorvidos quando recebemos os aspectos numinosos do Sol. É mediante a influência de suas energias naturalmente criadoras que a seiva lunar se multiplica em vida e realidade para os homens. Diferente das mulheres, que gestam a si mesmas nas energias lunares e que tem a dádiva – exclusiva das fêmeas – de estarem diretamente conectadas com a Lua através do sangue menstrual, os homens não conseguem estabelecer uma conexão com a energia lunar sem passar pelo Sol. Para que não se tenha dúvidas: o Sol também nutre as mulheres assim como a Lua, mas é com elas e apenas com elas que a energia lunar se mostra em toda a sua obscura realeza, com as três faces da Deusa – mãe, puta e anciã – unidas em pureza infinita de forma absolutamente natural.

Aos homens isso é interdito, pelo menos nessa dimensão profunda que as fêmeas conseguem experienciar quase que espontaneamente. Por isso que o homem vive quase como se fosse uma prova iniciática o contato com as energias lunares, tendo que ativamente ir buscá-las para receber suas influências vivificantes. E aqui retomo o tema dos ciclos solares, central nesse texto, e de que forma eles influenciam os homens e suas energias.

As horas do dia próximas ao nascer do Sol determinam há centenas de milhares de anos o início das atividades humanas. Seu ocaso no horizonte, o cessar dessas atividades. À parte a insanidade moderna, onde o ritmo das atividades é completamente influenciado pela lógica do capital, fazendo com que tenhamos aberrações doentias como shoppings 24 horas e escalas de trabalho noturnas tanto no setor de serviços como na indústria, à parte essas ocorrências meramente circunstanciais (o capitalismo não é um destino, vale sempre lembrar-se disso) o Sol marcava com clareza os limites do despertar e do recolhimento. Como em um eterno ciclo, o Sol nascia e morria no horizonte, percorrendo o céu e nutrindo o mundo com sua luz e calor. Não é por acaso que eclipses solares sempre foram vistos como sinais de calamidades: a interrupção da luminosidade solar no momento em que sua força estava no auge, alterando um ciclo ininterrupto diário, só pode ser o aviso de que algo terrível acontecerá. Como ficar sem a luz do Sol?

Além do ciclo diário de morte e renascimento, há o ciclo anual das quatro estações. Aqui voltamos aos momentos de mudança dos solstícios e equinócios: marcando o movimento de translação da Terra, o ciclo perpétuo de primavera, inverno, outono e verão tem nesses eventos um símbolo importante, que podemos ver como marcos da vida e nos conectarmos para deles extrair todas as suas influências transformadoras. Interessante notar a simbologia do número quatro, que tem os atributos da estabilidade, da realização e da solidez com a Terra, o mais firme dos elementos: o ciclo das quatro estações, do percurso completo ao redor do Sol, como símbolo da plena Realização. E também aqui é interessante apontar a etimologia de “sólido”, que vem do latim solum, cujo significado é firme e que, como é fácil concluir, tem sua origem na palavra “sol”.

Conectar-se plenamente com todas as estações é uma forma excelente de vivenciar a energia solar em sua plenitude. Não apenas comemorar os solstícios e equinócios como formas de conexão com as forças do Sol, refletindo sobre o significado de cada estação e como elas tem atributos que tem muito a dizer sobre nossa própria energia masculina, mas em comungar com tudo que cada estação tem a oferecer – os dias longos do verão, o odor das flores primaveris, a brisa gélida do inverno e a serenidade do outono. Comer os fruto e legumes das estações também é uma forma de ter contato com as energias solares em sua essência mais generosa, pois fazendo isso estamos literalmente construindo nossas reservas de energia com Sol em forma densa. Essa aliás é uma dimensão perdida graças ao processo de urbanização, que deslocou massas imensas de pessoas das regiões interioranas de todo o planeta para arremessá-las no pesadelo das grandes cidades onde o abastecimento de alimentos, garantidos pelos supermercados, não só se faz majoritariamente por produtos industrializados, como também degenerou a própria forma de produção agrícola a um ponto tal onde temos oferta de todas as frutas e legumes o ano todo graças a legiões de agrotóxico, cujas extensão de uso não temos nem como saber de fato. Restabelecer ciclos de consumo alinhados com as estações, fugindo do veneno do agronegócio sempre que possível, é uma maneira interessante de estarmos conectados com a energia solar. Como dito no início desse texto, a minha perspectiva é radicalmente da Tradição, onde diferenciações entre aspectos naturais e espirituais são meramente aparências – no final, tudo está conectado.

À parte tais sugestões práticas, tomar o recente Solstício de Verão como símbolo de renovação é o que eu gostaria de celebrar como principal presente de 2020. Primeiro ano da pandemia do Covid-19, ano que arremessou a todos no isolamento forçado, destruindo planos e vidas aos milhões, tomo o símbolo do Solstício como marco decisivo da renovação verdadeira, construída após meses de isolamento, erros, sofrimento e contato intenso com as obscuras energias lunares, que me puxaram para seus labirintos perigosos, onde quase me perdi, onde faltou realmente muito pouco para me perder de forma quase completa. Foi necessário sangrar muito, foi necessário ir fundo nas feridas expostas, para que as seivas de energia lunar fossem finalmente recolhidas nas taças construídas com os crânios dos meus Eus assassinados. Delas sorvi em companhia daquilo que Jung chama de Sombra, e que tantos nomes teve ao longo da história do mundo. E especificamente nesse processo de autoconhecimento, mergulhando nas águas argênteas do caos lunar, conheci a minha polaridade feminina em toda a sua eletrizante exuberância apenas para melhor viver a minha masculinidade, consciente de suas limitações, mas também de suas qualidades; daquilo que é necessário controlar, e do que é necessário compartilhar; daquilo que devemos tomar como herança feliz do passado, e do que devemos observar com distanciamento para em seguida esquecer. Como, em suma, encontrar o equilíbrio entre nossas polaridades para realizar a nossa masculinidade em toda a sua exuberância solar criadora e afirmativa; tornar cada dia um símbolo do mito de morte e renascimento, e sugar deles o máximo que tem a oferecer; aprender com o Sol como ser consistente, sereno e disciplinado; fazer planos e realizá-los soberanamente, com a consciência em sintonia com os ciclos eternos que emolduram nossa vida de formas tão gigantescas e que, atribulados por tantas e tão grandes distrações no cotidiano, acabamos por esquecer; que 2021 seja um ano, enfim, onde aprendamos a ser como o Sol, e façamos de nossos dias uma celebração das infinitas energias solares e suas numinosas influências,  influências que fazem explodir, em mil formas de Vida, as potencialidades que recebemos dos mistérios lunares após tantas provações.

10.02.2020

Sobre as responsabilidades sociais das empresas

Alguns dias atrás estava em uma discussão com algumas pessoas que, apaixonadamente, falavam sobre as responsabilidades sociais que empresas precisam ter diante de discursos de ódio. Uma pessoa defendia frente as demais o direito de empresas venderem o que quiserem, sob quaisquer circunstâncias. As demais o criticavam, alegando que empresas deveriam ter responsabilidade como empregam seus recursos e direcionando-os para promover ideias que não confrontem as bases mesmas da democracia e dos direitos humanos. 

O ponto importante aqui a colocar é que, me mantendo como observador de todo aquele acalorado debate, consegui perceber a extrema ingenuidade do pensamento liberal, que gosta de pensar a si mesmo como revolucionário (um dos debatedores, em certa altura da discussão, colocou a si mesmo nesses termos, de que era favorável a "uma revolução"). A confiança que se tem ali é que empresas podem - melhor, devem - criar formas de atuação que promovam "justiça social", que sejam "conscientes" de seu papel formador dos imaginários através do consumo de seus produtos. 

Uma verdade inequívoca é que somos todos, em menor ou maior escala, influenciados pelo Deus Mercado e temos nossos horizontes de expectativa construídos pelos efeitos da publicidade, do consumo e da cultura. Escapar a isso é impossível, ainda mais para moradores de grandes centros urbanos, que são como epicentros que jorram em suas esferas de influência as melífluas influências do Império. É nesse contexto que se justifica o apelo a uma "humanização" do capital: o entendimento da vida como inteiramente inserida dentro de suas coordenadas.

Se vermos a vida por esse prisma, a intenção de criar "empresas humanas" se justifica. Todavia, há um erro conceitual: empresas jamais serão humanas. Elas são entidades jurídicas cujo objetivo final é a obtenção de lucro. A forma como fazem isso obedece a legislações e culturas específicas, que mudam conforme o tempo. Atualmente, trata-se de criar empresas com a aura de "consciência social"; que sejam inclusivas, podendo ter em seu quadro de empregados todas as minorias; busca-se ativamente incluí-las aliás, por meio de políticas afirmativas. De perfil de empregados a linhas de produtos, de relações públicas a publicidade paga: a onda agora é construir "empresas engajadas", com olhar no público consumidor que passa a levar em conta tais características no momento de decidir o que e de quem comprar, ou seja, tornar o seu consumo "consciente". 

O imperativo econômico é claro: adaptar-se a um momento no qual a sociedade vive os momentos mais extremos das guerras culturais, substitutas capengas da "velha" guerra de classe. Se não se adaptarem a contextos sociais mais polarizados e a públicos consumidores cujo vocabulário se familiarizou com palavras como "boicote", "ecologia", "inclusão social", "machismo" e outros termos comuns nos discursos das guerras culturais, as empresas podem ver seus lucros serem deteriorados. Essa é a realidade atual, e os resultados desses novos padrões de consumo deixarão sua marca para as próximas décadas. 

O liberalismo atual tem essa aparência de bom mocismo na sua face mais direta para os públicos consumidores médios, que tem a sua disposição os produtos de linha superior: custa mais caro ser um "consumidor consciente". É uma forma de incrementar lucros, oferecendo mercadorias produzidas dentro de regras que os guerreiros e guerreiras das causas sociais consideram aceitáveis (uso consciente do solo, sem tanto plástico, empregando populações em situação de risco, etc). O racional aqui parece ser o seguinte: já que é impossível não consumir nada, que pelo menos o façamos de forma mais inteligente e "sustentável".

Eis o canto da sereia: a impossibilidade de vida além dos limites do consumo em termos capitalistas. Torna-se verdade eterna a circunstância temporal. Não há melhor forma de perpetuar uma situação de aprisionamento do que fazer com que todos acreditem que não há formas de se escapar dela, que ela é a única via de existência possível. Fazer com que se acredite que o mundo do consumo é uma realidade quase natural, algo intrínseco ao humano, contra a qual não se pode lutar contra e muito menos se imaginar algo distinto. A única via naturalmente possível: adaptar-se e buscar meios mais evoluídos de seguir assim existindo, em harmonia com o que resta. 

O que acima foi dito escamoteia um ponto fundamental: o mercado busca exclusivamente lucro e expansão de seus padrões de consumo, e esses objetivos estão em conflito com a existência da vida humana. Não há sustentabilidade possível dentro do capitalismo. Se empresas hoje apostam na criação de uma consciência social, é porque se trata de uma adaptação de seus métodos ao zeitgeist de "tolerância" e "inclusão" que tomou de assalto o mundo contemporâneo (fruto de conflitos cada vez mais intensos entre grupos diferentes, que nitidamente se ODEIAM e que poderiam exterminar uns aos outros casos estivessem todos armados - como disse Peter Gray, bruxa é aquilo que encontramos no final de um dedo apontado, e todos tem um dedo apontado para aquilo que gostariam de mandar para a fogueira de sua própria Inquisição. 

Consciência social, ecológica, etc - isso resiste apenas enquanto os lucros estão devidamente em dia. A frieza das planilhas dos departamentos de planejamento estratégico não respeita apelos sociais (considerar que especialmente tais cadeiras NÃO são ocupadas pelos guerreiros e guerreiras sociais, cujos slogans não chegam a afetar o cotidiano pragmático dos que ocupam esses cargos de alta decisão: vivem em bolhas sociais, incapazes de perceber qualquer realidade que não seja a sua imediata, e quando percebem não se importam), e na iminência de perder dinheiro, de comprometer sua participação no mercado  ou outros indicadores financeiros, todas as "práticas conscientes" voltarão ao esquecimento frio da indiferença. Os liberais ativistas, talvez enamorados demais por seu próprio canto de sereia, parecem se esquecer disso. Talvez para não perderem a confiança em sua auto imagem de dignidade - frágil, quebradiça imagem, que se esfacelaria em mim cacos ao menor sinal de real turbulência social. 

7.13.2020

Setenta mil mortos


Girar a chave. Abrir a porta. Ver a rua. Sentir o vento frio de julho batendo na face. Ou do que resta dela. Agora que todas são encobertas por máscaras. Não as conceituais, essas que vestíamos todos para não mostrar ao outro o horror íntimo que carregamos. O bom funcionário - mas que morria por dentro um pouco todo dia fazendo um trabalho que odiava. A boa namorada - mas que só continuava naquela relação porque sua autoestima destruída a fazia se sentir nojenta e indigna da felicidade. A boa mãe - mas que no fundo queria é mais que seus filhos nunca tivessem existido, grávida tão cedo de um homem que não ama mais e nem certeza tem se um dia amou. O bom pai - mas que bebia todo dia com vergonha de assumir para a família que gostava mesmo era de homem. Tantas máscaras a vida toda que chega uma hora que nem sabemos o que é rosto, o que é máscara. Mascosto. Rosáscara. Deve haver alguma palavra que, intermédia, seja uma e outra. É bem possível que alguém já a tenha inventado em alguma língua. Há tantas palavras no mundo, e é razoável pensar que morreremos sem dizer todas.

Pandemia é uma palavra que aparecia pouquíssimo nas falas cotidianas. Especialmente dos vermes urbanos, tão metidos a sabichões. Aquele tipo de imbecil que mede seus conhecimentos pela quantidade de notícias que lê. Que vê a si mesmo como "uma pessoa bem informada". Como se uma andança pelas ruas, respirando a crueza da vida, não fosse informação. De uma outra natureza, mas informação também. O foda é que somos levados a crer que apenas lendo nos tornamos "pessoas bem informadas". Aí tem aquele tipo de verme que só lê sobre a miséria, sobre o o crime, sobre a desgraça de viver no Brasil em meio a uma pandemia. Mas ele não anda nas ruas, não vê as letrinhas se transformarem em fatos de carne e osso à sua frente, na figura de... pessoas. Sabe, pessoas? Aquela entidade amorfa que surge como números em um gráfico? 70 mil mortes por Covid-19. Cada um dos pontinhos no gráfico, uma pessoa. 

Mas eu estava saindo na rua quando comecei a escrever isso aqui. Não importa a quantidade de mortes. A curva que aponta para o céu e mostra a pandemia brasileira como uma tendência ao Infinito. Foda-se: a vida continua, você é um homem ou um fraco? Uma voz mental, uma espécie de versão mais turrona de mim, grita comigo. Tem que sair na rua, fazer o que precisa ser feito. Viver, enfim. Mesmo que agora todos estejamos mascarados e isso nem é mais uma figura de linguagem. Já tem quem esteja faturando com máscaras estilosas. De super-heróis, claro, são as mais procuradas. Tem também as cômicas, que vendem bem. Rir da desgraça e se acomodar a ela. Fazer da desgraça um negócio. O Brasil que deu certo. A ironia que esvazia a tudo, que nivela no mais raso dos patamares para esfregar na cara de todos que ninguém e nada tem importância. 

Ando em direção ao centro da cidade. Passo por vários comércios. Operando normalmente. A diferença são as máscaras. Todos usando. Ou pelo usando dentro das lojas: basta sair delas que pluft! o que estava no rosto vai para o queixo. Ou a testa. A mão que tocou produtos tocados por mãos outras e cada toque potencialmente um foco de infecção em escala logarítmica de repente toca a máscara que antes cobria o rosto e que provavelmente voltará ao rosto algumas lojas pra frente - a chance de dar certo é tão pequena que eu estou quase acreditando nos argumentos dos negacionistas, de que a máscara não serve pra porra nenhuma e tudo não passa de um plano chinês para dominar o mundo.

Plano chinês para dominar o mundo. Como eu amo esse tipo de maluco. Suas violências, sejam verbais ou físicas, têm sua origem nefasta num caldo cultural que reúne preconceito, autoestima deteriorada, fracasso amoroso e baixíssima inteligência. Quando nisso tudo você coloca uma dose de religião evangélica, a maluquice aumenta bastante de nível, e aí chega naquele estágio de acreditar em terra plana. Todos são irreversíveis, mas esse último é de longe o mais irremediável.

Está na hora de aceitar que nós perdemos para os malucos. Eles estão ditando as regras do jogo. Quem se opõe a eles com textos elaboradíssimos no máximo vai conquistar alguns crushes. Não vai esclarecer nada, nem ninguém. Os malucos entraram no parafuso de piração de si mesmos e estão espalhando sua loucura cada vez mais loucamente. Há inclusive uma pretensão iluminista gigantesca naqueles que acham que, se falarem com cuidado, de modo bastante argumentativo e leeeeeennnnntaaaaaameeente, conseguirão trazer o maluco para a luminosidade do conhecimento e da libertação. Se anos de escola não conseguiram mostrar a esses malucos que a Terra é redonda, não será um texto que pode ser lido em cinco minutos que mudará isso. 

Os bares são um capítulo a parte. Nem no período mais restritivo da nossa quarentena de mentirinha eles pararam de funcionar. Quarentena carnavalizada, com sabor de trópico e jeitinho especial. Afinal foda-se, você é um homem ou um fraco? Vai deixar que o Estado determine se você pode beber ou não? De repente todos se descobriram como exemplares anarco-individualistas, stirnereanos de carteirinha sempre prontos para defender com ardor sua autonomia - claro que aqui entendida como a licença para se entupir de álcool, a droga legalizada que todos aceitam e utilizam como uma carta de alforria para a humilhação do capital. Gostam tanto da sexta-feira que ela virou até um verbo. Uma operação linguística interessante: a sexta-feira, antes o nome de um dia símbolo da libertação do trabalhador, agora é uma ação. Sextava-se já no café da manhã do último dia da semana, onde podia-se dar ao luxo de algo mais gorduroso porque afinal é sexta; sextava-se no almoço do mesmo dia, indo a um restaurante novo com os colegas do escritório pois ninguém mereceu essa semana puxada com 400 reuniões; sextava-se inclusive antes mesmo de tudo isso, escolhendo uma roupa mais descolada para ir trabalhar e portanto adequada para a sexta propriamente dita pós-expediente num bar hipster do Largo da Batata pois afinal sexta à noite pertence aos Excessos.

Estou falando de um tempo que já foi. O verbo sextou tomou ares mais contidos, menos explosivos? Pelo menos isso eu achava até ver como está o centro: festas em apartamentos, em casas, meio às escondidas, com sabor de proibido. Aglomerações porque né, ninguém é de ferro. Você é um homem ou um fraco, caceta? Vamos todos brindar a vida nesses tempos de morte. Pandemia. Palavra nova. Agora tão vulgar. Palavra já tão usada. Palavra que não é mais nada. 

Mendigos amontoados debaixo do Minhocão. Não há máscaras. Mas há crack. Pedrada após pedrada a realidade do concreto frio vai embora. Pelo menos até a fome voltar com sua violência silenciosa. Aí a caridade vai fazer seu papel e ajudar manter esses caras vivos. Eles são necessários, mas não como humanos. São necessários nos planos de morte de manter sempre a postos algum cão de farda armado pelas redondezas. Ou um batalhão deles. Quadras para cima, em Higienópolis, pensa-se que o melhor seria passar a metralhadora em geral. O que o Covid não ceifar, que a paz armada faça. Não aprenderam nada com os antepassados mortos nas câmaras de gás? Se tivessem, teriam horror do nome de um bairro que nasceu como forma de manter os ricos livres da sujeira do centro. O cinturão da Santa Cecília e da Vila Buarque mantendo uma espécie de barreira para que as hordas de imundos não cheguem até a linda praça Vilaboim e adjacências. Muita gente diferenciada nessa desgraça de cidade. Nem uma pandemia para acabar com isso tudo. Eu aposto um rim que tem alguém em algum lar em Higienópolis que pensa assim. Não apenas lá. Deve ter alguém  onde você mora. Algum parente. Você mesmo. Bem escondidinho debaixo de sua máscara de cidadão. Vamos acabar com todas as farsas de uma vez. Setenta mil mortos, parceiro. Não temos mais tempo para ficar segurando falsidade que isso dá câncer. Abre seu coração, mesmo que seja para vomitar algo sujo e fedorento. Prefiro monstros na rua do que no armário, ardilosos, acumulando seus ódios covardes.

Encontro um amigo na andança pelo centro em tempos pandêmicos. Não sabemos como nos cumprimentar. Nós que antes sempre nos abraçávamos, agora dando cotoveladas desajeitadas. O carinho substituído por algo que nem é um cumprimento. A gente ri, mas é mais de nervoso. De tristeza. De ódio impotente contra algo que mata mas é invisível. E que se centuplica com o egoísmo. Afinal eu preciso sair. Eu preciso me exercitar na rua. Eu preciso ir ao shopping. Eu. Eu mesmo. Euzinho. 

Meu amigo me pergunta como eu estou. Na hora que vou abrir boca não sai nada. Quantos meses em casa que nem sei mais como falar. Digo, falar de modo humano, não em conference calls com clientes. Aquilo não é conversa, é trabalho. E um risco no chão deve separar um do outro, e de modo ainda mais forte em tempos onde o office é a home, para que este último não se transforme no primeiro de modo perpétuo. Já imaginou como seria horroroso ter que comer, cagar, dormir, trepar, chorar, ficar bêbado, rir, lavar roupa, surtar etc dentro do seu local de trabalho? Pois é, ultimamente tem sido assim. As belezas da fala fácil sobre assuntos gerais; a poesia dos encontros amorosos inusitados; o debate entre copos de cerveja sobre livros que estamos lendo curtindo um solzinho de fim de tarde em algum bar da Praça da Árvore; a saudade matada com um abraço apertado naquele café semi-escondido da Casa da Rosas - perdemos tudo isso. Ao encontrar alguém nessas situações, tudo fluía como se deve - com a leveza de que poderíamos falar sem a pressa de um relógio, sem a máscara de um sobrenome de empresa. E agora nem consigo falar mais quando encontro um amigo que amo na rua. Parecia que eu estava tendo um treco. Penso no pior: derrame. Convulsão. Alguma doença rara que impossibilita a pessoa de falar com amigos. Mas que a deixa toda prosa quando o assunto é trabalho. Não é doença. Mas efeito do isolamento. Março a julho. Quatro meses. O tempo voa. E mata. Ainda que aos poucos. Minha voz, defunta de sua naturalidade, não sai diante de um amigo.

- Tá tudo bem, mano?

Nada sai. Me esforço. Deve ser assim que crianças aprendem a falar. Forçando as cordas vocais. 

- Errrrr... aaaaa...

Que papelão. Não é derrame porra nenhuma. É desarticulação frente a situações inusitadas: as conversas, se não tiverem horário marcado para ocorrer como todas as demais nos últimos quatro meses, tornam-se impossíveis. Artigos de chatíssimos futurólogos dizem que a pandemia deixará como legado alterações profundas em nossos comportamentos: viagens mais curtas, mais tempo preparando a própria comida, exercícios físicos praticados em casa, etc. Uma dessas alterações seria a perda da capacidade de falar de modo espontâneo? Sinceramente espero que não. Penso como seria flertar se isso se tornasse crônico. A incapacidade de dizer algo além do oi-tudo-bem sem parecer um palerma. Já é bem palerma iniciar um flerte com um oi-tudo-bem, mas ruminar um errr ou aaaaa tornaria tudo ainda pior. Talvez seja importante insistir, tentar falar algo a mais, forçar as cordas vocais como fazem as crianças pequeninas - mas eu desisto antes de começar, gesticulo que tá tudo bem mandando um jóinha seguido de um Hang Loose e dou meu cotovelo pra bater, esse péssimo gesto que se tornou o cumprimento dos tempos pandêmicos, e sigo adiante a caminhada deixando o meu melhor amigo meio estupefato no meio da rua, sem entender por que diabos eu nada falei com ele e só gesticulava alegremente. Uma tentativa porca de esconder o meu desespero de não conseguir falar.

A tristeza de não conseguir mais nada dizer.

De abrir a boca e nada sair.

Juro que tentei, leitor. Foi uma tentativa sincera. Uma intenção genuína de me comunicar falando. Mas não. Não consegui. Quatro meses fechado em um apartamento. Trabalhando até nos finais de semana. A fala sendo mediada pelo capital. Isso tem consequências. Daí lembro daquela frase. Não importa o que fizeram de nós. O que importa é o que fazemos com o que fizeram de nós. Se ele pensasse que seria usado para fins de autoajuda... acho que teria se suicidado. Simone ficaria triste, mas ela era uma mulher fodona, iria chorar por uma semana e seguir com a vida e ser maravilhosa do mesmo jeito. Seja como for, faz sentido a frase. Ainda mais em tempos onde a pandemia esgota a vida alegre que tínhamos, aquela onde o sabor da espontaneidade ainda permeava a tudo e por isso não a valorizávamos. Só damos valor ao que se perde: isso define a essência humana. Agora tudo é (ainda mais) mediado pela tirania do relógio, pelo ato mecânico de sair de casa de máscara, de lavar as mãos com álcool em gel a cada coisa que se toca.

´Penso em quantos rituais amorosos se tornaram impossíveis. Ir a um bar hipster tomar vinho e ficar ambos enamorados já semi-ébrios em um primeiro encontro, descendo as escadas meio que se apoiando um no outro só pra ter aquele pretexto de contato físico, tipo uma dança do acasalamento de humanos; de ir tomar um sorvete e trocarem colherzinhas um na boca do outro; de sentarem pertinho em um banquinho pra ver o movimento na rua tão grudadinhos nas noites frias de julho; de irem ao cinema e mãos juntinhas comendo o mesmo saco de pipoca; de chuparem-se sem receios de contrair a morte na pele que sugam. A Aids é um nada perto de um vírus que se pega até com um aperto de mão.

Para de exagero, afinal você é um homem ou um fraco? O que importa é o que você faz com o que fizeram de você. O meu lado turrão grita e eu acelero o passo. Já é noite nessa perambulação pelo centro que se iniciou no finalzinho da tarde. As ruas ficaram mais desertas durante a pandemia, mais do que o normal. A vida efervescente da boêmia paulistana onde nóias, puta, bichas, rolezeiros, punks, hipsters, playboys e perdidos em geral se misturavam em poucas quadras conflituosamente harmônicas: se nem tudo isso sumiu completamente, se tem alguns que ainda se aventuram com a irresponsabilidade da juventude, certamente aquela paixão vibrantemente viciosa que animava a noite dessas ruas do centro está ausente. Para não dizer morta. Há um silêncio fúnebre permeando cada pedacinho das antes boêmias ruas do centro. Todas as chances de sobreviver se esgotam cada vez mais neste país onde a palavra sofrer é usada demais. O verso da música se repete na minha cabeça como uma profecia vinda do passado. Agora que todos esperamos a pandemia passar, essa agonia prolongada já há quatro meses e sem perspectiva de final se repete, e se repete, e se repete -  um Ouroboros de expectativas sempre frustradas que nem o mais raivoso e niilista hino punk dos anos 80 conseguiu captar. 

Girar a chave. Abrir a porta. Desperdir-se da rua. Entrar no prédio controlando os movimentos. Não encostar em nada. Não tocar em nada. Besuntar-se de álcool em gel. Ficar nu já na entrada do apartamento. Colocar as roupas de molho na cândida. Agora borrifar álcool 70 nas mãos. Tomar um banho. Torcer para que o invisível Covid-19 não tenha ficado grudado em algum lugar. Ter entrado por algum poro. Setenta mil mortes em quatro meses. E contando.


6.29.2020

O silêncio dos atabaques


Vocês vieram como mensageiros, trazendo em suas gargalhadas as mensagens que precisávamos receber. Nessas mensagens as doçuras sempre estavam presentes, adicionando ao cotidiano um sabor de alegria que havia sido retirado de nossas vidas, após tantos golpes sobre nossos corpos maltratados. Golpes de formas diversas: dos botas pretas nas esquinas escuras, ocultos, que nos esmurravam enquanto deixávamos ali as velas e alguidares, profanados com a violência mundana das fardas. Golpes que também eram a necessidade de esconder a fé que nos inundava não por vergonha, mas pela crueldade de um mundo cujos valores são forjados por uma crença que vê em tudo que pulsa Vida e Desejo como algo que deve ser destruído. Tínhamos então que nos esconder muitas vezes, e ir para lugares distantes das cidades a fim de encontrar a paz necessária para receber e festejar Vossas presenças primais. 

Mas cada vez mais a violência da Cruz se espalhava, e as distâncias se tornaram menores. O som do atabaque teve que se silenciar. Nós choramos escondidos, acreditando que ao silenciar nossas músicas estaríamos desonrando Vossas essências, que estaríamos envergonhando a Tradição. E que ao fazer isso a vida, já tão dolorosa, perderia de vez a dádiva de Vossas mensagens, mensagens que nos traziam a doçura, aquele sabor único que amenizava a dor de tantos golpes e de tanta humilhação. Nesse choro não havia apenas tristeza, mas revolta também, e também um grande ódio. Pois os Senhores nos ensinaram que o ódio e a revolta são também parte de nós, e que ser manso jamais será digno dos que se dizem Seus filhos. Sugar da Vida tudo que ela tem a oferecer, seja "bom" ou "mau", até os limites dos limites: é isso que os Senhores nos instigam sempre a fazer, para sermos os únicos donos de nós mesmos, os únicos comandantes de nossos Destinos.

E foi tendo isso no coração (o maior presente que os Senhores nos deram foi esse: o de aprender a pensar com o coração) que descobrimos que no silenciar do atabaque um novo ordálio estava sendo colocado. Falamos das doçuras que Vossas mensagens traziam, mas havia também, e na maioria das vezes, também o amargor no que era dito - cobranças, gritos, severas repreensões. Todas essas mensagens raivosas eram necessárias, mesmo que em um primeiro momento pouco as compreendíamos. Rasgavam nossos olhos petrificados de tantas mentiras, chutavam nossa boca até os dentes caírem, ateavam fogo em nosso Eus limitados que caíam em agonia. De tudo na vida se pode tirar ensinamentos, mas é da dor que os homens tiram aqueles que os transformam para sempre - e assim, após os Senhores conduzirem os filhos pelas Sendas da Agonia, renascíamos ainda mais sedentos, mais comprometidos, querendo ver Sóis ainda mais brilhantes e caminhar em Noites ainda mais sinistras. 

Graças ao silêncio que tivemos que mergulhar, cultuando os Senhores apenas sob a luz da vela negra e nada mais, estamos aprendemos um novo valor: o da simplicidade. Enquanto os Senhores estavam aqui, sofrendo como nós os pesos da condição material, as liberdades eram inexistentes. Que ilusão achar que os servos da Cruz permitiam o som do atabaque, ou qualquer outro som! Era uma questão de morte, e assim foi selado o Destino de muitos. O silêncio está na base da fé que nos anima. O ocultamento. O ir-para-dentro-de-si. O relacionar-se com Vossas forças tendo apenas a simplicidade de uma vela, de um copo de bebida, de um fumador. As grandes festas, as belas roupas e as ricas oferendas: os Senhores nos ensinaram os valores e propósitos delas, e sempre nos corações dos filhos terá o lugar para tudo que for grande pois assim são os Senhores - mas nossos olhos não tem mais a cegueira de pensar que apenas assim que nós os agradamos. Há tantas ilusões ainda não desvendadas, mas essa não nos enganará jamais. 

Seguimos então confiantes no silêncio que os Senhores nos ensinaram a valorizar como um mestre. A olhar para a chama de uma vela e nela encontrar tudo o que precisamos para conectar-se com Vossas forças, silenciosamente, através do coração. Ter na quietude a força mais poderosa de nossa fé ressignifica os fundamentos, dá um novo sentido às firmações, faz renascer a nossa compreensão da magia, dos códigos e das mensagens. Não há no silêncio desonra, não há nele a quebra da Tradição: há no silêncio um poder que ainda estamos descobrindo, há nele uma dimensão na qual mergulhamos, selvagens e sempre sedentos, em busca da essência de Exu - a essência que queremos que seja a nossa. 

4.27.2020

Além dos véus róseo-rubros


Houve um tempo que os lençóis tinham o teu cheiro, lençóis onde gozamos juntos e acordávamos com lembranças da noite anterior. Bastava virar para o lado para já te tocar e então começar de novo. As bocas então se encontravam, ávidas, quase se mordendo. O carinho que transcende a forma amena e se torna aquilo que deve ser - primitivo gesto de amor. Não do amor surrado na escritura dos poetas, que só vivem na ilusão de sofisticar aquilo que não precisa e assim parecerem mais espertos do que realmente são. Amor como ato voraz. Explosão. Tempestade. Estremecimento. Suas pernas enlaçadas em meu pescoço, bambeando. Reflexo físico que sugeria que minha língua dedicada estava no caminho certo. O labor devoto em frente ao seu altar úmido de vida. Pois é no elemento líquido que a vida se inicia. Minha devoção, fervente, então penetrava no altar, abrindo os véus róseo-rubros que o velavam. Como eram quentes as chamas que ali se ocultavam! Isso fazia minha devoção, ainda mais exaltada, transformar-se num desejo de pura conexão. E por isso eu buscava mais uma vez sua boca arfante, mas também seus olhos. O que de mais íntimo pode existir do que amantes que fodem com olhos fixos nos olhos do outro? As chamas do seu altar úmido subiam e através dos olhares cruzados uniam ainda mais os corpos já em conexão. Continuidade ígnea. Ouroboros feito apenas de desejo em exercício. Exercício ritmado em seu altar já inundado de êxtase, sua boca perto da minha, respiração que misturava ares inalados e exalados, dentro e fora, fora e dentro. Como que isso não pode ser amor? Mãos que seguravam sua cabecinha com ternura, mas também com malícia, enlaçando os dedos em seus cabelos para aumentar a sensação de controle. Gesto que eu fazia para dizer "você é toda minha". Você percebia, como ninguém sabia me ler, e então sorria em resposta. Sorriso que era como gasolina sendo jogada em um incêndio. O sorriso acontecia de modo espontâneo ou calculado? Eis o mistério da Fé. Nenhum homem jamais saberá se o sorriso feminino na hora da foda vem de Deus ou do Diabo. O melhor é assumir que ambos são uma mesma coisa. E que a Mulher, a Beleza que está no topo do mais alto pilar da Criação, tem em si a dádiva de ser filha de ambos e de nenhum. Com aquele sorriso aumentava ainda mais minha ardente devoção. O altar úmido, já quase todo feito de líquidos cujo aroma transforma o homem em animal. E nessa inundação de sucos pecaminosos eu então começava a me preparar para contribuir com um novo tipo de libação, também ela quente e aromática, e que em outras vezes você havia sorvido, ávida e devotamente. Respirações ainda mais próximas, inalação e exalação, dentro e fora, fora e dentro, em ritmo crescente. Um olhar inocente poderia julgar que era um homem maltratando uma mulher com aqueles sacolejos quase violentos. Penso que esses mesmos inocentes ficariam confusos ao ver o seu sorriso enquanto me dizia baixinho "goza, goza", sempre com aqueles olhos mágicos me encarando. Não me saem da mente especialmente seus olhos. Eram neles que fixava toda a minha atenção enquanto eu sentia o clímax se iniciar, e os gemidos se tornando mais altos até que a respiração, descontrolada, era esquecida. Luzes disformes. Nervos se contorcendo. Segundos que a percepção se alterava. Não é a toa que os franceses chamam isso de pequena morte. Jorros quentes disparados contra as paredes internas do altar úmido. Fêmea e macho unidos em êxtase único. O suor meu pingando sobre o seu. Grudados, melados, o mundo exterior poderia ser destruído, a civilização sucumbir, holocaustos se multiplicarem. Tudo isso havia perdido o sentido. Havia encontrado um novo tipo de divindade, e ela estava oculta sob os véus róseo-rubros do altar úmido que vivia selvagem entre suas pernas.