6.29.2020

O silêncio dos atabaques


Vocês vieram como mensageiros, trazendo em suas gargalhadas as mensagens que precisávamos receber. Nessas mensagens as doçuras sempre estavam presentes, adicionando ao cotidiano um sabor de alegria que havia sido retirado de nossas vidas, após tantos golpes sobre nossos corpos maltratados. Golpes de formas diversas: dos botas pretas nas esquinas escuras, ocultos, que nos esmurravam enquanto deixávamos ali as velas e alguidares, profanados com a violência mundana das fardas. Golpes que também eram a necessidade de esconder a fé que nos inundava não por vergonha, mas pela crueldade de um mundo cujos valores são forjados por uma crença que vê em tudo que pulsa Vida e Desejo como algo que deve ser destruído. Tínhamos então que nos esconder muitas vezes, e ir para lugares distantes das cidades a fim de encontrar a paz necessária para receber e festejar Vossas presenças primais. 

Mas cada vez mais a violência da Cruz se espalhava, e as distâncias se tornaram menores. O som do atabaque teve que se silenciar. Nós choramos escondidos, acreditando que ao silenciar nossas músicas estaríamos desonrando Vossas essências, que estaríamos envergonhando a Tradição. E que ao fazer isso a vida, já tão dolorosa, perderia de vez a dádiva de Vossas mensagens, mensagens que nos traziam a doçura, aquele sabor único que amenizava a dor de tantos golpes e de tanta humilhação. Nesse choro não havia apenas tristeza, mas revolta também, e também um grande ódio. Pois os Senhores nos ensinaram que o ódio e a revolta são também parte de nós, e que ser manso jamais será digno dos que se dizem Seus filhos. Sugar da Vida tudo que ela tem a oferecer, seja "bom" ou "mau", até os limites dos limites: é isso que os Senhores nos instigam sempre a fazer, para sermos os únicos donos de nós mesmos, os únicos comandantes de nossos Destinos.

E foi tendo isso no coração (o maior presente que os Senhores nos deram foi esse: o de aprender a pensar com o coração) que descobrimos que no silenciar do atabaque um novo ordálio estava sendo colocado. Falamos das doçuras que Vossas mensagens traziam, mas havia também, e na maioria das vezes, também o amargor no que era dito - cobranças, gritos, severas repreensões. Todas essas mensagens raivosas eram necessárias, mesmo que em um primeiro momento pouco as compreendíamos. Rasgavam nossos olhos petrificados de tantas mentiras, chutavam nossa boca até os dentes caírem, ateavam fogo em nosso Eus limitados que caíam em agonia. De tudo na vida se pode tirar ensinamentos, mas é da dor que os homens tiram aqueles que os transformam para sempre - e assim, após os Senhores conduzirem os filhos pelas Sendas da Agonia, renascíamos ainda mais sedentos, mais comprometidos, querendo ver Sóis ainda mais brilhantes e caminhar em Noites ainda mais sinistras. 

Graças ao silêncio que tivemos que mergulhar, cultuando os Senhores apenas sob a luz da vela negra e nada mais, estamos aprendemos um novo valor: o da simplicidade. Enquanto os Senhores estavam aqui, sofrendo como nós os pesos da condição material, as liberdades eram inexistentes. Que ilusão achar que os servos da Cruz permitiam o som do atabaque, ou qualquer outro som! Era uma questão de morte, e assim foi selado o Destino de muitos. O silêncio está na base da fé que nos anima. O ocultamento. O ir-para-dentro-de-si. O relacionar-se com Vossas forças tendo apenas a simplicidade de uma vela, de um copo de bebida, de um fumador. As grandes festas, as belas roupas e as ricas oferendas: os Senhores nos ensinaram os valores e propósitos delas, e sempre nos corações dos filhos terá o lugar para tudo que for grande pois assim são os Senhores - mas nossos olhos não tem mais a cegueira de pensar que apenas assim que nós os agradamos. Há tantas ilusões ainda não desvendadas, mas essa não nos enganará jamais. 

Seguimos então confiantes no silêncio que os Senhores nos ensinaram a valorizar como um mestre. A olhar para a chama de uma vela e nela encontrar tudo o que precisamos para conectar-se com Vossas forças, silenciosamente, através do coração. Ter na quietude a força mais poderosa de nossa fé ressignifica os fundamentos, dá um novo sentido às firmações, faz renascer a nossa compreensão da magia, dos códigos e das mensagens. Não há no silêncio desonra, não há nele a quebra da Tradição: há no silêncio um poder que ainda estamos descobrindo, há nele uma dimensão na qual mergulhamos, selvagens e sempre sedentos, em busca da essência de Exu - a essência que queremos que seja a nossa. 

4.27.2020

Além dos véus róseo-rubros


Houve um tempo que os lençóis tinham o teu cheiro, lençóis onde gozamos juntos e acordávamos com lembranças da noite anterior. Bastava virar para o lado para já te tocar e então começar de novo. As bocas então se encontravam, ávidas, quase se mordendo. O carinho que transcende a forma amena e se torna aquilo que deve ser - primitivo gesto de amor. Não do amor surrado na escritura dos poetas, que só vivem na ilusão de sofisticar aquilo que não precisa e assim parecerem mais espertos do que realmente são. Amor como ato voraz. Explosão. Tempestade. Estremecimento. Suas pernas enlaçadas em meu pescoço, bambeando. Reflexo físico que sugeria que minha língua dedicada estava no caminho certo. O labor devoto em frente ao seu altar úmido de vida. Pois é no elemento líquido que a vida se inicia. Minha devoção, fervente, então penetrava no altar, abrindo os véus róseo-rubros que o velavam. Como eram quentes as chamas que ali se ocultavam! Isso fazia minha devoção, ainda mais exaltada, transformar-se num desejo de pura conexão. E por isso eu buscava mais uma vez sua boca arfante, mas também seus olhos. O que de mais íntimo pode existir do que amantes que fodem com olhos fixos nos olhos do outro? As chamas do seu altar úmido subiam e através dos olhares cruzados uniam ainda mais os corpos já em conexão. Continuidade ígnea. Ouroboros feito apenas de desejo em exercício. Exercício ritmado em seu altar já inundado de êxtase, sua boca perto da minha, respiração que misturava ares inalados e exalados, dentro e fora, fora e dentro. Como que isso não pode ser amor? Mãos que seguravam sua cabecinha com ternura, mas também com malícia, enlaçando os dedos em seus cabelos para aumentar a sensação de controle. Gesto que eu fazia para dizer "você é toda minha". Você percebia, como ninguém sabia me ler, e então sorria em resposta. Sorriso que era como gasolina sendo jogada em um incêndio. O sorriso acontecia de modo espontâneo ou calculado? Eis o mistério da Fé. Nenhum homem jamais saberá se o sorriso feminino na hora da foda vem de Deus ou do Diabo. O melhor é assumir que ambos são uma mesma coisa. E que a Mulher, a Beleza que está no topo do mais alto pilar da Criação, tem em si a dádiva de ser filha de ambos e de nenhum. Com aquele sorriso aumentava ainda mais minha ardente devoção. O altar úmido, já quase todo feito de líquidos cujo aroma transforma o homem em animal. E nessa inundação de sucos pecaminosos eu então começava a me preparar para contribuir com um novo tipo de libação, também ela quente e aromática, e que em outras vezes você havia sorvido, ávida e devotamente. Respirações ainda mais próximas, inalação e exalação, dentro e fora, fora e dentro, em ritmo crescente. Um olhar inocente poderia julgar que era um homem maltratando uma mulher com aqueles sacolejos quase violentos. Penso que esses mesmos inocentes ficariam confusos ao ver o seu sorriso enquanto me dizia baixinho "goza, goza", sempre com aqueles olhos mágicos me encarando. Não me saem da mente especialmente seus olhos. Eram neles que fixava toda a minha atenção enquanto eu sentia o clímax se iniciar, e os gemidos se tornando mais altos até que a respiração, descontrolada, era esquecida. Luzes disformes. Nervos se contorcendo. Segundos que a percepção se alterava. Não é a toa que os franceses chamam isso de pequena morte. Jorros quentes disparados contra as paredes internas do altar úmido. Fêmea e macho unidos em êxtase único. O suor meu pingando sobre o seu. Grudados, melados, o mundo exterior poderia ser destruído, a civilização sucumbir, holocaustos se multiplicarem. Tudo isso havia perdido o sentido. Havia encontrado um novo tipo de divindade, e ela estava oculta sob os véus róseo-rubros do altar úmido que vivia selvagem entre suas pernas.

4.11.2020

Sonho-real, Real-sonho


Há certos rumores que o Covid-19 abriu estranhos portais, pois os sonhos de todos parecem estar inundados de imagens antes não comuns. Mesmo os meus sonhos têm sido lisérgicos a um extremo que antes não aconteciam, ou aconteciam raramente - de qualquer modo, as cores têm se tornado incrivelmente mais vibrantes, as situações mais complexas e inusitadas, o ambiente amplificadamente surreal. 

Há um conto do Lovecraft que fala sobre um homem que tem sonhos onde voa por paisagens impossíveis. Ele acorda e fica recordando daquele mundo infinito com o coração apertado por um saudosismo que não tem fim. No conto os sonhos se repetem até ele enfim começar a viver apenas no sonho, e constata que aquilo que era mundo sonhado tem tanta substância e realidade quanto o "mundo real". Aquele mundo dos sonhos, tão imenso, tão fantástico, é um nada perto da realidade prosaica, repetitiva, empobrecida de significado. Sufocante, a vida real não suportaria aquele tipo de singular beleza que existe no mundo dos sonhos. Nosso mundo é feio, extremamente feio. E nele temos muitas pessoas horríveis. Mesmo aqueles que são considerados bonitos têm em si uma feiura secreta. Um traço de personalidade que faz as belas formas tão somente o que são - o feliz acaso da Natureza em criar um corpo apetitoso ao Desejo, mas que o andar dos anos tratará de deteriorar e deteriorar até ser um amontoado de tecidos enrugados, de células que morrem, de carne putrefata. "Nenhuma Beleza me vencerá", disse o Tempo no começo do mundo, e desde então a Beleza, quando surge, é só para nos fazer lembrar que todos no longo prazo seremos muito feios.

No mundo dos sonhos, porém, é tudo ao contrário: a Beleza vence o Tempo a hora que ela quiser. Ela na verdade ri da cara do Tempo, que naquele mundo age de modo bastante confuso - às vezes ele corre muito rápido, às vezes parece que anda para trás, mas a maioria das vezes ele fica parecendo bêbado e agindo de modo inconsequente. Tanto é que parece que por lá acontecem muitas coisas juntas, e parece que estamos vivendo aquilo tudo por horas ou meros minutinhos, e de repente toca o despertador e acordamos um tanto quanto desorientados. Nem sempre os sonhos são bons, tem aqueles que tentamos acordar e nunca conseguimos, parece que por lá ficaremos presos eternamente, suspensos em uma situação amedrontadora, o Tempo caído de bêbado nos deixando esquecidos ali apavorados. Há certas temporadas na vida que todas as noites temos sonhos ruins, mas para nossa tranquilidade, na maioria das vezes, sonhos ruins são uma exceção. 

Nada parece racional no mundo dos sonhos. Tudo ali obedece a uma lógica que nos escapa. Nem sei se dá para utilizar a palavra lógica para explicar o que ali ocorre. Seria uma pretensão imensa querer atribuir significados para tudo que acontece por lá; e como somos uma raça de soberbos é claro que, desde a aurora dos tempos, o homem tem procurado entender aquele mundo, investigar seus segredos, captar sua essência rebelde e louca. O que seria da humanidade sem o mundo dos sonhos? Constantino não sonhou com a cruz e a frase "In Hoc Signo Vinces", e após isso se fez cristão? Nesse signo vencerás: Constantino acreditou no seu sonho e mandou grafar nos escudos de seus exércitos a cruz. Logo após isso, em uma reviravolta um tanto quanto inesperada, venceu uma batalha decisiva contra Magêncio, seu rival na luta pelo poder, e tornou-se o primeiro imperador cristão a comandar o Império Romano. Se hoje o Ocidente é predominantemente cristão, temos nesse sonho de Constantino o gatilho que disparou uma série de eventos, que vão desde a fundação de Constantinopla até os bispos televisivos expulsando demônios em nome de Jesus.

Mas embora ali no mundo dos sonhos as coisas aconteçam de uma forma na maior parte das vezes absurda, a sensação de que tudo ali está vivo é marcante. Todos já tiveram sonhos tão reais quando essa tela onde você está lendo esse texto agora. Sonhos que eram tão incrivelmente intensos e vívidos que nem pareciam na verdade sonhos: era como se fosse um outro tipo de vida, um universo que obedecia a regras especiais, com seres estranhos, cores lindas, diálogos e situações que lembravam situações da vida real mas em configurações totalmente novas. Os mais deliciosos são obviamente os sonhos envolvendo sexo: já tive esse prazer inenarrável, em sonhar de estar fodendo com aquela pessoa que nunca você conseguiria se aproximar porque é tudo tão diferente no mundo real, as situações tão impossíveis de levarem àquilo, e no sonho é você ali transando na rua mesmo, em um cantinho qualquer logo após trocarem meia dúzia de palavras sem importância; as sensações prazerosas são tão fortes que já ouvi relatos de pessoas que realmente chegaram ao orgasmo durante o sonho. Uma intensidade tal que se parece com a realidade mesmo, vida exaltada e incrivelmente bela, livre e audaciosa.

Seria, tal como no conto de Lovecraft, o mundo dos sonhos um mundo tão verdadeiro quanto o nosso? As situações ali experimentadas, tão incrivelmente vívidas, tão marcantes, capazes de fazer nosso emocional rodopiar ao ponto de acordarmos seja em êxtase, seja em pavor... Seria um desperdício aquilo tudo ser apenas uma traquinagem de nossa mente, essa poderosa caixinha de armadilhas. Vibrante até mesmo quando nos assusta, pensemos no mundo dos sonhos como um mundo tão concreto quanto o nosso; que aquilo que sonhamos não seja um sonho, mas a vida de um outro alguém, a nós ligados, que leva sua existência em um mundo onde a Beleza é a Rainha de tudo e o Tempo fica caindo bêbado pelos cantos, tropeçando; esse mundo tem cores que nunca existirão no nosso, velocidades impossíveis de imaginar, cidades que parecem com as nossas cidades mas que mesclam todas em uma só - ora é como se fosse uma rua do centro de São Paulo, depois você sobe e é como se fosse a Recoleta, mais adiante parece a Vila Mariana e olhando ao redor já estamos em um parque de Amsterdã. E mesmo essas referências todas são apenas aproximações bastante inexatas, pois o que temos sempre nos sonhos é uma reprodução de dados captados pelo nosso aparato racional misturados em uma coqueteleira com bastante DMT e devaneios surrealistas, que fazem de repente a Avenida Paulista terminar em um deserto e colocar você e seu melhor amigo em cima de um camelo, vestidos como mercadores de Stygia acompanhando uma distante caravana e fazendo planos para um ataque de pura carnificina contra ela, e com tudo isso ao fundo rolando um som que parecia uma espécie de cumbia setentista - um mundo tão maravilhoso quanto esse, pensemos que ele sim existe de fato, que nada desses sonhos são fugazes construções do cérebro que um cientista chato um dia vai explicar que são reações químicas do lóbulo central e zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz. Ignoremos a ciência, ela só vai nos atrapalhar aqui. Vamos seguir nessa estranha estrada lovecraftiana que nos leva a concluir que o mundo dos sonhos é, na verdade, uma vida tão real quanto a nossa, vivida por um outro ser que é como se fossemos nós só que naquele "lado de lá", esse não-lugar que é o Mundo Onírico onde tudo é possível, até mesmo transar depravadamente no meio da rua com aquela pessoa que você nem sabe como começar uma conversa a respeito de um simples jantar, quem dirá de uma foda bem feita. 

Mas se quando dormimos o nosso sonho é a vida de um outro alguém, não é exagerada a hipótese de que a nossa vida aqui também é um sonho para quem está em outro lugar. Exatamente: isso que você está fazendo agora, lendo esse texto que escrevi; o meu próprio ato de aqui estar sentado, escrevendo esse texto, no coração da Vila Buarque no centro da cidade de São Paulo em plena madrugada do dia 11 de abril de 2020 durante a quarentena do Covid-19, tudo isso é o sonho de alguém que dorme no mundo que é onde vou quando eu estou dormindo. Aquele mundo para nós absurdo, onde passamos por situações típicas das obras de Dali, é a realidade de um outro Eu que agora dorme e me sonha aqui escrevendo sobre o mundo dele. Um parafuso de piração: essa é uma expressão bastante feliz para nomear esse vácuo no espaço-tempo onde a consciência de que não sou como imaginava, mas sou sonhado por alguém que sou enquanto sonho. Objeto ou sujeito deixam de ser nomes válidos para se tornarem um conjunto de letrinhas em ordem, uma depois da outra, vazias daquilo que chamamos de significado. 

Se isto que chamo de realidade é o sonho de um outro, e o que chamo de sonho é a realidade daquele que me sonha, seria para este desconhecido o seu sonho (a minha realidade) tão absurdo quanto o meu sonho (a realidade dele) é para mim? Da mesma forma como relembro com sensação de absurdo o sonho onde a avenida Paulista terminava em um enorme deserto onde eu e meu amigo perseguíamos uma caravana de camelos, esse que me sonha em algum lugar deve contar para seus amigos mais ou menos assim a minha vida aqui:

"Nossa, hoje eu sonhei de novo aquele sonho que havia falado para vocês ontem, quando estávamos voltando da Bolha de Éter pela estrada de açúcar mascavo em cima dos flamingos verdes que tinham patas de mastim russo [nota do editor: aqui considere o leitor como um exemplo apenas de uma realidade possível para aqueles que nos sonham, e que são descritas com tanta naturalidade quanto nós falamos uns aos outros sobre engarrafamentos, contas a pagar, etc]. Eu morava em uma casa onde todos os cômodos ficavam sempre nos mesmos lugares: todos os dias eu acordava e o banheiro ficava no banheiro, a cozinha na cozinha, etc. Nem a privada mudava de lugar, ou de cor. Os objetos eram sempre os mesmos, e sempre nos mesmos lugares. É até difícil descrever isso, mas as roupas que ficavam no guarda-roupa também eram as mesmas, mesmo que você abrisse e fechasse as portas inúmeras vezes; e depois que você as usava, elas tinham que passar por um processo chamado "lavar", que consistia em pegar água e um negócio que quando misturado com ela fazia espuma; você colocava as roupas usadas dentro de uma caixa grande e dura, com uma tampa, e lá dentro se enchia de água e do negócio que fazia espuma. Depois de um tempo, tirava a roupa de lá e deixava pendurada, em geral num lugar aberto onde o Sol podia iluminar. Ah, o Sol todo dia também aparecia do mesmo lado, e na mesma hora, e eles tinham no céu apenas um Lua, que também sempre aparecia mais ou menos no mesmo horário todos os dias. E todos os dias também eu ia sempre pro mesmo lugar, no mesmo horário, fazer a  mesma coisa, e isso se chamava "trabalhar": não deu tempo de entender muito bem o que era exatamente isso, mas pelo que pude entender era tipo uma troca, onde você dava um pouco de sua vida e recebia por isso uns papéis. Não só eu, mas todos faziam isso. Não parecia ser uma troca muito justa. Você via as pessoas ficando muito fracas nessa troca, perdendo a força, mas elas continuavam fazendo isso porque sem os papéis não tinha como fazer quase nada. Não me recordo muito bem, mas esses papéis serviam para trocar por outras coisas, até mesmo por comida - bizarramente, comer era algo que tinha que fazer todo dia. E ao invés de simplesmente comer o que se queria, comia-se o que se podia trocar pelos papéis que haviam sido trocados pela vida. E como o ato de comer era algo necessário para se ter vida, eles precisavam sempre trabalhar para trocar por papéis e com isso comprar mais comida; assim eles ficavam perpetuamente em um ciclo de trocar vida por papéis e papéis por comida para então ter vida e assim trocar por novos papéis, e sempre perdendo algo nisso tudo. Não fazia nenhum sentido, mas todo mundo fazia igual. Até mesmo transar era estranho, tipo por mais que todos tivessem a possibilidade de transar com quantas pessoas pudessem, eles faziam isso em 99% dos casos em duplas, e quase sempre dentro das casas imutáveis onde moravam, ou em outros lugares, mas sempre meio que escondidos, mas não entendi por que tinham que fazer longe dos olhos dos outros. E fica ainda mais esquisito: era sempre a mesma dupla. Tinha gente que estava há anos transando sempre com a mesma pessoa, alguns você via claramente que era sem nenhuma vontade, mas por algo que eles chamavam de compromisso, que é o que ligava as pessoas em duplas por tanto, tanto tempo. Imagina isso, transar só com pessoas conhecidas e apenas com uma única pessoa, por anos sem fim. Enfim, era tudo muito diferente, tudo muito sempre igual e padronizado; e mesmo assim, com a repetição tendendo ao infinito, tinha uma coisa que fazia com que essa padronização fosse suportada; e embora fosse algo muito, muito raro de acontecer, tinha um poder imenso, e causava um alvoroço tão grande por onde passava que até fazia aquele mundo cinza e pragmático, carregado de repetição, se tornar um lugar tão mágico quanto a nossa realidade;  não era ao ponto de fazer os cômodos das casas mudarem de disposição como na vida real [nota do editor: aqui o leitor tem que lembrar de levar em consideração que a perspectiva é a do indivíduo que do seu mundo nos sonha aqui, mundo esse onde o absurdo é a norma], mas era algo que mudava as pessoas, fazendo-as até ficarem mais bonitas e com vontade de usar coisas que as deixavam mais cheirosas - olha que louco, elas tinham que passar coisas nelas para ficarem cheirando bem! Quando esse algo as acometia, era mais ou menos como um tipo de doença: sentiam calafrios pelo corpo, que inclusive chegava a ficar mais quente, os pensamentos se tornavam aéreos, e um intenso desejo de transar o tempo todo com uma pessoa específica, de ver essa pessoa toda hora, de tocá-la, de sair com ela para comer e de várias outras coisas estranhas que faziam lá naquele sonho; essa reviravolta que direcionava toda a atenção de uma pessoa para outra tinha chances de não ser recíproco, isto é, nem sempre a atenção dedicada vinha de volta, o que causava naquele que direcionava a atenção algo chamado de tristeza. Alguns até passavam a vida toda tristes, decorrentes dessa falta de reciprocidade - esses em geral compensavam trabalhando mais e trocando a vida por mais papeis até que não sobrasse mais vida nenhuma. Mas quando essa atenção ia e voltava, eles experimentavam um negócio chamado felicidade, que os fazia sorrir quase o tempo todo. Alguns sorriam tanto que até choravam de tanto sorrir. E quando a coisa chegava nesse nível, isto é, quando a felicidade era tamanha a ponto de você chorar ou quando ela era tão grande que transbordava como um beijo louco acompanhando uma foda intensamente suada como se não houvesse o amanhã, então aí tínhamos algo que eles chamavam de amor em sua forma mais primeva e maravilhosa, que era o sentimento de ter a pessoa por perto, de admirá-la como uma espécie de divindade e, ao mesmo tempo, de ter vontade de fodê-la e gozar juntos até não poder mais. Isso era algo raríssimo de acontecer, e não consigo pensar em nada parecido no nosso mundo que se assemelhe àquilo."

Penso que seria assim que nos descreveria aquele que nos sonha enquanto estamos aqui, no nosso mundo real. Espantado diante de nossas repetições e trivialidades, sem entender a lógica racional que permeia nossos atos, as limitações da geometria euclidiana e as incontornáveis leis da física, elementos que não existem em seu mundo sempre aberto ao Fantástico. Talvez apenas os destemperados atos dos apaixonados, seus erros e acertos, suas lágrimas e gozos, despertariam neles alguma nível de atenção e, quem sabe, uma pontinha de inveja. É um lugar comum absolutamente banal chegar na conclusão desse texto, onde explorei essa ideia amalucada do sonho como real e do real como sonho, que o amor seria a única coisa digna em nosso cotidiano acinzentado. Há muitas outras coisas dignas no nosso mundo, e que merecem todo nosso apreço e atenção - mas parece que sem a experiência de ter e ser amado, e vivenciar essa experiência da forma mais extrema possível, envolto em explosões de afeto e cuidado e prazer, sem isso seríamos vistos por aqueles que nos sonham como seres desinteressantes, trocando nossas vidas por papéis e morando em casas cujos cômodos imutáveis reproduzem a monotonia que molda nosso Destino.

12.27.2019

Atualizações sobre o fanzine



Na Noite Obscura, os Poderosos Mortos são chamados e as emanações da Primeira Encruzilhada de Fogo espalham-se nas quatro direções do plano material - e de seu trono, Vossa Santidade Maioral observa o espalhar das sementes que aprofundarão as raízes da Árvore Negra.
Dissolve Coagula é cunhado nas sombras, pacientemente. O nosso tempo mundano não é nada diante da grandiosidade subterrânea dos Reinos Negros. Mas é importante assinalar que, apesar do silêncio ao qual me submeti nos últimos meses - o necessário recolhimento para desinfectar-se da imundície do mundo moderno - ele não está morto. Antes ao contrário: as experiências dos últimos meses, somadas a tantas outras revelações e conhecimentos, estão fazendo com que o número dois do fanzine ganhe uma direção que eu não imaginaria há um ano atrás, direção que está dando a ele uma vitalidade sinistra que ultrapassa a simplicidade do seu número inaugural.
Uma parte considerável dessa vitalidade tem sua razão no meu envolvimento com a Corrente LTJ 49. Uma das faces da Corrente é o Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra, onde meu entendimento sobre espiritualidade e magia sofreu uma revolução sem precedentes. Tantas coisas perderam o sentido, tantos novos floresceram... Diante disso, uma parte do material que inicialmente eu havia escrito para o número dois se tornou vazio. Não gosto de desperdiçar papel, o tempo é uma ilusão, então me vejo agora reescrevendo muito do que havia já considerado como material finalizado e tendo nisso um raro prazer que se mistura com a sensação do dever cumprido, de estar servindo a um propósito sinistro que não se curva ao convencional.
Este propósito sinistro mescla-se com a Corrente LTJ49 e posso dizer com tranquilidade que o Dissolve Coagula firma-se como uma publicação declaradamente alinhada com os compromissos e ideais dessa Corrente. Que fique claro: não é uma "publicação oficial" dela, mas está nela fundamentada, até os ossos. Dizer isso me parece suficiente. E isso não implica que eu automaticamente rejeite qualquer outra fonte obscura em suas páginas, pois a Obra Negra se manifesta de variadas formas. A Liberdade é um valor intrínseco da Senda, e fechar os olhos para outras formas de devoção obscura é atitude daqueles que preferem um pacotinho medíocre de certezas para medir o mundo ao seu redor com seus dedos em riste - atitude aliás muito próxima do cristianismo que todos dizem odiar.
Estou cada vez mais cansado disso tudo. Meu olhar se direciona, cada vez mais radicalmente, no oposto de todo esse lixo pré-fabricado que oferece soluções espirituais como se fossem pílulas de Lexotan. Busco no passado as fontes de poder dos aprendizados eternos, bem como os reflexos de suas águas vivificantes no presente. Nas sombras dos totens que amedrontam os fiéis cegos da Loja Branca, no batuque selvagem que evoca os Mortos Poderosos, nas ladainhas bruxas ditas sob a luz das velas negras - é sob a influência disso que sigo aqui no lento porém constante ato de produzir o Dissolve Coagula número dois, que virá a este mundo finalmente no primeiro semestre de 2020.

9.17.2018

Sobre desejo e conexões




O que desejamos com paixão e intensidade, quando acompanhado de ações concretas, tende a realizar-se mais cedo ou mais tarde. O desejo atua como um combustível para o agir: nos impulsiona a ir além, cada vez mais ao extremo, cada vez mais na fronteira de nossos limites.

Quando lancei o primeiro número do Dissolve Coagula desejei que cada página, cada texto, cada imagem fosse um ato devocional às potências infernais. Elas seriam não apenas um amontado de tinta sobre papel dissertando sobre metal negro e magia obscura, mas verdadeiras ESPADAS DE MORTE que incentivariam a rebeldia, o ódio e a negação da Criação. Espadas que rasgariam pensamentos limitadores e cortariam amarras espirituais. Espadas que, cunhadas nas forjas de Lúcifer, promoveriam a matança dos egos e libertariam as Chamas Negras nos soldados da armada de Maiorial. Eu desejei isso com força, e rezei para que esse desejo infectasse cada exemplar do fanzine, espalhando confusão por onde passasse, como um vírus espiritual propagador de influências nefastas. Para os incautos representaria tão somente diversão, textos sorvidos com pouca (ou nenhuma) profundidade. Mas no solo fértil dos que já tinham em si tendências dissolutivas, eu ansiava plantar sementes que frutificariam em negros frutos de Sabedoria Oculta, possibilitando inclusive na criação de elos com indivíduos e egrégoras que buscassem os mesmos objetivos espirituais que eu buscava. Pois meu caminho até então foi feito de modo solitário, e eu era impelido a buscar conexões com outros para aprender, compartilhar e evoluir.

Devido a esses elos, intensifiquei minha participação junto à egrégora da Corrente LTJ49, no Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra. Meu primeiro contato com eles foi através de uma entrevista para o site Rat Hole (essa entrevista aqui http://www.chaosophie.net/?p=1589) e desde o primeiro momento me identifiquei plenamente com a forma como eles pensavam a espiritualidade negra e a Quimbanda. Após alguns contatos por mensagens e a participação em algumas atividades abertas, fui conhecendo mais sobre a Corrente 49 e as pessoas que dela fazem parte. Nessa relação mais próxima com as práticas e alguns membros pude compreender melhor diversos aspectos da Quimbanda, o que me trouxe ainda mais identificação, além de entender também que tudo que se fala de negativo sobre o Templo - que são falsos, aproveitadores, pretensiosos angariadores de black metallers deslumbrados com Dissection, etc - não tem nenhuma base de realidade. Tenho zero interesse em intrigas: assim agi durante toda a minha vida em relação a assuntos mundanos. Quando se trata  de questões espirituais, esse desinteresse toma feições quase militantes. Pois bem: as críticas direcionadas ao TQMBEPN me parecem mais o resultado de uma querela egóica do que qualquer outra coisa. Justamente pela postura antidogmática e plural do sistema da 49, ele pode causar certo desconforto em pessoas e seguimentos mais tradicionalistas, e os ataques que vi à Corrente tem exatamente esse desconforto como base, muitas vezes sem um contato direto com seus membros. 

De longe considero meu contato com a LTJ49 o mais fecundo dos elos que o Dissolve Coagula me proporcionou. Foi ali, junto ao solo sagrado da Corrente, que tive meus primeiros contatos com Exu e Pombagira. Conversar com os espíritos de modo direto, partilhar de suas energias, intensificar-se nessa egrégora proporcionou-me gnoses que eu jamais havia experimentado. São conhecimentos que não se traduzem em palavras, ou dificilmente conseguimos através delas expressar. Saberes que falam, em um idioma selvagem, sobre aquelas feridas íntimas que desejamos esquecer, sobre aqueles medos inconfessos, sobre as limitações que nos envergonham. Pois é assim a experiência com Exu: no limite do trauma, nos empurrando para abismos cada vez mais profundos onde, em uma escuridão absoluta, encontramos a Luz Verdadeira que liberta. Humildemente reconheço que estou como um simples neófito na minha caminhada junto aos espíritos, mas o pouco que eles já me ofertaram funcionaram como pérolas e, em profunda gratidão, sigo buscando uma conexão mais profunda com eles.

Outro elo construído através do fanzine foi com indivíduos sérios ligados à Corrente 218. Apesar de nosso contato inicial ter tido como pano de fundo o metal negro, a amizade que se desenvolveu e o nível da discussão seguiu um direcionamento muito mais voltado para questões espirituais e magísticas do que puramente musical. Falamos muito sobre as entidades negras, que são energias bastante distintas daquelas que encontramos nas giras de Quimbanda, e as quais estudo e medito com reverência e atenção, mas sem (ainda) buscar uma conexão mais direta. Entendo que tudo deve ocorrer em seu devido tempo e o meu, nesse momento, tem como foco primordial a Quimbanda. Há certas proximidades entre as Correntes, mas por demais abstratas, e no específico da ritualística diferem de maneira bastante acentuada. Por esse motivo, e inclusive como forma de não misturar egrégoras de maneira irresponsável, tenho mantido minha prática e estudos direcionados, embora veja de maneira muito positiva a relação com essas pessoas. Uma maneira de encontrar aliados mais experientes do que eu, e que podem servir como referência e aconselhamento para desenvolvimentos futuros.