1.21.2008

O Mercado e a Alma

Um dia de dezembro, quente e abafado. Nem bem tinha levantado da cama e o corpo completamente suado já estava. Calor maldito, disse ao por os pés no chão e sentir o contraste do piso frio com o bafo quente do quarto, mormaço que deixava os músculos preguiçosos, as pernas cheias de manha, o corpo como que surrado. Mas era preciso enfim levantar-se, depois água ao rosto para despertar, mais um pouco para a boca sedenta, então trocar de roupa e sair. Combinara com uns amigos uma ida ao Mercado Municipal para as compras da ceia de Ano Novo. Não iriam viajar, não tinham o dinheiro, e os dias de folga no trabalho eram tão exíguos quanto as suas economias. Resolveram então se reunir, comprariam tudo que as ceias em família têm, passariam uma tarde a preparar os pratos e à noite se fartariam e estourariam espumantes.

Ainda sentado na cama M. brigava com a sedutora preguiça quando o telefone tocou. Vem logo, o Mercadão hoje deve fechar cedo, era A. alertando o amigo, afinal já passava das dez da manhã e possivelmente ao meio-dia todo o comércio fecharia as portas. A necessidade fez M. vestir qualquer coisa e esquecer de qualquer higiene, foda-se, é o último dia do ano, pra quê se arrumar. Chegando ao prédio de A. tomou o elevador e olhou no espelho, a qualquer desejo de vaidade não haveria mais lugar, se estivesse ridiculamente vestido teria que suportar, e na totalidade dos desastres do mundo o que é uma desastrosa escolha de roupas, suportamos todo dia a ofensa de um relógio no pulso para lembrar que somos escravos do tempo, perto disso o olhar de gargalhadas da garota linda que passou não é nada. M. já estava papeando com A. na cozinha, ontem eu e a D. compramos algumas coisas no mercado aqui do lado, dá uma olhada nestas azeitonas chilenas, estavam baratas.
- Chama logo a D., cara. Não quero demorar muito lá.
- Vamos.

Da casa de A. até o Mercado Municipal era um caminho de uns trinta minutos em zigue-zague pelas ruas do centro da Cidade. O centro é o lugar onde se encontra a alma de qualquer cidade, a sua essência e a realização mais plena de sua forma. Isso nada mais é que um acúmulo de obviedades, certamente alguém poderá reclamar, mas o que importa é ver nisso tudo apenas o preâmbulo para vislumbrar o que, enterrado, vai no coração de M.; pois para ele o centro da Cidade encarnava também as excrescências, as deteriorações de um modelo ideal, a memória estilhaçada de um tempo que se perdeu mas presente sempre está, ao leitor atento isso certamente parecerá um equívoco, como afinal algo que se perde pode permanecer?, a pergunta é inevitável, para solucionar a questão basta que lembremos de alguém querido que morreu. M. olhava o Teatro Municipal, a Igreja da S., o Grande Viaduto, a Praça da Coisa Pública, e entre estes pontos os cortejos sem fim das gentes de todos os tipos e de todos os lugares, escadarias antes santas são agora poleiros de miseráveis pedindo esmolas, mas caçadas não se anda sem esbarrar em vendedores ambulantes e suas mercadorias eternamente suspeitas, fanáticos profetizando o fim do mundo com olhos demoníacos, putas que cheiram a perfume de oito reais sorrindo para qualquer um, senhores de caminhar lento que não se encaixam na paisagem de pura velocidade, como reminiscências de um tempo onde só se tinha pressa de vez em quando. Tudo isso, os mendigos, os ambulantes, os fanáticos, as putas e os velhos emaranhados entre indescritíveis outros tipos, são milhares, aqui só lembramos aqueles pelos quais M. mais interesse nutre. Ainda é preciso falar do cheiro que igual não há em nenhum outro lugar. Como isto era possível, claro era apenas o cheiro incomparável daquelas ruas sebentas, imaginava-se cego e de todos os cheiros do mundo os únicos que distinguiria sem sombra de dúvida era o de café, merda e o do centro. Talvez justamente o cheiro tão característico fosse a prova maior que aquela Cidade tinha uma alma, não se podem ver as almas, mas dizem que elas existem e é possível senti-las, o mesmo se dá com os cheiros, que não podem ser vistos, apenas sentidos.

E no Mercado o cheiro-alma da Cidade ficava ainda mais forte e misturava-se ao odor das frutas da estação,das verduras, das carnes, das pessoas que amassavam na quase orgia dos corredores estreitos. Prove uma uvinha, mais doce aqui não há, disse o vendedor orgulhoso de tão gordo, e entre os dedinhos espertos deixa escapulir um punhado de róseas uvas para as mãos de A. Quantos dias eu conseguiria viver apenas comendo as frutas dadas como amostra, M. perguntou a si mesmo. Viver naquela cidade era caro demais, fizera planos de gastar menos no ano que chegava, quem sabe as economias ajudassem a comprar um carro, mas um empecilho de ferro a piorar o trânsito da cidade.

Começou a ver todas aquelas pessoas se fartando de frutas cristalizadas, de ameixas, de tremoços, de queijos, eram famílias inteiras a compartilhar risos e sacolas. Todos pareciam felizes, e isto fez M. colocar em cheque sua felicidade, sua satisfação para com o mundo, com sua vida. Pois era um ano pesado o que embora ia, estranho atribuir uma massa física ao ano, mas é como se 2007 lhe pesasse nos ombros. Enquanto isso o vendedor gordo generosamente distribuía suas uvas, e era tão satisfeito que enojava. A. e D. logo adiante inspecionavam uns provolones, e mais gente chegava suada de tão apressada. Sei lá por que diabos uma ternura brotou no coração de M. enquanto ali parado estava, atrapalhando com seu imobilismo o livre trânsito das pessoas e suas sacolas, de-tudo-expectador, a pensar nos quitutes que comeria naquela noite e em quais novas paixões e desastres se envolveria no ano que nascia.

Um comentário:

  1. Caio Ferreira6:46 AM

    Quando temos a "boa opnião" de alguém, ou algum fato nos trás interesse em alguma coisa que não conhecemos, podemos: gostar bastante de imediato, ou colocar uma dose a mais de atenção, no que se é focado.

    Um exemplo real, é que antes de eu começar na radiozinha "comunitária" onde estava, a semana inteira foi de boa propaganda para o meu programa.
    Chegou a minha estréia, todos adoraram porém eu achei extremamente fraco. Com pouco tempo, eu o melhorei e poucos programas antes de ficar fora do ar, eu podia falar que estava muito bom. Fato disso, pessoas que encontraram a rádio por acaso e ligaram no meu horário, sem nenhuma indicação.

    Mas o que eu quero dizer, não sei se foi o fato do nosso parentesco, que me incentivou a olhar o seu blog. Mas uma coisa não foi, não foi indicação de ninguém.

    E mesmo assim, gosto muito da sua escrita, EXELENTE texto.

    (Um monte de enrolação no começo, simplesmente para lhe dar os parabéns)

    ResponderExcluir