10.20.2010

Sobre a covardia

 A Covardia tem o seu devido lugar nas coisas humanas. Ela preserva o ser de, em um ímpeto, colocar a sua existência em risco; protege, com o cuidado de uma mãe carinhosa, os espíritos acanhados, os que falam e repetem ameaças escondidos nas trincheiras de sua pequenez. O covarde brada por destruição, vingança, justiça; paradoxalmente nenhum esforço empreende para destruir, para vingar, para equilibrar os acontecimentos na balança de sua deusa cega. Assemelha-se nesse aspecto ao demagogo, cujas palavras são feitas de vazio. Mas a este é pelo menos possível premiar pela ausência de escrúpulos em mentir para os homens, principalmente para os mais desgraçados, sem ao menos ruborizar. O leitor deve ter imaginado uma coleção imensa de homens públicos com tais características; é bom sempre lembrar , contudo, que há muitos outros, menos ilustres, que superam enormemente a estes na arte de inventar mentiras. A biografia de qualquer cidadão, escolhido por acaso, pode ser surpreendente: nossa espécie é uma criação única feita de violência, amor e mentiras.



Mentiras como necessidade, como senha de troca para a sobrevivência diária: desde pequenos nos ensinam a mentir, a arquitetonicamente maquinar inverdades. Somos educados a negar as guloseimas ofertadas por nossas tias nas visitas familiares, sob o pretexto de que é mais educado negar do que aceitar a gentileza. A criança engole em seco o desejo pelo açúcar, pelo recheio achocolatado, pelo aroma enfeitiçador; trai seu desejo infantil por sabores fortes; diz "não, obrigado, titia, mas não quero" sob o olhar zeloso dos pais que, contentes, explodindo de orgulho, comprovam a eficácia do ensinamento que postula ser educado, nas visitas aos parentes, dizer não ao que é oferecido. Talvez essas coisas tenham mudado hoje em dia: não convivo com crianças há anos e tudo o que digo baseia-se tão somente em minhas lembranças. Mas se não essas, outras categorias de mentiras devem ser ensinadas aos rebentos de nariz escorrendo.

Falávamos da covardia e suas qualidades. Um covarde torna-se um bom amigo para outro covarde que, juntos, sentem-se perdoados por sua inferioridade moral. É comum que covardes sejam não apenas numerosos, mas que tenham muitos amigos e que em geral gozem de uma vida social intensa. O grupo fortalece, como é natural acontecer, apesar de que no caso do covarde é justamente a força enquanto grupo que deixa mais evidente a covardia individual. Atos de vandalismo são bons exemplos: neles por vezes participam indivíduos absolutamente risíveis que, sozinhos, são verdadeiros exemplos de educação e bons modos, daqueles que repetem "por favor" a cada cinco minutos. Em conjunto, porém, esmagam crânios de um homem sem o mínimo pudor nem razão: a covardia é, também, uma forma de injustiça.

Em Esparta a covardia era um crime, os covardes tinham que pagar multa e ainda sofriam a humilhação de serem privados de sua barba. Imagino legiões de espartanos apontando e ridicularizando os homens que, diante das lanças inimigas, fraquejaram. Tais fatos chegam para nós, orgulhosos modernos, filhos da vitoriosa razão ateniense, como ecos de um tempo bárbaro, atrasado e embrutecido. Nossa moralidade não apenas prega os benefícios da mentira, considerada como uma prática social necessária, como também aceita comportamentos covardes, tidos como inevitáveis. Mais que isso: justifica-se o covarde como um homem "de bom senso". Há um certo brilho até mesmo para os indivíduos que preferem a resignação. Mas nem todo brilho é, necessariamente, algo valioso: pode ser apenas a camada mais visível de algo apodrecido, similar ao revestimento aquoso que envolve certos corpos em decomposição.

Falar sobre covardia faz sentido nos dias como os nossos, onde a Decadência se alastra por todos os lados. Mas especialmente em momentos politicamente acalorados como os atuais o tema é pertinente. De tudo o que ando lendo nos últimos tempos, apenas neste texto do Nassif falou-se algo que tem alguma relação com o tema da covardia, especialmente no trecho abaixo reproduzido:

É a escassez de homens públicos de fôlego com responsabilidade institucional sobre o país. É a comprovação de porque o país sempre ficou para trás, abortou seus melhores momentos de modernização, apequenou-se nos momentos cruciais, cedendo a um vale-tudo sem projeto, uma guerra sem honra.

O triste (ou o risível, porque cada vez mais me farto de rir das coisas, o que é uma forma de desespero) é perceber que evocar coragem, honra ou qualquer outro valor, digamos, "heróico" é tido como uma velharia discursiva, como algo empoeirado e desnecessário. Acostumados ao pragmatismo dos tempos modernos, tais palavras não parecem adequadas, não harmonizam-se com o empobrecido vocabulário empresarial que constrange as mentes de hoje. É como se uma voz nos aconselhasse: "façamos nossa parte, e basta". Exigir mais de nós e dos outros (principalmente da classe política) é querer em demasia. Os homens, afinal, podem viver em covardia, em variadas formas de covardia, e mesmo assim se arrastar por anos em uma existência até mesmo confortável. E nada mais adequado ao nosso momento que a ânsia de conforto, de tranqüilidade. A esfera da covardia é onde esses paraísos podem ser encontrados: a vontade corajosa nada tem a ver com a monotonia dessa segurança mal resolvida que seduz o imaginário coletivo. A essência mais íntima dessa vontade tem parentesco com trovões, terremotos, paixões devastadoras, súbitas elevações de terrenos e abismos infindáveis.


2 comentários:

  1. Pensei um pouco sobre isso esses dias, enquanto lia o romance do Jodorowsky, no momento em que o boxeador se deixa tomar por um espírito cabalístico e, por isso, pára de lutar, afirmando que o amor ao semelhante é a maior forma de coragem e virtude, e atacá-lo é a covardia.

    É interessante pensar como o conceito de "coragem" - assim como tantos outros - constroem-se de diferentes formas entre as variadas culturas. Admiro a noção espartana - e tradicional - do que são as virtudes, dentre elas a coragem, mas sempre com um pé atrás, pois tenho receio de cair no velho eurocentrismo limitador e desgastante. Atualmente estou limitado a me questionar, e nada afirmar.

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  2. Sim, "covardia" e "coragem", assim como qualquer conceito, devem ser colocados em perspectiva, sob pena de construir burras verdades absolutas. Depois de Foucalt não vejo a mínima possibilidade de pensar a realidade em categorias definitivas.

    Justamente por isso invoco o exemplo de Esparta em meu texto, para mostrar o quanto esses conceitos podem mudar. Além disso, retomo o conceito não como algo que deveria ser reestabelecido tal como em Esparta (o que é impossível, e nem mesmo desejável) mas como herança e aprendizado de outras formas de vida. E para além de qualquer eurocentrismo que, sabemos bem, em geral se apropria de noções como a de Esparta para alimentar seus sonhos autoritários.

    O que me traz um sabor amargo é ver como a covadia se alastra, se mescla com o oportunismo e a mentira. Impossível para mim agora não lembrar da postura de Marina Silva, que manteve-se neutra nesse segundo turno apenas para garantir a fidelidade da "Onda Verde" que lhe garantiu 20% dos votos válidos. Mesmo com o risco do país afundar em uma onda reacionária, ela preferiu garantir um (incerto) futuro político. Moleza moral, e das grandes.

    Eu seria incapaz de dar algum outro exemplo agora, no calor dos últimos dias só penso em eleições e em todas as merdas que são noticiadas a respeito.

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