4.14.2014

Caderninho de ódio, ou as origens de "Seis horas no inferno" (e uma reflexão no meio de tanta poeira)



Trabalhei com telemarketing uma boa parcela da minha vida. Não nascendo em uma família rica, e contando apenas com a formação da escola pública, tive que me virar em uma série de trabalhos ruins na transição para a vida adulta: o primeiro foi um estágio em eletroeletrônica, onde fazia manutenção em máquinas de solda em diversas empresas do ABC e região; depois desse trabalho entrei no estoque de uma farmácia; depois de lá trabalhei por um curto espaço de tempo no IBGE; em seguida, uma tentativa frustrante de vender cursos de inglês. Logo depois disso, me vi sentado em uma operação de telemarketing. Cobranças enérgicas por tempo de atendimento. Metas de vendas nunca alcançadas. Horários humilhantes. Sábados maravilhosos da primeira juventude ouvindo gritos histéricos. O sabor da derrota experimentado dia após dia.


Sabor que tornou-se tão familiar, tão próximo, que me parecia natural a opção pelo comodismo. Aceitar a humilhação de seis horas no inferno seis vezes por semana. Humilhação que, na época, fez-me escrever essa letra para a banda que eu tocava. Eu trabalhava na Telefônica, no atendimento de reclamações de defeito - por aí você já pode entender o nível de felicidade das pessoas que eu ouvia todos os dias:


Chego sento, o atraso é marcado, computado

 3% do salário descontado por seus constantes atrasos

Sendo avaliado, medido
minha linha está com prazo de religamento vencido
por favor senhor queira aguardar
que em 24 horas um técnico vai até o lugar
para sua linha normalizar
15 minutos é tudo que tenho para comer alguma coisa
enfim, relaxar
gritos rasgando a parede auditiva
minha linha está muda há mais de três dias
eu não vou pagar esta conta abusiva!

Senhora: eu queria que telefone fosse de graça
todos usando e não pagando nada
meus dias, então, seriam tranqüilos
e seus escrotos gritos não teriam sentido
não sou eu quem decide o valor de um DDD
nem quantos telefones públicos uma rua pode ter
sou apenas mais um otário assim como você. 

A música, "Seis horas no inferno" pode ser ouvida aqui a partir dos 8:41 https://www.youtube.com/watch?v=78PX7aM-F6g


Nunca gostei de reclamar da vida. Sempre preferi fazer algo que pudesse me livrar dos apuros. Mas naquele momento não tinha como simplesmente apertar o botão do "Foda-se". Era um dinheiro necessário para ajudar a manutenção das contas de casa (sempre tive inveja dos jovens que trabalhavam apenas para custear apenas os próprios prazeres, ou para ajudar nos gastos com a faculdade). Entretanto, conforme os dias passavam, o cansaço de ontem somava-se ao cansaço de hoje, e o futuro não era nada mais do que um headset, um login e a odiosa voz de pessoas com as quais não me importava.

Acho que foi ali, no exercício de uma função tão humilhante e desumana, que a minha inaptidão pelo convívio social tornou-se mais aguda. E junto com isso, um importante aprendizado: após ouvir tantas pessoas diferentes, hoje não hesito nunca em julgar alguém pelo tom de voz. Basta apenas uma palavra pronunciada para que eu possa identificar - com cristalina clareza  - todos os traços de personalidade de um ser humano. A diversidade é algo erroneamente valorizado. Somos animais bastante reduzidos e podemos classificar a humanidade toda em algumas poucas classes, todo o mais é acessório.

Recentemente encontrei uma agenda de telefones que utilizava na época do telemarketing (naqueles longínquos anos, ter um celular era ainda algo bem caro). Em diversas páginas, intercalados aos números de parentes e amigos, números de telefones com nomes de pessoas que atendi e que, de alguma forma, me trataram mal. Nomes e mais nomes com telefones (em alguns, cheguei a anotar o endereço), com promessas de retaliação (trotes, pixações de muro, cartas ameaçadoras). Não cumpri nenhuma delas até hoje e não consigo me recordar de nenhuma das situações listadas. É um testamento estéril de um passado remoto (a aceleração do tempo produz essa sensação de que tudo se passou há séculos, mas na verdade foram quinze anos), um arremedo de vingança, uma obra de recalque de um rato. De qualquer modo, o ódio que ali existe, em cada uma das páginas do diminuto caderninho - como aquele ódio é pungente! Penso que, mediante os sortilégios corretos, aquele ódio poderia se materializar na forma de um pequeno golem, viscoso e irritadiço, que perseguiria cada uma daquelas pessoas arrancando-lhes gritos de pavor; o golenzinho não apenas amedrontaria os desconhecidos nomes do caderninho, como eventualmente me traria presentes dessas pessoas: um dente arrancado a força, pontinhas de unhas cortadas, fios de cabelo coletados no banheiro, pedaços de pele recolhidos na base da estiletada; juntos colocaríamos todas esses souvenires do sofrimento alheio em um altar em frente ao caderninho de endereços, como forma de incrementar seu poder; faríamos músicas para louvar o poder do Ódio ali presente, cozinhando os pedaços de pele com os dentes e fios de cabelo em uma grande panela, até tornar essa mistura uma espécie de sopa; comeríamos alegres, eu e o golenzinho viscoso e irritadiço, que cresceria em fúria e tamanho a cada prato esvaziado; planejaríamos cada vez mais e mais coisas ruins, celebrações cotidianas de vingança contra todas aquelas pessoas ali reunidas, pessoas que eram somente nomes esquecidos, nomes que nasceram em uma ligação qualquer onde apenas eu guardava alguma vaga lembrança, enquanto que para aqueles animais eu nada tinha sido a não ser uma voz de atendente de telemarketing, tão descartável quanto qualquer outra.

E me sinto um imbecil ao lembrar daqueles nomes agora, quando o tempo desgastou tudo e tornou amareladas as páginas desse caderninho. Nenhum golenzinho viscoso e irritadiço para me acompanhar nesses vãos sonhos de poder, nenhuma vingança concretizada mesmo que fosse através de uma mentirinha inofensiva. Não reconheço os nomes daqueles que me ofenderam. E não sem um pouco de espanto, nas páginas desse caderninho encontro outros nomes, que não estão grafados com a mesma letra nervosa pelo afã de vingança, mas sim com a minha letra normal, junto ao nome de amigos e parentes; são, portanto, nomes de pessoas conhecidas; mas da mesma forma que os outros, não me recordo delas. Esforço-me, busco no fundo da memória, nada encontro. Um vácuo. Um chão limpo, sem poeira. Uma sala sem móveis nem quadros, e com janelas de onde se pode ver o Nada. As palavras, assim como as pessoas, fogem em revoada com o vento abrasivo do Tempo.


3.16.2014

"A voz do fogo", de Alan Moore


Eu estava comprando uma pilha de livros com a Ugra Press que já consumiria uma soma considerável de dinheiro quando vi que eles também estavam distribuindo o romance "A voz do fogo", de Alan Moore - e então entrei naquele looping de contas e avaliações, de perguntar a mim mesmo se deveria fazer a extravagância, já repetida tantas vezes, de comprar mais livros do que seria o razoável, posto que há uma coleção deles aqui em casa esperando a chance de serem lidos (e agora parece que ouço os resmungos chorosos desses livros de páginas virgens, ainda não devidamente percorridos, alvo apenas de um breve folhear breve, e parece que estão pedindo, quase implorando, para serem retirados das estantes e enfim compartilharem seus segredos). E depois de dois amigos me recomendarem entusiasticamente a leitura, não houve como agir de modo diferente e agregar, a um pedido já bastante volumoso, esse primeiro romance do Alan Moore, publicado em 1995, e que o público brasileiro pode conhecer graças à editora Veneta, em tradução lançada em 2012.  [Errata: eu tinha dito aqui que a Veneta foi a primeira a lançar o livro em território brasileiro. Um amigo me alertou que isso estava incorreto: foi a Conrad que, em 2002, lançou o livro por aqui, chegando a duas edições. Essa da Veneta, então, é a terceira edição da obra no Brasil.]

Alan Moore é um inglês nascido em 1953 na cidade de Northamptonshire, e que ficou mundialmente conhecido por sua prolífica produção de quadrinhos, principalmente com "V de Vingança", "Watchmen" e "Constantine". Um relato breve e consistente de sua trajetória pode ser lido nesse link. Moore também é um bruxo, e seu primeiro romance, objeto desse post, só pode ser compreendido/degustado tendo como plano de fundo essa sua afiliação ao universo da magia e dos quadrinhos. Explicações mais consistentes sobre isso virão a seguir,


"A voz do fogo" é um romance cujo personagem central não é uma pessoa, mas sim uma cidade - Northamptonshire. Não bastasse o inusitado de ter a cidade como personagem central, a história que se desenrola em suas 335 páginas compreende o período histórico de 4.000 a.C. até os dias atuais, em 1.995. Cada um dos doze capítulos, narrados em primeira pessoa, possui um tom particular, e de certa forma podem ser considerados narrativas independentes - o que parece um paradoxo, em se tratando de um romance. E é justamente nesse paradoxo que está um dos aspectos mais legais do livro: qualquer capítulo pode ser lido de modo independente (com exceção do último, por suas características meta-narrativas) e o leitor não terá nenhuma dificuldade de compreendê-lo; entretanto, para que a estrutura se aflore e perceba-se que o personagem é, na verdade, Northampton, é necessário percorrer o livro do início ao fim e perceber certas sutilezas, que se repetem ao longo do livro: o bruxo tatuado do primeiro capítulo, em 4.000 a.C., com seu adorno de galhos e terríveis pinturas corporais, surge nos sonhos do homem louco do capítulo 11, que se passa em 1.841 d.C.; a ponte sobre a qual surge o cadáver que incriminará Ulin, no segundo capítulo, é testemunha de diversos outros acontecimentos ao longo do livro; os shagfoals, cães de olhos flamejantes, aparecem desde o primeiro capítulo e incessantemente até o final, com configurações bastante distintas - e esses são apenas três exemplos de diversas outras sutilezas intertextuais que percorrem toda a narrativa que, quando percebidas, são saborosíssimas, e um dos elementos que tornam a leitura de "A voz do fogo" uma experiência estética fantástica. Mais do que isso: as intertextualidades mostram que a cidade, as suas ruelas e montes, suas esquinas e pontes, seus moradores e histórias, tudo isso se funde em um amálgama que nos desafia, que coloca em cheque as certezas da praticidade e da razão, e mostram que há vozes incessantes, longínquas, cristalizadas até mesmo na memória viva das paredes que julgamos apenas um amontoado de tijolos envelhecidos. É o próprio Moore que fala sobre isso no fantástico capítulo final, explicando sobre do que trata o livro:


"É sobre a mensagem vital que os lábios rijos de homens decapitados ainda exprimem. O testemunho de cães pretos e espectrais escritos com xixi em nossos pesadelos. É sobre ressuscitar os mortos para que nos contem o que sabem. É uma ponte, uma passagem, um ponto gasto na cortina entre o nosso mundo e o submundo, entre a argamassa e o mito, o fato e a ficção. Uma gaze puída mais fina que uma página. É sobre a capacidade sobrenatural das bruxas de falar línguas desconhecidas e a sua revisão mágica dos textos nos quais vivemos. Nada disso é exprimível em palavras."(página 321)
Índice dos capítulos

Um homem ocidental, se chegasse ao Ártico, enxergaria uma vasta paisagem branca que se repetiria tediosa para todos os lados, enquanto que um esquimó é capaz de reconhecer mais de trinta tonalidades de neve, o que é vital para sua sobrevivência naquelas condições extremas. As pesquisas mais recentes da neurociência já conseguiram mostrar, por exemplo, como o cérebro não faz simplesmente o registro do que é captado pelo globo ocular, mas sim cria a imagem. Há muito tempo que a "verdade objetiva" e o "discurso isento" deixou de ser levado a sério.  Moore sabe disso, sabe que a Realidade com r maiúsculo é só mais uma invenção, que Maya e seus véus nos enganam cotidianamente e atrás deles há mundos ainda mais fantásticos, e que a ficção, a arte romanesca, é uma forma de criar realidades (posto que é um discurso, e portanto palavra, e toda magia nasce de um Verbo).  "A voz do fogo" é um romance que assume a dimensão mágica do discurso e busca, através da ficção, romper "aqueles pontos fracos nos limites entre o fato e invenção, onde o véu entre o que é e o que não é se rasga facilmente" (página 325).



Outro ponto que gostaria de comentar e que é marcante em todo o livro: as descrições extremamente vivazes de Moore. Percorrer as páginas de "A cabeça de Diocleciano", por exemplo, não permite apenas que o leitor consiga visualizar, com riqueza de detalhes, as tavernas repletas de saxões bêbados olhando com ódio e desdém o romano invasor, mas também que chegue a imaginar o odor que emana daqueles ambientes infectos. Em vários momentos mergulhei tão profundamente na riqueza das descrições que o mundo exterior parece ter se transformando em um vago borrão. Esse trecho, o final do terceiro capítulo, parece suficientemente ilustrativo:

"A escuridão invade o quarto. Não posso suportar essas trevas, que encobrem qualquer tentativa de definição. Levanto e cambaleio, tal como num sonho, primeiro descendo as escadas. Depois, atordoado, erro pelas ruas. As celebrações já estão começando, as ruas carregadas do fedor de uma vida brutal. Eles mijam nas entradas das casas, dão com remos nas cabeças uns dos outros, e riem, e se ajoelham no próprio vômito. Fornicam pelos muros dos becos feito prisioneiros. Peidam e gritam, são tudo que resta, tudo que existirá. Com movimentos lentos, escapo de seus empurrões obscenos. Um jarro de cerveja é colocado com força em minha mão. Com sorrisos vis, me pegam pelo braço, beijam meu rosto marcado pelas lágrimas e me atraem para que eu me junte a eles." (página 158)

Antes de terminar esse post, impossível não destacar o primeiro capítulo, "O porco do bruxo". No ano de 4.000 a.C., um adolescente que pertence a uma tribo nômade vê sua mãe doente morrer. Considerado pelos demais um estorvo, é expulso da tribo, e então começa sua saga em busca de comida; depois de dias caminhando, encontra abrigo junto à cabana de um bruxo, sendo mantido ali em segredo pela jovem garota que servia ao misterioso homem. Entretanto, não é a história em si que merece destaque, mas à forma adotada por Moore: o capítulo todo é narrado praticamente com verbos não flexionados e períodos com poucas conjunções, na tentativa de emular a voz de um contemporâneo do Neolítico. Algumas ações e objetos não são representados pelos termos que conhecemos (e você só consegue descobrir do que se trata pelo contexto). Assim, por exemplo, a ação de pensar é representada pelo verbo "juntar" ("o meu pensamento" aparece no texto como "o juntar de eu", na linguagem do menino); o órgão sexual masculino é denominado "vontade" ou "osso". Uma construção narrativa ímpar, de onde destaco o trecho abaixo, que é magnífico ao retratar poeticamente o momento em que o adolescente tem o primeiro orgasmo de sua vida, após ser masturbado pela menina:

"Ela é faz inclinar, e encosta cabeça ela que comprido cabelo brilhante de ela é cai como cordas-de-árvores lá todo por vontade de eu. Agora em mão ela é pega um comprido e grosso de cabelo de ela, para enrolar em dedo de ela por osso quente de eu. Oh, ela é esfrega eu com cabelo ela, todo para cima e para baixo, todo rápido e forte que é puxa como para machucar cabeça ela, mas não faz ela um barulho, mas só esfrega e esfrega, e esfregar de isso é bom, juntar isso é mais bom ainda, cabelo ela assim macio e brilhante com sol, forte de ele mexe para cima de osso de eu, devagar como minhoca de costas-de-cabana, de traseiro, por grosso de vontade para ponta onde é espetar bom. Agora é fica uma pequena roda de leite-de-barriga em ele, como olhos de chuva que fica em grama enquanto é primeiro brilho, ela é esfrega mais rápido, mais forte, eu é junto que esse não é esfregar de cabelo em mão, mas esfregar de cabelo por toda fêmea de ela, e, oh, e juntar isso é vai rápido descendo barriga de eu, subindo vontade de eu e, oh, e menina é segura mais forte ainda, para parar leite-de-barriga de eu, mas é agora, e agora, e agora, um fio de leite cai em rosto de ela, em cabelo, e molha em pele de boi-de-pelo de cabeça ela, e mais, e mais, em pernas de eu e baixo de dedos ela, molhado em grama e branco em olho sangrento de flores e, oh, e Mãe. Mãe." (páginas 54/55)


Leitura das mais deliciosas dos últimos tempos, "A voz do fogo" é um livro que nos convida a ver a realidade como ficção e ficção, como real, para mostrar que no final das contas essa divisão é apenas uma pegadinha que fizeram conosco. Fãs antigos irão se apaixonar pelo livro, e quem nunca leu nada de Alan Moore (pecado imperdoável, mas ninguém é perfeito) será conquistado pelos sortilégios do bruxo de Northampton.

"Somos todos, cada um de nós, os fragmentos sangrentos e pungentes de um Deus que foi rasgado em pedaços pelo choro de nascimento da Eternidade. Quando todos os dias se acabarem, Ela que é Noiva e Mãe de todos nós juntará cada migalha de ser espalhado num só lugar, onde voltaremos a saber o que sabíamos no início das coisas, antes da terrível divisão. Todos os seres se dividem entre aqueles que são e aqueles que não são. Entre eles, o segundo tipo é o maior, e tem mais importância. Conhecer o pensamento é estar em outra terra. Tudo é verdadeiro. Tudo." (página 254)



12.28.2013

Comentários sobre o livro "Os filhos místicos do Sol"



O livro "Os filhos místicos do Sol" foi lançado em 1971 em Paris, pela Editións Robert Laffont, e a edição brasileira chegou às livrarias em 1976 através da Difel Difusão Editorial, como um dos livros da coleção "Enigmas de todos os tempos". Eu não sei exatamente quantos livros compõem essa coleção, mas entre eles conheço outros três: "O livro da Tradição", "Hitler e as religiões da suástica" e "Hitler e a tradição cátara". Todos esses livros foram escritos pela dupla Michel e Jean Angebert, pseudônimos dos franceses Michel Bertrand e Jean-Victor Angelini, respectivamente. É bem fácil encontrar "Os filhos místicos do Sol" e "O livro da Tradição" no Estante Virtual; já os outros dois são mais raros, sendo que o último é praticamente impossível de ser encontrado e, com uma boa dose de sorte, não sairá por menos de R$ 200,00.

Ante de irmos ao livro, um parênteses para que você, (talvez) um futuro leitor de "Os filhos místicos do Sol", não se decepcione: a tradução é um lixo. E não, eu não li o original francês e cotejei os textos, assinalando as imperfeições com uma paciência algo filológica - você as percebe claramente pela falta de fluência com que o texto se desenrola em determinadas partes. Há trechos onde as orações simplesmente não se encaixam, e é necessário ler e reler para que o sentido então floresça. Nas 341 páginas da obra, curiosamente, essa deficiência (que presumo ser da tradução, posto que já tive a oportunidade de debater erros tradutológicos em outra obra, de outra editora, e essa falta de "fluência" se repetia de maneira muito similar) apareceu mais monstruosamente presente no epílogo. Seria um indício de que a "tradutora", cansada, ficou ainda mais displicente, produzindo um texto com menos cuidados, uma tradução quase literal, palavra a palavra, prenunciando em quase três décadas os equívocos do Google Translator? [uma outra hipótese: a dupla francesa realmente escreve mal. Mas não acho que é o caso. Franceses podem ser uns porcalhões, mas escrevem bem, com elegância, vide o efeito que a vivência parisiense produziu no estilo de autores tão díspares como Cioran e Cortázar].

Deixando de lado essas questões sobre a qualidade duvidosa da tradução, a tese do livro pode assim ser resumida: a influência decisiva (e por vezes terrível) que o Sol tem sob a vida dos seres humanos. Partindo de uma premissa, por assim dizer, astrológica, ou se preferirem o dito hermético "tanto em cima como embaixo" - isto é, que a movimentação e a posição dos astros no cosmos influencia indubitavelmente o destino dos homens em particular e da humanidade como um todo - os autores assinalam que nessa rede infindável de forças cósmicas, o Sol tem a primazia, sendo o centro de orientação das estrelas e planetas que compõe o Zodíaco. Premissa inegável, de fato, desde que você obviamente não entenda por astrologia essas vulgaridades baratas de "adivinhações" presente nos horóscopos diários de jornais e sites "esotéricos", que nada mais do que uma versão bastante deformada e "profana" da autêntica Astrologia, ciência antiquíssima (talvez a mais antiga a permanecer entre nós, mesmo que como um eco), e que a ânsia "objetiva" dos cientistas modernos relegaram a um patamar inferior de "crença", colocando a Astronomia como verdadeiramente "científica".

Na sua misteriosa alquimia, o Sol no plano astral condensa as forças inorgânicas imensas, as energias contidas no cosmos, e essa vitalidade prodigiosa, que parece constantemente renovada, participa verdadeiramente do poder divino e, por trás do Sol visível, deslumbrante luminária, permanece como um braseiro imenso, infinitamente mais vasto e mais terrível, o Sol invisível, o Sol negro dos magos e dos alquimistas, assim chamado devido ao seu terrível brilho, ao nossos olhos emanação do Logos Divino... Outrossim, não é dado aos humanos, pelo menos nessa vida, contemplar esse fogo espiritual, de tal forma brilhante que faria arder a nossa alma pela eternidade. Em compensação os textos sagrados da humanidade, tal como o Livro dos Mortos egípcio ou o Bardo Thödol tibetano, presumem essa luz que poderemos contemplar do outro lado do espelho, isto é, depois de nossa morte terrestre. É o Sol de Osíris dos sacerdotes de Mênfis, a "luz azul" do plano budístico, o "Sol dos mortos", o que, sozinho, guia as almas para o Espírito e transcende o mistério do Conhecimento Supremo. O segredo do logos, o conhecimento do Sol negro, caminho da vida e da morte, tal era a chave dos grandes mistérios conhecidos em outros tempos dos colégios de iniciação, dos pontífices atlantes, dos sacerdotes egípcios e dos grandes druidas antes da extinção da luz da Tradição soprada por um "vento de loucura" nascido em alguma parte da Judéia. (página 4)

Mas o livro não é simplesmente uma interpretação astrológica de eventos e personalidades históricas. A referência teórica é mesmo anterior à Astrologia, considerada não em si, mas tão somente como uma herdeira de uma sabedoria muitíssimo mais antiga, que extrapola os limites da história oficial, do que hoje é tomado como "verdade histórica"; uma sabedoria que permanece codificada nos ritos de mistério da Antigüidade, nos tratados alquímicos da Idade Média, nas construções templárias repletas de simbolismos, e que possuem, segundo os autores, todos eles um mesmo tronco comum, perdido na névoa dos templos - a mítica Atlântida.

O que acabou de ser dito - Atlântida - surge quase como uma anátema sobre mim para alguns. Lida com espanto, a palavra remete aos nefastos programas da History Channel (que contribuem, através do recurso do ridículo, em colocar véus ainda mais pesados sobre determinadas questões, com o estratégico objetivo de obnubilar o entendimento geral, mas isso já é matéria para outro texto). Remete a fantasias sem nexo e a uma retórica "New Age" que é apontada com cinismo, cinismo "irreverente" repetido bilhões de vezes em memes que são o resumo e objeto cultural mais do que representativo da bobagem pós-moderna. Sobre isso, sobre esses possíveis olhares de reprovação ao se invocar Atlântida nesse texto, nada mais a dizer do que o que segue:

(...) enquanto do ponto de vista da "ciência" se dá valor ao mito pelo que ele poderá fornecer de história, dá-se pelo contrário valor à própria história pelo que ela nos pode fornecer de mito, ou pelos mitos que se insinuam em suas malhas, como integração do "sentido" da própria história (Revolta contra o mundo moderno, edições Dom Quixote, 1989, página 16)

Ou seja: a suposta "cientificidade" do History Channel e outros programas/publicações do tipo está bastante distante do ponto de vista sustentado pelos autores, que se aproxima muito do ponto de vista evoliano. Eles buscarão, ao analisar a trajetória de oito personalidades históricas - Akhenaton, Zoroastro, Alexandre o Grande, Juliano o Apóstata, Frederico de Hohenstaufen, Napoleão, Hitler e Mao Tsé-Tung - a influência que o mito do Sol desempenhou na biografia de cada um desses homens, homens que em diferentes épocas e de diversos modos promoveram gigantescas mudanças na história humana.

O capítulo dedicado a Akhenaton foi para mim o mais interessante. Esse faraó misterioso, que revolucionou o Egito em 1.300 a.C. implantando a primeira religião monoteísta da história - o culto ao Sol, a Aton - enfrentou o poderoso clero do deus Amon, tornou ilegal o culto aos antigos deuses e proclamou a si e a sua esposa Nefertiti como divinos e únicos representantes do Sol na terra. A nova religião tinha como principal sacerdote, justamente, o faraó: cristalização perfeita do papel imperial e religioso em concordância, próxima à configuração tradicional que estabelece que os poderes espiritual e temporal devem ser um único poder. E o mais interessante: Aton, o Sol, não deveria ser personificado em uma estátua, bem ao gosto dos egípcios. A única representação permitida de Aton era o disco solar, feito em ouro, que posicionado no centro-alto do templo, recebia os primeiros raios do Sol, resplandecendo em um milagre de luminosidade - a adoração feita desse modo assemelha-se aos primórdios da religião romana, onde os deuses eram tidos como forças, como numen, presentes no universo e envolvendo a tudo e a todos os momentos da vida.

Outro capítulo que merece destaque é o último (na verdade, um epílogo) dedicado ao "Sol Vermelho" de Mao Tsé-Tung. Tendo em mente o leitor que o livro foi escrito em 1971 e, portanto, as informações sobre a China eram infinitamente escassas, a pesquisa realizada pelos autores por si só já merece aplausos; mas mais do que isso, trouxe para mim aspectos sobre a Revolução Cultural que eu desconhecia completamente, como por exemplo a Sociedade Hung, uma milenar sociedade secreta, espécie de Maçonaria chinesa, para fazermos uma comparação extremamente grosseira. Segundo os autores, os quadros do alto comando do Partido Comunista são todos membros da sociedade Hung. De fato, parece crível: a China pode ter hoje uma abertura muito maior ao mundo ocidental, e recentemente, em seu plano quinqüenal, acenou para uma liberalização ainda mais acentuada. Mas a hierarquia do Partido e o controle absoluto da sociedade chinesa permaneceram intactos, o que demonstra a existência de um "núcleo duro" e uma centralização total do poder. Há sempre uma aura de mistério, de algo não dito, sobre a China e suas intenções no cenário geopolítico mundial. Citamos um trecho do livro, que na verdade é citação de um outro, "L´agonie de la Vielle", feita pelos Angebert:

A situação... permite prever um terremoto capaz de engolir nossa Atlântida... Três catolicismos desmoronam: o catolicismo de Roma, o de Washington e o de Moscou - e sobre suas ruínas medra silenciosamente o joio do nacionalismo (...) Suprema irrisão: se um sentimento internacional nascer, encontrará amanhã impulso e fundamento na ameaça que representarão um bilhão de chineses nacionalistas, xenófobos e armados até os dentes. Ele será pois branco e racista. Nesse dia, sobre o imenso campo das ruínas da moral cristã (a moral socialista foi apenas uma tradução moderna da anterior), uma ordem nazificante estenderá a vasta envergadura de suas asas. Do Valhalla, Hitler poderá fazer esta reflexão: "Enganei-me somente da data. Fui muito apressado." Sim, o presidente Mao, "Sol vermelho, irradiante, glória do Universo e flor maravilhosa da criação", pensa na reação que arrisca a desatar, ou bem, está de tal forma confiante na inelutável decadência da sociedade ocidental? Sabe-se que alemães e japoneses pagaram muito caro essa tendência de subestimar o adversário... Passar-se-á o mesmo amanhã?

A dimensão apocalíptica do aviso nos parece ridícula. Vemos a China apenas pelos olhos da mídia como um país "comunista" que se rendeu ao capitalismo. Mas será apenas isso mesmo? O enorme apetite por commodities faz a China comprar minérios, grãos e combustível de todas as partes do mundo. No recente leilão do pré-sal, um dos consórcios é chinês - trocaremos a tecnologia deles com o petróleo pátrio. E toda essa energia levada ao solo chinês, que fins terá além da óbvia manutenção da enorme população chinesa? A sociedade Hung possivelmente ainda permanece com influência nas decisões estratégicas do país, e talvez ainda alimente o sonho de dominação do "Sol vermelho" de Mao Tsé-Tung. É necessário, portanto, ver além dos véus e entender os sinais que indicam sentidos além dos óbvios.

Enfim, "Os filhos místicos do Sol" apresenta uma releitura de biografias históricas sob uma perspectiva nada oficial. Para os que apreciam temas esotéricos e interessam-se pela Tradição, é uma leitura complementar que possibilita ver o jogo de forças aeônicas atuando na História e exercício interessante para descobrir, nas entrelinhas, as formas tradicionais de vida em choque com suas antíteses.

10.30.2013

Germinal


Lí essa notícia e, na hora, lembrei-me desse trecho do Germinal:

"Era a visão vermelha que arrastaria a todos, fatalmente, numa dessas noites sangrentas desse fim de século. Sim, uma noite, o povo em torrentes, desenfreado, correria assim pelos caminhos, gotejando o sangue burguês, exibindo cabeças, semeando o ouro dos cofres arrombados. As mulheres gritariam, os homens abririam suas queixadas de lobos, prontos para morderem. Sim, seriam os mesmos farrapos, o mesmo matraquear de tamancos grosseiros, a mesma turba assustadora, suja, de hálito fétido, varrendo o mundo caduco com a sua irresistível avalancha de bárbaros. Arderiam incêndios, nas cidades não ficaria pedra sobre pedra, regredir-se-ia à vida selvagem das florestas após o grande cio, o grande rega-bofe, e, que os pobres, numa só noite, extenuariam as mulheres e esvaziariam as adegas dos ricos. Não sobraria nada, as fortunas e os títulos das situações adquiridas desapareceriam, até o dia em que talvez desabrochasse uma nova sociedade. Sim, eram essas coisas que estavam passando pela estrada, como uma força da natureza, e vinha delas o vento terrível que lhes açoitava os rostos."

Zola, esperançoso, é também cauteloso: diz que "talvez" desabrocharia uma nova sociedade. No incêndio que assola a Zona Norte de São Paulo, parece-me que dos destroços pouca coisa sobrará, que a ânsia de destruição minará todas as possibilidades de renascimento. 

O niilismo em sua mais crua cristalização.  O vento terrível da revolta popular. Os sintomas claros - e cada vez mais evidentes - do fim de um ciclo. Sigo como um observador curioso, procurando ler nas entrelinhas dos noticiários as mensagens ocultas e tentando compor um cenário mais abrangente de tudo.  

10.11.2013

Algumas razões de não escrever mais aqui


Foi com algum tipo de surpresa que ontem, ao visitar o blog, constatei que em 2013 realizei simplórias seis postagens. Algumas poucas pessoas que acompanham as postagens aqui devem ter considerado a ausência como a morte do blog. Entretanto, eu nunca o considerei morto, talvez por uma espécie de mórbida afeição por coisas moribundas. Mas para prestar uma espécie de satisfação a todas as almas que aqui vinham, deixo algumas palavras de esclarecimento.

Se, nos anos anteriores, eu já tinha meu cotidiano marcado por um ritmo de trabalho frenético, 2013 tratou de acelerar ainda mais esse aspecto de minha vida. Nunca trabalhei tanto como nesse ano. Somado a isso, iniciei uma pós-graduação que consumia o já escasso tempo livre, como forma de aprimorar minhas qualificações profissionais. Em resumo: não contente com a quantidade de trabalho que eu tinha, tratei de aumentar o ritmo e criar condições para que novas responsabilidades sejam adquiridas no futuro. 

A esses dois fatores juntamos a preguiça. Na verdade, não é preguiça, mas um esgotamento físico e mental que me assola quando cruzo a porta de casa. É o preço a ser pago para tornar-se "eficiente". Busco conforto, então, em um prato de comida, na música (ouço agora os acordes de Dylan Carlson, esse oásis de calmaria em dias tão sempre repletos de caos), na leitura ou simplesmente na técnica que mais gosto: deitar no sofá, acender um cigarro e como que submergir nele, deixando que as almofadas me abracem, até que uma sonolência me capture - e então levanto, vou para o quarto e durmo, para começar no dia seguinte tudo de novo.

A pedra rola até o topo, cai, e você vai lá empurrando de novo para cima.

Gosto de imaginar que a vida é assim como todo mundo: envelhecemos e nos tornamos todos iguais. É extremamente confortável imaginar que se trata de um fatalismo, que mais cedo ou mais tarde até o mais irascível fã do Crass vai cogitar em fazer um seguro de vida. Mas isso é só uma crença, e como todas as crenças é duvidosa, em geral existe apenas como um frágil argumento para tornar a vida mais tolerável. Toda crença tem um pouco desse poder de permitir ao crente uma estratégia de fuga quando a situação se torna crítica. A minha é ver a minha vida se tornar medíocre e considerar que a de todo mundo é igual. 

O caminho para a mediocridade tem muita relação com a passagem do tempo e o acúmulo de compromissos que isso traz. Com vinte anos, eu tinha um conjunto de preocupações mais ou menos reduzido, mas certamente sem comparação com os que tenho hoje. Compromissos que envolvem dinheiro principalmente: esses são os mais nocivos. É através dessas dívidas que se multiplicam no tempo que somos arrastados para a vala comum dos vencidos. O dândi se transforma no proletário quando os juros do cheque especial batem à porta. A mediocridade é a transformação das relações humanas em um tipo onde o peso da matéria se acentua e passa de coadjuvante a protagonista - quanto mais envolvida nos véus da influência materialista, mais medíocre uma vida se torna. E isso não significa que apenas existências plenas de recursos materiais sejam medíocres. Não estou fazendo uma elogio do voto de pobreza, tão ao gosto desses tempos contaminados por uma moral de escravo. A vida medíocre se instala assim que preocupações materiais se tornem as principais, ocupando a maior parte do tempo/energia que temos.

Então, sempre quando chego em casa, olho com desdém um bar que fica em uma esquina próxima. Sempre vejo lá, sentado na mesma mesa, um homem gordo, que fuma e bebe às vezes sozinho, às vezes acompanhado. Tento imaginar que tipo de vida ele tem e só consigo vê-lo suado, rindo aquela sua gargalhada imbecil, rodeado de outros igualmente imbecis. Gosto de me imaginar uma pessoa incrivelmente mais interessante do que aquele gordo - afinal eu chego em casa e leio, enquanto ele fica lá se matando e engordando como um porco; eu escuto música decente, enquanto aquele infeliz tem uma experiência musical baseada em ritmos de FM e sons de botequim; mas principalmente eu chego em casa tarde, pois estava trabalhando, enquanto que ele fica todo dia em um bar jogando conversa fora. Em uma palavra: sinto-me superior àquele homem gordo mas, no momento seguinte, penso que tudo isso é simplesmente inveja, recalque, que na verdade tenho muito em comum com aquele homem que não conheço e já odeio, e então calo meus pensamento, subo pelo elevador, entro em casa, deito no sofá e morro.

Para começar no dia seguinte tudo de novo.

Entre uns momentos de descanso e outro, tenho rabiscado textos sem fim em um caderno. Eles fazem parte de um fanzine, que compilará uma série de pequenas histórias, cujo tema é o encontro amoroso. Eu já publiquei aqui no blog algumas dessas histórias, mas acho que quando se trata de amor, a tela do notebook é demasiado pobre. Amor é algo que se faz na base do tato, do encontro entre duas (ou mais) epidermes, é algo que é inseparável do contato. Por isso a insistência de levar para o impresso essas pequenas histórias, que estão sendo rabuscadas, geralmente, aos finais de semana. Dar qualquer prazo de quando isso estará pronto seria uma mentira a mais entre tantas que já contei, então digo apenas que, algum dia, se os deuses assim quiserem, essa publicação ficará pronta.

Isso tudo para dizer que cada vez menos frequentarei o Dissolve Coagula. Pelo menos até o final do ano. Não sei se é pelo fato de eu ter feito da Internet o meu ganha-pão, mas no tempo livre que sobra por vezes tenho um ciclópico cansaço de fazer qualquer coisa relacionada com a rede. Nos meses mais recentes, eu até cheguei a gastar um tempo considerável com redes sociais, me metendo inclusive em uma série de discussões. Mas foi tamanha a energia empreendida nessas "interações" que até isso me cansou e, além disso, sou péssimo em argumentar e defender meu ponto de vista, ainda mais em um ambiente onde, claramente, ninguém quer discutir nada, mas tão somente fincar pé em uma posição de modo bastante irrefletido e dogmático, ou então fazer piada com tudo e todos - e esse clima "irreverente" me cansou a um ponto que bloqueei tantas pessoas que preferi abandonar o uso do meu perfil, por não fazer mais sentido. No final das contas, a lição aprendida é que discussão na Internet é igual a Para-Olimpíadas: mesmo que a vitória seja sua, no final você sempre será um retardado. 

Escrever esse post enquanto os acordes do senhor Carlson ecoam pela sala foi uma exceção prazerosa, mas para esse sabor permaneça é necessário saber dosá-lo adequadamente. Quem sabe no final do ano escrevo de novo aqui. Agora, volto para o cotidiano estupidificante que me faz pensar o que estou fazendo de errado e se algum dia vou acordar com a sensação de que é tarde demais para mudar.