12.04.2011

"Axe is the name of mine", de Alexander Dugin - parte 3



Enfim a conclusão do ensaio do Alexander Dugin. Aproximações míticas do machado com Raskolnikóv, escatologia de verniz russo, messianismo eurasiano: está tudo aí, com a brilhante demência que só os sanguinários salvadores do mundo conseguem criar.


Boa leitura.
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Como é um ensaio longo, esse post se divide em três partes:
Parte 1                    Parte 2                       Parte 3


Labris - uma breve genealogia do machado

As hipóteses mais brilhantes relativas a este artefato - sua origem e seu simbolismo - foram realizada por Herman Wirth, um gênio científico alemão e um especialista na área de recursos humanos pré-históricos e letras antigas. Wirth mostrou que o machado duplo era o símbolo primordial do Ano, do círculo, de suas duas metades: uma segue o solstício de inverno, e o outro o seu oposto. O machado padrão (com apenas um lado) simboliza a metade do ano, como regra a primavera, a metade ascendente.

Além disso, o uso utilitarista de um machado para cortar as árvores, também de acordo com Wirth, tem uma relação com o simbolismo anual, pois a Árvore, de acordo com a Tradição, simboliza o ano. Suas raízes são os meses de inverno, e sua coroa os de verão. Portanto, cortar árvores se relaciona, no contexto primordial simbólico das sociedades antigas, com o advento do Ano Novo e o final do velho.


O Machado é, simultaneamente, o Ano Novo e o instrumento com o qual o velho é destruído. Ao mesmo tempo é um instrumento cortante, dividindo o Tempo, cortando o seu cordão umbilical no ponto mágico do Solstício de Inverno, quando o grande mistério da morte e ressurreição do Sol acontece.


No antigo calendário rúnico, a runa que retratava o machado era chamada de "thurs" e foi dedicada ao deus Thor. Ele caiu sobre os primeiros meses do Ano Novo. Thor era o Deus do Machado ou o seu equivalente simbólico, o Deus do Martelo ou Mjollnir. Com este Machado-Martelo, Thor esmagou o crânio da Serpente do Mundo, Irmunganthr, que flutuava nas águas inferiores das trevas. Mais uma vez o mito do solstício, ligado ao ponto do Ano Novo: a Serpente é o Inverno, o frio, as águas mais baixas do ano Sagrado, aonde o sol polar desce. Thor, que é ao mesmo tempo o Sol e o espírito do Sol, vence o frio e torna a Luz livre. Em fases posteriores do mito, a imagem do Sol-Luz é dividida em duas - o salvador e os salvos - e depois em três, com a adição de instrumento da salvação, o machado. Na forma primordial, todos aqueles personagens eram algo unidos:  Deus-Sol-Machado (ou Martelo).

A mais antiga inscrição do sinal de machado nas antigas cavernas do Paleolítico e gravuras rupestres foram analisadas por Herman Wirth à luz de todo o ritual e estrutura do calendário. Ele traçou a constância incrível desse proto-machado através das mais diferentes culturas, línguas, localidades e épocas. Ele mostrou a relação etimológica e semântica das palavras que significam “machado” com outras noções simbólicas e temas mitológicos, que também estão associados com o mistério de Ano Novo, com o meio do Inverno e também com o Solstício de Inverno.

Especialmente interessantes são os indícios de que o significado simbólico de "machado" é estritamente idêntico com outros dois antigos hieróglifos-palavras: "labirinto" e "barba".

O "labirinto" é um desenvolvimento da idéia de uma espiral do ano, que se vira para o Ano Novo e, em seguida, imediatamente começam a distorcer. "Barba" é a luz do Sol masculino durante o outono/inverno do círculo do ano (o cabelo como um todo são os raios do Sol). No círculo rúnico outra runa - "peorp" – se parece com um machado, porém significa “barba”. No meio do labirinto vive Minotauro, o monstro, o homem-touro, o equivalente a Irmunganthr, a Serpente do Mundo, e também equivalente a outro personagem: a velha agiota. Dostoiévski descreveu um antigo tema mitológico, o paradigma de uma sucessão simbólica, um ritual primordial que os nossos ancestrais praticaram por muitos milênios. Mas esse episódio de Crime e Castigo não é apenas um anacronismo ou fragmento desordenado do inconsciente coletivo. Na verdade o assunto é sobre uma imagem muito mais importante, escatológica, sobre o sentido e o gesto do Fim dos Tempos, sobre o momento sagrado apocalíptico, quando colide tempo e eternidade, quando o fogo arde no Dia do Juízo Final.

Os russos são a nação abençoada, e a história da Rússia é o resumo da história mundial. Para nós, semelhante a um ímã temporal, espacial e étnico, o destino dos séculos gravita com uma progressão crescente. A Primeira e a Segunda Roma existiram apenas para a Terceira aparecer. O Império Bizantino era a profecia de uma Rússia Santa. Uma Rússia Santa em sua forma apocalíptica surgiu como uma cidade-fantasma chamada São Petersburgo, cidade onde o maior profeta da Rússia apareceu: Fyodor Dostoiévski. A história de seu principal romance, "Crime e Castigo", situa-se no labirinto de ruas de Petersburgo e os personagens principais de seu romance são personagens principais da Rússia. Entre eles, os mais importantes são Raskolnikov, a velha agiota e o machado. É o machado o raio que conecta Raskolnikov com a velha.

A história do mundo - através da história de Roma, através da história do Império Bizantino, através da história da Rússia, através da história de Moscou, através da história de São Petersburgo, através da história da Dostoiévski, através da história de "Crime e Castigo", através da história dos personagens principais do romance - é reduzida a um único artefato: o Machado.

Raskolnikov divide a cabeça da velha capitalista. O nome "Raskolnikov" ("Raskol" significa, literalmente, uma "divisão") indica o machado e a ação que ele comete. Raskolnikov realiza o ritual de Ano Novo, o mistério do Juízo Final, a celebração da ressurreição do Sol.

O Capitalismo, arrastando-se para a Rússia a partir do Ocidente, do lado do Sol, carnalmente representa a Serpente do Mundo. Seu agente é a velha e decrépita agiota, tecendo uma teia de escravidão usurária. Ela também é parte dela.

Raskolnikov traz o machado do Oriente.

O machado do Sol Nascente, o machado da Liberdade e da Nova Aurora.


A novela deveria ter acabado de uma forma triunfal, com a plena justificação de Rodion. O crime de Raskólnikov é a punição para a usurária. A era da revolução proletária e do Machado é proclamada. Mas forças adicionais entraram no caso: o investigador Porfiriy acaba por ser especialmente insidioso. O representante de jurisprudência kafkiana e do humanitarismo pseudo-farisaico começa uma intriga complicada para difamar o personagem principal e suas ações diante até mesmo dos próprios olhos de Raskólnikov. Porfiriy manipula os fatos, e leva Raskolnikov a um labirinto cego de dúvida, nervosismo e perturbação mental. Ele não apenas tentar colocar Rodion na cadeia, como também procura destruí-lo de uma forma espiritual. O personagem principal deveria ser tratado da mesma forma que tratou a anciã: "Esmague o crânio da serpente". Mas o nosso herói acaba por ser incapaz de resistir... Então o resto do tecido do mito também acaba por ser desvendado. Raskolnikov, de acordo com o cenário primordial, deveria ter levado a Sabedoria-Sophia para fora do bordel, como o gnóstico Simon fez com Helena. Mesmo a cena de recitar a narração do evangelho sobre a ressurreição de Lázaro permaneceu a partir da versão original: Sophia, resgatada por Amor e ao ser libertada da escravidão usurária, propaga a ressurreição universal. Mas aqui, por algum motivo, ela se junta em uma conspiração com o "o adorador da serpente humanitária", Porfiriy. Ela começa a sugerir a Raskolnikov uma idéia: que a velha deveria ter sido poupada, que ela não era "apenas um piolho": a sociedade do amor entre os animais, incluindo entre eles a serpente do mundo que vive na escuridão do caos. Uma ternura perante as lágrimas de dor da capitalista assassinada.


Como isso pode ser explicado?

Dostoiévski era um profeta e tinha o dom da clarividência. Ele previu não só a revolução (o golpe no crânio com o machado), mas também a sua degeneração, a sua traição, seu ser destruído pelo mercado. A Sophia do socialismo gradualmente degradada pelo humanitarismo farisaico. Porfiriy penetrou o Partido e minou os fundamentos do reinado escatológico do país soviético.

Primeiro, eles desistiram da revolução permanente; em seguida, os expurgos; e depois Sonya, sob a direção de intelectuais soviéticos tardios, mais uma vez começou a lamentar-se sobre as coisas mais ridículas – como o mandamento de "não matar"- e então o sangue jorrou como um rio. E não foi o sangue de velhas agiotas, mas o sangue inocente de crianças.

Existe uma versão virtual do "Crime e Castigo" que tem um final totalmente diferente. Tem a ver com o novo e vindouro período da história russa. Até agora vivemos a primeira versão. Mas agora tudo acabou. O novo mito está encarnando, a espada escarlate de Boris Savinkov é escaldante nas mãos de uma jovem nova Rússia, a Rússia do fim dos tempos – a Rússia cujo nome é Machado.
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As demais partes do ensaio: 

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