4.14.2015

Renascimento



"É disso que estou falando, entendeu? Da impossibilidade de parar. Não é justo. Nunca é. Poderíamos ter feito outras escolhas, há muito tempo, hoje é tarde demais. A curiosidade, aquela insolente, teimosa curiosidade de saber como a história vai acabar, como a vida terá o seu fim. É disto que se trata, nada mais. Não são só os ganhos que nos soltam pelo mundo, não é só a esperança, a guerra... ou as mulheres. Existe algo mais. Alguma coisa que nem eu nem o senhor poderíamos descrever, nunca, mas que conhecemos bem. Mesmo agora, mesmo no momento em que lhe parece ter-se afastado demais de tudo, nutre a vontade de conhecer o fim. De ver mais. Não há mais nada a perder, quando já perdemos tudo." (trecho de "Q, o caçador de hereges", de Luther Blisset, aquele que é todo mundo e ninguém)

Matei esse blog em 19 de outubro de 2014. Hoje ele renasce, após um interregno tempestuoso. Os motivos que elenquei para declarar a morte do blog - o "aspecto fragmentário e caleidoscópico" das postagens, a ausência dos elos de ligação unindo os textos antigos aos novos -fizeram sentido naquele momento onde (hoje confesso sem problemas) eu enfrentava um nível de estresse absurdo, que consumia-me todas as energias. Em alguns momentos, eu sentia - com uma força grave, pungente - o aroma da morte me cerceando. A desagregação que eu via no blog era a mesma que se produzia em mim. Uma voz interior dizia que 2014 seria meu último ano de vida.

Sem mais detalhes, o tempo provou que eu estava enganado. Não sei que influências me fizeram pensar nessas coisas. Não era um desejo suicida, mas quase uma (in)tranqüila aceitação de que tudo terminaria, de que não fazia sentido investir em mais nada, e que o mais correto seria fechar-me em um casulo de isolamento.

Aí fui fundo na brisa. Como sempre.

Leio agora o post da declaração da morte do blog. Ele é recheado de referências e imagens que sugerem morte, finitude e destruição. Já o tirei do ar, mas reproduzo seu penúltimo parágrafo pois ele sintetiza o estado emocional naquele momento horroroso:

Gosto de pensar que a realidade é aquilo que a gente acredita, e que as crenças são mágicas. Por mais absurdas que sejam, são capazes de interferir no ritmo mundano e promover alterações, para o bem e para o mal. Crenças podem ser martelos, que a duros golpes moldam a realidade, e também podem ser pincéis delicados que retiram aqueles grãozinhos de poeira das arestas. Tem todo um universo de nuances. E crenças podem ser devotadas não só a deuses e mitos, mas a TUDO - alguns acreditam no Dinheiro, outros na Democracia, outros no Fascismo, outros nem se forçam a acreditar em nada e por isso nutrem uma crença sem nome em uma série de coisas, como música, literatura, bares, sexo, drogas - qualquer porcaria que, sozinha ou em conjunto, ajude a dar um sentido ao percurso rumo ao Fim. Há uma infinidade de crenças possíveis e mundos a serem explorados, e cada uma delas traz consigo sua coleção de responsabilidades e premiações. Claro: nem todos gostam das crenças dos outros, e por isso travamos discussões em mesas de bar, saímos em gangues para esmurrar opositores ou reunimos exércitos para matar infiéis. Sempre há quem está disposto a matar e a morrer por uma crença. Todas elas, com suas perfídias e aspectos luminosos, são pura magia, pelo menos nesse sentido amplo que considera mágica as crenças. Magia é também o sangue quente correndo nas veias e alimentando cada molécula vivente assim como magia também é uma vela preta em oferenda a Azerate para trazer o fim do Cosmo; mágico é aquele encontro entre duas salivas desconhecidas em um canto qualquer de festa de jovens drogados, que em sua excitação são juntos uma réplica vagabunda do encontro mágico entre Binah e Hokhmah; é mágico o sacrifício cruento que entregamos, dia após dia, de todos os nossos esforços e canseiras, de todas as nossas potencialidades e derrotas, frente ao altar do Nada que é o mundo dos sonhos onde adentramos quando adormecermos, cansados, depois de um dia todo trabalhando em algo que não gostamos; é mágica toda lágrima de agonia que escorre, como é mágica toda gargalhada com os amigos; é mágico cada novo trago, mesmo deixando seqüelas que aparecerão anos depois e aí não terá mais nada a ser feito não ser lamentar e esperar morrer para dar fim a essa agonia; e mesmo a morte é algo mágico, pois ela marca a passagem do estágio do Ser para o Não-ser, o mergulho da fagulha que somos no Ayin onde tudo é amorfo, a entrada no estágio mais infantil e prematuro de tudo o que existe, o estágio de onde nunca deveríamos ter saído e que ansiamos, mesmo secretamente, retornar - apenas para começar tudo de novo, e de novo, e de novo, sem nenhum sentido que não seja a Repetição.

No mesmo dia que matei o Dissolve Coagula, criei um novo blog, o Morrer é como voltar para casa. Também criei uma fan page no Facebook para divulgá-lo. O nome do blog foi roubado de uma HQ do Lourenço Mutarelli que mostrava um casal em processo de decomposição física. A história refletia bem como eu me sentia na época. Fiz duas postagens por lá, e deixei de lado. Faço isso sempre com muitas coisas, e não apenas com blogs. No blog, escrevi pela última vez em 2/11/2014. A última atualização do Facebook foi em 18/11/2014.

É agora que começa, de fato, a entortar tudo.

Mesmo com a fan page largada às traças, ela recebia dezenas de curtidas por semana. Sem nenhum esforço, chegou a 752 curtidas. Com muito esforço e dedicação, a página do Dissolve Coagula, blog bem mais antigo, tem hoje 333 fãs.

O fato intrigante: praticamente todas as curtidas feitas na página do Morrer é como voltar para casa eram feitas por mulheres.

Com a aplicação de técnicas avançadas de stalkeamento (com um pouco de curiosidade, é possível descobrir tudo sobre uma pessoa com essa bosta de Facebook) vasculhei os perfis das curtidoras, um a um. O que encontrei foi a mistura dos seguintes elementos:
  • tem filhos pequenos: postam várias fotos com as  crianças (guardem essa informação);
  • páginas que curtem: humor, memes fofinhos e programas de TV aberta;
  • teor das postagens: motivacional/religioso, sem nenhum teor político.
Resumindo: características típicas do senso comum mais mediano e bunda mole possível. Devem limpar a casa, cuidar dos filhos e lavar cuecas do marido que as trata mal com um certo orgulho. 

O pior vem agora: em VÁRIOS perfis, encontrei mensagens de consolo a respeito de mortes recentes. Algumas delas sobre crianças mortas (daí a enxurrada de fotos com os pequenos). 

O nome do blog/fan page, pelo visto, foi visto por essas mulheres como uma espécie de consolação. Pouco importava o conteúdo das postagens: músicas do Scott Walker, resenhas sobre satanismo anti-cósmico, literatura, etc. O nome do blog surgia como uma esperança, um conforto, um fiozinho dourado que brilhava nas trevas do abismo do sofrimento. Para aquelas pessoas, Morrer é como voltar para casa era o mesmo que "bem-aventurados os puros de coração porque herdarão o reino dos céus".

Bateu uma bad vibe fodida e cancelei na hora o blog e a página do Facebook.

Contei toda essa história pois vejo isso como uma espécie de retorno amargo de todos os pensamentos de morte que me acompanharam em 2014 (como o homem do subsolo, tenho instrução suficiente para não ser supersticioso, mas sou supersticioso). Agora, passada a onda de stress que me consumia energias, assim como um período de estudos dedicados ao trabalho, há tempo e espaço para retomar a escrita por aqui. Sem nenhuma expectativa de coerência, que no final das contas é apenas uma miragem. O que me nutre, e que já foi abordado aqui em escritos do passado e na citação inicial do Luther Blisset, é essa sede ciclópica de conhecer o Fim da História, o Apocalipse, o Combate Final em um novo Kurukshetra.

Voltar para casa não é e nunca será uma opção.

P.S.: não encontro explicações sobre por que apenas mulheres curtiam a página.