6.29.2020

O silêncio dos atabaques


Vocês vieram como mensageiros, trazendo em suas gargalhadas as mensagens que precisávamos receber. Nessas mensagens as doçuras sempre estavam presentes, adicionando ao cotidiano um sabor de alegria que havia sido retirado de nossas vidas, após tantos golpes sobre nossos corpos maltratados. Golpes de formas diversas: dos botas pretas nas esquinas escuras, ocultos, que nos esmurravam enquanto deixávamos ali as velas e alguidares, profanados com a violência mundana das fardas. Golpes que também eram a necessidade de esconder a fé que nos inundava não por vergonha, mas pela crueldade de um mundo cujos valores são forjados por uma crença que vê em tudo que pulsa Vida e Desejo como algo que deve ser destruído. Tínhamos então que nos esconder muitas vezes, e ir para lugares distantes das cidades a fim de encontrar a paz necessária para receber e festejar Vossas presenças primais. 

Mas cada vez mais a violência da Cruz se espalhava, e as distâncias se tornaram menores. O som do atabaque teve que se silenciar. Nós choramos escondidos, acreditando que ao silenciar nossas músicas estaríamos desonrando Vossas essências, que estaríamos envergonhando a Tradição. E que ao fazer isso a vida, já tão dolorosa, perderia de vez a dádiva de Vossas mensagens, mensagens que nos traziam a doçura, aquele sabor único que amenizava a dor de tantos golpes e de tanta humilhação. Nesse choro não havia apenas tristeza, mas revolta também, e também um grande ódio. Pois os Senhores nos ensinaram que o ódio e a revolta são também parte de nós, e que ser manso jamais será digno dos que se dizem Seus filhos. Sugar da Vida tudo que ela tem a oferecer, seja "bom" ou "mau", até os limites dos limites: é isso que os Senhores nos instigam sempre a fazer, para sermos os únicos donos de nós mesmos, os únicos comandantes de nossos Destinos.

E foi tendo isso no coração (o maior presente que os Senhores nos deram foi esse: o de aprender a pensar com o coração) que descobrimos que no silenciar do atabaque um novo ordálio estava sendo colocado. Falamos das doçuras que Vossas mensagens traziam, mas havia também, e na maioria das vezes, também o amargor no que era dito - cobranças, gritos, severas repreensões. Todas essas mensagens raivosas eram necessárias, mesmo que em um primeiro momento pouco as compreendíamos. Rasgavam nossos olhos petrificados de tantas mentiras, chutavam nossa boca até os dentes caírem, ateavam fogo em nosso Eus limitados que caíam em agonia. De tudo na vida se pode tirar ensinamentos, mas é da dor que os homens tiram aqueles que os transformam para sempre - e assim, após os Senhores conduzirem os filhos pelas Sendas da Agonia, renascíamos ainda mais sedentos, mais comprometidos, querendo ver Sóis ainda mais brilhantes e caminhar em Noites ainda mais sinistras. 

Graças ao silêncio que tivemos que mergulhar, cultuando os Senhores apenas sob a luz da vela negra e nada mais, estamos aprendemos um novo valor: o da simplicidade. Enquanto os Senhores estavam aqui, sofrendo como nós os pesos da condição material, as liberdades eram inexistentes. Que ilusão achar que os servos da Cruz permitiam o som do atabaque, ou qualquer outro som! Era uma questão de morte, e assim foi selado o Destino de muitos. O silêncio está na base da fé que nos anima. O ocultamento. O ir-para-dentro-de-si. O relacionar-se com Vossas forças tendo apenas a simplicidade de uma vela, de um copo de bebida, de um fumador. As grandes festas, as belas roupas e as ricas oferendas: os Senhores nos ensinaram os valores e propósitos delas, e sempre nos corações dos filhos terá o lugar para tudo que for grande pois assim são os Senhores - mas nossos olhos não tem mais a cegueira de pensar que apenas assim que nós os agradamos. Há tantas ilusões ainda não desvendadas, mas essa não nos enganará jamais. 

Seguimos então confiantes no silêncio que os Senhores nos ensinaram a valorizar como um mestre. A olhar para a chama de uma vela e nela encontrar tudo o que precisamos para conectar-se com Vossas forças, silenciosamente, através do coração. Ter na quietude a força mais poderosa de nossa fé ressignifica os fundamentos, dá um novo sentido às firmações, faz renascer a nossa compreensão da magia, dos códigos e das mensagens. Não há no silêncio desonra, não há nele a quebra da Tradição: há no silêncio um poder que ainda estamos descobrindo, há nele uma dimensão na qual mergulhamos, selvagens e sempre sedentos, em busca da essência de Exu - a essência que queremos que seja a nossa. 

4.27.2020

Além dos véus róseo-rubros


Houve um tempo que os lençóis tinham o teu cheiro, lençóis onde gozamos juntos e acordávamos com lembranças da noite anterior. Bastava virar para o lado para já te tocar e então começar de novo. As bocas então se encontravam, ávidas, quase se mordendo. O carinho que transcende a forma amena e se torna aquilo que deve ser - primitivo gesto de amor. Não do amor surrado na escritura dos poetas, que só vivem na ilusão de sofisticar aquilo que não precisa e assim parecerem mais espertos do que realmente são. Amor como ato voraz. Explosão. Tempestade. Estremecimento. Suas pernas enlaçadas em meu pescoço, bambeando. Reflexo físico que sugeria que minha língua dedicada estava no caminho certo. O labor devoto em frente ao seu altar úmido de vida. Pois é no elemento líquido que a vida se inicia. Minha devoção, fervente, então penetrava no altar, abrindo os véus róseo-rubros que o velavam. Como eram quentes as chamas que ali se ocultavam! Isso fazia minha devoção, ainda mais exaltada, transformar-se num desejo de pura conexão. E por isso eu buscava mais uma vez sua boca arfante, mas também seus olhos. O que de mais íntimo pode existir do que amantes que fodem com olhos fixos nos olhos do outro? As chamas do seu altar úmido subiam e através dos olhares cruzados uniam ainda mais os corpos já em conexão. Continuidade ígnea. Ouroboros feito apenas de desejo em exercício. Exercício ritmado em seu altar já inundado de êxtase, sua boca perto da minha, respiração que misturava ares inalados e exalados, dentro e fora, fora e dentro. Como que isso não pode ser amor? Mãos que seguravam sua cabecinha com ternura, mas também com malícia, enlaçando os dedos em seus cabelos para aumentar a sensação de controle. Gesto que eu fazia para dizer "você é toda minha". Você percebia, como ninguém sabia me ler, e então sorria em resposta. Sorriso que era como gasolina sendo jogada em um incêndio. O sorriso acontecia de modo espontâneo ou calculado? Eis o mistério da Fé. Nenhum homem jamais saberá se o sorriso feminino na hora da foda vem de Deus ou do Diabo. O melhor é assumir que ambos são uma mesma coisa. E que a Mulher, a Beleza que está no topo do mais alto pilar da Criação, tem em si a dádiva de ser filha de ambos e de nenhum. Com aquele sorriso aumentava ainda mais minha ardente devoção. O altar úmido, já quase todo feito de líquidos cujo aroma transforma o homem em animal. E nessa inundação de sucos pecaminosos eu então começava a me preparar para contribuir com um novo tipo de libação, também ela quente e aromática, e que em outras vezes você havia sorvido, ávida e devotamente. Respirações ainda mais próximas, inalação e exalação, dentro e fora, fora e dentro, em ritmo crescente. Um olhar inocente poderia julgar que era um homem maltratando uma mulher com aqueles sacolejos quase violentos. Penso que esses mesmos inocentes ficariam confusos ao ver o seu sorriso enquanto me dizia baixinho "goza, goza", sempre com aqueles olhos mágicos me encarando. Não me saem da mente especialmente seus olhos. Eram neles que fixava toda a minha atenção enquanto eu sentia o clímax se iniciar, e os gemidos se tornando mais altos até que a respiração, descontrolada, era esquecida. Luzes disformes. Nervos se contorcendo. Segundos que a percepção se alterava. Não é a toa que os franceses chamam isso de pequena morte. Jorros quentes disparados contra as paredes internas do altar úmido. Fêmea e macho unidos em êxtase único. O suor meu pingando sobre o seu. Grudados, melados, o mundo exterior poderia ser destruído, a civilização sucumbir, holocaustos se multiplicarem. Tudo isso havia perdido o sentido. Havia encontrado um novo tipo de divindade, e ela estava oculta sob os véus róseo-rubros do altar úmido que vivia selvagem entre suas pernas.

4.11.2020

Sonho-real, Real-sonho


Há certos rumores que o Covid-19 abriu estranhos portais, pois os sonhos de todos parecem estar inundados de imagens antes não comuns. Mesmo os meus sonhos têm sido lisérgicos a um extremo que antes não aconteciam, ou aconteciam raramente - de qualquer modo, as cores têm se tornado incrivelmente mais vibrantes, as situações mais complexas e inusitadas, o ambiente amplificadamente surreal. 

Há um conto do Lovecraft que fala sobre um homem que tem sonhos onde voa por paisagens impossíveis. Ele acorda e fica recordando daquele mundo infinito com o coração apertado por um saudosismo que não tem fim. No conto os sonhos se repetem até ele enfim começar a viver apenas no sonho, e constata que aquilo que era mundo sonhado tem tanta substância e realidade quanto o "mundo real". Aquele mundo dos sonhos, tão imenso, tão fantástico, é um nada perto da realidade prosaica, repetitiva, empobrecida de significado. Sufocante, a vida real não suportaria aquele tipo de singular beleza que existe no mundo dos sonhos. Nosso mundo é feio, extremamente feio. E nele temos muitas pessoas horríveis. Mesmo aqueles que são considerados bonitos têm em si uma feiura secreta. Um traço de personalidade que faz as belas formas tão somente o que são - o feliz acaso da Natureza em criar um corpo apetitoso ao Desejo, mas que o andar dos anos tratará de deteriorar e deteriorar até ser um amontoado de tecidos enrugados, de células que morrem, de carne putrefata. "Nenhuma Beleza me vencerá", disse o Tempo no começo do mundo, e desde então a Beleza, quando surge, é só para nos fazer lembrar que todos no longo prazo seremos muito feios.

No mundo dos sonhos, porém, é tudo ao contrário: a Beleza vence o Tempo a hora que ela quiser. Ela na verdade ri da cara do Tempo, que naquele mundo age de modo bastante confuso - às vezes ele corre muito rápido, às vezes parece que anda para trás, mas a maioria das vezes ele fica parecendo bêbado e agindo de modo inconsequente. Tanto é que parece que por lá acontecem muitas coisas juntas, e parece que estamos vivendo aquilo tudo por horas ou meros minutinhos, e de repente toca o despertador e acordamos um tanto quanto desorientados. Nem sempre os sonhos são bons, tem aqueles que tentamos acordar e nunca conseguimos, parece que por lá ficaremos presos eternamente, suspensos em uma situação amedrontadora, o Tempo caído de bêbado nos deixando esquecidos ali apavorados. Há certas temporadas na vida que todas as noites temos sonhos ruins, mas para nossa tranquilidade, na maioria das vezes, sonhos ruins são uma exceção. 

Nada parece racional no mundo dos sonhos. Tudo ali obedece a uma lógica que nos escapa. Nem sei se dá para utilizar a palavra lógica para explicar o que ali ocorre. Seria uma pretensão imensa querer atribuir significados para tudo que acontece por lá; e como somos uma raça de soberbos é claro que, desde a aurora dos tempos, o homem tem procurado entender aquele mundo, investigar seus segredos, captar sua essência rebelde e louca. O que seria da humanidade sem o mundo dos sonhos? Constantino não sonhou com a cruz e a frase "In Hoc Signo Vinces", e após isso se fez cristão? Nesse signo vencerás: Constantino acreditou no seu sonho e mandou grafar nos escudos de seus exércitos a cruz. Logo após isso, em uma reviravolta um tanto quanto inesperada, venceu uma batalha decisiva contra Magêncio, seu rival na luta pelo poder, e tornou-se o primeiro imperador cristão a comandar o Império Romano. Se hoje o Ocidente é predominantemente cristão, temos nesse sonho de Constantino o gatilho que disparou uma série de eventos, que vão desde a fundação de Constantinopla até os bispos televisivos expulsando demônios em nome de Jesus.

Mas embora ali no mundo dos sonhos as coisas aconteçam de uma forma na maior parte das vezes absurda, a sensação de que tudo ali está vivo é marcante. Todos já tiveram sonhos tão reais quando essa tela onde você está lendo esse texto agora. Sonhos que eram tão incrivelmente intensos e vívidos que nem pareciam na verdade sonhos: era como se fosse um outro tipo de vida, um universo que obedecia a regras especiais, com seres estranhos, cores lindas, diálogos e situações que lembravam situações da vida real mas em configurações totalmente novas. Os mais deliciosos são obviamente os sonhos envolvendo sexo: já tive esse prazer inenarrável, em sonhar de estar fodendo com aquela pessoa que nunca você conseguiria se aproximar porque é tudo tão diferente no mundo real, as situações tão impossíveis de levarem àquilo, e no sonho é você ali transando na rua mesmo, em um cantinho qualquer logo após trocarem meia dúzia de palavras sem importância; as sensações prazerosas são tão fortes que já ouvi relatos de pessoas que realmente chegaram ao orgasmo durante o sonho. Uma intensidade tal que se parece com a realidade mesmo, vida exaltada e incrivelmente bela, livre e audaciosa.

Seria, tal como no conto de Lovecraft, o mundo dos sonhos um mundo tão verdadeiro quanto o nosso? As situações ali experimentadas, tão incrivelmente vívidas, tão marcantes, capazes de fazer nosso emocional rodopiar ao ponto de acordarmos seja em êxtase, seja em pavor... Seria um desperdício aquilo tudo ser apenas uma traquinagem de nossa mente, essa poderosa caixinha de armadilhas. Vibrante até mesmo quando nos assusta, pensemos no mundo dos sonhos como um mundo tão concreto quanto o nosso; que aquilo que sonhamos não seja um sonho, mas a vida de um outro alguém, a nós ligados, que leva sua existência em um mundo onde a Beleza é a Rainha de tudo e o Tempo fica caindo bêbado pelos cantos, tropeçando; esse mundo tem cores que nunca existirão no nosso, velocidades impossíveis de imaginar, cidades que parecem com as nossas cidades mas que mesclam todas em uma só - ora é como se fosse uma rua do centro de São Paulo, depois você sobe e é como se fosse a Recoleta, mais adiante parece a Vila Mariana e olhando ao redor já estamos em um parque de Amsterdã. E mesmo essas referências todas são apenas aproximações bastante inexatas, pois o que temos sempre nos sonhos é uma reprodução de dados captados pelo nosso aparato racional misturados em uma coqueteleira com bastante DMT e devaneios surrealistas, que fazem de repente a Avenida Paulista terminar em um deserto e colocar você e seu melhor amigo em cima de um camelo, vestidos como mercadores de Stygia acompanhando uma distante caravana e fazendo planos para um ataque de pura carnificina contra ela, e com tudo isso ao fundo rolando um som que parecia uma espécie de cumbia setentista - um mundo tão maravilhoso quanto esse, pensemos que ele sim existe de fato, que nada desses sonhos são fugazes construções do cérebro que um cientista chato um dia vai explicar que são reações químicas do lóbulo central e zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz. Ignoremos a ciência, ela só vai nos atrapalhar aqui. Vamos seguir nessa estranha estrada lovecraftiana que nos leva a concluir que o mundo dos sonhos é, na verdade, uma vida tão real quanto a nossa, vivida por um outro ser que é como se fossemos nós só que naquele "lado de lá", esse não-lugar que é o Mundo Onírico onde tudo é possível, até mesmo transar depravadamente no meio da rua com aquela pessoa que você nem sabe como começar uma conversa a respeito de um simples jantar, quem dirá de uma foda bem feita. 

Mas se quando dormimos o nosso sonho é a vida de um outro alguém, não é exagerada a hipótese de que a nossa vida aqui também é um sonho para quem está em outro lugar. Exatamente: isso que você está fazendo agora, lendo esse texto que escrevi; o meu próprio ato de aqui estar sentado, escrevendo esse texto, no coração da Vila Buarque no centro da cidade de São Paulo em plena madrugada do dia 11 de abril de 2020 durante a quarentena do Covid-19, tudo isso é o sonho de alguém que dorme no mundo que é onde vou quando eu estou dormindo. Aquele mundo para nós absurdo, onde passamos por situações típicas das obras de Dali, é a realidade de um outro Eu que agora dorme e me sonha aqui escrevendo sobre o mundo dele. Um parafuso de piração: essa é uma expressão bastante feliz para nomear esse vácuo no espaço-tempo onde a consciência de que não sou como imaginava, mas sou sonhado por alguém que sou enquanto sonho. Objeto ou sujeito deixam de ser conceitos válidos para se tornarem um conjunto de letrinhas em ordem, uma depois da outra, vazias daquilo que chamamos de significado. 

Se isto que chamo de realidade é o sonho de um outro, e o que chamo de sonho é a realidade daquele que me sonha, seria para este desconhecido o seu sonho (a minha realidade) tão absurdo quanto o meu sonho (a realidade dele) é para mim? Da mesma forma como relembro com sensação de absurdo o sonho onde a avenida Paulista terminava em um enorme deserto onde eu e meu amigo perseguíamos uma caravana de camelos, esse que me sonha em algum lugar deve contar para seus amigos mais ou menos assim a minha vida aqui:

"Nossa, hoje eu sonhei de novo aquele sonho que havia falado para vocês ontem, quando estávamos voltando da Bolha de Éter pela estrada de açúcar mascavo em cima dos flamingos verdes que tinham patas de mastim russo [nota do editor: aqui considere o leitor como um exemplo apenas de uma realidade possível para aqueles que nos sonham, e que são descritas com tanta naturalidade quanto nós falamos uns aos outros sobre engarrafamentos, contas a pagar, etc]. Eu morava em uma casa onde todos os cômodos ficavam sempre nos mesmos lugares: todos os dias eu acordava e o banheiro ficava no banheiro, a cozinha na cozinha, etc. Nem a privada mudava de lugar, ou de cor. Os objetos eram sempre os mesmos, e sempre nos mesmos lugares. É até difícil descrever isso, mas as roupas que ficavam no guarda-roupa também eram as mesmas, mesmo que você abrisse e fechasse as portas inúmeras vezes; e depois que você as usava, elas tinham que passar por um processo chamado "lavar", que consistia em pegar água e um negócio que quando misturado com ela fazia espuma; você colocava as roupas usadas dentro de uma caixa grande e dura, com uma tampa, e lá dentro se enchia de água e do negócio que fazia espuma. Depois de um tempo, tirava a roupa de lá e deixava pendurada, em geral num lugar aberto onde o Sol podia iluminar. Ah, o Sol todo dia também aparecia do mesmo lado, e na mesma hora, e eles tinham no céu apenas uma Lua, que também sempre aparecia mais ou menos no mesmo horário todos os dias. E todos os dias também eu ia sempre pro mesmo lugar, no mesmo horário, fazer a  mesma coisa, e isso se chamava "trabalhar": não deu tempo de entender muito bem o que era exatamente isso, mas pelo que pude entender era tipo uma troca, onde você dava um pouco de sua vida e recebia por isso uns papéis. Não só eu, mas todos faziam isso. Não parecia ser uma troca muito justa. Você via as pessoas ficando muito fracas nessa troca, perdendo a força, mas elas continuavam fazendo isso porque sem os papéis não tinha como fazer quase nada. Não me recordo muito bem, mas esses papéis serviam para trocar por outras coisas, até mesmo por comida - bizarramente, comer era algo que tinha que fazer todo dia. E ao invés de simplesmente comer o que se queria, comia-se o que se podia trocar pelos papéis que haviam sido trocados pela vida. E como o ato de comer era algo necessário para se ter vida, eles precisavam sempre trabalhar para trocar por papéis e com isso comprar mais comida; assim eles ficavam perpetuamente em um ciclo de trocar vida por papéis e papéis por comida para então ter vida e assim trocar por novos papéis, e sempre perdendo algo nisso tudo. Não fazia nenhum sentido, mas todo mundo fazia igual. Até mesmo transar era estranho, tipo por mais que todos tivessem a possibilidade de transar com quantas pessoas pudessem, eles faziam isso em 99% dos casos em duplas, e quase sempre dentro das casas imutáveis onde moravam, ou em outros lugares, mas sempre meio que escondidos, mas não entendi por que tinham que fazer longe dos olhos dos outros. E fica ainda mais esquisito: era sempre a mesma dupla. Tinha gente que estava há anos transando sempre com a mesma pessoa, alguns você via claramente que era sem nenhuma vontade, mas por algo que eles chamavam de compromisso, que é o que ligava as pessoas em duplas por tanto, tanto tempo. Imagina isso, transar só com pessoas conhecidas e apenas com uma única pessoa, por anos sem fim. Enfim, era tudo muito diferente, tudo muito sempre igual e padronizado; e mesmo assim, com a repetição tendendo ao infinito, tinha uma coisa que fazia com que essa padronização fosse suportada; e embora fosse algo muito, muito raro de acontecer, tinha um poder imenso, e causava um alvoroço tão grande por onde passava que até fazia aquele mundo cinza e pragmático, carregado de repetição, se tornar um lugar tão mágico quanto a nossa realidade;  não era ao ponto de fazer os cômodos das casas mudarem de disposição como na vida real [nota do editor: aqui o leitor tem que lembrar de levar em consideração que a perspectiva é a do indivíduo que do seu mundo nos sonha aqui, mundo esse onde o absurdo é a norma], mas era algo que mudava as pessoas, fazendo-as até ficarem mais bonitas e com vontade de usar coisas que as deixavam mais cheirosas - olha que louco, elas tinham que passar coisas nelas para ficarem cheirando bem! Quando esse algo as acometia, era mais ou menos como um tipo de doença: sentiam calafrios pelo corpo, que inclusive chegava a ficar mais quente, os pensamentos se tornavam aéreos, e um intenso desejo de transar o tempo todo com uma pessoa específica, de ver essa pessoa toda hora, de tocá-la, de sair com ela para comer e de várias outras coisas estranhas que faziam lá naquele sonho; essa reviravolta que direcionava toda a atenção de uma pessoa para outra tinha chances de não ser recíproco, isto é, nem sempre a atenção dedicada vinha de volta, o que causava naquele que direcionava a atenção algo chamado de tristeza. Alguns até passavam a vida toda tristes, decorrentes dessa falta de reciprocidade - esses em geral compensavam trabalhando mais e trocando a vida por mais papeis até que não sobrasse mais vida nenhuma. Mas quando essa atenção ia e voltava, eles experimentavam um negócio chamado felicidade, que os fazia sorrir quase o tempo todo. Alguns sorriam tanto que até choravam de tanto sorrir. E quando a coisa chegava nesse nível, isto é, quando a felicidade era tamanha a ponto de você chorar ou quando ela era tão grande que transbordava como um beijo louco acompanhando uma foda intensamente suada como se não houvesse o amanhã, então aí tínhamos algo que eles chamavam de amor em sua forma mais primeva e maravilhosa, que era o sentimento de ter a pessoa por perto, de admirá-la como uma espécie de divindade e, ao mesmo tempo, de ter vontade de fodê-la e gozar juntos até não poder mais. Isso era algo raríssimo de acontecer, e não consigo pensar em nada parecido no nosso mundo que se assemelhe àquilo."

Penso que seria assim que nos descreveria aquele que nos sonha enquanto estamos aqui, no nosso mundo real. Espantado diante de nossas repetições e trivialidades, sem entender a lógica racional que permeia nossos atos, as limitações da geometria euclidiana e as incontornáveis leis da física, elementos que não existem em seu mundo sempre aberto ao Fantástico. Talvez apenas os destemperados atos dos apaixonados, seus erros e acertos, suas lágrimas e gozos, despertariam neles alguma nível de atenção e, quem sabe, uma pontinha de inveja. É um lugar comum absolutamente banal chegar na conclusão desse texto, onde explorei essa ideia amalucada do sonho como real e do real como sonho, que o amor seria a única coisa digna em nosso cotidiano acinzentado. Há muitas outras coisas dignas no nosso mundo, e que merecem todo nosso apreço e atenção - mas parece que sem a experiência de ter e ser amado, e vivenciar essa experiência da forma mais extrema possível, envolto em explosões de afeto e cuidado e prazer, sem isso seríamos vistos por aqueles que nos sonham como seres desinteressantes, trocando nossas vidas por papéis e morando em casas cujos cômodos imutáveis reproduzem a monotonia que molda nosso Destino.

9.17.2018

Sobre desejo e conexões




O que desejamos com paixão e intensidade, quando acompanhado de ações concretas, tende a realizar-se mais cedo ou mais tarde. O desejo atua como um combustível para o agir: nos impulsiona a ir além, cada vez mais ao extremo, cada vez mais na fronteira de nossos limites.

Quando lancei o primeiro número do Dissolve Coagula desejei que cada página, cada texto, cada imagem fosse um ato devocional às potências infernais. Elas seriam não apenas um amontado de tinta sobre papel dissertando sobre metal negro e magia obscura, mas verdadeiras ESPADAS DE MORTE que incentivariam a rebeldia, o ódio e a negação da Criação. Espadas que rasgariam pensamentos limitadores e cortariam amarras espirituais. Espadas que, cunhadas nas forjas de Lúcifer, promoveriam a matança dos egos e libertariam as Chamas Negras nos soldados da armada de Maiorial. Eu desejei isso com força, e rezei para que esse desejo infectasse cada exemplar do fanzine, espalhando confusão por onde passasse, como um vírus espiritual propagador de influências nefastas. Para os incautos representaria tão somente diversão, textos sorvidos com pouca (ou nenhuma) profundidade. Mas no solo fértil dos que já tinham em si tendências dissolutivas, eu ansiava plantar sementes que frutificariam em negros frutos de Sabedoria Oculta, possibilitando inclusive na criação de elos com indivíduos e egrégoras que buscassem os mesmos objetivos espirituais que eu buscava. Pois meu caminho até então foi feito de modo solitário, e eu era impelido a buscar conexões com outros para aprender, compartilhar e evoluir.

Devido a esses elos, intensifiquei minha participação junto à egrégora da Corrente LTJ49, no Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra. Meu primeiro contato com eles foi através de uma entrevista para o site Rat Hole (essa entrevista aqui http://www.chaosophie.net/?p=1589) e desde o primeiro momento me identifiquei plenamente com a forma como eles pensavam a espiritualidade negra e a Quimbanda. Após alguns contatos por mensagens e a participação em algumas atividades abertas, fui conhecendo mais sobre a Corrente 49 e as pessoas que dela fazem parte. Nessa relação mais próxima com as práticas e alguns membros pude compreender melhor diversos aspectos da Quimbanda, o que me trouxe ainda mais identificação, além de entender também que tudo que se fala de negativo sobre o Templo - que são falsos, aproveitadores, pretensiosos angariadores de black metallers deslumbrados com Dissection, etc - não tem nenhuma base de realidade. Tenho zero interesse em intrigas: assim agi durante toda a minha vida em relação a assuntos mundanos. Quando se trata  de questões espirituais, esse desinteresse toma feições quase militantes. Pois bem: as críticas direcionadas ao TQMBEPN me parecem mais o resultado de uma querela egóica do que qualquer outra coisa. Justamente pela postura antidogmática e plural do sistema da 49, ele pode causar certo desconforto em pessoas e seguimentos mais tradicionalistas, e os ataques que vi à Corrente tem exatamente esse desconforto como base, muitas vezes sem um contato direto com seus membros. 

De longe considero meu contato com a LTJ49 o mais fecundo dos elos que o Dissolve Coagula me proporcionou. Foi ali, junto ao solo sagrado da Corrente, que tive meus primeiros contatos com Exu e Pombagira. Conversar com os espíritos de modo direto, partilhar de suas energias, intensificar-se nessa egrégora proporcionou-me gnoses que eu jamais havia experimentado. São conhecimentos que não se traduzem em palavras, ou dificilmente conseguimos através delas expressar. Saberes que falam, em um idioma selvagem, sobre aquelas feridas íntimas que desejamos esquecer, sobre aqueles medos inconfessos, sobre as limitações que nos envergonham. Pois é assim a experiência com Exu: no limite do trauma, nos empurrando para abismos cada vez mais profundos onde, em uma escuridão absoluta, encontramos a Luz Verdadeira que liberta. Humildemente reconheço que estou como um simples neófito na minha caminhada junto aos espíritos, mas o pouco que eles já me ofertaram funcionaram como pérolas e, em profunda gratidão, sigo buscando uma conexão mais profunda com eles.

Outro elo construído através do fanzine foi com indivíduos sérios ligados à Corrente 218. Apesar de nosso contato inicial ter tido como pano de fundo o metal negro, a amizade que se desenvolveu e o nível da discussão seguiu um direcionamento muito mais voltado para questões espirituais e magísticas do que puramente musical. Falamos muito sobre as entidades negras, que são energias bastante distintas daquelas que encontramos nas giras de Quimbanda, e as quais estudo e medito com reverência e atenção, mas sem (ainda) buscar uma conexão mais direta. Entendo que tudo deve ocorrer em seu devido tempo e o meu, nesse momento, tem como foco primordial a Quimbanda. Há certas proximidades entre as Correntes, mas por demais abstratas, e no específico da ritualística diferem de maneira bastante acentuada. Por esse motivo, e inclusive como forma de não misturar egrégoras de maneira irresponsável, tenho mantido minha prática e estudos direcionados, embora veja de maneira muito positiva a relação com essas pessoas. Uma maneira de encontrar aliados mais experientes do que eu, e que podem servir como referência e aconselhamento para desenvolvimentos futuros.

2.03.2018

Dissolve Coagula fanzine - número 1 disponível



Oficialmente lanço hoje o primeiro número do fanzine Dissolve Coagula. Com 64 páginas, ele é resultado de um trabalho iniciado em outubro de 2017 e consolida um interesse antigo em voltar a produzir fanzines impressos, algo que eu não fazia desde o início dos anos 2000, quando publiquei o último número do Reflexões de um Anticristo.

Um breve resumo sobre essa primeira edição:

VALORES
O fanzine sai por R$ 25,00 + frete. Para adquirir, você deve entrar em contato pela página do Dissolve Coagula no Facebook ou pelo e-mail archeo@riseup.net para que eu te passe os dados de depósito. Trocas e pedidos de distribuidores serão analisados.

A prováveis imbecis que vão falar que estou ganhando dinheiro com o fanzine e sendo um "sanguessuga da cena", já aviso: MORRAM.

ENTREVISTAS
Foram quatro entrevistados: Lucifer Luciferax, publicação voltada para o Caminho da Mão Esquerda editada pelo camarada Pharzhuph, é seguramente uma das publicações mais interessantes sobre o tema aqui no Brasil e com certeza figura entre as principais inspirações para a produção do fanzine; Vulturine, veteranos do black metal que estão prestes a lançar seu novo opus em março pela Drakkar Brasil, uma das bandas com mais personalidade na cena nacional; Círculo Hermético Pvtridvs Vox, grupo de cunho necro-esotérico que congrega algumas hordas nacionais profundamente conectadas com os aspectos espirituais do metal negro, tem desenvolvido atividades bastante interessantes e compromissadas; Vazio, horda paulistana com pouco mais de um ano de existência cujos integrantes, com raízes na cena punk, criaram um som que se conecta espiritualmente com a Corrente 218, fato que me chamou a atenção e motivou a entrevista. 

RESENHAS DE LIVROS
Leituras são sempre importantes para todos aqueles interessados pelos caminhos opositores da Mão Esquerda. São quatro as obras resenhadas: Cabala, Qliphoth e Magia Goética, de Thomas Karlsson; O Renascer da Magia, de Kenneth Grant; Thursakyngi, de Ekortu; A Arte dos Indomados, de Nicholaj de Mattos Frisvold; O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos, da editora Draco. Todas as resenhas são muito particulares, não tendo nenhum objetivo de servir como guia de leituras ou uma visão definitiva e "correta" sobre tais obras. 

RESENHAS DE DISCOS
Música é algo que não passo sem ouvir um dia sequer. Meu gosto musical não se prende a apenas um estilo, mas para o fanzine eu procurei manter o material resenhado restrito a alguns estilos: black metal, power electronics, noise e dark ambient. Para o primeiro número as resenhas ficaram em sua esmagadora maioria em discos black metal, todavia isso irá mudar para os próximos números, onde os outros estilos citados terão incisivamente mais espaço. Por uma razão: são estilos onde vejo borbulhar o desejo de ir além da simples música (ou anti-música, no caso do noise), algo que aprecio fanaticamente. Também contarei com mais algumas pessoas escrevendo resenhas para os números futuros.

MATÉRIA SOBRE A ORDEM DOS NOVE ÂNGULOS (ONA)
Essa foi uma das primeiras ordens que conheci, na época onde os fóruns de discussão do Yahoo! bombavam e a Internet vivia sua infância, aquele tempo quase mítico onde nem o Orkut ainda existia. O extremismo físico de seus ordálios, sua aposta na clandestinidade e em um panteão formado por entidades longínquas e inomináveis conquistaram minha atenção, e eu li tudo o que pude a respeito da ONA ao longo dos anos. Essa matéria é uma espécie de acerto de contas com esse interesse, onde faço uma espécie de linha do tempo da Ordem dos Nove Ângulos, descrevo os tópicos de suas principais obras e a estrutura de seu sistema iniciático. As controvérsias envolvendo as ligações da Ordem com o neonazismo também são tratadas nesse texto, inclusive não se limitando a uma simples exposição de "fatos", mas sim buscando uma visão crítica a respeito do tema. 

NOISE E AFINS
Thiago Miazzo é um amigo que se dedica a produzir noise/harsh e outras (anti)musicalidades, e eu o convidei a escrever uma coluna sobre o tema, buscando abordar obras que tenham mais ou menos relação com temas mágicos/esotéricos. Nessa primeira coluna, que dá o tom de suas participações futuras, escreve um apanhado geral de diversas iniciativas, a maioria nacionais. Já tenho falado com o rapaz sobre como poderemos ampliar a discussão para os números vindouros, de modo mais amplo e radical.

FICÇÃO
São três textos. Um deles, "Nos braços de Nuit", compareceu primeiramente no fanzine "A Primeira Vez", do amigo Márcio Sno, produção que compilou textos onde homens falavam (de modo literal ou inventado) sobre suas primeiras experiências sexuais. Eu gostei muito de escrever esse texto, e pedi ao Sno permissão para inclui-lo no Dissolve, pois via nele certas conexões com o tema geral do fanzine. Adianto a eventuais curiosos que jamais confirmarei se a narrativa corresponde de fato a experiências vividas ou inventadas (e no final das contas isso realmente importa?). Outro é uma carta que escrevi a uma pessoa que gostaria, muito, de ter em meu círculo de amigos, mas que por motivos de força maior jamais terei essa possibilidade. O outro é parte de um projeto mais amplo, que será lentamente desenvolvido nas páginas do Dissolve, projeto que apenas os que tiverem olhos para ver nas entrelinhas entenderão a motivação.

CAPA E CONTRACAPA
Um dos pontos que coloquei como princípio para o Dissolve Coagula foi sempre ter artistas diferentes desenhando a arte das capas e contracapas. Mas não quero apenas contar com o talento artístico: para mim é importante que a pessoa tenha conexões verdadeiras com a espiritualidade canhota e um real interesse pela Força Opositora da Escuridão. Acredito que isso fortalecerá a egregóra que criei em torno dessa publicação. É por isso que pedi para a Paula Rueda fazer a capa dessa primeira edição. Já conhecia o trabalho dela como ilustradora e tatuadora, e eu não podia ter feito melhor escolha para essa edição inaugural do fanzine. Paula captou com perfeição o clima que eu queria dar e fez dois desenhos espetaculares, carregados de simbolismo e densidade. Sua participação também é um marco para dar a esse fanzine ainda muito masculino uma participação feminina de peso, algo que pretendo equilibrar na próxima edição com a participação de mais mulheres em suas páginas. Embora o Sinistro despreze as distinções entre os sexos como meros traços mundanos, vejo que há características energéticas e astrais típicas de cada um, e que pretendo congregar mais e mais nas páginas do Dissolve. 


ÚLTIMAS (E NECESSÁRIAS) PALAVRAS
Todo o processo de montagem foi feito 100% na base de tesoura, régua e cola. Apenas o arquivo final foi fechado em Photoshop, e sem a ajuda do Douglas Utescher da Ugra Press, comparsa em tantas presepadas ao longo dos anos, eu estaria provavelmente a esta hora ainda tentando finalizar o arquivo para enviar à gráfica. Fiquei extremamente satisfeito com o resultado final, pois conseguiu alcançar o nível que eu tinha em mente. Para os próximos números, teremos algumas alterações no esquema da diagramação, mas o compromisso de ser 100% manual está mais do que mantido. É honesto com meus interesses e gostos, além de impregnar cada centímetro da obra com uma "irreprodutibilidade técnica" que gosto muito, uma espécie de aversão em nível simbólico da produção serializada de bugigangas do capitalismo. Ao mesmo tempo, não vejo e não quero fazer desse caráter artesanal algo que tenha estatuto artístico. Foda-se isso! Nada do que é feito no Dissolve Coagula tem intenção de ser meramente arte ou entretenimento. Ele é e sempre será, sem nenhuma modéstia, a cristalização do meu desejo de criar verdadeiras Espadas de Morte, de cujas páginas que escorrerão sangue; páginas que conduzirão mentes pelos territórios inóspitos do questionamento, da dúvida e da incerteza, essas bênçãos da Escuridão; páginas de onde emanações adversárias, transformadas em textos, agirão como venenos nas consciências escravizadas pela Falsa Luz Demiúrgica e instigarão nos portadores da Chama Negra ímpetos de rebelião e ódio.