3.23.2022

Coragem é um tipo de salvação

 

Talvez o YouTube retire isso em algum momento. Nada do que está online tem garantias de estar aqui para sempre, nem isso que aqui escrevo. Não há nenhuma garantia da permanência de nada em lugar algum, mas se há ainda que lê aqui, esse disco surge já como uma dos grandes nomes de 2022. 

Projeto solo do Sakis do Rotting Christ. A ambiência grega elevada com paixão. O peso de mil fúrias com a melodia que os filhos de Aquiles conseguiram criar como uma marca inconfundível do black metal feito naquele lugar mágico que é a Hélade. 

O disco inicia com uma frase marcante: "coragem é um tipo de salvação". Eu acho que Sakis está certo. 

3.13.2022

Que você viva tempos interessantes

Ao som de"Your Love Can't Hold This Wreath Of Sorrow", álbum de 2021 Of The Wand and Moon (seguramente um dos melhores discos do Segundo Ano da Peste)

Há um provérbio chinês assim: "Que você viva em tempos interessantes". Sempre achei curioso esse provérbio. Ele é enigmático de um modo bastante estranho. O que significaria um tempo interessante, afinal? Esse provérbio é algo que desejamos favoravelmente, ou tem um certo tom de maldição? A magia do texto é essa: damos ao que lemos a entonação que quisermos. Ou que pudermos. Cada um faz a interpretação que é capaz de fazer.

Os tempos que vivemos são interessantes no sentido de serem extremos. Eles exigem de nós um esforço heróico. Eles maltratam. Chacoalham nossas certezas e atiçam os medos. Como se todo dia fosse uma nova provação. Um outro ordálio. O iniciar sempre renovado do rolar a pedra rumo ao pico de um nova montanha, que parece ser sempre maior do que a anterior. 

A miséria inclemente desses nossos tempos interessantes faz com que qualquer andança, em qualquer centro urbano brasileiro, literalmente tropecemos em corpos famintos pelas calçadas. Sempre houve uma miséria absurda nesse país, fruto de abismos sociais que remontam às capitanias hereditárias. Mas pelo menos até onde minha memória de quatro décadas remonta, nunca chegamos a tanta visibilidade da miséria como agora. Ela se escancara como nunca. Voltando a ser um morador do ABC desde ano passado, comecei a passar novamente por lugares que sempre percorria, e em diversos deles amontoados de pobreza e degradação. Como uma espécie de mofo que se espalha lentamente, a miséria despontando no horizonte meio provinciano do ABC: um mendigo que começa a dormir abaixo de uma marquise, logo depois outro, e mais um, até que então o que era a fachada de um prédio se transforma numa espécie de casa para despossuídos sem futuro seguirem com suas existências invisíveis. Comerciantes detestam mendigos. Atrapalham os negócios. As mãos dos botas pretas se enchem de coxinhas ou outros agrados mais caros para "serviços especiais" serem feitos. Tudo em nome da lei e da ordem. Ainda melhor se banhadas em sangue. Ou talvez apenas um apavoro a base de bordoadas na calada da madrugada e pronto: o clima favorável novamente para os negócios se faz presente. Isso não elimina a miséria, apenas a tira de um lugar para que ela brote em outro. E junto com ela aquele conjunto básico de cobertores fedidos, papelões, certa algazarra e bebedeiras ocasionais. Muitos palermas criticam os mendigos beberrões. Deveriam comprar comida, diz o Enzo do Recursos Humanos que trabalha na Faria Lima. Na cabeça desse tipo de imbecil viver na rua é uma opção. Na verdade, acho que os mendigos bebem é pouco. Eu no lugar deles faria de tudo para esquecer a vida, louco de tudo que pudesse beber ou cheirar.  

Com certeza que os tempos que chamo de interessantes para os mendigos não são nem de longe isso. Alguns devem se lembrar, caso ainda tenham sanidade, de tempos antigos onde tudo era interessante. Conheci mendigos que eram assalariados como eu. Alguns tiveram empresas. Hoje deixam-se consumir a cada tragada num cachimbo de crack. Eu tomaria um soco bem dado na fuça se falasse para esses caras que eles vivem em tempos interessantes.

Que estão sendo testados.

Que devem resistir etc.

Há aqueles que gostam de ajudar os mendigos. Quando eles chegam pedindo algo, ouvem suas histórias mirabolantes, alguns são péssimos mentirosos e sabemos que tudo que estão falando é para, ao final, pedir dinheiro. O Enzo da Faria Lima é um desses que ouve tais histórias com um mix de medo e nojo. Se o mendigo é insolente ele se caga todo. Eu gosto muito mais dos mendigos sujeira mesmo, aqueles que são debochados, que chegam apavorando, do que os mendigos calados e humildes. Dá mais gosto você falar com quem lida com o inimigo com sangue no olho. O mendigo insolente está em guerra contra o nosso mundo interessante, caro leitor, e ele vê eu e você como um alvo a ser extorquido, como alguém que lhe deve pois, afinal, que desgraça é essa de vocês terem tudo e eu aqui não ter nada.

Estava falando dos Enzos que gostam de ajudar os mendigos. Não é exatamente gostar, mas eles sempre ouvem as histórias de pesar que lhes são ditas pelos miseráveis, e deixam ao final uma ajudinha. Fazem isso mais por peso na consciência do que qualquer outra coisa. No fundo sentem culpa. Dar um dinheiro é uma forma de comprar um conforto. A satisfação de poder falar que ajudou. Que fez sua parte. 

Vômito. 

Eu só penso em vomitar.

Os tempos interessantes atuais também agora nos presenteiam com a ameaça da extinção atômica. Quem foi criança nos anos 80 deve ter tido aquele tipo particular de medo que é o medo de um  holocausto nuclear. Pelo menos em algum momento teve. Me recordo do Fantástico mostrando os avanços do programa Guerra nas Estrelas, que era basicamente os Estados Unidos fazendo propaganda de como poderiam abater mísseis soviéticos em pleno ar. Devia ser tudo mentira para tranquilizar o eleitorado republicano e democrata, ambos com o cu na mão de virar poeira radioativa. Existiam muitos filmes que falavam sobre o assunto guerra atômica. Em um deles tocava uma sirene antimísseis minutos antes do ataque começar. Me recordo de um dia estar brincando e ouvir uma sirene tocar. Era bem no meio da tarde. Fazia um mês que eu tinha assistido a esse filme. Eu fiquei apavorado. Mas nada aconteceu. Nenhum ataque de mísseis. Até parece que o Brasil ia ter sirenes de alerta antimísseis. Logo o Brasil. A infância é a época onde você é a pessoa mais esperançosa que você jamais será de novo. A esperança infantil chega a ser tola. Nós adultos vemos as crianças sendo esperançosas e temos a missão moral de não esfregar na cara deles a realidade. Temos que alimentar sonhos pois dos sonhos é feita a matéria da vida. É eles que nos moldaram quando éramos apenas inconscientes dos tempos interessantes que nos rodeavam. Quando tomamos consciência do que nos cerca de fato, a inocência já se foi. O tempo interessante que nos resta é o que é escancarado no noticiário, na vida cinza que sempre tenta deixar tudo como está. Você seria um cuzão digno de tomar uma porrada na cara se fosse o tempo todo franco com uma criança. A mentira é uma proteção para elas. A fantasia também. Elas ajudam a construir bases para que elas possam ser sozinhas o que devem ser. Mas sempre fica aquele pensamento de se não é dever nosso também prepará-los para os tempos interessantes que elas viverão. Os tempos pós-fim-da-inocência. Tempos onde terão que arrastar suas próprias pedras para os picos de suas próprias montanhas. Não deveríamos prepará-las afinal para serem um pouquinhos mais cascas-grossas num mundo que, veja bem, está agora em 2022 com risco de uma hecatombe nuclear? 

Fé. Sempre a fé no amanhã. Por mais que não se queira, algo em nós sempre está ali nos puxando para o dia seguinte. Mesmo que Putin aperte o botão e nuvens de destruição radioativa comecem a vir da Europa para cá, não há como pensar que simplesmente todo mundo sentará esperando morrer. Haverá o caos. Mas também haverá a nossa sempre necessária dose de comodismo. Somos uma espécie cômoda. Quem tem fogo dentro de si acaba por ter sempre incêndios a provocar. Está sempre em busca de, frente a tempos chatos, torná-los interessantes mesmo que às custas da destruição de tudo ao seu redor. 

Da destruição dos que estão ao seu redor.

Da destruição de si mesmo. 

Essa que será sempre a mais bela de todas as formas de destruição. 

A mais egoísta e a única que pode, após tanto sangue derramado, transformar o que nos restou em algo novo.

Nossos tempos interessantes puxaram muitos para a destruição de si mesmo. Eu mesmo esfacelei-me não sei quantas vezes, debati comigo mesmo um gazilhão de outras tantas. Morte após morte após morte, até descobrirmos aquilo que realmente somos. Qual a nossa real missão nesses tempos interessantes nos quais nascemos. O Destino que colocaram diante de nós e que nos obrigaram a viver - mas que podemos sabotar, de várias maneiras, e não me parece existir nenhuma passaporte para a dignidade real que não passe por ser um sabotador radical dos planos que fizeram para nós. 

Uma quebra radical de coisas endurecidas e cristalizadas. Amarras poderosas que nos atam a tantas formas de pensar e agir que jamais serão nossas, sempre serão dos outros. Eu sempre tive um incômodo horrível de viver segundo os ditames dos outros. Era como uma traição. Era como me vender para uma felicidade que não me dizia respeito. Eu também jamais permitia que, quem quiser que estivesse ao meu lado, se sacrificasse por mim. Que mudasse por mim. Eu nunca gostei de esperar algo das pessoas. Toda espera é uma decepção. Que cada um forneça a nós de forma livre e espontânea o que tem a oferecer. A beleza da vida reside nisso: no desprendimento. Isso é uma verdade amarga que nossa espécie, cômoda por natureza, tem dificuldade de engolir. Comodismo tem a ver com rotina, planos e objetivos. Isso tudo nos conduz a um ritmo seguro de viver. Tempos interessantes nada tem a ver com comodismo e é por isso que os momentos de real atribulação, onde tudo chacoalha e as coisas caem no chão - inclusive nós mesmos - é que são os momentos onde a vida pulsa em toda a sua beleza caótica.

Talvez o mais sensato fosse ser cômodo. A maioria vive assim e não há razão para duvidar da real satisfação que eles tem com isso. Mas alguém seria tolo de achar que poderia ensinar ao fogo para parar de queimar? Para que a água não molhasse?

Aos condenados e condenadas que vivem sempre em busca do mais interessante dos tempos: eu os saúdo com meu cálice levantado. Que a vossa coragem de sempre ir adiante inspire a outros tantos que precisam. Que extingamos desse mundo a raça dos Enzos da Faria Lima que querem a tudo tornar mecânico, previsível e tedioso. Que tenhamos conosco a força de heróis como Sísifo, milenarmente empurrando sua rocha montanha acima; de Lúcifer, cuja força bestial ilumina esse mundo que todos acreditam pertencer a outro e não a Ele; de Raskolnikóv, que levantou a arma contra uma ideia e pode ver além da moral do homem comum. Tempos interessantes que se façam agora, mesmo que às custas do fim de tudo que pensamos ser.

4.18.2021

Botinhas (ou sobre quando um cavalo foi nomeado senador em Roma)



Pela janela o Monte Palatino brilhando sob o luar que em breve dará lugar ao Sol. A essa hora, quando Vésper começa a aparecer no céu, as festas na Suburra estão ainda em agitação desenfreada onde eu, muitas vezes, mergulhava para gozar de prazeres extremos sem ser notado como sou – um verdadeiro deus. Hão de me cantar em poemas no futuro, tal como a Odisseu o fizeram. O imperador divino que fazia orgia com a gente simples e com os patrícios, indiferentemente. O imperador que colocou um fim ao reinado dos deuses. Júpiter, Ceres, Febo, Latona, Vênus: todos eles já há séculos não prestam mais atenção nesse mundo. Tem coisas mais importantes para fazer. É hora de dar um basta nisso. Dar um fim a toda a imundície que impregna Roma. Que está em cada tijolo dessa cidade. Em cada cidadão respeitável que acumula crimes silenciosos. Em suas gentes vulgares que amam o circo mais que o pão. Animais todos eles. E sempre assim eles serão.

Eu vivi todos os dias da minha vida sendo eu mesmo. Senadores castrados de seus desejos quiseram fazer com que eu descesse de minhas sandálias, essas mesmas sandálias que me deram um nome, para lamber suas bolas envelhecidas e corromper-me pelo bem da Coisa Pública. Acontece que eu nunca entendi que bem é esse, nunca me senti parte de público nenhum - público sempre me remeteu a algum tipo de multidão, e eu odeio a todas elas. Solitário desde a infância, o pequeno Augustus Germanicus brincava sozinho com as sombras de si mesmo. Mesmo agora, pontifex maximus da Roma Aeterna, rodeado de tantos escravos que nunca acho que vi a todos, sempre prontos para me servir como eu bem entender em todos os sentidos, mesmo agora sinto-me só. É como sempre me senti.

Foi na selvática Germânia onde meu nome mudou. Naquelas florestas frias e sombrias esmagamos cem nações selvagens com o peso das Legiões. É incrível o ímpeto guerreiro dos bárbaros: são como cães raivosos, não se rendem nunca, e mesmo acuados pelo medo são terrivelmente perigosos. Seu valor está em nunca se entregar, mesmo contra todas as evidências da derrota. Um deles, que eu julgava morto no campo de batalha, me puxou a perna enquanto eu passava; no puxão eu caí, e uma das sandálias se desprendeu de meu pé, fazendo com que o bárbaro a mordesse quase rosnando de ódio. Mais morto que vivo, foi fácil me desvencilhar dele.

Os companheiros de batalha riram da situação - o filho do imperador caindo diante de um bárbaro semimorto. Aquilo me envenenou com ódio.

- Gostou de minha sandália, bárbaro?

Os risos da soldadesca rasa continuavam, mais tímidos, agora que eu me punha de pé.

- Vamos fazer isso do jeito certo.

Retirei minha outra sandália enquanto pisava na enorme ferida no ombro esquerdo do bárbaro. A dor o fazia gritar. As tentativas débeis de me golpear com a mão direita acabaram quando, com um golpe de meu gládio, cortei metade de seu braço.

- Você não precisa mais dele, não é mesmo?

Nenhum riso mais era ouvido. Apenas olhares curiosos me acompanhavam enquanto eu segurava as duas sandálias juntas. Meu tio, o imperador Tibério, a quem eu respeitava como um pai, de longe via a cena montado em seu cavalo.

- Está gostando das sandálias, bárbaro?

Comecei a enfiá-las na sua boca, segurando sua cabeça entre meus joelhos. Pressionei as sandálias com força, empurrando-as para baixo com o peso de meu corpo. Com o gládio, um leve corte na boca abriu mais espaço para enfiá-las ainda mais fundo. Ouvi seus maxilares darem um estalo. Nunca imaginei que seria um som tão alto, reverberando nas florestas frias e sombrias seguidos por gemidos. Lágrimas.

Olhos do bárbaro pedindo socorro.

Olhos dos soldados pedindo que eu parasse.

- Mais um pouco, não é mesmo?

A garganta dele já estufada, como um sapo coaxando. Acho que convulsionava. Os soldados tentavam não olhar. Mas não conseguiam. Eu ria para eles.

- Sandálias gostosas, não acha, bárbaro?

O gládio rasgou a garganta suavemente. O sangue como uma cachoeira rubra. As sandálias saindo através da carne exposta. Puxei-as com violência enquanto o corpo sem vida dava seus últimos espasmos. Vesti-as calmamente antes de seguir o caminho rumo ao nosso acampamento. Foi assim que conquistei meu apelido, que acabou por se transformar no meu próprio nome. Calígula. Os soldados que antes riram: mirei os olhos de cada um enquanto me arrumava. Estavam profundamente sérios. Quase envergonhados, eu diria. Metros a frente passei por meu tio Tibério, que nada disse. Apenas me lançou um olhar satisfeito, como que dizendo o que todo imperador deveria saber: para o vulgo, o imperador sempre deve ser extraordinário.

Desse dia em diante foi como se algo em mim tivesse mudado. Eu havia descoberto o poder da realização da nossa vontade mais íntima. Aqueles pensamentos que nem mesmo os deuses ousavam ter quando ainda viviam nesse mundo. Há tempos que não vemos milagres no mundo, mas apenas o crime. É o resultado de um mundo sem deuses. Continuaram ofertando sacrifícios a eles. Tolos. Mas mesmos sozinhos no mundo, os homens não fizeram nada de melhor. Eles são covardes. Os deuses nunca foram covardes. Júpiter arriscava tudo em nome de seu amor insaciável, até mesmo a amizade para com seus irmãos. Diana também: uma deusa da caça, sozinha e tão bela nas matas infinitas, quase estuprada pelo bruto Acteão, transformando-o em um cervo como forma de castigo. O medo de ser estuprada parou a Diana? Jamais: ela continuou pelos campos, indômita e selvagem, até que os deuses enfim deixaram este mundo para ir rumo a outros. Sim, outros mundos. Que pequenez é essa de achar que para os deuses só existiria esse?

Quando decidi me tornar um deus criei para mim um mundo onde apenas os prazeres poderiam existir. E para isso eu me vali do extraordinário, como meu tio Tibério, abençoado seja, me sinalizou como o caminho para o Império Perfeito. Orgias onde escravos se adornavam com peles de hienas e vinham rastejando e uivando até meu leito, para serem sodomizados tanto por mim como pelas concubinas. Piscinas de vinho onde nos banhávamos até vomitar de embriaguez, misturando o odor azedo do vinho com outros de natureza sexual. Eunucos que divertiam as minhas garotas sicilianas, sempre as mais interessantes (o Mediterrâneo tem algo em sua água que tempera os corpos com um sabor especial). Egípcios de pele negra como o ébano que me faziam tremer em gozos que nem a mais experiente princesa patrícia conseguiu fazer. Provei de todos os tipos de corpos de todas as nações conhecidas; senti até mesmo aqueles prazeres raros que cães, cavalos e serpentes podem conduzir um homem corajoso, levando-o ao limite do que os normais consideravam como depravado. Pois eu não me sentia mais um homem, mas igualmente não me sentia ainda como um deus, embora buscasse incessantemente ser como um deles e realizar, em vida, coisas que apenas deuses sabem fazer.

Sei que tramam a minha morte, esses senadores que não aceitam meu reinado. Tomaram com assombro quando Incitatus entrou no Senado conduzido pelos meus pretorianos. Por que um cavalo não poderia ser senador? Ainda mais o cavalo de um deus, que o acompanhou não apenas em batalhas na dura Germânia mas também em festins de libido e excesso? Incitatus tem mais vigor que muitos desses velhos senadores caducos, bem como entende mais de política do que metade daquele covil de víboras. Senadores que nunca pisaram fora dos arredores de Roma, que não sabem nem o quanto pesa um gládio... Não é a guerra uma forma de política também? Incitatus guerreou por todas aquelas velhas víboras de toga. Ele merece mais do que isso. Cônsul, talvez?

Embora insatisfeitos com Incitatus, o que mais causou raiva nos senadores foi eu ter decretado que suas esposas seriam prostitutas. Parecia-me lógico que eles, como homens, serviam Roma discursando. Suas esposas também não deveriam fazer o mesmo? Elas também servem a Roma através do sacro ofício da prostituição. Deveriam me render glórias, esses senadores. Um deus transformando suas mulheres em instrumentos do Amor. Um deus transformando Roma em um império ainda maior, mais nobre, mais próximo do eterno. E eu quero mais. Levarei o estandarte da Águia até onde nem Caio Júlio César ousou sonhar. Ele vai ter inveja de mim, ele que hoje é apenas uma sombra do que foi. Caio morreu como um homem. Eu, recrio-me como um deus. Não é meu título, afinal, o de pontifex maximus? Estou fazendo pontes entre mundos agora. Estou abrindo um caminho rumo ao Inimaginável. 

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nota: "caligae" era o nome das tradicionais botas romanas usadas pelos soldados. "Caligulae" é o diminutivo de "caligae", ou seja, "botinhas". O apelido foi dado ao jovem Calígula quando seu tio Tibério, então imperador, levou aos campos de batalha o franzino sobrinho, que usava roupas pequenas. O apelido desagradava muito a Calígula e o acompanhou por toda a vida. O episódio de Incitatus narrado no conto de fato aconteceu bem como a determinação de prostituição das esposas dos senadores. 

3.01.2021

O que o Precâmbrico pode nos ensinar


O Precâmbrico é o período geológico que compreende desde a formação da Terra, há cerca de 4,6 bilhões de anos, até o início do Período Cambriano, 541 milhões de anos atrás. O Precâmbrico representa 88% de todo o tempo de existência do planeta. Como a parte inicial desse texto basicamente fala sobre o tempo, uma referência temporal mais adequada para nossa compreensão: os Neandertais, antepassados mais longínquos do ser humano de hoje, surgiram há 200.000 anos atrás - cerca de 0,0043% da idade da Terra. O contraste dá uma dimensão, mesmo que rasa, da enormidade do que estamos falando.

Os bilhões de anos do Precâmbrico são tão incompreensíveis para nossa limitada capacidade cerebral que a ciência usa o termo aeon para designar os vastos períodos de tempo geológico que o compõe. Aeons são durações de tempo de milhares de milhões de anos. Intensa atividade marca esse período formativo do planeta, no limite do cataclismo, onde os antepassados mais longínquos dos vulcões atuais ainda nem sonhavam existir. Aliás, pense que tudo que hoje temos de grandes rochas, montanhas, mares e oceanos, e que chegamos a considerar como coisas que sempre aqui estiveram, ainda nem haviam se formado: era um amálgama louco de gases, material rochoso, metais e outros elementos desconhecidos, em uma suruba frenética infinita por períodos, para nossa minúscula consciência geológica, que podemos considerar eternos. 

É também no Precâmbrico que a Lua se forma: estudos mostram que uma massa planetária do tamanho de Marte colidiu com aquela Terra antiquíssima, e nesse encontro uma imensa quantidade de matéria foi expelida no impacto - tentemos imaginar a magnitude desse evento com nossa diminuta, ridícula consciência. A beleza lunar ali teve início, num fortuito encontro entre duas massas amorfas de gases e tantos outros parentes primitivos dos elementos da tabela periódica.

Para o leitor refletir comigo: quantos elementos foram extintos no Precâmbrico? Quantos ali nasceram e ali mesmo morreram, naquelas condições formativas extremas, vivendo uma eternidade de, sei lá, 100 milhões de anos? Pois olha como são as coisas: 100 milhões de anos, esse período em que uma vida humana média de 70 anos seria repetida mais de 1,4 milhões de vezes, mesmo essa eternidade sem fim representa apenas 2,5% do total do Precâmbrico. Os primos distantíssimos do mercúrio, do magnésio e do zinco de repente duraram até menos do que isso, e de seus destroços fagulhinhas foram dispersas e, cataclisma após cataclisma, se transformaram nos contemporâneos elementos Hg, Mg e Zn.

As primeiras formas de vida surgem no segundo aeon do Precâmbrico, chamado de Arqueano, que durou do ano 4.000.000.000 até 2.500.000.000. Por vida, o leitor entenda organismos unicelulares extremamente simples, chamados de procariontes. Cientistas encontram resquícios fossilizados desses seres que quase antecedem o Ser. Mas é tudo tão frágil, e tudo tão remetido a hipóteses com comprovação bastante fragmentária, que podemos ser turrões e perguntar, da mesma forma que fizemos sobre os elementos, quantas outras formas de vida - primos desses procariontes - simplesmente nunca saberemos da existência. Pensemos nas glaciações pela qual o planeta passou nesse período (sim, foram diversas) e outros tantos períodos com intensas temperaturas que consumiriam as sociedades atuais em questão de horas: é improvável pensar que alguns seres tiveram seus traços para sempre apagados, impossibilitando que fossem descobertos pelos cientistas? A que nível de soberba chegamos para que nós - cuja participação nesse planeta, lembremos sempre, corresponde a cerca de 0,0043% de sua existência - afirmemos que procariontes foram as únicas formas de vida do Arqueano? Eu jamais sustentarei sofismas tipo "devemos sempre desconfiar da ciência" - quem em geral faz isso é gente burra que de ciência nunca estudou nada. Aqui estou apenas exercitando a imaginação com probabilidades feitas de pura licenciosidade poética. Rigor científico que se cobre de cientistas, não de diletantes blasé como eu. 

o nascimento da Lua

O Precâmbrico é apaixonante por todo o mistério que provoca. Ele existe fora da História. A ciência dura que se faz sobre ele tem uma forma completamente hermética: nós, mortais comuns fora dos círculos científicos da Geologia, lemos os textos dos especialistas com prazer e assombro. Assombro pela nossa pequenez infinita diante da grandiosidade aeônica precambriana, impossível de ser apreendida pelo nosso cérebro humano, demasiado humano - apenas os deuses conseguirão entender esse tipo de dimensão temporal. Ler sobre o Precâmbrico me despertou a mesma avidez de quando percorri pela primeira vez trechos dos Vedas e Upanishads descrevendo as Yugas. São textos muitas vezes recheados de comentários de estudiosos ocidentais, que buscam socorrer o leitor para entender os conceitos complicadíssimos grafados em sânscrito e acomodar as datas ali presentes ao nosso calendário: ali descobri que estamos em Kali-yuga, a última das eras, onde todas as degenerações, crimes e pecados se multiplicam; e que a primeira das eras, chamada Satya-yuga, onde imperava a perfeição e os homens viviam imortais junto aos deuses, tinha acabado há milhões e milhões de anos. O retorno a ela, na cosmovisão cíclica hindu, ainda levaria centenas de milhares de anos. Aquilo alargou meu horizonte de expectativas para sempre, mostrando com certa beleza poética como somos diminutos na escala do tempo. A geologia cumpriu esse mesmo papel, mas em proporções diferentes e menos melancólicas do que imaginar a história como decadência.

Me explico.

Da perspectiva da Era Cenozóica, que é onde estamos agora e que começou há meros 65 milhões de anos (cerca de 1,4% da história geológica da Terra: calcule o leitor o quanto corresponde a presença humana de 200.000 anos nesse período que, infinito na nossa perspectiva, é um nada em termos geológicos) observar o vasto e solene Precâmbrico me parece um bom exercício não apenas para relativizar nossas dores mas, também, para mostrar que a nossa essência mais primitiva tem uma profunda dimensão de resistência. Nem mesmo uma grave pandemia como a atual, que ceifa vidas aos milhões, parece fazer sentido diante da imensidão precambriana. Ela anula, impiedosamente, qualquer pedido de socorro, qualquer explicação para as lágrimas, qualquer necessidade de consolo. O Precâmbrico olha para nós, bilhões de anos atrás, e diz friamente perante nossas queixas:

- E daí?

Sua fria indiferença não é fruto da crueldade. A crueldade criamos nós mesmos, categorizando em coordenadas humanas o que disso não tem nada - de todos os períodos geológicos, o Precâmbrico é o mais inumano. Ele então pode nos olhar de fora, para entendermos melhor o que acontece aqui dentro de nossos tortuosos mentais e nos calabouços de nossos corações. Sua inumanidade abrasiva, no final das contas, tem um efeito inesperado: torna evidente aquilo que carregamos de mais intensamente humano dentro de nosso ser, isto é, nossas falhas e limitações. Cristalinas elas se nos apresentam quando conseguimos sair um pouco de nós mesmos, e embora essa visão não nos agrade, parece que a única forma de evoluir na vida é ter essa consciência, se quisermos algo mais do que uma vida média qualquer. 

O Precâmbrico, porém, não pode - ou melhor, não deveria - ser usado como um pretexto para automutilação. Muitas vezes, a crítica de si mesmo nos leva a isso. Devo assumir aqui, leitor: sou o meu mais implacável crítico. E por anos, exerci essa autocrítica feroz nesses pesados moldes precambrianos. E ao invés de ajudar a criar uma forma de viver melhor, o resultado foi exatamente o inverso: o fim do processo estava em um tipo de degeneração da crítica, onde o alvo não era a falha mas eu mesmo. Ferir a si, não lapidar-se. Conduziu-me a processos de anulação interna e consequente deterioração de relações com os outros em uma escala bastante problemática. Hoje consigo ver bem mais nitidamente as brechas existentes, e de que modo aplicado eu criei cataclismos que nem precisavam existir, afastando pessoas e minando possibilidades incríveis. 

Falei sobre como o Precâmbrico pode nos ensinar a relativizar nossas dores e falhas, vendo-as sob novas perspectivas. Isso, porém, não é o que ele tem de mais interessante para nos ensinar: é na força cataclísmica dos aeons precambrianos que vejo também uma nova inspiração para renovar os dias nesses tempos pandêmicos onde o caos, sempre onipresente, tomou de assalto os últimos resquícios de ordem.
 


Choques contra massas planetárias em formação; erupções vulcânicas cuja potência seria o equivalente a 10 milhões de Krakatoas; rios de lava com larguras de países; nuvens de gases pesados que fariam o concreto das cidades contemporâneas instantaneamente em pó; tremores impossíveis de medir na escala Ricther - a lista dos eventos cotidianos do Precâmbrico poderia ser alongada consideravelmente. Pensemos por um momento em todos esses tumultuosos eventos, ainda que com nossa imaginação bastante limitada para dar conta até mesmo de 1% de tudo isso - o que eles nos dizem? O que esses eventos nos deixaram como herança? 

Um fato: a bela esfera azul que astronautas observam quando voam ao espaço é produto daqueles "tempos difíceis". A Terra "sofreu" um bocado nisso tudo - e se manteve ali, impassível, resistindo. E se transformando nesse processo. Para quem resistiu ao impacto de uma massa planetária do tamanho de Marte, o que representa uma glaciação que cobriu 30% do planeta com camadas quilométricas de gelo maciço? O que representa um terremoto com força para separar continentes?

Essa força incomparável de resistência – impregnada em cada elemento constitutivo da Terra; em cada rocha multimilenar, erodidas por pequeninos fios das primeiras águas; erosão que levaria microscópicos pedacinhos de rocha a se espalharem com a formação dos antepassados dos primeiros rios; antepassados esses hoje já há milhares de milênios extintos, que desaguavam nos primitivos parentes de nossos oceanos; oceanos primevos que, quando ainda eram jovens, abrigaram formas de vida completamente maravilhosas, tão estranhas para nosso olhar moderno, primos vinte milhões de graus distantes do que seriam os antepassados do que chamamos hoje de peixes, no início do período Cambriano; proto-peixes que, primeiros dos primeiros do que seriam milhões de anos depois os vertebrados, mantém aquela mesma dureza precambriana ainda presente, repassada das rochas para as águas e assim em uma sucessão infinita de trocas, aquela insistência de continuar existindo mesmo que contra todas as condições e contra todas as probabilidades; e nesses seres ao mesmo tão frágeis quanto destemidos, neles podemos estabelecer o elo que geraria, milhões e milhões de anos depois, o que hoje chamamos de reino animal, e dentre eles a curiosa espécie humana - resumo aqui de forma absolutamente rasa essa incrível cadeia de transferências de uma essência primitiva presente em cada fagulha de matéria mineral desse planeta. Matéria com a qual não nos identificamos. Matéria que tendemos a ver como separada de nós mesmos, e que na verdade é o que temos de mais primitivo e ancestral em uma dimensão que tristemente negligenciamos.

Pois é isso: se nem mesmo erupções semelhantes a 10 milhões de Krakatoas extinguiram esse planeta, devemos tomar isso como inspiração. E recordar que a essência dessa força descomunal existe em nós. Mesmo que oculta sob mil véus. Véus que são colocados por meio de legiões de fatores - mercado de trabalho, relações familiares, valores morais, sistema educacional, tabus religiosos, etc. Elencar aqui a lista de “inimigos a vencer” seria apenas reproduzir coisas que o leitor que chegou até aqui já conhece. E não se trata de uma ridícula abordagem de autoajuda, que visa mediante uma metáfora mostrar a força interna que existe em nós. Aqui retomo o ensinamento da tradição dos Sete Reinos da Quimbanda, onde a Kalunga, isto é, o cemitério, que tem mais do que naturais relações com as energias ctônicas: não por acaso, a primeira iniciação de reino que um adepto deve realizar é no Reino da Kalunga, não apenas como forma de ser propriamente apresentado às energias da Morte, mas também como forma de reconhecer a Kalunga como início e fim de tudo e, também, como a base que o sustentará em sua jornada espiritual. É na terra, portanto, na sua essência mais natural como elemento, que encontramos as respostas e a força necessária para enfrentar dificuldades e fincar os alicerces. 

O Precâmbrico nos desafia a olhar para além de nós mesmos, não apenas para entendermos que ao final das contas nossas dores são transitoriamente pequeninas, mas também como inspiração para criarmos um novo tipo de ser com a essência titânica que ele nos deixou como herança. Fazer da vida uma grande aventura, tão gigantesca como as explosões primordiais; correr em busca de realizar projetos com a mesma ferocidade dos rios de lava de larguras quilométricas; ter a impetuosidade de amar com toda a força explosiva das grandes nuvens de gases pesados; renascer a cada dia com mais apetite por transformações, solidificando em rocha duríssima nossos caráter; e olhar as cicatrizes do passado como aprendizados para que, em novas configurações tectônicas, se formem as bases para voos mais altos e amplos dos nossos sonhos. Estranho usar a palavra "sonho" em um texto sobre o Precâmbrico, essa era geológica tempestuosamente selvagem, tão distante de nós em um período incompreensível em termos humanos, mas é como eu o enxergo daqui ao chegar no final desse texto: um período tão estranho e interessante que só pode se assemelhar a um tipo de sonho. Que os nossos sejam alimentados com essa essência onírica precambriana, reverberando em nosso cotidiano toda a sua potência mítica e criadora.

12.21.2020

Gnose solar e mistérios lunares


No dia que o Sol alcança o ponto mais alto em sua trajetória anual, no Solstício de Verão, e onde nós aqui no Hemisfério Sul vivenciamos o dia mais longo como um símbolo da explosão de calor e luminosidade que marca o início da mais quente das estações, me pego em reflexões sobre como esses momentos de transição solar foram absorvidos pelas mais diversas religiões no mundo, dando a esse acontecimento atributos transcendentes – e de que forma podemos ter neles símbolos positivos de mudança e pontos de conexão com energias espirituais transformadoras.

Já é bastante sabido que o Natal, comemorado no 25 de dezembro, apropriou-se das comemorações do solstício de inverno que ocorriam no hemisfério norte. A data mais significativa do calendário cristão nasce portanto trazendo consigo esse momento especial da roda das estações, onde vários povos festejavam o início do inverno, estação de recolhimento onde os homens procuravam o conforto do lar para enfrentar os rigores gélidos que estavam apenas se iniciando. Comemorar o solstício de inverno, a mais longa das noites que é a noite de Yule, onde o Sol alcança o ponto mais baixo de sua trajetória no horizonte, é comemorar também o início da ascensão desse astro que, ao longo dos meses vindouros, irá pouco a pouco subir novamente até alcançar seu pico de calor e transformação. O nascimento de Cristo comemorado nesse contexto se apropria dessa espécie de “promessa de retorno” do Sol ao seu patamar de plena luminosidade, transformando-a na mensagem da Boa Nova messiânica, com o Filho de Deus feito carne para salvar o mundo.

O mito de Jesus é apenas um entre tantos outros onde deuses nascem de virgens. Mitra é um deles: amplamente cultuado pelas elites guerreiras romanas, alguns historiadores sustentam que foi por apenas uma questão de fé pessoal de Constantino que o Ocidente se tornou cristão, trocando o culto mitraico importado da Pérsia por um outro não menos exótico, vindo também do sedutor Oriente... (escrevi sobre esse assunto nesse link aqui). Nem era preciso, entretanto, ir para a Pérsia para ter um deus nascido em 25 de dezembro: em Roma já se cultuava nesse dia o deus frígio Áttis, filho de Cibelle que, tal como Maria, concebeu a seu primogênito intocada.

Cito esses exemplos não com a intenção de “desconstruir o Natal”, apontando-o como uma festa originariamente “pagã” que o cristianismo deturpou. Um estudo sério do cristianismo, especialmente do catolicismo medieval, mostra para quem quiser ver o quanto de “paganismo” existe dentro da própria fé cristã, sendo o Natal apenas um desses elementos. O que eu gostaria de demonstrar com esses exemplos é que, se não é “correto” dizer que o Natal é cristão, da mesma forma é incorreto dizer que a data é pagã: o paganismo nunca foi uma coisa única e universal, antes é um adjetivo onde se enquadra tudo aquilo que não é cristão. Há miríades de deuses, credos e divindades sob a rubrica paganismo; e querer atribuir a elas a primazia sobre uma data, como se um específico credo tivesse direito de propriedade inalienável sobre ela, é não compreender a dinâmica impermanente das sociedades humanas, como elas produzem e alteram significados e, também, como diferentes símbolos, em diferentes lugares do tempo e espaço, conseguiram trazer para as comunidades que os adotaram uma série de valores transcendentes sobre morte e renascimento, símbolos estes que traduzem certas energias presentes nos ciclos da natureza e nas infindáveis rondas do mundo acausal (ou espiritual, como queiram chamar).

O caminho que pretendo seguir com esse texto é menos o da contingência desses símbolos e suas incontáveis configurações e mais em buscar o que existe além deles, em uma perspectiva tradicional, onde as divisões entre sagrado e profano, entre mundo material e espiritual, são meramente nomenclaturas técnicas: na perspectiva da Tradição, todos os aspectos da vida são Um.

Se no hemisfério norte o Natal se comemora perto do solstício de inverno, que ocorre em 21 de dezembro, aqui no lado sul do planeta nós temos o início do verão, a estação da luminosidade e do calor, onde o Sol se mostra em toda a sua exuberância. Astro fundamental em todas as mitologias conhecidas, na esmagadora maioria considerado como símbolo da energia masculina e da ação afirmativa, o Sol é conectado com a essência da própria vida: ao redor dele a Terra gira (ou esta gira em torno daquele, como amiúde se acreditava) , assim como todas as atividades humanas giram em torno de sua ascensão e declínio no horizonte. A natureza se agita e vibra com sua tórrida presença, e se aquieta no sono quando ele se recolhe. Espiritualmente é o símbolo da vontade e da realização; assim, podemos assumir que comungar dessa energia é ter consigo o desejo de realizar da vida todas as suas potencialidades através da Ação. Não se trata, porém, de um agir descontrolado e irrefletido – isso é o Caos, donde pode-se muito obter (falarei disso mais adiante), mas que essencialmente é incapaz de criar qualquer coisa. A ação dotada de energia solar é plena, calma e soberana – não é por acaso que chamam o Sol de o “Astro Rei”. Os antigos das tradições extremo-orientais tinham para a ação tipicamente solar a expressão “ação sem agir”; com uma expressão de mesmo significado, Krishna disse a Arjuna no Bhagavad Gita que este deveria combater seus parentes na batalha de Kurukshetra sem se afeiçoar a sua ação em si, mas sim "de modo desinteressado”, isto é, desenvolver a capacidade de atuar no mundo sem se deixar levar pelo resultado das próprias ações, em se fazer o que deve ser feito com um olhar de pura transcendência e de obediência a desígnios mais elevados. Mola propulsora de uma série de acontecimentos, mas sem se identificar totalmente com suas próprias ações – ação que não é contaminada pela inconstância e tortuosidade do agir. A alegoria de ser o eixo de uma roda em movimento, que é a responsável pelo movimento mas se mantém no centro atuando e, visto de fora, como se estivesse parado, é também uma imagem da sabedoria védica, e que bem explica esse estado de pura ação que é visto como imobilismo.

Estamos falando de um alto domínio de si mesmo, da capacidade de atuar no mundo sendo como o Sol – exuberante, vivo, impulsionador da vida e fonte de inspiração para quem o contempla.  Alcançar tal domínio não significa ter um excesso de energia solar consigo, mas sim tê-la de modo equilibrado. Como sua contraparte energética, o Sol tem a Lua, astro que surge no céu quando o primeiro inicia seu movimento de descida no horizonte. Falemos agora, portanto, da misteriosa Lua, e de como ela é uma parte fundamental para todos aqueles que buscam o avivamento das energias solares.

A Lua tem uma natural conexão com energias femininas: suas fases, cujo completude leva 28 dias, relaciona-se diretamente com os ciclos menstruais. Nas mais diferentes mitologias, a Lua também foi considerada como a depositária dos aspectos obscuros da espiritualidade, relacionando-se com as energias dos submundos e das divindades agressivas e perigosas. Na árvore cabalística relaciona-se com Yesod, sephira que rege o mundo astral, as imagens do subconsciente e dos sonhos; sua contraparte qliphótica é Gamaliel, qlipha onde residem os aspectos descontrolados e obsessivos da sexualidade e do desejo em toda a sua selvageria primitiva. Como ilustração de sua natureza “maligna”, cito Blavastky do Volume I de “A Doutrina Secreta”:

“A  Lua é hoje o frio resíduo, a sombra arrastada pelo corpo novo [nota: ela refere-se aqui à Terra] para o qual se fez a transfusão de seus poderes e princípios de vida. Está agora condenada a seguir a Terra durante longos aeons, atraindo-a e sendo por ela atraída. Incessantemente vampirizada por sua filha, vinga-se impregnando-a com a influência nefasta, invisível e venenosa que emana do lado oculto de sua natureza. Pois é um corpo morto, e no entanto vive. As partículas de seu cadáver em decomposição estão cheias de vida ativa destruidora, embora o corpo que elas anteriormente formavam esteja sem alma e sem vida. Em consequência, suas emanações ao mesmo tempo são benéficas e maléficas – circunstância que encontra seu paralelo na terra, no fato de que é nas sepulturas onde as ervas e plantas medram e se desenvolvem com mais viço, sem embargo das exalações morbígenas dos cadáveres nos cemitérios. Como os fantasmas e os vampiros, e Lua é amiga dos feiticeiros e inimiga dos imprudentes. Desde as eras arcaicas até os tempos mais próximos, conhecidas são a sua natureza e suas propriedades, tanto pelas feiticeiras da Tessália e por alguns dos atuais praticantes do tantrismo na Bengala, como por todos os ocultistas; mas para os físicos permanecem um livro fechado.”

Conhecer as energias lunares através da experiência crua, vivenciando seus aspectos profundos através do mergulho em nossa psique e do contato com forças espirituais obscuras, nutre-nos com uma seiva potencialmente transformadora. Tais energias tem elementos caóticos em suas essências, advindos de sua conexão esotérica com a morte. São simultaneamente perigosas e apaixonantes: desejos desenfreados, imundícies que escondemos dos demais, silenciamentos dolorosos de coisas que nos envergonham e toda sorte de segredos que, se viessem às claras perante o mundo,  nos faria sofrer o peso da lei; também há nessas energias a vibrante dimensão erótico-thanática  que excita os sentidos, que envolve os que nela buscam se aprofundar com recompensas sedutoras que, se não se tomar os devidos cuidados, atam-nos em um sem número de correntes escravizantes. Chega-se a esse contato com as energias lunares das mais diferentes formas: meditação, cultos necromânticos, experiência psicodélicas (ayahuasca e jurema, não por acaso, são bebidas que carregam nomes femininos: a Jiboia e a Rainha, respectivamente) e outras práticas mágico-espirituais que se fundamentam em aspectos obscuros. Mas não é a única via de acesso a essas dimensões profundas emanadas da Lua: a psicologia, especialmente a linha junguiana, mostrou uma via a essas energias de um modo que a sensibilidade moderna, essencialmente ateia e materialista, conseguiu aceitar satisfeita já que é “científica” (a falsa dicotomia entre ciência e religião/espiritualidade continua muito forte hoje em dia, acirrada ainda mais durante a pandemia do Covid-19 sobre a questão das vacinas: o problema é que as posturas mais beligerantes anti e pró ciência são feitas por pessoas que grosso nada entendem de ciência, e apostam suas fichas na radicalização lacradora que não podemos nem sequer chamar de debate; especificamente no campo da psicologia, as pesquisas de Stanislav Grof, cuja abordagem da psique humana reúne em uma síntese absolutamente original as perspectivas freudianas e junguianas, o trauma do nascimento e as experiências espirituais dos povos às margens da civilização, é o que de mais atual e rico temos nesse campo, onde método científico e espiritualidade caminham conjuntamente na busca pelo conhecimento de si e do mundo, e serve como inspiração para ver essa falsa dicotomia como ela é de fato – armadilha discursiva que, sob o manto da autoridade do “especialista”, aprisiona o olhar para um recorte materialista e profano do real).


Seja qual for a via tomada para essa descida aos labirintos das energias lunares, estamos diante de um teste de força: seja pelas energias acausais agressivas com que estabelecemos contato, um mergulho profundo em nossos traumas através da terapia psicanalítica ou em rituais com uso de enteógenos, o que vivenciamos pode ser metaforicamente explicado como uma batalha. Sangramos no processo, e muitas vezes sangramos em demasia, encontrando nessas experiências os limites de nossas forças internas, que parecem desmoronar e que, se formos adiante mais e mais, de fato se esfacelarão; o raio atinge a Torre, fazendo-a cair em escombros, sangue e caos; a “terapia de choque” auto infligida coloca nosso valor sob testes rigorosos; testemunhamos, na forja de nossa Vontade, o esmorecimento do nosso Eu, até que nada mais sobre – é nesse momento de crise profunda, de uma crise que pode levar muitos a uma falência nos limites do irremediável, é nesse ponto que conseguimos nutrir nosso íntimo com potências restauradoras, sólidas e vigorosas; alimento em formato de pensamentos, imagens, sonhos, visões e todos os tipos de mensagens vindas do acausal, que muitas vezes levamos tempo para devidamente interpretar racionalmente mas que estão lá, suculentas e vivas, em seu mistério simbólico que nos deixa em estado de maravilhamento.

Para os seres do sexo masculino, os alimentos gestados no contato com a energia lunar são devidamente absorvidos quando recebemos os aspectos numinosos do Sol. É mediante a influência de suas energias naturalmente criadoras que a seiva lunar se multiplica em vida e realidade para os homens. Diferente das mulheres, que gestam a si mesmas nas energias lunares e que tem a dádiva – exclusiva das fêmeas – de estarem diretamente conectadas com a Lua através do sangue menstrual, os homens não conseguem estabelecer uma conexão com a energia lunar sem passar pelo Sol. Para que não se tenha dúvidas: o Sol também nutre as mulheres assim como a Lua, mas é com elas e apenas com elas que a energia lunar se mostra em toda a sua obscura realeza, com as três faces da Deusa – mãe, puta e anciã – unidas em pureza infinita de forma absolutamente natural.

Aos homens isso é interdito, pelo menos nessa dimensão profunda que as fêmeas conseguem experienciar quase que espontaneamente. Por isso que o homem vive quase como se fosse uma prova iniciática o contato com as energias lunares, tendo que ativamente ir buscá-las para receber suas influências vivificantes. E aqui retomo o tema dos ciclos solares, central nesse texto, e de que forma eles influenciam os homens e suas energias.

As horas do dia próximas ao nascer do Sol determinam há centenas de milhares de anos o início das atividades humanas. Seu ocaso no horizonte, o cessar dessas atividades. À parte a insanidade moderna, onde o ritmo das atividades é completamente influenciado pela lógica do capital, fazendo com que tenhamos aberrações doentias como shoppings 24 horas e escalas de trabalho noturnas tanto no setor de serviços como na indústria, à parte essas ocorrências meramente circunstanciais (o capitalismo não é um destino, vale sempre lembrar-se disso) o Sol marcava com clareza os limites do despertar e do recolhimento. Como em um eterno ciclo, o Sol nascia e morria no horizonte, percorrendo o céu e nutrindo o mundo com sua luz e calor. Não é por acaso que eclipses solares sempre foram vistos como sinais de calamidades: a interrupção da luminosidade solar no momento em que sua força estava no auge, alterando um ciclo ininterrupto diário, só pode ser o aviso de que algo terrível acontecerá. Como ficar sem a luz do Sol?

Além do ciclo diário de morte e renascimento, há o ciclo anual das quatro estações. Aqui voltamos aos momentos de mudança dos solstícios e equinócios: marcando o movimento de translação da Terra, o ciclo perpétuo de primavera, inverno, outono e verão tem nesses eventos um símbolo importante, que podemos ver como marcos da vida e nos conectarmos para deles extrair todas as suas influências transformadoras. Interessante notar a simbologia do número quatro, que tem os atributos da estabilidade, da realização e da solidez com a Terra, o mais firme dos elementos: o ciclo das quatro estações, do percurso completo ao redor do Sol, como símbolo da plena Realização. E também aqui é interessante apontar a etimologia de “sólido”, que vem do latim solum, cujo significado é firme e que, como é fácil concluir, tem sua origem na palavra “sol”.

Conectar-se plenamente com todas as estações é uma forma excelente de vivenciar a energia solar em sua plenitude. Não apenas comemorar os solstícios e equinócios como formas de conexão com as forças do Sol, refletindo sobre o significado de cada estação e como elas tem atributos que tem muito a dizer sobre nossa própria energia masculina, mas em comungar com tudo que cada estação tem a oferecer – os dias longos do verão, o odor das flores primaveris, a brisa gélida do inverno e a serenidade do outono. Comer os fruto e legumes das estações também é uma forma de ter contato com as energias solares em sua essência mais generosa, pois fazendo isso estamos literalmente construindo nossas reservas de energia com Sol em forma densa. Essa aliás é uma dimensão perdida graças ao processo de urbanização, que deslocou massas imensas de pessoas das regiões interioranas de todo o planeta para arremessá-las no pesadelo das grandes cidades onde o abastecimento de alimentos, garantidos pelos supermercados, não só se faz majoritariamente por produtos industrializados, como também degenerou a própria forma de produção agrícola a um ponto tal onde temos oferta de todas as frutas e legumes o ano todo graças a legiões de agrotóxico, cujas extensão de uso não temos nem como saber de fato. Restabelecer ciclos de consumo alinhados com as estações, fugindo do veneno do agronegócio sempre que possível, é uma maneira interessante de estarmos conectados com a energia solar. Como dito no início desse texto, a minha perspectiva é radicalmente da Tradição, onde diferenciações entre aspectos naturais e espirituais são meramente aparências – no final, tudo está conectado.

À parte tais sugestões práticas, tomar o recente Solstício de Verão como símbolo de renovação é o que eu gostaria de celebrar como principal presente de 2020. Primeiro ano da pandemia do Covid-19, ano que arremessou a todos no isolamento forçado, destruindo planos e vidas aos milhões, tomo o símbolo do Solstício como marco decisivo da renovação verdadeira, construída após meses de isolamento, erros, sofrimento e contato intenso com as obscuras energias lunares, que me puxaram para seus labirintos perigosos, onde quase me perdi, onde faltou realmente muito pouco para me perder de forma quase completa. Foi necessário sangrar muito, foi necessário ir fundo nas feridas expostas, para que as seivas de energia lunar fossem finalmente recolhidas nas taças construídas com os crânios dos meus Eus assassinados. Delas sorvi em companhia daquilo que Jung chama de Sombra, e que tantos nomes teve ao longo da história do mundo. E especificamente nesse processo de autoconhecimento, mergulhando nas águas argênteas do caos lunar, conheci a minha polaridade feminina em toda a sua eletrizante exuberância apenas para melhor viver a minha masculinidade, consciente de suas limitações, mas também de suas qualidades; daquilo que é necessário controlar, e do que é necessário compartilhar; daquilo que devemos tomar como herança feliz do passado, e do que devemos observar com distanciamento para em seguida esquecer. Como, em suma, encontrar o equilíbrio entre nossas polaridades para realizar a nossa masculinidade em toda a sua exuberância solar criadora e afirmativa; tornar cada dia um símbolo do mito de morte e renascimento, e sugar deles o máximo que tem a oferecer; aprender com o Sol como ser consistente, sereno e disciplinado; fazer planos e realizá-los soberanamente, com a consciência em sintonia com os ciclos eternos que emolduram nossa vida de formas tão gigantescas e que, atribulados por tantas e tão grandes distrações no cotidiano, acabamos por esquecer; que 2021 seja um ano, enfim, onde aprendamos a ser como o Sol, e façamos de nossos dias uma celebração das infinitas energias solares e suas numinosas influências,  influências que fazem explodir, em mil formas de Vida, as potencialidades que recebemos dos mistérios lunares após tantas provações.

7.13.2020

Setenta mil mortos


Girar a chave. Abrir a porta. Ver a rua. Sentir o vento frio de julho batendo na face. Ou do que resta dela. Agora que todas são encobertas por máscaras. Não as conceituais, essas que vestíamos todos para não mostrar ao outro o horror íntimo que carregamos. O bom funcionário - mas que morria por dentro um pouco todo dia fazendo um trabalho que odiava. A boa namorada - mas que só continuava naquela relação porque sua autoestima destruída a fazia se sentir nojenta e indigna da felicidade. A boa mãe - mas que no fundo queria é mais que seus filhos nunca tivessem existido, grávida tão cedo de um homem que não ama mais e nem certeza tem se um dia amou. O bom pai - mas que bebia todo dia com vergonha de assumir para a família que gostava mesmo era de homem. Tantas máscaras a vida toda que chega uma hora que nem sabemos o que é rosto, o que é máscara. Mascosto. Rosáscara. Deve haver alguma palavra que, intermédia, seja uma e outra. É bem possível que alguém já a tenha inventado em alguma língua. Há tantas palavras no mundo, e é razoável pensar que morreremos sem dizer todas.

Pandemia é uma palavra que aparecia pouquíssimo nas falas cotidianas. Especialmente dos vermes urbanos, tão metidos a sabichões. Aquele tipo de imbecil que mede seus conhecimentos pela quantidade de notícias que lê. Que vê a si mesmo como "uma pessoa bem informada". Como se uma andança pelas ruas, respirando a crueza da vida, não fosse informação. De uma outra natureza, mas informação também. O foda é que somos levados a crer que apenas lendo nos tornamos "pessoas bem informadas". Aí tem aquele tipo de verme que só lê sobre a miséria, sobre o o crime, sobre a desgraça de viver no Brasil em meio a uma pandemia. Mas ele não anda nas ruas, não vê as letrinhas se transformarem em fatos de carne e osso à sua frente, na figura de... pessoas. Sabe, pessoas? Aquela entidade amorfa que surge como números em um gráfico? 70 mil mortes por Covid-19. Cada um dos pontinhos no gráfico, uma pessoa. 

Mas eu estava saindo na rua quando comecei a escrever isso aqui. Não importa a quantidade de mortes. A curva que aponta para o céu e mostra a pandemia brasileira como uma tendência ao Infinito. Foda-se: a vida continua, você é um homem ou um fraco? Uma voz mental, uma espécie de versão mais turrona de mim, grita comigo. Tem que sair na rua, fazer o que precisa ser feito. Viver, enfim. Mesmo que agora todos estejamos mascarados e isso nem é mais uma figura de linguagem. Já tem quem esteja faturando com máscaras estilosas. De super-heróis, claro, são as mais procuradas. Tem também as cômicas, que vendem bem. Rir da desgraça e se acomodar a ela. Fazer da desgraça um negócio. O Brasil que deu certo. A ironia que esvazia a tudo, que nivela no mais raso dos patamares para esfregar na cara de todos que ninguém e nada tem importância. 

Ando em direção ao centro da cidade. Passo por vários comércios. Operando normalmente. A diferença são as máscaras. Todos usando. Ou pelo usando dentro das lojas: basta sair delas que pluft! o que estava no rosto vai para o queixo. Ou a testa. A mão que tocou produtos tocados por mãos outras e cada toque potencialmente um foco de infecção em escala logarítmica de repente toca a máscara que antes cobria o rosto e que provavelmente voltará ao rosto algumas lojas pra frente - a chance de dar certo é tão pequena que eu estou quase acreditando nos argumentos dos negacionistas, de que a máscara não serve pra porra nenhuma e tudo não passa de um plano chinês para dominar o mundo.

Plano chinês para dominar o mundo. Como eu amo esse tipo de maluco. Suas violências, sejam verbais ou físicas, têm sua origem nefasta num caldo cultural que reúne preconceito, autoestima deteriorada, fracasso amoroso e baixíssima inteligência. Quando nisso tudo você coloca uma dose de religião evangélica, a maluquice aumenta bastante de nível, e aí chega naquele estágio de acreditar em terra plana. Todos são irreversíveis, mas esse último é de longe o mais irremediável.

Está na hora de aceitar que nós perdemos para os malucos. Eles estão ditando as regras do jogo. Quem se opõe a eles com textos elaboradíssimos no máximo vai conquistar alguns crushes. Não vai esclarecer nada, nem ninguém. Os malucos entraram no parafuso de piração de si mesmos e estão espalhando sua loucura cada vez mais loucamente. Há inclusive uma pretensão iluminista gigantesca naqueles que acham que, se falarem com cuidado, de modo bastante argumentativo e leeeeeennnnntaaaaaameeente, conseguirão trazer o maluco para a luminosidade do conhecimento e da libertação. Se anos de escola não conseguiram mostrar a esses malucos que a Terra é redonda, não será um texto que pode ser lido em cinco minutos que mudará isso. 

Os bares são um capítulo a parte. Nem no período mais restritivo da nossa quarentena de mentirinha eles pararam de funcionar. Quarentena carnavalizada, com sabor de trópico e jeitinho especial. Afinal foda-se, você é um homem ou um fraco? Vai deixar que o Estado determine se você pode beber ou não? De repente todos se descobriram como exemplares anarco-individualistas, stirnereanos de carteirinha sempre prontos para defender com ardor sua autonomia - claro que aqui entendida como a licença para se entupir de álcool, a droga legalizada que todos aceitam e utilizam como uma carta de alforria para a humilhação do capital. Gostam tanto da sexta-feira que ela virou até um verbo. Uma operação linguística interessante: a sexta-feira, antes o nome de um dia símbolo da libertação do trabalhador, agora é uma ação. Sextava-se já no café da manhã do último dia da semana, onde podia-se dar ao luxo de algo mais gorduroso porque afinal é sexta; sextava-se no almoço do mesmo dia, indo a um restaurante novo com os colegas do escritório pois ninguém mereceu essa semana puxada com 400 reuniões; sextava-se inclusive antes mesmo de tudo isso, escolhendo uma roupa mais descolada para ir trabalhar e portanto adequada para a sexta propriamente dita pós-expediente num bar hipster do Largo da Batata pois afinal sexta à noite pertence aos Excessos.

Estou falando de um tempo que já foi. O verbo sextou tomou ares mais contidos, menos explosivos? Pelo menos isso eu achava até ver como está o centro: festas em apartamentos, em casas, meio às escondidas, com sabor de proibido. Aglomerações porque né, ninguém é de ferro. Você é um homem ou um fraco, caceta? Vamos todos brindar a vida nesses tempos de morte. Pandemia. Palavra nova. Agora tão vulgar. Palavra já tão usada. Palavra que não é mais nada. 

Mendigos amontoados debaixo do Minhocão. Não há máscaras. Mas há crack. Pedrada após pedrada a realidade do concreto frio vai embora. Pelo menos até a fome voltar com sua violência silenciosa. Aí a caridade vai fazer seu papel e ajudar manter esses caras vivos. Eles são necessários, mas não como humanos. São necessários nos planos de morte de manter sempre a postos algum cão de farda armado pelas redondezas. Ou um batalhão deles. Quadras para cima, em Higienópolis, pensa-se que o melhor seria passar a metralhadora em geral. O que o Covid não ceifar, que a paz armada faça. Não aprenderam nada com os antepassados mortos nas câmaras de gás? Se tivessem, teriam horror do nome de um bairro que nasceu como forma de manter os ricos livres da sujeira do centro. O cinturão da Santa Cecília e da Vila Buarque mantendo uma espécie de barreira para que as hordas de imundos não cheguem até a linda praça Vilaboim e adjacências. Muita gente diferenciada nessa desgraça de cidade. Nem uma pandemia para acabar com isso tudo. Eu aposto um rim que tem alguém em algum lar em Higienópolis que pensa assim. Não apenas lá. Deve ter alguém  onde você mora. Algum parente. Você mesmo. Bem escondidinho debaixo de sua máscara de cidadão. Vamos acabar com todas as farsas de uma vez. Setenta mil mortos, parceiro. Não temos mais tempo para ficar segurando falsidade que isso dá câncer. Abre seu coração, mesmo que seja para vomitar algo sujo e fedorento. Prefiro monstros na rua do que no armário, ardilosos, acumulando seus ódios covardes.

Encontro um amigo na andança pelo centro em tempos pandêmicos. Não sabemos como nos cumprimentar. Nós que antes sempre nos abraçávamos, agora dando cotoveladas desajeitadas. O carinho substituído por algo que nem é um cumprimento. A gente ri, mas é mais de nervoso. De tristeza. De ódio impotente contra algo que mata mas é invisível. E que se centuplica com o egoísmo. Afinal eu preciso sair. Eu preciso me exercitar na rua. Eu preciso ir ao shopping. Eu. Eu mesmo. Euzinho. 

Meu amigo me pergunta como eu estou. Na hora que vou abrir boca não sai nada. Quantos meses em casa que nem sei mais como falar. Digo, falar de modo humano, não em conference calls com clientes. Aquilo não é conversa, é trabalho. E um risco no chão deve separar um do outro, e de modo ainda mais forte em tempos onde o office é a home, para que este último não se transforme no primeiro de modo perpétuo. Já imaginou como seria horroroso ter que comer, cagar, dormir, trepar, chorar, ficar bêbado, rir, lavar roupa, surtar etc dentro do seu local de trabalho? Pois é, ultimamente tem sido assim. As belezas da fala fácil sobre assuntos gerais; a poesia dos encontros amorosos inusitados; o debate entre copos de cerveja sobre livros que estamos lendo curtindo um solzinho de fim de tarde em algum bar da Praça da Árvore; a saudade matada com um abraço apertado naquele café semi-escondido da Casa da Rosas - perdemos tudo isso. Ao encontrar alguém nessas situações, tudo fluía como se deve - com a leveza de que poderíamos falar sem a pressa de um relógio, sem a máscara de um sobrenome de empresa. E agora nem consigo falar mais quando encontro um amigo que amo na rua. Parecia que eu estava tendo um treco. Penso no pior: derrame. Convulsão. Alguma doença rara que impossibilita a pessoa de falar com amigos. Mas que a deixa toda prosa quando o assunto é trabalho. Não é doença. Mas efeito do isolamento. Março a julho. Quatro meses. O tempo voa. E mata. Ainda que aos poucos. Minha voz, defunta de sua naturalidade, não sai diante de um amigo.

- Tá tudo bem, mano?

Nada sai. Me esforço. Deve ser assim que crianças aprendem a falar. Forçando as cordas vocais. 

- Errrrr... aaaaa...

Que papelão. Não é derrame porra nenhuma. É desarticulação frente a situações inusitadas: as conversas, se não tiverem horário marcado para ocorrer como todas as demais nos últimos quatro meses, tornam-se impossíveis. Artigos de chatíssimos futurólogos dizem que a pandemia deixará como legado alterações profundas em nossos comportamentos: viagens mais curtas, mais tempo preparando a própria comida, exercícios físicos praticados em casa, etc. Uma dessas alterações seria a perda da capacidade de falar de modo espontâneo? Sinceramente espero que não. Penso como seria flertar se isso se tornasse crônico. A incapacidade de dizer algo além do oi-tudo-bem sem parecer um palerma. Já é bem palerma iniciar um flerte com um oi-tudo-bem, mas ruminar um errr ou aaaaa tornaria tudo ainda pior. Talvez seja importante insistir, tentar falar algo a mais, forçar as cordas vocais como fazem as crianças pequeninas - mas eu desisto antes de começar, gesticulo que tá tudo bem mandando um jóinha seguido de um Hang Loose e dou meu cotovelo pra bater, esse péssimo gesto que se tornou o cumprimento dos tempos pandêmicos, e sigo adiante a caminhada deixando o meu melhor amigo meio estupefato no meio da rua, sem entender por que diabos eu nada falei com ele e só gesticulava alegremente. Uma tentativa porca de esconder o meu desespero de não conseguir falar.

A tristeza de não conseguir mais nada dizer.

De abrir a boca e nada sair.

Juro que tentei, leitor. Foi uma tentativa sincera. Uma intenção genuína de me comunicar falando. Mas não. Não consegui. Quatro meses fechado em um apartamento. Trabalhando até nos finais de semana. A fala sendo mediada pelo capital. Isso tem consequências. Daí lembro daquela frase. Não importa o que fizeram de nós. O que importa é o que fazemos com o que fizeram de nós. Se ele pensasse que seria usado para fins de autoajuda... acho que teria se suicidado. Simone ficaria triste, mas ela era uma mulher fodona, iria chorar por uma semana e seguir com a vida e ser maravilhosa do mesmo jeito. Seja como for, faz sentido a frase. Ainda mais em tempos onde a pandemia esgota a vida alegre que tínhamos, aquela onde o sabor da espontaneidade ainda permeava a tudo e por isso não a valorizávamos. Só damos valor ao que se perde: isso define a essência humana. Agora tudo é (ainda mais) mediado pela tirania do relógio, pelo ato mecânico de sair de casa de máscara, de lavar as mãos com álcool em gel a cada coisa que se toca.

´Penso em quantos rituais amorosos se tornaram impossíveis. Ir a um bar hipster tomar vinho e ficar ambos enamorados já semi-ébrios em um primeiro encontro, descendo as escadas meio que se apoiando um no outro só pra ter aquele pretexto de contato físico, tipo uma dança do acasalamento de humanos; de ir tomar um sorvete e trocarem colherzinhas um na boca do outro; de sentarem pertinho em um banquinho pra ver o movimento na rua tão grudadinhos nas noites frias de julho; de irem ao cinema e mãos juntinhas comendo o mesmo saco de pipoca; de chuparem-se sem receios de contrair a morte na pele que sugam. A Aids é um nada perto de um vírus que se pega até com um aperto de mão.

Para de exagero, afinal você é um homem ou um fraco? O que importa é o que você faz com o que fizeram de você. O meu lado turrão grita e eu acelero o passo. Já é noite nessa perambulação pelo centro que se iniciou no finalzinho da tarde. As ruas ficaram mais desertas durante a pandemia, mais do que o normal. A vida efervescente da boêmia paulistana onde nóias, puta, bichas, rolezeiros, punks, hipsters, playboys e perdidos em geral se misturavam em poucas quadras conflituosamente harmônicas: se nem tudo isso sumiu completamente, se tem alguns que ainda se aventuram com a irresponsabilidade da juventude, certamente aquela paixão vibrantemente viciosa que animava a noite dessas ruas do centro está ausente. Para não dizer morta. Há um silêncio fúnebre permeando cada pedacinho das antes boêmias ruas do centro. Todas as chances de sobreviver se esgotam cada vez mais neste país onde a palavra sofrer é usada demais. O verso da música se repete na minha cabeça como uma profecia vinda do passado. Agora que todos esperamos a pandemia passar, essa agonia prolongada já há quatro meses e sem perspectiva de final se repete, e se repete, e se repete -  um Ouroboros de expectativas sempre frustradas que nem o mais raivoso e niilista hino punk dos anos 80 conseguiu captar. 

Girar a chave. Abrir a porta. Desperdir-se da rua. Entrar no prédio controlando os movimentos. Não encostar em nada. Não tocar em nada. Besuntar-se de álcool em gel. Ficar nu já na entrada do apartamento. Colocar as roupas de molho na cândida. Agora borrifar álcool 70 nas mãos. Tomar um banho. Torcer para que o invisível Covid-19 não tenha ficado grudado em algum lugar. Ter entrado por algum poro. Setenta mil mortes em quatro meses. E contando.


6.29.2020

O silêncio dos atabaques


Vocês vieram como mensageiros, trazendo em suas gargalhadas as mensagens que precisávamos receber. Nessas mensagens as doçuras sempre estavam presentes, adicionando ao cotidiano um sabor de alegria que havia sido retirado de nossas vidas, após tantos golpes sobre nossos corpos maltratados. Golpes de formas diversas: dos botas pretas nas esquinas escuras, ocultos, que nos esmurravam enquanto deixávamos ali as velas e alguidares, profanados com a violência mundana das fardas. Golpes que também eram a necessidade de esconder a fé que nos inundava não por vergonha, mas pela crueldade de um mundo cujos valores são forjados por uma crença que vê em tudo que pulsa Vida e Desejo como algo que deve ser destruído. Tínhamos então que nos esconder muitas vezes, e ir para lugares distantes das cidades a fim de encontrar a paz necessária para receber e festejar Vossas presenças primais. 

Mas cada vez mais a violência da Cruz se espalhava, e as distâncias se tornaram menores. O som do atabaque teve que se silenciar. Nós choramos escondidos, acreditando que ao silenciar nossas músicas estaríamos desonrando Vossas essências, que estaríamos envergonhando a Tradição. E que ao fazer isso a vida, já tão dolorosa, perderia de vez a dádiva de Vossas mensagens, mensagens que nos traziam a doçura, aquele sabor único que amenizava a dor de tantos golpes e de tanta humilhação. Nesse choro não havia apenas tristeza, mas revolta também, e também um grande ódio. Pois os Senhores nos ensinaram que o ódio e a revolta são também parte de nós, e que ser manso jamais será digno dos que se dizem Seus filhos. Sugar da Vida tudo que ela tem a oferecer, seja "bom" ou "mau", até os limites dos limites: é isso que os Senhores nos instigam sempre a fazer, para sermos os únicos donos de nós mesmos, os únicos comandantes de nossos Destinos.

E foi tendo isso no coração (o maior presente que os Senhores nos deram foi esse: o de aprender a pensar com o coração) que descobrimos que no silenciar do atabaque um novo ordálio estava sendo colocado. Falamos das doçuras que Vossas mensagens traziam, mas havia também, e na maioria das vezes, também o amargor no que era dito - cobranças, gritos, severas repreensões. Todas essas mensagens raivosas eram necessárias, mesmo que em um primeiro momento pouco as compreendíamos. Rasgavam nossos olhos petrificados de tantas mentiras, chutavam nossa boca até os dentes caírem, ateavam fogo em nosso Eus limitados que caíam em agonia. De tudo na vida se pode tirar ensinamentos, mas é da dor que os homens tiram aqueles que os transformam para sempre - e assim, após os Senhores conduzirem os filhos pelas Sendas da Agonia, renascíamos ainda mais sedentos, mais comprometidos, querendo ver Sóis ainda mais brilhantes e caminhar em Noites ainda mais sinistras. 

Graças ao silêncio que tivemos que mergulhar, cultuando os Senhores apenas sob a luz da vela negra e nada mais, estamos aprendemos um novo valor: o da simplicidade. Enquanto os Senhores estavam aqui, sofrendo como nós os pesos da condição material, as liberdades eram inexistentes. Que ilusão achar que os servos da Cruz permitiam o som do atabaque, ou qualquer outro som! Era uma questão de morte, e assim foi selado o Destino de muitos. O silêncio está na base da fé que nos anima. O ocultamento. O ir-para-dentro-de-si. O relacionar-se com Vossas forças tendo apenas a simplicidade de uma vela, de um copo de bebida, de um fumador. As grandes festas, as belas roupas e as ricas oferendas: os Senhores nos ensinaram os valores e propósitos delas, e sempre nos corações dos filhos terá o lugar para tudo que for grande pois assim são os Senhores - mas nossos olhos não tem mais a cegueira de pensar que apenas assim que nós os agradamos. Há tantas ilusões ainda não desvendadas, mas essa não nos enganará jamais. 

Seguimos então confiantes no silêncio que os Senhores nos ensinaram a valorizar como um mestre. A olhar para a chama de uma vela e nela encontrar tudo o que precisamos para conectar-se com Vossas forças, silenciosamente, através do coração. Ter na quietude a força mais poderosa de nossa fé ressignifica os fundamentos, dá um novo sentido às firmações, faz renascer a nossa compreensão da magia, dos códigos e das mensagens. Não há no silêncio desonra, não há nele a quebra da Tradição: há no silêncio um poder que ainda estamos descobrindo, há nele uma dimensão na qual mergulhamos, selvagens e sempre sedentos, em busca da essência de Exu - a essência que queremos que seja a nossa. 

4.27.2020

Além dos véus róseo-rubros


Houve um tempo que os lençóis tinham o teu cheiro, lençóis onde gozamos juntos e acordávamos com lembranças da noite anterior. Bastava virar para o lado para já te tocar e então começar de novo. As bocas então se encontravam, ávidas, quase se mordendo. O carinho que transcende a forma amena e se torna aquilo que deve ser - primitivo gesto de amor. Não do amor surrado na escritura dos poetas, que só vivem na ilusão de sofisticar aquilo que não precisa e assim parecerem mais espertos do que realmente são. Amor como ato voraz. Explosão. Tempestade. Estremecimento. Suas pernas enlaçadas em meu pescoço, bambeando. Reflexo físico que sugeria que minha língua dedicada estava no caminho certo. O labor devoto em frente ao seu altar úmido de vida. Pois é no elemento líquido que a vida se inicia. Minha devoção, fervente, então penetrava no altar, abrindo os véus róseo-rubros que o velavam. Como eram quentes as chamas que ali se ocultavam! Isso fazia minha devoção, ainda mais exaltada, transformar-se num desejo de pura conexão. E por isso eu buscava mais uma vez sua boca arfante, mas também seus olhos. O que de mais íntimo pode existir do que amantes que fodem com olhos fixos nos olhos do outro? As chamas do seu altar úmido subiam e através dos olhares cruzados uniam ainda mais os corpos já em conexão. Continuidade ígnea. Ouroboros feito apenas de desejo em exercício. Exercício ritmado em seu altar já inundado de êxtase, sua boca perto da minha, respiração que misturava ares inalados e exalados, dentro e fora, fora e dentro. Como que isso não pode ser amor? Mãos que seguravam sua cabecinha com ternura, mas também com malícia, enlaçando os dedos em seus cabelos para aumentar a sensação de controle. Gesto que eu fazia para dizer "você é toda minha". Você percebia, como ninguém sabia me ler, e então sorria em resposta. Sorriso que era como gasolina sendo jogada em um incêndio. O sorriso acontecia de modo espontâneo ou calculado? Eis o mistério da Fé. Nenhum homem jamais saberá se o sorriso feminino na hora da foda vem de Deus ou do Diabo. O melhor é assumir que ambos são uma mesma coisa. E que a Mulher, a Beleza que está no topo do mais alto pilar da Criação, tem em si a dádiva de ser filha de ambos e de nenhum. Com aquele sorriso aumentava ainda mais minha ardente devoção. O altar úmido, já quase todo feito de líquidos cujo aroma transforma o homem em animal. E nessa inundação de sucos pecaminosos eu então começava a me preparar para contribuir com um novo tipo de libação, também ela quente e aromática, e que em outras vezes você havia sorvido, ávida e devotamente. Respirações ainda mais próximas, inalação e exalação, dentro e fora, fora e dentro, em ritmo crescente. Um olhar inocente poderia julgar que era um homem maltratando uma mulher com aqueles sacolejos quase violentos. Penso que esses mesmos inocentes ficariam confusos ao ver o seu sorriso enquanto me dizia baixinho "goza, goza", sempre com aqueles olhos mágicos me encarando. Não me saem da mente especialmente seus olhos. Eram neles que fixava toda a minha atenção enquanto eu sentia o clímax se iniciar, e os gemidos se tornando mais altos até que a respiração, descontrolada, era esquecida. Luzes disformes. Nervos se contorcendo. Segundos que a percepção se alterava. Não é a toa que os franceses chamam isso de pequena morte. Jorros quentes disparados contra as paredes internas do altar úmido. Fêmea e macho unidos em êxtase único. O suor meu pingando sobre o seu. Grudados, melados, o mundo exterior poderia ser destruído, a civilização sucumbir, holocaustos se multiplicarem. Tudo isso havia perdido o sentido. Havia encontrado um novo tipo de divindade, e ela estava oculta sob os véus róseo-rubros do altar úmido que vivia selvagem entre suas pernas.

4.11.2020

Sonho-real, Real-sonho


Há certos rumores que o Covid-19 abriu estranhos portais, pois os sonhos de todos parecem estar inundados de imagens antes não comuns. Mesmo os meus sonhos têm sido lisérgicos a um extremo que antes não aconteciam, ou aconteciam raramente - de qualquer modo, as cores têm se tornado incrivelmente mais vibrantes, as situações mais complexas e inusitadas, o ambiente amplificadamente surreal. 

Há um conto do Lovecraft que fala sobre um homem que tem sonhos onde voa por paisagens impossíveis. Ele acorda e fica recordando daquele mundo infinito com o coração apertado por um saudosismo que não tem fim. No conto os sonhos se repetem até ele enfim começar a viver apenas no sonho, e constata que aquilo que era mundo sonhado tem tanta substância e realidade quanto o "mundo real". Aquele mundo dos sonhos, tão imenso, tão fantástico, é um nada perto da realidade prosaica, repetitiva, empobrecida de significado. Sufocante, a vida real não suportaria aquele tipo de singular beleza que existe no mundo dos sonhos. Nosso mundo é feio, extremamente feio. E nele temos muitas pessoas horríveis. Mesmo aqueles que são considerados bonitos têm em si uma feiura secreta. Um traço de personalidade que faz as belas formas tão somente o que são - o feliz acaso da Natureza em criar um corpo apetitoso ao Desejo, mas que o andar dos anos tratará de deteriorar e deteriorar até ser um amontoado de tecidos enrugados, de células que morrem, de carne putrefata. "Nenhuma Beleza me vencerá", disse o Tempo no começo do mundo, e desde então a Beleza, quando surge, é só para nos fazer lembrar que todos no longo prazo seremos muito feios.

No mundo dos sonhos, porém, é tudo ao contrário: a Beleza vence o Tempo a hora que ela quiser. Ela na verdade ri da cara do Tempo, que naquele mundo age de modo bastante confuso - às vezes ele corre muito rápido, às vezes parece que anda para trás, mas a maioria das vezes ele fica parecendo bêbado e agindo de modo inconsequente. Tanto é que parece que por lá acontecem muitas coisas juntas, e parece que estamos vivendo aquilo tudo por horas ou meros minutinhos, e de repente toca o despertador e acordamos um tanto quanto desorientados. Nem sempre os sonhos são bons, tem aqueles que tentamos acordar e nunca conseguimos, parece que por lá ficaremos presos eternamente, suspensos em uma situação amedrontadora, o Tempo caído de bêbado nos deixando esquecidos ali apavorados. Há certas temporadas na vida que todas as noites temos sonhos ruins, mas para nossa tranquilidade, na maioria das vezes, sonhos ruins são uma exceção. 

Nada parece racional no mundo dos sonhos. Tudo ali obedece a uma lógica que nos escapa. Nem sei se dá para utilizar a palavra lógica para explicar o que ali ocorre. Seria uma pretensão imensa querer atribuir significados para tudo que acontece por lá; e como somos uma raça de soberbos é claro que, desde a aurora dos tempos, o homem tem procurado entender aquele mundo, investigar seus segredos, captar sua essência rebelde e louca. O que seria da humanidade sem o mundo dos sonhos? Constantino não sonhou com a cruz e a frase "In Hoc Signo Vinces", e após isso se fez cristão? Nesse signo vencerás: Constantino acreditou no seu sonho e mandou grafar nos escudos de seus exércitos a cruz. Logo após isso, em uma reviravolta um tanto quanto inesperada, venceu uma batalha decisiva contra Magêncio, seu rival na luta pelo poder, e tornou-se o primeiro imperador cristão a comandar o Império Romano. Se hoje o Ocidente é predominantemente cristão, temos nesse sonho de Constantino o gatilho que disparou uma série de eventos, que vão desde a fundação de Constantinopla até os bispos televisivos expulsando demônios em nome de Jesus.

Mas embora ali no mundo dos sonhos as coisas aconteçam de uma forma na maior parte das vezes absurda, a sensação de que tudo ali está vivo é marcante. Todos já tiveram sonhos tão reais quando essa tela onde você está lendo esse texto agora. Sonhos que eram tão incrivelmente intensos e vívidos que nem pareciam na verdade sonhos: era como se fosse um outro tipo de vida, um universo que obedecia a regras especiais, com seres estranhos, cores lindas, diálogos e situações que lembravam situações da vida real mas em configurações totalmente novas. Os mais deliciosos são obviamente os sonhos envolvendo sexo: já tive esse prazer inenarrável, em sonhar de estar fodendo com aquela pessoa que nunca você conseguiria se aproximar porque é tudo tão diferente no mundo real, as situações tão impossíveis de levarem àquilo, e no sonho é você ali transando na rua mesmo, em um cantinho qualquer logo após trocarem meia dúzia de palavras sem importância; as sensações prazerosas são tão fortes que já ouvi relatos de pessoas que realmente chegaram ao orgasmo durante o sonho. Uma intensidade tal que se parece com a realidade mesmo, vida exaltada e incrivelmente bela, livre e audaciosa.

Seria, tal como no conto de Lovecraft, o mundo dos sonhos um mundo tão verdadeiro quanto o nosso? As situações ali experimentadas, tão incrivelmente vívidas, tão marcantes, capazes de fazer nosso emocional rodopiar ao ponto de acordarmos seja em êxtase, seja em pavor... Seria um desperdício aquilo tudo ser apenas uma traquinagem de nossa mente, essa poderosa caixinha de armadilhas. Vibrante até mesmo quando nos assusta, pensemos no mundo dos sonhos como um mundo tão concreto quanto o nosso; que aquilo que sonhamos não seja um sonho, mas a vida de um outro alguém, a nós ligados, que leva sua existência em um mundo onde a Beleza é a Rainha de tudo e o Tempo fica caindo bêbado pelos cantos, tropeçando; esse mundo tem cores que nunca existirão no nosso, velocidades impossíveis de imaginar, cidades que parecem com as nossas cidades mas que mesclam todas em uma só - ora é como se fosse uma rua do centro de São Paulo, depois você sobe e é como se fosse a Recoleta, mais adiante parece a Vila Mariana e olhando ao redor já estamos em um parque de Amsterdã. E mesmo essas referências todas são apenas aproximações bastante inexatas, pois o que temos sempre nos sonhos é uma reprodução de dados captados pelo nosso aparato racional misturados em uma coqueteleira com bastante DMT e devaneios surrealistas, que fazem de repente a Avenida Paulista terminar em um deserto e colocar você e seu melhor amigo em cima de um camelo, vestidos como mercadores de Stygia acompanhando uma distante caravana e fazendo planos para um ataque de pura carnificina contra ela, e com tudo isso ao fundo rolando um som que parecia uma espécie de cumbia setentista - um mundo tão maravilhoso quanto esse, pensemos que ele sim existe de fato, que nada desses sonhos são fugazes construções do cérebro que um cientista chato um dia vai explicar que são reações químicas do lóbulo central e zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz. Ignoremos a ciência, ela só vai nos atrapalhar aqui. Vamos seguir nessa estranha estrada lovecraftiana que nos leva a concluir que o mundo dos sonhos é, na verdade, uma vida tão real quanto a nossa, vivida por um outro ser que é como se fossemos nós só que naquele "lado de lá", esse não-lugar que é o Mundo Onírico onde tudo é possível, até mesmo transar depravadamente no meio da rua com aquela pessoa que você nem sabe como começar uma conversa a respeito de um simples jantar, quem dirá de uma foda bem feita. 

Mas se quando dormimos o nosso sonho é a vida de um outro alguém, não é exagerada a hipótese de que a nossa vida aqui também é um sonho para quem está em outro lugar. Exatamente: isso que você está fazendo agora, lendo esse texto que escrevi; o meu próprio ato de aqui estar sentado, escrevendo esse texto, no coração da Vila Buarque no centro da cidade de São Paulo em plena madrugada do dia 11 de abril de 2020 durante a quarentena do Covid-19, tudo isso é o sonho de alguém que dorme no mundo que é onde vou quando eu estou dormindo. Aquele mundo para nós absurdo, onde passamos por situações típicas das obras de Dali, é a realidade de um outro Eu que agora dorme e me sonha aqui escrevendo sobre o mundo dele. Um parafuso de piração: essa é uma expressão bastante feliz para nomear esse vácuo no espaço-tempo onde a consciência de que não sou como imaginava, mas sou sonhado por alguém que sou enquanto sonho. Objeto ou sujeito deixam de ser conceitos válidos para se tornarem um conjunto de letrinhas em ordem, uma depois da outra, vazias daquilo que chamamos de significado. 

Se isto que chamo de realidade é o sonho de um outro, e o que chamo de sonho é a realidade daquele que me sonha, seria para este desconhecido o seu sonho (a minha realidade) tão absurdo quanto o meu sonho (a realidade dele) é para mim? Da mesma forma como relembro com sensação de absurdo o sonho onde a avenida Paulista terminava em um enorme deserto onde eu e meu amigo perseguíamos uma caravana de camelos, esse que me sonha em algum lugar deve contar para seus amigos mais ou menos assim a minha vida aqui:

"Nossa, hoje eu sonhei de novo aquele sonho que havia falado para vocês ontem, quando estávamos voltando da Bolha de Éter pela estrada de açúcar mascavo em cima dos flamingos verdes que tinham patas de mastim russo [nota do editor: aqui considere o leitor como um exemplo apenas de uma realidade possível para aqueles que nos sonham, e que são descritas com tanta naturalidade quanto nós falamos uns aos outros sobre engarrafamentos, contas a pagar, etc]. Eu morava em uma casa onde todos os cômodos ficavam sempre nos mesmos lugares: todos os dias eu acordava e o banheiro ficava no banheiro, a cozinha na cozinha, etc. Nem a privada mudava de lugar, ou de cor. Os objetos eram sempre os mesmos, e sempre nos mesmos lugares. É até difícil descrever isso, mas as roupas que ficavam no guarda-roupa também eram as mesmas, mesmo que você abrisse e fechasse as portas inúmeras vezes; e depois que você as usava, elas tinham que passar por um processo chamado "lavar", que consistia em pegar água e um negócio que quando misturado com ela fazia espuma; você colocava as roupas usadas dentro de uma caixa grande e dura, com uma tampa, e lá dentro se enchia de água e do negócio que fazia espuma. Depois de um tempo, tirava a roupa de lá e deixava pendurada, em geral num lugar aberto onde o Sol podia iluminar. Ah, o Sol todo dia também aparecia do mesmo lado, e na mesma hora, e eles tinham no céu apenas uma Lua, que também sempre aparecia mais ou menos no mesmo horário todos os dias. E todos os dias também eu ia sempre pro mesmo lugar, no mesmo horário, fazer a  mesma coisa, e isso se chamava "trabalhar": não deu tempo de entender muito bem o que era exatamente isso, mas pelo que pude entender era tipo uma troca, onde você dava um pouco de sua vida e recebia por isso uns papéis. Não só eu, mas todos faziam isso. Não parecia ser uma troca muito justa. Você via as pessoas ficando muito fracas nessa troca, perdendo a força, mas elas continuavam fazendo isso porque sem os papéis não tinha como fazer quase nada. Não me recordo muito bem, mas esses papéis serviam para trocar por outras coisas, até mesmo por comida - bizarramente, comer era algo que tinha que fazer todo dia. E ao invés de simplesmente comer o que se queria, comia-se o que se podia trocar pelos papéis que haviam sido trocados pela vida. E como o ato de comer era algo necessário para se ter vida, eles precisavam sempre trabalhar para trocar por papéis e com isso comprar mais comida; assim eles ficavam perpetuamente em um ciclo de trocar vida por papéis e papéis por comida para então ter vida e assim trocar por novos papéis, e sempre perdendo algo nisso tudo. Não fazia nenhum sentido, mas todo mundo fazia igual. Até mesmo transar era estranho, tipo por mais que todos tivessem a possibilidade de transar com quantas pessoas pudessem, eles faziam isso em 99% dos casos em duplas, e quase sempre dentro das casas imutáveis onde moravam, ou em outros lugares, mas sempre meio que escondidos, mas não entendi por que tinham que fazer longe dos olhos dos outros. E fica ainda mais esquisito: era sempre a mesma dupla. Tinha gente que estava há anos transando sempre com a mesma pessoa, alguns você via claramente que era sem nenhuma vontade, mas por algo que eles chamavam de compromisso, que é o que ligava as pessoas em duplas por tanto, tanto tempo. Imagina isso, transar só com pessoas conhecidas e apenas com uma única pessoa, por anos sem fim. Enfim, era tudo muito diferente, tudo muito sempre igual e padronizado; e mesmo assim, com a repetição tendendo ao infinito, tinha uma coisa que fazia com que essa padronização fosse suportada; e embora fosse algo muito, muito raro de acontecer, tinha um poder imenso, e causava um alvoroço tão grande por onde passava que até fazia aquele mundo cinza e pragmático, carregado de repetição, se tornar um lugar tão mágico quanto a nossa realidade;  não era ao ponto de fazer os cômodos das casas mudarem de disposição como na vida real [nota do editor: aqui o leitor tem que lembrar de levar em consideração que a perspectiva é a do indivíduo que do seu mundo nos sonha aqui, mundo esse onde o absurdo é a norma], mas era algo que mudava as pessoas, fazendo-as até ficarem mais bonitas e com vontade de usar coisas que as deixavam mais cheirosas - olha que louco, elas tinham que passar coisas nelas para ficarem cheirando bem! Quando esse algo as acometia, era mais ou menos como um tipo de doença: sentiam calafrios pelo corpo, que inclusive chegava a ficar mais quente, os pensamentos se tornavam aéreos, e um intenso desejo de transar o tempo todo com uma pessoa específica, de ver essa pessoa toda hora, de tocá-la, de sair com ela para comer e de várias outras coisas estranhas que faziam lá naquele sonho; essa reviravolta que direcionava toda a atenção de uma pessoa para outra tinha chances de não ser recíproco, isto é, nem sempre a atenção dedicada vinha de volta, o que causava naquele que direcionava a atenção algo chamado de tristeza. Alguns até passavam a vida toda tristes, decorrentes dessa falta de reciprocidade - esses em geral compensavam trabalhando mais e trocando a vida por mais papeis até que não sobrasse mais vida nenhuma. Mas quando essa atenção ia e voltava, eles experimentavam um negócio chamado felicidade, que os fazia sorrir quase o tempo todo. Alguns sorriam tanto que até choravam de tanto sorrir. E quando a coisa chegava nesse nível, isto é, quando a felicidade era tamanha a ponto de você chorar ou quando ela era tão grande que transbordava como um beijo louco acompanhando uma foda intensamente suada como se não houvesse o amanhã, então aí tínhamos algo que eles chamavam de amor em sua forma mais primeva e maravilhosa, que era o sentimento de ter a pessoa por perto, de admirá-la como uma espécie de divindade e, ao mesmo tempo, de ter vontade de fodê-la e gozar juntos até não poder mais. Isso era algo raríssimo de acontecer, e não consigo pensar em nada parecido no nosso mundo que se assemelhe àquilo."

Penso que seria assim que nos descreveria aquele que nos sonha enquanto estamos aqui, no nosso mundo real. Espantado diante de nossas repetições e trivialidades, sem entender a lógica racional que permeia nossos atos, as limitações da geometria euclidiana e as incontornáveis leis da física, elementos que não existem em seu mundo sempre aberto ao Fantástico. Talvez apenas os destemperados atos dos apaixonados, seus erros e acertos, suas lágrimas e gozos, despertariam neles alguma nível de atenção e, quem sabe, uma pontinha de inveja. É um lugar comum absolutamente banal chegar na conclusão desse texto, onde explorei essa ideia amalucada do sonho como real e do real como sonho, que o amor seria a única coisa digna em nosso cotidiano acinzentado. Há muitas outras coisas dignas no nosso mundo, e que merecem todo nosso apreço e atenção - mas parece que sem a experiência de ter e ser amado, e vivenciar essa experiência da forma mais extrema possível, envolto em explosões de afeto e cuidado e prazer, sem isso seríamos vistos por aqueles que nos sonham como seres desinteressantes, trocando nossas vidas por papéis e morando em casas cujos cômodos imutáveis reproduzem a monotonia que molda nosso Destino.