7.29.2010
Trecho de Fim de partida, do Beckett
Na última promoção do site da Cosac Naify comprei , entre outros, dois livros do Beckett que conheci nas aulas de Correntes Críticas da FFLCH (aliás, um dos mais interessantes cursos do Departamento de Literatura Comparada, por promover o debate de obras/escolas modernas). Esses livros são Esperando Godot e Fim de partida, textos escritos após a Segunda Guerra Mundial e que retratam o destroçado ambiente mental e social dos anos seguintes ao conflito. Não é por acaso que os personagens são todos corrompidos, deformados, aleijados. Beckett não parece fazer concessões.
6.26.2010
Renovação
6.15.2010
Carta número 1
A pior companhia que posso ter sou eu mesmo. Chafurdo na mediocridade como um porco na lama; feliz, lambuzado de todas as podridões que hipocritamente execro, torno-me lentamente um distorcido reflexo da autoimagem enganosa que tenho de mim. Projeto sonhos futuros feitos de uma matéria completamente ridícula. Construo uma casa, uma família e uma esposa ideais: nessa ilusão gosto de me demorar entre os compromissos cotidianos (imaginar a própria vida é o primeiro sintoma de que se odeia a própria vida). Então me vejo em uma ampla morada, uma arejada casa burguesa, com seu mobiliário estúpido, seus quadros estúpidos, seu cachorro de estimação estúpido; ainda não tenho filhos nessa vida imaginada e minha esposa é perfeita com um grande rabo, pernas torneadas e fome de puta. Ao mesmo tempo é completamente apaixonada e nada tem na vida a não ser a mim, o centro de seu sistema solar, o astro ao redor do qual ela orbita com a consciência de uma imbecil. Tenho dinheiro suficiente para viagens internacionais duas vezes ao ano, jantares nos restaurantes da Serra e caprichos outros dos quais as pessoas em geral se valem para gastar sem pensar muito. Tudo que foi relatado é um resumo aporcalhado dos pensamentos que eu desenvolvo até os detalhes: é assim que gasto as minhas horas, construindo mentiras.
5.28.2010
Malditos porteños! - a nova série da UGRA

Não conheço o tanto que eu gostaria, pelo menos por enquanto, mas me aventurei com a UGRA PRESS em uma insólita armadilha: escrever sobre escritores boanarenses que foram relegados a um segundo plano pela crítica ou ofereçam ao leitor mais do que amenidades.
A idéia surgiu de forma espontânea. Desde há quase dois anos tenho lido mais e mais da literatura em língua espanhola, especialmente aquela feita por escritores de Buenos Aires, ou que tenham tido algum tipo de ligação com o clima cultural peculiar da região do Rio da Prata. Literatura tão instigante quanto diversa, essas leituras tem me proporcionado não apenas um rico prazer estético quanto reflexões profundas sobre os homens e, especialmente, sobre que droga de papel a América Latina representa para o mundo de hoje, e o que é escrever/pensar sobre literatura nessa região do planeta, amiúde tratada como quintal para experimentações políticas autoritárias, celeiro do mundo ou paraíso do turismo sexual.
Demos um nome para essa série de escritos: Malditos porteños! é esse nome, e que você morra de câncer se achou que estamos nos filiando ao estúpido nhém-nhém-nhém brasileiro que insiste em tirar sarro de argentinos, em uma espécie de bairrismo sem razão de ser. Esse "maldito" é aplicado no sentido de que terão espaço nessa coluna aqueles nomes incômodos, que não figuram nos best-sellers, que não compõe o panteão dos artistas que juntos definem os limites do bom-gosto. Não que eles não devam ser lidos e, inclusive, debatidos. Mas preferimos nos ater àqueles que espalharam através de seus escritos algo mais do que suspiros emocionados.
O primeiro maldito porteño é um dos meus prediletos, o Roberto Arlt. Deixo-vos, agora, com o link para o post que escrevi para a UGRA, na tentativa de captar sua atenção e distraí-lo do fato que quase não escrevo mais por aqui.
http://ugrapress.wordpress
5.17.2010
Resultado de um dia inteiro dentro de casa, tomando remédios
Um domingo é um dia de tédio, e ele se torna pior quando, após um sábado apetitoso, você acorda com a garganta arranhando e dores espalhadas pelo corpo como se um caminhão de toneladas tivesse te atropelado.
Foi isso o que aconteceu comigo esse final de semana.
Reconheço: dizer tais coisas é vazio e minha vida não é interessante. Aliás, nenhuma vida é, quando vista de muito perto. A admiração se conquista com a distância. A proximidade é boa quando desejamos conquistar sexo ou prêmios mais ordinários, mas em geral ela destrói mais do que edifica. Comigo tem sido assim, mas reconheço que a culpa é mais minha do que da proximidade. Então, não direi mais nada a não ser que tomei duas doses de Tylenol de uma vez, ou seja, quatro comprimidos ao invés de dois. Experimente você também, se você gosta de ver tudo dobrado, como se o seu astigmatismo quadruplicasse em questão de minutos.
Como já falei em outros posts, estou com um projeto chamado UGRA PRESS. Nesse último sábado trabalhamos em nosso segundo vídeo. O primeiro ilustrou o post Queime sua própria igreja. Esse novo vídeo já terá um conceito diferente, contará com personagens, cenários, etc. Gravaremos na semana que vem, após o almoço dominical. Espero que eu sobreviva até lá, não porque eu ache que vou morrer de uma gripe, mas porque gosto do sabor trágico de imaginar que, sempre, tudo está prestes a ruir e se transformar em pó.
Possivelmente, esse vídeo ficará pronto em duas semanas. Até lá, eu tenho planos de colocar aqui o Canto II da Narrativa Mitológica de Curitiba, continuar minha leitura de Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister e começar Cien Años de Soledad (sim, é uma vergonha não tê-lo lido ainda). Aliás, há muitos livros que nunca li e que juntos compõe um buraco em minha formação, como uma nuvem de vergonha a me acompanhar para onde quer que eu vá. E apesar de em partes concordar com Nick Hornby nesse artigo, não me sinto confortável em ver a literatura apenas como entretenimento, como algo que é feito para passar o tempo. Talvez seja uma visão demasiado carrancuda do ato de ler; mas quando vejo aquele discurso de que qualquer atividade só é válida quando nos garante "prazer", em geral esse dito prazer é apresentado como algo próximo da fanfarronice. Não preciso dizer o quanto isso me desagrada e o quanto isso se distancia da minha forma de enxergar as coisas do mundo -que se não precisam ser sempre sérias, igualmente não precisam nos fazer rir para serem importantes. Há muito mais que essa febre de hedonismo que guia a todos os corações atualmente.
Foi isso o que aconteceu comigo esse final de semana.
Reconheço: dizer tais coisas é vazio e minha vida não é interessante. Aliás, nenhuma vida é, quando vista de muito perto. A admiração se conquista com a distância. A proximidade é boa quando desejamos conquistar sexo ou prêmios mais ordinários, mas em geral ela destrói mais do que edifica. Comigo tem sido assim, mas reconheço que a culpa é mais minha do que da proximidade. Então, não direi mais nada a não ser que tomei duas doses de Tylenol de uma vez, ou seja, quatro comprimidos ao invés de dois. Experimente você também, se você gosta de ver tudo dobrado, como se o seu astigmatismo quadruplicasse em questão de minutos.
Como já falei em outros posts, estou com um projeto chamado UGRA PRESS. Nesse último sábado trabalhamos em nosso segundo vídeo. O primeiro ilustrou o post Queime sua própria igreja. Esse novo vídeo já terá um conceito diferente, contará com personagens, cenários, etc. Gravaremos na semana que vem, após o almoço dominical. Espero que eu sobreviva até lá, não porque eu ache que vou morrer de uma gripe, mas porque gosto do sabor trágico de imaginar que, sempre, tudo está prestes a ruir e se transformar em pó.
Possivelmente, esse vídeo ficará pronto em duas semanas. Até lá, eu tenho planos de colocar aqui o Canto II da Narrativa Mitológica de Curitiba, continuar minha leitura de Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister e começar Cien Años de Soledad (sim, é uma vergonha não tê-lo lido ainda). Aliás, há muitos livros que nunca li e que juntos compõe um buraco em minha formação, como uma nuvem de vergonha a me acompanhar para onde quer que eu vá. E apesar de em partes concordar com Nick Hornby nesse artigo, não me sinto confortável em ver a literatura apenas como entretenimento, como algo que é feito para passar o tempo. Talvez seja uma visão demasiado carrancuda do ato de ler; mas quando vejo aquele discurso de que qualquer atividade só é válida quando nos garante "prazer", em geral esse dito prazer é apresentado como algo próximo da fanfarronice. Não preciso dizer o quanto isso me desagrada e o quanto isso se distancia da minha forma de enxergar as coisas do mundo -que se não precisam ser sempre sérias, igualmente não precisam nos fazer rir para serem importantes. Há muito mais que essa febre de hedonismo que guia a todos os corações atualmente.
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