8.10.2016

O Renascer da Magia, de Kenneth Grant



O texto a seguir nasceu de apontamentos da leitura de "O renascer da magia", de Kenneth Grant, obra que inicia as Trilogias Tifonianas e apresenta de modo sintético as idéias que serão desenvolvidas, com pormenores, nas demais obras da série. Originalmente publicado em 1972, a minha edição é a lançada pela Penumbra Livros em 2015 - que por sinal é uma edição muito boa de capa dura e, cuidadosas notas adicionais que jogam luz em passagens que, se literalmente traduzidas, perderiam o sentido original do texto em inglês (Kenneth Grant usa e abusa de aliterações e jogos de palavras em todo o livro) e 16 lâminas coloridas com fotos e ilustrações de Aleister Crowley e Austin Osman Spare, figuras centrais do livro. Não sei dizer se essas lâminas estão presentes na edição original, mas com certeza fazem deste lançamento da Penumbra algo bastante especial. As indicações de páginas presentes nesse post referem-se a essa edição.

De modo extremamente resumido, pode-se dizer que "O renascer da magia" pretende, através de uma espécie de história das idéias mágicas, estabelecer o vínculo existente entre o sistema crowleyneano e o culto a Shaitan, cuja origem se perde nos aeons passados e remonta a períodos incrivelmente longínquos, anteriores mesmo aos acádios e sumérios. Esse culto antiquíssimo originou, milênios mais tarde, o culto egípcio a Set, onde a invocação preliminar da Goétia do Rei Salomão tem sua origem e, através desta, a Goétia medieval. Crowley e Thelema representam, portanto, o renascimento de uma corrente mágica tão (ou mais) antiga que a própria humanidade.

Esse renascimento ocorreu, segundo Crowley, em 1904, na assim chamada Operação do Cairo. Durante os dias 8 a 10 de abril daquele ano, entre o meio-dia e uma hora da tarde, o Sacerdote e Escriba dos Príncipes Ankh-af-na-Khonsu (o Sagrado Anjo Guardião de Crowley) recebeu da entidade praeter-humana Aiwass os três capítulos que resumem o Liber Al Vel Legis, iniciando assim uma corrente oculta de magnitude cósmica que seguiu ao equinócio dos deuses e o fim da castradora Era de Peixes. A operação do Cairo é o marco do advento da Era de Aquário e o resgate da liberdade e da sexualidade mágicas.

Os símbolos das divindades empregados por Crowley ao se referir a esse renascimento são praticamente todos do panteão egípcio. O sistema thelêmico tem como essência a ação recíproca e equilibrada entre "o puxão demoníaco para baixo e ascensão espiritual", utilizando majoritariamente métodos de Mão Esquerda e, talvez por isso mesmo, promoveu a subversão de todos os sistemas mágickos, preparando o terreno para o sucumbir de todas as verdades cristalizadas. Por tal razão, embora os termos egípcios prevaleçam, o uso dessas formas-deus tem relação direta com a filiação draco-tifoniana que se pretendia dar a Thelema, mesmo sabendo que essas forças ancestrais tenham assumido muitos e diferentes nomes ao longo dos aeons e culturas. Dentre os nomes recorrentes em todo o livro estão:

Nuit: a consciência e subjetividade absolutas. A imensidão do cosmo, infinito, noite sem fim, nada absoluto, ausência de pensamento;

Hadit: é a manifestação da consciência, a objetividade concreta, o impulso criador. Seus símbolos são o falo e a Besta;

Ra-Hoor-Khuit: o reflexo de Hadit na forma do universo objetivo. Filho de Hadit e Nuit;

Babalon: Lua, Mulher Escarlate, a escuridão da matéria, o mênstruo lunar, fertilidade;

Hoor-paar-kraat (Hipócrates ou Harpócrates): Aiwazz, Set;

Aeon: palavras com diversos sentidos em todo o livro. Significa ciclo de tempo (sempre muito longo) e também é nome do deus fálico-solar dos illuminati. É empregado intercambiavelmente com Abrasax, divindade com corpo de serpente e cabeça de leão dos gnósticos, e também com Harpócrates. De Abrasax se desenvolveu a palavra ABRAHADABRA, que resume todos esses conceitos.

Esses nomes simbolizam forças e tendências que no aeon atual – o Aeon de Hórus – atuarão como pólos restauradores das antigas tradições sumérias. Desses nomes, o principal é Set:

“No aeon anterior (de Osíris), Set ou Satã era considerado maligno, pois a natureza do Desejo era mal compreendida; ele era identificado com o diabo e o mal moral. No entanto, este diabo, Satã, é a verdadeira fórmula da iniciação. Chamado de maligno para esconder sua santidade, é o desejo que incita o homem a conhecer a si próprio – através de outrem (ou seja, através de seu próprio duplo ou “diable”). Quando a necessidade é voltada para dentro ao invés de para fora, como normalmente ocorre, o ego morre e o universo objetivo se dissolve. À luz dessa iluminação, a realidade, a gnose, é tudo o que resta” (página 26)

Kenneth Grant
Set, Shaitan, Satã: nomes diferentes, mesmo significado ancestral. Sua raiz etimológica remonta ao simbolismo – antiquíssimo, perdido nas umbras da pré-história e do mito – do número 7. Os cálculos mais antigos do tempo não eram baseados no tempo solar, mas sim na movimentação das estrelas e especialmente a revolução da serpente (Draco ou Nuit) em torno da Canícula (Hadit). Set, a estrela de Sothis, é o nome do número sete, número de Sevekh ou Vênus, que muito mais tarde se transformou no correspondente planetário dos conceitos estelares originais. A estrela de sete raios de Babalon se filia a essa mesma simbologia, assim como a Besta de Sete Cabeças (as setes estrelas da Ursa Maior). Nota-se que essas luzes não eram nem o Sol nem a Lua, mas conceitos estelares anteriores. Set e Hórus, antes considerados como poderes iguais brigando pela supremacia das águas do espaço, começaram a se tornar cada vez mais dissociados entre si, conforme ocorria a migração dos homens rumo ao norte africano. Antes cíclico, o poder entre os deuses pendeu para Hórus, como supremo e ressurgente Sol/Filho da Mãe (Nuit) enquanto Set ficou abaixo da linha do horizonte como senhor dos Infernos. Os deuses gêmeos se atomizaram em aspectos excludentes, com a “vitória” de Hórus. Set, considerado no Sul o deus do Verão, com a migração dos povos ao norte associa-se ao inverno e transforma-se em sinônimo de escuridão e morte. Passa-se de uma concepção de tempo estelar para uma solar-lunar que, posteriormente, com a descoberta de que o brilho da Lua provinha na verdade do Sol, foi aniquilada, com a preponderância desse último. Assim, a Lua foi degradada e ignorada como as estrelas anteriormente, e anatemizada como um repositório de forças malignas e incontroláveis. No Livro dos Mortos, Set é descrito como tendo um rosto avermelhado; tal característica o fila ao sangue menstrual e lunar como fonte de criação. Nuit diz que a cor de Set “é negra para o cego, mas azul e ouro são vistos pelo vidente” (azul é a cor de Júpiter, ouro se relaciona com o Sol). Os cultos solares – neles incluídos o cristianismo – atribuem ao lado negro das forças espirituais uma coleção infinita de simbologias negativas, como forma de instigar o medo e impedir que os homens tenham acesso ao saber que dali emana. Mais de uma cultura já retratou isso em suas mitologias: que um conhecimento vasto, antigo e superior se encontra interdito aos homens comuns, protegido pelos mais mortíferos perigos. Esses perigos advém de fontes distintas, sendo que uma delas é a pesada carga simbólica que os cultos dos deuses ressuscitados, alimentada por milênios de culpa e preces motivadas por pensamentos amedrontados, reuniu ao redor de si: um amontoado de forças malignas e seres de baixa frequência que arrastam os homens aos seus labirintos de agonia. O pentagrama invertido de Set-Shaitan, cuja ponta para baixo indica o Sul – sua morada ancestral no solstício de inverno – é o símbolo do Grande Iniciador, daquele que promove o acesso ao conhecimento oculto que, vencidos os perigos que o circundam, permite ao homens realizar sua essência divina.

A realização da centelha divina passa, portanto, pela iniciação, experiência transfiguradora que desperta as potencialidades silenciadas no homem. J. W. Parsons, citado por Grant, é brilhante na explicação de seu significado:

“Para ir fundo é necessário rejeitar cada fenômeno, cada iluminação, cada êxtase, indo sempre para baixo, até chegar aos últimos avatares dos símbolos que também são os arquétipos raciais: neste sacrifício aos deuses abismais está a apoteose que os transmuta em beleza e no poder que é a sua eternidade, e na redenção da espécie humana. Neurose e iniciação são a mesma coisa, exceto que a neurose não prossegue além da apoteose, e as forças tremendas que moldam toda a vida estão conquistadas – curto-circuitadas e feitas venenosas. A psicanálise transforma os falsos símbolos do ego e os exterioriza em falsos símbolos sociais; é uma confusão de conformidade e cura em termos de comportamento de grupo. Mas a iniciação deve prosseguir até que a barreira seja ultrapassada, até que os nebulosos bastiões dos infantis Trawenfells se tornem as rochas e penhascos da eternidade” (52)

Iniciação como experiência radical para além de toda segurança emocional/social/pessoal. Experiência limite, apaga as fronteiras entre o eu e o outro, não para nos arremessar em uma amorfa comunhão hippie com o cosmo, mas para evidenciar que não somos nem Isso nem Aquilo mas um elemento antigo e novo ao mesmo tempo, imutável e também em constante transformação. Dos destroços da Personalidade Tirânica criada pela demência demiúrgica brota, através da iniciação, a Vontade Única que eleva os iniciado a um patamar onde começa a caminhada para o além-do-humano. Dentro da esfera de influência das religiões dos deuses ressuscitados (Osíris, Jesus, Odin, etc) não há formas de se alcançar tal nível de evolução espiritual. As religiões do Livro são as piores nesse sentido: castradoras em sua essência, condenam a sexualidade e maculam a mulher como um poço de desejos irracionais e animalescos, colocando uma interdição fundamental ao maior dos portais para a prática mágica e realização do divino – o sexo.

detalhe de uma das lâminas do livro, na edição da Penumbra

Convém agora falarmos um pouco sobre a figura feminina e seu papel no sistema mágicko de Crowley. Como dito anteriormente, a Era de Aquário representa a restauração da liberdade e da sexualidade mágickas, perdida aeons atrás, e objeto de interdição pelas religiões dos deuses ressuscitados. Nesse contexto, a mulher tem um especial valor, como repositória da voluptuosidade potencialmente mágicka. O símbolo da Mulher Escarlate é marcante nesse contexto. Segundo Crowley, determinadas características indicam na mulher a aptidão para a prática mágicka, tanto físicas (formas avantajadas, olhos brilhantes, cabelos volumosos) como morais (comportamento libertino e independente). Nas palavras de Crowley:

“Como a Mulher Escarlate, cavalgando a Besta, está indo, bebendo o sangue vital dos santos; adúltera; senhora da mudança, da energia, da vida; enquanto a “mulher modesta”, “Maria inviolada”, é fechada, estagnante; impotência e morte (...) Assim a mulher modesta, a mãe, é para mim um símbolo da derrota e da morte; a mulher escarlate que cavalga a grande besta selvagem, que drena o sangue dos santos em sua taça, que é adúltera, que exige a mudança, é a vitória e a vida”

A mulher liberada e dona do próprio prazer aproxima-se do conceito da prostituta, entendida aqui como veículo da lascívia que, canalizada magickamente, proporciona transformações na consciência e gnose espiritual. Entretanto, tal conceito também tem uma outra acepção, que vincula a prostituta com a magia negra e a feitiçaria envolvendo entidades como Equidna, Melusina, Lâmia e certos aspectos destrutivos e viciosos de Kali e Kundry. Nessa rubrica, a prostituta se configura como portal para um tipo de lascívia exclusivamente carnal e estéril. O sexo, portanto, é uma via de acesso poderosa, mas também perigosa, onde o magista deve aprender a canalizar sua vontade para além do Desejo, sublimando-o (o Caminho da Mão Esquerda é sempre assim: iluminação poderosa, mas que se conquista através de provações extremas). É essa sublimação que Austin Osman Spare alude ao dizer: “Ao desvincular-se de concepção a crença e o sêmen, estes se tornam simples e cósmicos”. Somente quando se torna cósmico o êxtase, que caracteriza Kia, é capaz de despertar a consciência individual; nesse ponto não se trata mais de consciência personalizada (e por isso limitada) mas sim cósmica e livre para desfrutar-se eternamente. O desejo deve abraçar tudo, até esquecer a si mesmo e tornar-se nada.

É por isso que na busca spareana de “insaciedade de desejo, autoindulgência valente e sexualismo primevo”, a figura da bruxa é colocada de modo bastante, digamos, interessante: para Spare a bruxa precisa necessariamente ser “mundana e libidinosamente entendida” mas também “tão sexualmente atraente quanto um cadáver”. Justamente por suas características abomináveis, ela se torna o veículo completo da consumação, destruindo toda e qualquer cultura estética pessoal, tornando a mente e o desejo amorais, liberando o sexo do desejo mundo e o ego de suas prisões demiúrgicas. Nesse sentido, Spare se distancia de Crowley na forma de sublimação do desejo.


4.09.2016

Nexion 913 - Vendendo o Sinistro


Estou acostumado a ver a Magia e, especialmente, as tradições ligadas ao Caminho da Mão Esquerda como uma cultura onde noções como superioridade, elitismo, misantropia e auto-superação estão sempre presentes. É uma senda "para os fortes", para os que ousam sair dos caminhos da Luz Demiúrgica - claridade que cega o espírito e o mantém em uma imbecilizante passividade vampírica - e adentrar o campo aberto das Trevas - onde, alquimicamente, nasce o Sol mais brilhante do que todos os sóis.

Justamente por ser um caminho "para os fortes", será um caminho para poucos. Somos uma espécie que preza pelo comodismo em todos os aspectos, não é difícil concluir e aceitar, sem grandes dramas, que as coisas são e serão assim para a maioria. Soma-se a isso que os materiais de estudo de tais tradições sinistras são ou difíceis (alguns, mesmo impossíveis) de serem encontrados ou, quando os encontramos, tem preços inacreditáveis. Os melhores exemplos são os livros da editora finlandesa Ixaxaar, cujas edições básicas ficam na faixa dos 50 euros (sem frete), o que já é bem caro mesmo para os padrões de consumo europeus; e como as edições da Ixaxaar são sempre limitadíssimas, alguns de seus títulos esgotados são vendidos a pequenas fortunas no eBay. Para se ter uma idéia, o livro de Sitra Achra (veja uma resenha dele) está sendo oferecido hoje, enquanto escrevo esse post, por R$ 31.745,33 nesse link aqui.  Nem é preciso dizer que isso, fatalmente, impede o acesso dessa literatura a muitos.

Foi com o propósito de corroer o comercialismo que domina o mercado editorial de magia de Mão Esquerda que surgiu a  Nexion 213 https://nexion913.wordpress.com. Colocando dezenas de materiais para donwload gratuito (lista aqui), o site tem sido alvo de críticas avassaladoras em fóruns e redes sociais nos últimos dias.  Resolvi traduzir - de modo livre e bastante irregular, já alerto - o texto "Vendendo o Sinistro", que é onde a visão crítica do fundador da Nexion 213 sobre o comercialismo  fica mais clara. Eu não sei até que ponto concordo com exatamente 100% dos pontos de vista que ele defende, especialmente quando ele coloca, taxativo, que qualquer Ordem que venda seus materiais e não os publique gratuitamente deve ser combatida. Isso me parece bastante excessivo, pois escrever, editar, contatar gráficas, editoras, etc não se faz sem o emprego de uma boa parcela de tempo e energia, e muitas pessoas vivem, exclusivamente, de seu esforço como escritor. Não deveriam ser recompensados por isso? 

Apesar dos excessos, a visão dele sobre o Sinistro faz uma interessante cópula com um sentimento anti-capitalista cheio de fúria, levando o leitor a refletir se discurso sobre elitismo e força, próprios do caminho da Mão Esquerda, contaminou-se com o comercialismo barato que infecta cada partícula da vida em Kali-Yuga,

Vamos ao texto.

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Vendendo o Sinistro

Ao longo dos últimos dias tem havido algo em minha mente que pertence a fenômenos para os quais eu cunhei a frase "Vender o Sinistro". Ter instigado algumas pequenas discussões nas redes sociais, várias vozes têm surgido que apoiaram minhas opiniões e outras que os atacaram, e alguns outros poucos tentando distorcer as minhas opiniões. As respostas que minhas declarações iniciais receberam são diversificadas o suficiente para que eu sinta ser necessária uma declaração oficial, antes que a conversa recaia caia em um diz-que-me-disse que é típico das redes sociais. Em última análise, independentemente de como os outros no Kollectivo pensam sobre esta questão, a posição 913 deve postada aqui, se não por outra razão, a não ser para estabelecer e documentar a minha linha original de pensamento em um ambiente livre de fraudes que só querem publicidade, na tentativa de distorcer a minha posição filosófica real. Vamos deixar a Posição 913 ser exposta de maneira absolutamente clara.

"Tradições satânicas, esotéricas e ocultistas de todos os tipos devem permanecer Open-Source e wetware, ou seja, livre de encargos, limitações próprias, limitações de produção e de distribuição, e disponível para serem livremente alteradas para usos específicos, únicos e diversos, além dos limites de quaisquer sistemas legais de qualquer Estado-nação, além de quaisquer sistemas monetários, além de quaisquer direitos autorais e corporações e, certamente, para além de quaisquer pessoas egoístas que desejam fazer com que qualquer tradição esotérica seja não-livre, mantida sob direitos autorais e marcas patenteadas, monopolizando o Sinistro a fim de satisfazer o seu ego, ou para seu próprio lucro monetário pessoal."- Nexion 913

Como já afirmei em outro lugar, colocarei a minha dignidade pessoal de lado por enquanto, não por causa de vergonha, mas no contexto de que vou me isolar e revelar-me como um exemplo, e direi abertamente que sou pobre, inicialmente devido à minha origem e circunstância e, na idade adulta, por uma opção de recusar em entrar no esquema da escravidão Magian e da infraestrutura econômica.

É realmente uma merda querer estudar ou desfrutar de um novo livro ou álbum lançado pelo Kollectivo, mas a única maneira de obtê-lo é através de mendigar, aço, corte, ou com parte do dinheiro das contas, da gasolina ou das compras do mês. Eu adoraria possuir as obras impressas completas da Ordem dos Nove Ângulos (ONA), a biblioteca do Temple of the Black Light (TOTBL), mas isso custaria milhares de dólares, que eu não tenho e nem mesmo quero ter em nenhum momento.

Muitas vezes, aqueles que afirmam ser anti-sistema estão emulando diretamente e apoiando o complexo econômico-industrial com os seus "trabalhos sinistros”, colocando suas obras no esquema do sistema monetário, o que limita seus trabalhos para aqueles que estão dispostos e capazes de pagar em dinheiro para a honra de ver ou ouvi-los...

Nexion 913 toma como preceito liberar nossas publicações em formatos PDF e impressos, o que significa que tudo que nós vendemos também é totalmente gratuito em formato digital. Por que isso não pode ser um padrão do Kollectivo?

Se todos são ricos o suficiente para pagar 20, 30 ou 50 dólares em cada livro ou um álbum que deseja, bom para quem pode. Muitos de nós não somos. Pare de fazer da ONA, THEM,TOTBL e outros a porra de uma livraria, e concentre-se na luta contra ordem e abstração magian e demiúrgica. Deixe o seu material disponível em formatos digitais gratuitos. Se o seu nexion não deixará, você deixou mais do que claro qual é o seu verdadeiro propósito...

Eu sou um escravo da indústria americana, nascido no mais branco dos trailers park rednecks. Eu cresci com um bando de crianças em situações semelhantes, e fazia "o que tinha de ser feito" a fim de obter as coisas que precisava ou queria. Era comum e esperado, e posso lhe dizer que gangues de rua e prisões são maiores educadores do que qualquer faculdade de prestígio. Estas experiências formadoras, que eu, sem dúvida, compartilho com outras pessoas aqui, serviram para iniciar e desenvolver minha compreensão sobre as abstrações chamadas Estado-nação e religião, através dos quais os adeptos do Magian realizam seu ataque implacável e bem sucedido em nossa liberdade espiritual e intelectual, com todos os tipos de perversão para tentar escravizar todo e qualquer ser humano com débitos e escravidão assalariada, conduzindo-os como gado para um estado de entorpecimento mental e espiritual, para pastar estupidamente sobre os ditames da moda e de um status social artificial. É a ISSO que nós nos opomos quando dizemos Sinistro, é ISSO que nós rejeitamos quando dizemos honra, e é ISSO que nós destruímos quando nos recusamos as abstrações Magian, e optar pelo caminho Open-Source wetware mimético como a ONA, TOTBL e as suas muitas variações .

No núcleo de cada tática Magian está a escravidão monetária. Dinheiro controla todos os recursos que você precisa, porque você não pode mais obter muitos recursos em seu próprio país, incluindo sua comida, a sua mobilidade, e suas comunicações. Quase todos os habitantes do primeiro mundo já não podem plantar, criar ou cozinhar as suas próprias refeições, ou eles são muito gordos e preguiçosos para andar a pé ou de bicicleta, e suas comunicações e informações são limitados ao que eles podem comprar com créditos de escravos. O sistema monetário é um meio de controlar o seu conhecimento e ditar o seu tempo. Dívida, custos e impostos são as armas através do qual os adeptos Magian escravizaram nossas respectivas populações, roubando nossas terras e recursos, destruindo e dividindo nossas culturas e criando mercadorias de nossos sistemas espirituais. Na verdade, estas são as armas com as quais todas as nações não-ocidentais estão atualmente sob ataque e sendo forçadas a se adaptar com a lei abstrata e impessoal que se autodenomina Nações Unidas. Ele estupra a própria essência da humanidade com o mercantilismo.

Se o Sinistro é verdadeiramente perturbador, subversivo e evolutivo, então certamente ele deve perturbar este sistema monetário, e subverter esse sistema que negocia nossas expressões e paixões humanas por um punhado de dólares, cujo valor é mais precioso para eles do que a paixão ou a própria expressão. Se alguma vez evoluímos, individualmente ou coletivamente, é quando nos tornamos livres dos entraves do sistema das dívidas, dos custos e dos impostos. Desse modo, que tipo de luz pode brilhar daqueles que fazem marketing de si mesmos como Sinistros, mas estão aderindo aos sistemas jurídicos e monetários? O que pensamos daqueles que fazem copyright dos livros que escrevem contra o uso do copyright? O que devemos fazer com aqueles que escrevem livros sobre o quão destrutivo é o sistema monetário para a evolução humana, só para em seguida dizer que você não pode ler seu livro até que lhe pague 10 ou 20 dólares? Este tipo de padrão duplo e hipocrisia não podem ser tolerados, porque faz com que todos nós pareçamos tolos e hipócritas.

Código abertoOpen-source software ((OSS) or free and open-source software (FOSS) ) is computer software with its source code made available with a license in which the copyright holder provides the rights to study, change, and distribute the software to anyone and for any purpose. Open-source software may be developed in a collaborative public manner. Open-source software is the most prominent example of open-source development. The open-source model, or collaborative competition development from multiple independent sources, generates an increasingly more diverse scope of design perspective than any one company is capable of developing and sustaining long term. A report by the Standish Group (from 2008) states that adoption of open-source software models has resulted in savings of about $60 billion per year to consumers. – Wikipedia

Como você pode ver a partir da citação acima, liberando o desenvolvimento de tal software da ganância monetária e uso exclusivo, não só permite uma maior evolução do software, ele também permite para qualquer pessoa possuí-lo com facilidade e usá-lo como entender, e isso está em oposição completa com o sistema de Magian. Um executivo da Microsoft afirmou publicamente em 2001 que "Open source é um destruidor de propriedade intelectual. Eu não posso imaginar algo que poderia ser pior do que isso para o negócio de software e os negócios de propriedade intelectual”. Bem, foda-se a Microsoft!. Esta analogia se adapta à ONA e TOTBL pelas mesmas razões. As pessoas, em posse de uma boa compreensão da natureza da consciência, o código-fonte humano por assim dizer, com uma licença para estudar, modificar e distribuir a nós mesmos e as nossas ideias em qualquer lugar e para qualquer finalidade, desenvolvido de forma colaborativa, pública e competitiva, a partir de vários ângulos independentes, gerando um âmbito cada vez mais diversificado de evolução e perspectiva do que qualquer nexion, cultura ou política é capaz de desenvolver e sustentar em longo prazo. Claro, a evolução pessoal, Kollectiva e nexional dos nossos sistemas e ideias, bem como software proprietário, só podem se desenvolver verdadeiramente uma vez libertados do sistema monetário, do contrário eles continuam a ser a "propriedade" de um indivíduo, que controla os limites individuais e o desenvolvimento daqueles que empregam disse ideias ou tradições.


Closed-Source Non-Free – Proprietary
Proprietary software, non-free software (in the sense of missing freedoms), or closed-source software is software that fails to meet the criteria for free or open-source software. Although definitions vary in scope, any software which places restrictions on use, analysis, modification, or distribution (unchanged or modified) can be termed proprietary. A related, but distinct categorization in the software industry is commercial software, which refers to software produced for sale, but without necessarily meaning it is closed-source. Most software is covered by copyright which, along with contract law, patents, and trade secrets, provides legal basis for its owner to establish exclusive rights. A software vendor delineates the specific terms of use in an end-user license agreement (EULA). The user may agree to this contract in writing, interactively, called clickwrap licensing, or by opening the box containing the software, called shrink wrap licensing. License agreements are usually not negotiable. Software patents grant exclusive rights to algorithms, software features, or other patentable subject matter. Laws on software patents vary by jurisdiction and are a matter of ongoing debate. Vendors sometimes grant patent rights to the user in the license agreement. Proprietary software vendors usually regard source code as a trade secret. Free software licenses and open-source licenses use the same legal basis as proprietary software. Free software companies and projects are also joining into patent pools like the Patent Commons and the Open Invention Network. – Wikipedia

Se alguém em nosso Kollectivo satânico e oculto realmente acredita no conteúdo do material que está produzindo (como faz Nexion 913) ele deveria disponibilizá-lo gratuitamente (como faz a Nexion 913). Aqueles que afirmam ser o mais sinistro da ONA são as mesmas pessoas que tentam fazer da ONA uma maldita livraria. Eles poderiam facilmente produzir uma versão gratuita em PDF das suas publicações (fazer da sua nexion um open source), e vender uma versão impressa como uma opção (fazendo da sua nexion comercial também), porém muitos nexion recusam-se a fornecer uma versão digital gratuita (fazendo sua nexion um closed-sourced proprietário), deixando claro que é mais importante que a nexion obtenha lucro monetário do que espalhar a informação, avançar a dialética ou a evoluir a nossa recusa Kollectiva da infraestrutura Magian, a qual a sua nexion closed-source proprietária, agindo assim, na verdade apoia. Pergunte a si mesmo a seguinte pergunta:

Quanto do que você aceitar como ONA tem elementos de propriedade?

1. A sua "marca" da ONA têm características maliciosas ou restrições?

2. Há um pagamento exigido?

3. A sua conta bancária ou do Paypal é exibida?

4. o seu endereço de IP ou endereço de correio é exibido?

5. A transação é informada ao seu governo e/ou provedor de Internet quanto ao que você está vendo, podendo assim adicioná-lo à lista de observação?

Tradições esotéricas genuínas são Open-Source wetware miméticas que usam código que é livremente distribuído e disponível para qualquer um usar livremente. Aplicação Sinistra genuína é sempre open source, o que significa que se você tem a habilidade e tempo, você tem uma excelente vista em cada aspecto de como a aplicação de um sistema funciona, e você está disposto a compartilhá-lo com aqueles com uma capacidade de empregá-lo.

A fraude do "Vender o Sinistro" é feita por microempresas closed-source que vendem produtos marqueteiramente assustadores para consumidores crédulos, e que mantêm suas produções em segredo para impedir a sua utilização por outros nexion, porque ao invés de evolução da tradição esotérica, seu objetivo é gerar lucro financeiro. A maior desvantagem disso é que esta “livraria da ONA" de código fechado força todos a pagar $$$ para ter acesso aos conhecimentos e determinar a sua opinião sobre ele. O indivíduo precisa assim aceitar a palavra do nexion em questão, que na verdade é o próprio vendedor do produto, a respeito da qualidade do material vendido. Claro, alguém precisa apenas tirar uma foto do livro ou produto em questão, e postá-lo no Facebook. Em seguida, todos vão pensar que você é "sinistro" (o que eles provam com o uso de um botão Like) e o comprador não precisa nem ler muito menos entender produto qualquer porque, como para tantos outros mundanos no Shopping Home da Internet , o importante é gerar estupidamente publicidade gratuita para a sua microempresa Onaísta.

Junte-se a 913 na era digital e acabe com a moda e monetização do satanismo. Estas livrarias sinistras não têm espaço para zombar de Anton LaVey ou as COS quando os seus métodos e propósitos são os mesmos. A próxima coisa que você sabe: sites da ONA serão do tipo "pague para ver" com cartões de sócio caros. Digital é gratuito. Foda-se livros e pagamentos de merda. Se um Nexion não partilhar o seu trabalho livremente, recuse suas obras. PDF e OogV são os meios intelectualmente honestos e filosoficamente consistentes de produção Sinistra. 


2.10.2016

"Anarquismo, crítica e autocrítica", de Murray Bookchin - um resumo


Publicam-se muitos livros, mas poucos são aqueles que realmente são relevantes. Contam-se nos dedos aqueles que captam, ainda que migalhas, as misérias nossas contemporâneas, oferecendo-nos uma nova e instigante visão das coisas. Se essa nova visão é instigante e capaz de produzir debates e efervescentes polêmicas, estamos diante de uma obra desse tipo. Agora se essa obra não gera apenas debates, mas desavenças e convulsões; se coloca em cheque certezas solidificadas e as torres de marfim intocáveis de certos intelectuais; se essa obra não apenas enfia a faca no corpo de seu oponente (escrever também pode ser uma declaração de guerra) mas a gira diversas vezes, com a intenção de ir mais profundamente na lógica dos argumentos, então estamos diante de um livro não apenas relevante, mas de um livro necessário, cuja leitura é premente para compreender e se posicionar no mundo.

"Anarquismo: crítica e autocrítica", lançado pela Hedra em 2011, é um desses livros. Reunindo dois textos do norte-americano Murray Bookchin (1921-2006), traz ao leitor brasileiro uma série de questionamentos sobre a relevância das táticas que a esquerda (no geral) e o anarquismo (no particular) utilizam para enfrentar o capitalismo, em seu estágio de hegemonia global praticamente absoluta. Os textos - "A esquerda que se foi" e "Anarquismo social ou anarquismo estilo de vida: um abismo intransponível" - foram publicados há mais de 20 anos (1991 e 1995, respectivamente) e geraram uma enorme onda de ataques contra Bookchin, vindos sobretudo de anarquistas, que chegaram a dizer que ele estava louco e sofria de complexo de superioridade. Quando as críticas a um autor começam a se resumir a evocações de patologia, em geral vale a pena ver o que ele tem a dizer, mesmo que seja para ler absurdos. Não é o caso de Bookchin: chamá-lo de mentalmente perturbado foi uma atitude infeliz e que colocou em certa obscuridade um autor que tem muitas coisas interessantes para dizer. 

Apesar dos textos presentes no livro terem mais de duas décadas de existência, conseguem ser violentamente atuais, especialmente para nós aqui no Brasil, onde o debate político tem cada vez mais acirrado as posições ideológicas e a direita, com uma esperteza fenomenal, tem conseguido arregimentar mais e mais seguidores. Pior que isso: palavras como "revolta", "rebelião" e "dissidência", antes comumente associadas àqueles que estavam à esquerda do espectro político, estão hoje no vocabulário padrão dos defensores de intervenção militar e do slogan "Deus-Pátria-Família". Ser revoltado hoje no Brasil não é lutar contra o Estado, a polícia, o racismo e a propriedade privada: o "contestador", o sujeito "que mete a real", o que "critica o sistema" é aquele que defende a pena de morte, é a favor das privatizações e acredita que estamos em pleno regime comunista. É sintomático que o maior movimento pró-impeachment tenha o nome de Revoltados Online, algo impensável para um grupo de direita nos anos 80 e 90.

Socialmente, a primazia da revolta - vamos deixar de covardia e afirmar de vez - não está mais na esfera das forças da esquerda, mas sim com os Almeidinhas e Constantinos da vida.

Vou comentar brevemente alguns pontos que considero como os mais relevantes nos dois ensaios do livro. Lê-lo me ajudou muitíssimo a avaliar a atuação da "esquerda" em nosso país, que muitas vezes oscila do bom mocismo hippie inofensivo à inconsequência niilista espetaculosa de quebrar qualquer coisa à sua frente sob pretensas alegações revolucionárias, passando por um governismo vergonhoso que, com muitíssima boa vontade, pode-se caracterizar como centro. É uma leitura para todos os desgarrados que não abraçam os slogans fáceis da despolitização que considera todas as facções políticas como rigorosamente iguais (um caminho perigoso e mesquinho) nem muito menos os coxinhas da "nova direita" (e não nos deixemos enganar nem por um segundo: ela não tem NADA de novo, é a mesma e velha Casa Grande só que agora com iPhone na mão e trabalhando em agências de publicidade), e tampouco conseguem se imaginar ao lado de delirantes militantes do PCO ou de apalermados de centro estudantil. É necessária uma mudança, uma radical mudança, e as cartas que estão na mesa agora não são todas as que existem no baralho.

Falemos do autor e do livro, então.

Bookchin começou sua trajetória intelectual nos centros trotskistas e, portanto, sua formação tem muito do pensamento marxiano. Sua migração gradativa para o anarquismo proporcionou-lhe refletir sobre quem desempenha, no atual estágio de desenvolvimento do capitalismo, o papel de sujeito revolucionário. Ora, sabemos que no marxismo clássico esse sujeito é o proletariado, o trabalhador assalariado das fábricas. Seria através desse sujeito revoltado contra o capital, que lhe impunha uma existência repleta das mais horrendas privações, que se iniciaria a revolução; tomariam o poder e os meios de produção, implantando o socialismo e preparando assim o futuro para uma sociedade sem classes.

Bookchin, tiozinho simpático
Bookchin - veja, já nos anos 1950! - via essa tese como superada. Não que acreditasse que a revolução tinha se tornado impossível ou que uma sociedade sem classes fosse mera utopia. Pelo contrário: ao invés de circunscrever o papel de sujeito revolucionário somente ao proletariado, ele amplia seu espectro por um prisma ecológico, colocando o capitalismo como um sistema insustentável em si mesmo que, com sua sede faustiana de lucro infinito, não condena apenas os trabalhadores a uma situação existencial deplorável mas compromete a própria existência do planeta. A exploração capitalista dos recursos naturais com o objetivo de alcançar lucros cada vez maiores termina por esgotar esses recursos, causando desequilíbrios ambientais sem precedentes, afetando diretamente todos os seres, humanos e não-humanos. Assim, o local de trabalho perde sua validade como palco principal da opressão capitalista, espraiando-se pela vida como um todo, o que é incrivelmente mais nefasto. Tal conjuntura pede então uma atualização do sujeito revolucionário, que para Bookchin deixa de ser o "proletariado" para se tornar a "comunidade", as "pessoas". A releitura faz sentido: a mecanização do trabalho que diminuiu bruscamente a necessidade de mão-de-obra humana, o onipresente uso das tecnologias da informação, a diversificação das "profissões criativas" (designers, estilistas, redatores, etc) e o crescimento exponencial do setor de serviços transformou uma antes mais ou menos homogênea "classe trabalhadora" em uma miríade de subgrupos - todos, sem exceção, com a bota da opressão capitalista esmagando suas faces, agora mistificada por sutilezas como participações em lucros e resultados (meramente simbólicos perto dos ganhos dos acionistas), horários flexíveis (que em geral os fazem trabalhar mais) e infantilidades fúteis como doces grátis e mesa de ping-pong no escritório para criar um "clima descontraído". Somemos a isso aqueles atores do grande circo das opressões que estão à margem do trabalho, como moradores de rua, nóias, traficantes, travestis, prostitutas, etc - enfim, o velho lúmpen, agora hipertrofiado pela abundância dos grandes centros, nas beiradas da sociedade de consumo e servindo como bucha de canhão para o endurecimento dos sistemas repressivos e, ocasionalmente, realizando as piores e mais degradantes tarefas. Os capachos necessários para a polícia exercer a brutalidade que faz regozijar o morador dos bairros de elite, os corpos para as orgias festivas onde empresários de terceira idade comemoram seus acordos milionários, os fornecedores de aditivos químicos para playboys virarem a noite em boates cheia de gente branca e cafona.

Dentro dessa visão de que o sujeito revolucionário deixa de ser "o trabalhador" para ser "a comunidade", Bookchin defendeu que o sindicalismo é um modelo que deve ser superado. Para ele, as comunidades deveriam se organizar e - aí começa a sua grande polêmica com os anarquistas - participar das estruturas de poder municipais, inclusive entrando em eleições com uma plataforma que reivindicasse a democracia direta por meio de assembléias populares, de modo que as decisões dos municípios fossem tomadas em primeira mão por aqueles que diretamente vivenciam seus problemas. Segundo ele, a administração municipal é, assim como a polícia, a cara mais imediata do Estado na vida das pessoas. Muitas decisões importantíssimas que afetam nosso cotidiano passam pelas decisões da prefeitura – por exemplo educação infantil pública, uma responsabilidade municipal, que decide como e quando aplicar os recursos recebidos do poder estadual.

Obviamente a tese de Bookchin foi recebida pelo movimento anarquista tradicional com severas críticas. Como um anarquista se propõe a entrar no jogo partidário, participar de eleições e aceitar as instituições políticas burguesas, ainda que municipais? Cito integralmente o trecho onde Bookchin faz uma defesa de seu municipalismo libertário:

“[o município] constitui a base para as relações sociais diretas, democracia frontal e a intervenção pessoal do indivíduo, para que as freguesias, comunidades e cooperativas convirjam na formação de uma nova esfera pública. (...) A partir do momento em que os municípios se federem para formar uma nova rede social; que interpretem o controle local com o significado de assembléias populares livres; que a autoconfiança signifique a coletivização dos recursos; e que, finalmente, a coordenação administrativa dos seus interesses comuns seja feita por delegados – não por “representantes” – que são livremente escolhidos e mandatados por suas assembléias, sujeitos a rotação, revogáveis, e as suas atividades severamente limitadas à administração das políticas sempre decididas em assembléias populares – a partir deste momento os municípios deixam de ser instituições políticas ou estatais em qualquer sentido do termo. A confederação destes municípios – uma comuna das comunas – é o único movimento social anarquista de ampla base que pode ser vislumbrado hoje, aquele que poderá lançar um movimento verdadeiramente popular que produzirá a abolição do Estado. É o único movimento que pode responder às crescentes exigências de todos os setores dominados da sociedade para dar poder e propor pragmaticamente a reconstrução de uma sociedade comunista libertária nos termos viscerais da nossa problemática social atual – a recuperação de uma personalidade poderosa, de uma esfera pública autêntica e de um conceito ativo e participatório de cidadania.”

Bookchin curtindo uma bad vibe sinistra
Bookchin também criticou, e em termos muito duros, o que chamou de “anarquismo estilo de vida”, ou simplesmente anarco-individualismo. Seu precursor, Max Stirner (1806 – 1856), escreveu um verdadeiro programa dessa tendência em “O único e sua propriedade”. Para Stirner, a liberdade individual é um absoluto; qualquer tipo de constrangimento ao seu exercício, uma tirania. Exerceu uma influência praticamente nula no combativo movimento operário de sua época, granjeando adeptos nos meios boêmios urbanos de Londres, Paris e Berlim, com reivindicações de liberdade sexual, inovações na arte e questionamentos sobre comportamentos e opressões morais. Seus seguidores são os precursores de toda a contracultura originada com os beatniks nos anos 50, e que alcançaria seus auge magnífico no Maio de 68 para depois, de decadência em decadência, ser cooptada pelos tentáculos do capitalismo até se transformar em uma bem diversificada seção no mercado das rebeldias juvenis, cada uma com seu próprio uniforme (góticos e suas roupas pretas, punks e seus moicanos, hippies e suas saias, etc), sua coleção particular de ídolos e seu jeito “único” de ser. É sintomático, inclusive, que a ênfase na liberdade individual nas contraculturas pós-68 se manifeste justamente no momento em que os movimentos de esquerda deixam pouco a pouco as bandeiras de radical transformação social em segundo plano, quando não totalmente esquecidas. O ativismo cultural, assumindo por vezes uma tonalidade hedonista e espetaculosa, torna-se uma atividade em si mesma, não raro uma pregação para convertidos que não representa risco algum para a ordem capitalista: as demandas tornam-se exclusivamente por direitos dentro da ordem, uma acomodação de “minorias” na legalidade e no universo do consumo. As próprias táticas de luta desse tipo de ativismo inclui, muitas vezes, a prática do boicote, isto é, não consumir certos produtos/serviços sob alegação de que o seu produtor participa/colabora com atitudes que o ativismo combate (casos como Zara e trabalho escravo, Barila e homofobia, etc) – ou seja, é uma ação que se dá exclusivamente pela relação consumidor-empresa. Sua validade é altamente questionável: os departamentos de marketing dessas empresas seguem o mantra “o consumidor é rei”, que esse personagem abstrato é quem determina que tipos de produtos e comunicação devem ser empregados. O Mc Donalds já tem lanches veganos faz anos em seu cardápio, e se o consumo de carne for paulatinamente decaindo, não há dúvidas que o cardápio vegano será ampliado. A Zara, após os incidentes, fez um pedido de desculpas e criou uma linha telefônica para denúncias de trabalho escravo – atitude que mais parece um tosco veja-fizemos-a-nossa-parte para todos voltarem, com a consciência tranquila, a comprar suas caríssimas roupas.

Outra tendência contemporânea do anarquismo que recebeu golpes duríssimos de Bookchin foi o primitivismo. Essa tendência, que tem em John Zerzan um de seus mais conhecidos expoentes, tem como tese fundamental que “a civilização” é um mal em si mesmo e que deve ser superada. Assim, todas as conquistas da civilização – agricultura, linguagem, ciência, tecnologia, artes, etc – devem ser destruídas para que o homem novamente viva em seu estado primordial de caçador-coletor, sem hierarquias e não exercendo poder sobre outras criaturas humanas ou não-humanas. Os primitivistas defendem que o estágio civilizatório atual é um desvio na história da raça humana, um brevíssimo período para uma espécie que já existe há mais de 2 milhões de anos e que, nessa trajetória, viveu a maior parte do tempo em “harmonia” com “a Natureza”. Superar a civilização não é apenas desejável, mas também necessário: o estilo de vida por ela inaugurado – com produção agrícola, domesticação de animais, especialização do trabalho e crescimento tecnológico – terminará por fatalmente destruir todo o planeta.

Bookchin jogando um Counter Strike entre uma crítica e outra
Bookchin ridiculariza esse ponto de vista como sofrendo de uma nostalgia edênica que não pode ser levado a sério. Zerzan, a revista Fifth State e outros atores do pensamento anticivilização interpretam as estruturas opressivas das sociedades humanas contemporâneas como intrínsecas à civilização, obscurecendo a natureza específica dessas estruturas, que são capitalistas. Uma vez obscurecidas, não são devidamente confrontadas e, pior que isso, quase naturalizadas. Tecnologia, agricultura, linguagem, etc, enfim, todas as criações da civilização não são naturalmente opressivas, como reza o credo primitivista, mas é o uso que delas se faz, socialmente determinado, que as torna opressivas. E especificamente sob o capitalismo, a exploração do homem sobre o homem ganha cores mais fortes e uma escala e padrões globais. Tecnicamente mais avançados do que em qualquer outro período, e com um nível de consciência ecológica igualmente inédito na História, sob o capitalismo criou-se condições concretas de propiciar uma vida superior para a imensa maioria das pessoas – e é sob novas relações sociais organizando o uso da tecnologia, da agricultura, etc que isso se dará, e não com a destruição desses avanços.

Cito Bookchin:

“Crucial é que a regressão do primitivismo dos anarquistas de estilo de vida nega o mais destacado atributo da humanidade enquanto espécie e os aspectos potencialmente emancipatórios da civilização euro-americana. Humanos são muito diferentes de outros animais, na medida em que fazem mais do que meramente adaptar-se ao mundo à sua volta; humanos inovam e criam um mundo novo, não só para descobrir seu próprio poder como seres humanos , mas para fazer o mundo ao seu redor mais adequado ao seu próprio desenvolvimento, tanto em termos de indivíduo, quanto de espécie. Ainda que a capacidade de transformar o mundo esteja distorcida na sociedade irracional de hoje, ela é um dom natural e um produto da evolução biológica humana – não só um produto da tecnologia, da racionalidade e da civilização. O fato de pessoas que se dizem anarquistas defenderem um primitivismo que beira o animalesco, com sua mal-disfarçada mensagem de adaptação e de passividade, é uma vergonha diante de séculos de pensamento, práticas e ideais revolucionários; isso difama as memoráveis tentativas da humanidade de se libertar do provincianismo, do misticismo, da superstição, visando transformar o mundo.”

A proposta primitivista é cativante. Força-nos a pensar, de modo radical, a nossa relação com a Natureza. Ela direciona um olhar desconfiado perante todas as comodidades do dia-a-dia que nós, especialmente os moradores de grandes cidades, estamos acostumados a ter em tal nível que nem conseguimos imaginar como seria a vida antes de sua existência. Jamais negarei o valor de questionamentos desse tipo e sou um entusiasta ilimitado de todo e qualquer pensamento crítico em relação ao desastre da era moderna. Os que buscam modos de vida à margem do consumo e em comunidades mais ou menos isoladas, vejo-os como indivíduos de coragem exemplar, que venceram os encantos da Hidra Neoliberal e seus milhões de confortos e prazeres. A eles brindo,  hoje e sempre. Mas o supremo “não!” que eles dizem tem embutido também um certo sabor da derrota de todos os sonhos e esperanças coletivas: se a revolução se resume agora a deixar de trabalhar e viver do lixo dos outros, a negar “a civilização” mas continuar usando computadores e todas as suas facilidades, e os que não embarcam nesse jogo hedonista são vistos como parte do problema, então não falemos mais de solidariedade ou justiça, mas simplesmente de méritos e conquistas – o que tornaria os adeptos do pensamento anticivilização mais próximos do discurso empresarial do que do revolucionário.

Outras tendência que mereceu críticas ferozes de Bookchin foram os pacifistas. As atuais demandas sobre controle de armas para civis como forma de “promover a paz”, defendidas inclusive por muitos setores da esquerda, soariam como abomináveis para os anarquistas e revolucionários do século XIX. Naquele então, era mais do que claro que armar o povo, treiná-lo e capacitá-lo para atuar como milícia era vital. Isso se justificava de modo intransingente: o monopólio da violência não deveria pertencer ao Estado. O sentimento antimilitar era fortíssimo, mas jamais veríamos imagens de rifles quebrados ou posicionamentos favoráveis ao desarmamento da população. Hoje, quando surge alguma personalidade defendendo o direito de portar armas, a esquerda em geral cai matando em cima com as alegações de “fascista”, “mais amor por favor” ou algum meme engraçadinho para “lacrar” a discussão. A defesa do uso de arma é vista, sempre, como violenta em si mesma e como tendência ao militarismo, o que são – sempre foram, segundo Bookchin – coisas completamente distintas. Enquanto o berreiro antiarmas segue forte, o “outro lado” procura se armar... [ATUALIZAÇÃO de 2018: escrito há quase três anos, na época de sua concepção Bolsonaro era ainda um palerma qualquer. Sua candidatura recente deveu-se, em muito, à defesa do porte de arma, sob uma ótica completamente fascista].
Bookchin, mocosado

O livro fecha com a questão do reformismo versus revolução. Hoje em dia, a defesa de direitos trabalhistas tem muito de governismo (quando este não corta direitos, claro) ou participação de partidos que desejam abocanhar uma parcela de poder e somente isso. Era diferente com os revolucionários do século XIX, que entravam na luta por reformas como uma forma de mostrar o fracasso do sistema atual, além de garantir condições menos humilhantes para os trabalhadores de então – tudo isso sem jamais tirar do horizonte a superação do sistema capitalista. A reforma era demandada, portanto, como uma tática para um objetivo mais amplo. Faz sentido: ao invés de esperar uma revolução que tornará todos iguais (e que ocorrerá em um futuro incerto e via de regra distante) garantia-se uma situação melhor aqui e agora, especialmente para quem estava em piores condições. Entretanto a demanda por reformas, que deveria ser o preparo da corda que futuramente estrangularia o capitalismo, terminou por enroscar-se no pescoço da própria esquerda, levando-a a adotar de modo irrestrito a prática do mal menor e conduzindo-a “a um pântano liberal de humilhações e concessões infindáveis” – a imagem do Paulinho da Força Sindical é o que me veio imediatamente à cabeça quando li isso pela primeira vez.

As perspectivas para as lutas sociais em 2016 seguem sombrias. Sob pretextos de superar a crise, novos assaltos aos direitos das pessoas serão realizados. A Hidra Neoliberal, mais do que nunca, vai apertar de todos os lados. A leitura de Bookchin ajuda a refletir sobre a atuação da esquerda nesse contexto, e especialmente para nós, aturdidos por tantos batedores de panelas fãs de policiais, é um convite para repensar as táticas e estratégias. Não há respostas fáceis, mas claro está enquanto o poder de convencimento de um Bolsonaro for superior ao de um Guilherme Boulos, estaremos fodidos.

12.26.2015

Catolicismo pagão, paganismo católico: a origem do Natal



Encontrei o texto abaixo em uma postagem do Facebook. É um texto muito bom, mesmo que demasiado superficial e incorreto em algumas partes (Mitra não era largamente cultuado em Roma, e nem a conversão de Constantino foi algo maquiavélico como fica sugerido: essa tese foi destruída por Paul Veyne em livro que já escrevi sobre aqui), cumpre maravilhosamente a função de mostrar que o cristianismo - o catolicismo em especial - tem muito mais "paganismo" do que inicialmente aparenta. 

Seria um pecado perder esse texto para a espiral de lixo que é o Facebook, então colocá-lo aqui é uma forma de deixá-lo mais facilmente acessível no futuro.

Sem mais delongas, eis o texto:

Antes de fazer qualquer julgamento sobre esta imagem [NOTA: a imagem referida é a que está no topo desse post], conheça a história e descobrirá que a divindade celebrada no dia 25 de dezembro não se resume ao homem Jesus, mas à fusão e incorporação de vários Deuses solares muito anteriores ao Cristo que hoje é conhecido.

Se voltássemos 2 mil anos no tempo, Roma estaria festa. Eram os preparativos para os festejos do Deus solar Mithra, o filho do grande Deus Ahura Mazda que simbolicamente vencia o Touro. Seu aniversário era celebrado nos dias 25 de dezembro, ou seja, 3 dias depois do solstício de inverno do Hemisfério Norte. Em diversas mitologias pagãs ancestrais, o solstício de inverno representava o nascimento do Deus-Sol. Afinal, é neste momento que o sol encontra-se no ponto mais distante com relação à latitude da Terra e por isto ocorre o fenômeno da noite mais longa e escura do ano. À medida que o sol vai aproximando-se de seu ponto mais alto visto a partir da Terra, ocorre o fenômeno oposto: o dia começa a ficar mais longo até que no solstício de verão ele chega ao apogeu da iluminação no dia mais longo do ano. E assim, neste ciclo infinito, os antigos comemoravam os ciclos solares com os mais variados festejos, temperados pelos elementos culturais e geográficos de cada povo.

Roma sempre fora um império que promovia a tolerância e a liberdade religiosa, mas isto se tornou um problema para os planos de dominação patrícia, pois as revoltas regionais baseavam-se nas identidades oriundas das religiões provinciais. O imperador Constantino pediu que seus correlegionários pesquisassem qual seria a melhor maneira de criar uma ideologia suficientemente forte para manter as províncias romanas coesas e eles chegaram à conclusão de que o cristianismo seria uma religião adequada a tais fins, desde que devidamente adaptada.

Constantino formulou uma lenda em torno de sua conversão ao cristianismo e no ano de 325, realizou um concílio com os bispos aliados do projeto imperial. Estes bispos modificaram completamente o cristianismo, embutindo à figura de Jesus diversos elementos pagãos. Foram escolhidos 4 evangelhos para dizer a "verdade incontestável" da nova religião e todos os outros seriam considerados "apócrifos" e, portanto, proibidos, queimados e banidos sob pena de morte para os que os preservassem. Jesus, que fora um judeu reformista do século I, deveria ser completamente modificado de sua originalidade e os livros que o descreviam passaram a ser adulterados para coadná-los ao projeto romano. Nos evangelhos reinventados, foram incluídas passagens que exaltassem Roma tais como "dai a César o que é de César", a lavagem de mãos de Pilatos e elementos de outros profetas ou divindades foram atribuídos a Jesus. Por exemplo, Apolônio de Tyana, o mensageiro do Deus Apolo, era conhecido por multiplicar os peixes, transformar vinho em água e ressuscitar mortos.

O calendário oficial também começaria a ser modificado. As festas associadas aos Deuses pagãos começaram a ser cristianizadas, num processo que durou quase 2 milênios. Ao mesmo tempo em que se destruía a memória pagã, embutia seus símbolos e significados no cristianismo, a religião oficial do império, criada para atender aos interesses da elite escravocrata romana. Um banho de sangue varreu a Europa, norte da África e Oriente Médio para a imposição do cristianismo e com o édito do imperador Teodósio, todos os cultos pagãos foram proibidos, passando a ser considerado "bruxaria" e, portanto, passível de pena de morte.

Mas não se consegue destruir facilmente algo que está profundamente enraizado, mesmo por aqueles que tenham o monopólio das armas e da violência. Assim, era preciso desconstruir os cultos antigos e criar algo que fosse abjeto e assustador, um personagem que seria a base para a destruição dos cultos pagãos: o diabo. Este ser deveria incluir nele características dos Deuses pagãos e a referência seria o Deus greco-romano Pã, com chifre, casco e cavanhaque de bode. Pã, que era o Deus da alegria, da natureza e dos prazeres da vida, foi convertido no oposto ao Cristo inventado, que era descrito como sério, assexuado e símbolo da dominação da cidade sobre o campo. A nova entidade maléfica incorporaria também o tridente de Posseidon, o popular Deus dos mares. Pelos quatro ventos a igreja espalho que Pã morrera e que em seu lugar assumira o demônio que não tinha a beleza e a alegria do Deus-bode, mas a maldade de um ser que representava tudo que deveria ser evitado.

Com a queda do império romano, a igreja católica manteve as estruturas políticas e militares do Estado sob seu controle. Agora ela passaria a desenhar a Europa medieval à sua imagem e semelhança, implantando o feudalismo à medida que convertia reis e nobres, forçadamente ou baseada na troca de interesses. A idade das trevas estava instalada e, com as grandes navegações, chegaram ao continente americano e assim o cristianismo foi implantado para colonizar o território e submeter os índios à vontade do conquistador.

Esta imagem, portanto, resgata o "Cristo" verdadeiro: uma combinação de Jesus com Mithra e outras divindades solares como o Deus grego Apolo e o Deus egípcio Rá. Também reconcilia duas divindades associadas ao amor, Jesus e Pã, sendo o segundo detentor de chifres que representam a força animal, o poder natural. Esta é, portanto, a mais completa e lúcida imagem para representar o Deus Sol que morre durante o outono e renasce no solstício de inverno. É o Deus imolado, sacrificado, mas que triunfa sobre as trevas. É o Deus que ao longo do ano percorre as 12 constelações do zodíaco (a eclíptica), que pode ser chamada de 12 apóstolos. É a divindade que oferece o sangue e a carne, como fazia o Deus Dionísio. É o Deus que tem uma esposa, uma Deusa que é a Mãe-Natureza, que foi proibida de ser cultuada, pois na nova religião o que vale são as leis do patriarcado.

Mas ainda há um problema que permaneceu nisto tudo. O calendário cristão gregoriano foi criado para o hemisfério norte e enquanto lá eles celebram o inverno, aqui vivemos em pleno verão. O natal aqui deveria acontecer em torno de 24 de junho, quando se festeja o dia de São João. Para completar, o capitalismo inventou o consumismo como signo desta data e, portanto, pouco restou a originalidade desta festa.

Aos que tiverem a compreensão da natureza como sagrada e das divindades solares como representação da força criadora da vida, esta imagem é a mais bela representação do Deus que todo ano nasce, morre e ressuscita no terceiro dia após o solstício de inverno.

Créditos da imagem: Caroline Jamhour.

Algumas indicações de leitura: Do ponto de vista do mito, Mircea Eliade, Joseph Campbell e a enciclopédia chamada "Mitologia: mitos e lendas de todo o mundo". Sobre o paganismo, Gerard Gardiner, Janet e Stewart Farrar, Claudiney Pietro. Historiadores romanos antigos tem o Flavius Josephus, Tito Livio e Plutarco, além do próprio Julio César. Dos contemporâneos, Paul Veyne, Jean Pierre Vernant e Moses Finley. Sobre a Europa medieval tem o Le Goff e o Perry Anderson. Filosofia: Nietzsche, Feuerbach, Russell e Marx. Há algumas publicações sobre a história das religiões e da bíblia que servem como introdutórias e também alguns compêndios da história da igreja. O volume sobre o Império Romano da História da Vida Privada possui boas referências. Um pequeno livro que vale a pena citar: "O diabo no imaginário cristão" de Carlos Nogueira. Por fim, "O Livro Negro do Cristianismo".

Indicações de documentários:
Os Rivais de Jesus (NatGeo); Zeitgeist (há vários erros, mas alerta para informações importantes); Augustus (sobre o Império Romano); Roma (ascenção e queda).

6.30.2015

A inveja dos deuses



Abrir-se demais ao outro é visto, por muitos, como um sinal de fraqueza. Parece que é preciso guardar no mais secreto de nossos esconderijos sentimentais quais são as nossas fragilidades, quais as nossas vontades indizíveis. É assim desde a Queda: foi a inveja de Caim, guardada no zelo de seu coração amargurado, que marcou a História com o primeiro fratricídio. Caim poderia ter se aberto com o irmão, ou então com Eva ou seu pai, compartilhando suas dores invejosas – e talvez seu coração tivesse se tornado menos duro, mais tranquilo, e assim nenhum crime seria cometido. Mas também assim não teríamos o mito Caim, nem o seu oposto adocicado que é a figura de Abel. 

A força de Caim vem do seu silêncio. Não diz nada, não comunga com ninguém: deixa o Athanor do ódio esquentando, lentamente, até que a temperatura se eleve ao máximo que um coração possa suportar e termine por enfim transformar-se na fúria do crime. Força como silêncio, silêncio como prova de valor. 

Ficar calado e nada dizer sobre as dores e temores, enfrentando-os orgulhosamente – isto parece ser o caminho óbvio da superação. E é, em vários sentidos. Do mesmo modo que os praticantes sérios de musculação não buscam aplausos a cada nova anilha colocada no supino [por “sérios” automaticamente excluo marombeiros que mais treinam a língua que os músculos, quem frequenta academias sabe do que estou falando], a força parece ser o resultado do esforço calado, sereno, sem comemorações efusivas a cada nova cicatriz que se fecha. É você contra você mesmo e nenhuma biblioteca de livros de autoajuda irá ajudar. É possível sempre partilhar mapas, ver como outros se aventuraram pelos labirintos da solidão e da dor, até mesmo pegar emprestado uma bússola – mas chega uma hora que os mapas se perdem, as paredes do labirinto mudam de lugar e o ponteiro que apontava para o Norte gira tão rápido que nem sabemos onde estamos mais. Mais uma vez, então, estamos sozinhos e apenas por nós mesmos, tendo como trilha sonora somente o som das batidas do coração.

Entendo o poder do silêncio e considero um dos maiores males do mundo de hoje justamente o vozerio incessante. Verborragia deveria ser tipificada como crime, aqueles que gritam ao invés de falar deveriam ter suas amígdalas arrancadas. Entretanto, irromper em gritos e deixar o líquido oculto do Athanor íntimo jorrar como uma explosão de verdades caladas pode não apenas ser libertador mas, também, um modo de criar laços profundos com aquele que nos ouve. Baixar a guarda, nesse caso, não nos deixa vulneráveis, prontos para sermos devastados por um direto no queixo, mas leva a uma aproximação sentimental de rara beleza. Se é horrível o choro lamuriento dos fracos, que ficam a lamentar-se o tempo todo de tudo, igualmente é desprezível o manter-se sempre calado como uma estátua – que agora passo a ver também como uma espécie de covardia, isto é, como um medo de arriscar-se a parecer ridículo, medo de não mais ser visto como uma montanha de força que a tudo vencerá, que esmagará até mesmo legiões de demônios com a sua frieza implacável. Mesmo Caim, após cometer seu abominável crime, derramou suas lágrimas, tornou-se tão pequeno e frágil quanto o angelical Abel. Talvez o ideal seja termos em nós o estoicismo capaz de suportar friamente até o limite de nossos extremos (mais 5 kg de cada lado no supino, um quilômetro a mais sem nenhum mapa) mas sempre alertas para, frente a uma alma digna, de onde recebemos um real e verdadeiro amor, sermos corajosos o suficiente para desabarmos em franco e puro desespero, liberando catarticamente as forças da amargura que preenchem os cantos obscuros de nossos segredos. 

E choraremos tanto, e choraremos com tanta força, que os deuses terão mais uma vez inveja de nós, humanos: nós que não sabemos o que é o tédio de ser eterno, nós que podemos nos dar ao luxo da Fragilidade.