8.22.2011

E o mundo será ateu...


Um mundo ateu: obedecendo a uma teleologia que mescla desenvolvimento econômico e esclarecimento sobre questões existenciais, o futuro pertencerá aos homens livres de deus. Pelo menos, assim será segundo o estudo divulgado pela Folha na semana passada: http://f5.folha.uol.com.br/estranho/957024-estudo-diz-que-ateismo-vai-tomar-lugar-das-religioes.shtml

Os dados são esses: a Suécia, paraíso do bem-estar social, com seu seguro-desemprego vitalício e chances reais de todos terem uma “boa” vida, tem alto percentual de ateísmo (64% da população assim se declara no gélido país escandinavo). Já a África sub-saariana, uma das regiões mais miseráveis do mundo, o percentual de ateus nem chega a 1%. De acordo com essa pesquisa (a ser divulgada em finais de agosto, integralmente) o que explica as diferenças imensas de percentual são as comodidades que o dinheiro introduz na vida das pessoas. Quanto maior segurança para lidar com os problemas terrenos, menos interesse por qualquer tipo de transcendência.

As conclusões desse estudo me fizeram voltar no tempo, revendo os passos dados até aqui.

8.14.2011

Trecho de um conto do Lovecraft


"Freqüentemente imagino se a maioria da humanidade algum dia parou para refletir sobre o significado ocasionalmente titânico dos sonhos e do obscuro mundo a que pertencem. Embora a maioria de nossas visões noturnas talvez não passe de pálidos e fantásticos reflexos de nossas experiências em estado de vigília - ao contrário do que diz Freud com seu pueril simbolismo -, resta ainda um certo resíduo cujo caráter etéreo e invulgar não permite nenhuma interpretação comum, e cujo efeito vagamente excitante e inquietador sugere possíveis vislumbres momentâneos de uma esfera da existência mental não menos importante que a existência física, embora separada desta por uma barreira quase intransponível. Por experiência própria, não posso senão concordar que o homem, quando liberto da consciência terrestre, está na verdade vivendo uma outra existência, incorpórea, de natureza muito diferente da que conhecemos, e da qual permanecem apenas lembranças das mais fugazes e indistintas, depois de acordarmos. Dessas lembranças confusas e fragmentárias podemos inferir muito, mas provar pouco. Podemos supor que nos sonhos, vida, matéria e vitalidade, tais como a terra conhece essas coisas, não são necessariamente constantes; e que o tempo e o espaço não existem tais como nossos eus despertos os concebem. Acredito, às vezes, que essa vida menos material é nossa vida mais verdadeira, e que nossa vã presença sobre o globo terrestre é o fenômeno secundário ou meramente virtual."

Primeiro parágrafo do conto "Além da barreira do sono", de H. P. Lovecraft, e que se enquadra naquele seleto grupo de leituras memoráveis, onde vemos nossa confusa visão sobre um determinado assunto assumir uma forma cristalina.

8.11.2011

II Anuário de Fanzines - Convocatória!


Começaram os trabalhos na UGRA PRESS para o II ANVÁRIO DE FANZINES. O primeiro, lançado em fevereiro de 2011, contou com mais de 120 publicações brasileiras e uma repercussão que excedeu, em todos os sentidos, as nossas expectativas (mantidas, desde o início, em uma segura baixa intensidade).

Foi uma grande descoberta ver a enorme diversidade de publicações que são feitas hoje em dia. A despeito de todas as facilidades de publicação existentes (e esse blog é um exemplo disso) ainda há aqueles que enxergam no impresso possibilidades expressivas únicas. Mais do que isso: essa discussão absurda de impresso versus digital, que já saturou a paciência de muita gente (a minha já há tempos) mostra-se uma bobagem para preencher editoriais e matérias-jabá para aquecer o mercado de vendas de e-books. Ok, isso soou incrivelmente conspiratório e poderia figurar em uma postagem no blog desse fita aqui. Porém, o fato é que nada disso - esses argumentos por vezes catastróficos alardeando o "fim do impresso", que nas escolas não existirão mais cadernos, que os livros serão trocados por e-books, etc etc etc - nada disso afeta a paixão de se produzir fanzines, de recortar papel e montar edições artesanais sobre temas que te interessam  e, depois, distribuir por aí.

A segunda edição do Anuário terá uma diferença essencial em relação ao seu irmão mais velho: cobrir a cena zineira não só do Brasil, mas de todos os outros países da América do Sul. Há muitos zines sendo feitos na Bolívia, no Equador, na Argentina e em vários outros pontos do continente, e a ambição é conhecer essa produção, divulgá-la por aqui e estabelecer laços com os hermanos que compartilham desse mesmo fetiche pelo impresso.

Achou interessante? Então vai lá no blog da UGRA, conheça os detalhes de como participar e nos ajude a espalhar a notícia: http://ugrapress.wordpress.com/ii-anuario/

6.14.2011

A grande ampulheta dos desencontros do Universo

E não há quem culpar a não ser o Tempo, essa divindade que tira suas forças do desencontro e da ruína de tudo. Sim, é o Tempo um deus muito severo, a tudo submete a provas, a batalhas demasiado duras e ferozes: essa é sua característica mais forte. Além disso, ele também faz com que os corações vibrem em dissonância, e se diverte com os desencontros que provoca. Não destrói nada com essas suas brincadeiras de mau gosto, mas adia a felicidade de muitos, faz promessas que não sabemos se serão cumpridas, deixa a muitos homens buscando aquelas delicadezas femininas que apenas uma mulher encarna -justamente aquela que lhe escapa, justamente aquela que, antes, tinha lhe acenado com tantas esperanças...

É uma ironia terrível a dos desencontros, e o Tempo adora provocá-las. Justamente quando um está decidido, o outro decide ir para longe, seguindo o canto de algum outro amante, que entrou na história sem ser convidado e, assim, age em sintonia com as perversas decisões temporais de não fazer dois corações se encontrarem. A decepção de um, agora experimentada pelo outro: a Lei da Compensação agindo com sua certeira e implacável justiça.

Mas há muitos que não se rendem aos caprichos desse deus tirânico que derruba de árvores a civilizações, há aqueles que preferem a loucura de não se importar se os desencontros, experimentados com tristeza, irão se repetir ou se serão definitivos. Dotados de uma inconseqüência quase fisiológica, espreitam na tranqüilidade de uma paixão ainda não realizada, aguardando o momento certo para dar livre vazão a um universo de palavras não ditas, de gestos represados, de sentimentos que só podem ganhar vida através do contato entre duas epidermes -enfim, esperam apenas um momento, apenas um instante onde o Tempo, cansado de promover tantos desencontros, possa enfim ser um deus menos injusto.

E até que isso ocorra será de música que viveremos, justamente porque música foi aquilo que fez com que essa inconseqüência me dominasse por completo...



5.17.2011

Rua Augusta, quase três anos depois


 "Let me take your little hand, let me make you understand /That the world is not as beautiful and free, like you believe" (A song for the Emperor, Ordo Rosarius Equilibrio)

É curioso observar o quanto a paisagem muda no Centro, como os pedaços de memória  presentes na geografia urbana se esvaem de acordo com as ondas da especulação imobiliária.