5.12.2007

Snooker, pipoca e crises


Porque entre os escombros ainda brota vida, e nem mesmo Deus, em sua solidão infinita, pode impedir que nós brinquemos de anjos rebeldes que a tudo negam com apenas uma palavra.

E assim se passa uma noite entre mesas de bilhar onde as horas voam, onde confissões são feitas e laços se tornam ainda mais firmes.

Acendo um cigarro, penso na forma inesperada como aconteceu toda aquela conversa, e em tudo que falei e principalmente no que ouvi. Sim, Deus, triste é sua solidão e ela nem se compara com a minha. Mas no intervalo de algumas horas o meu universo foi preenchido - e para minha felicidade, agora nada mais será como antes.

5.09.2007

Abraços de um sem fim

M. andou por muitas horas. Era sua terapia quando estava ansioso. Comprou para ela um lindo colar que há tempos prometera. Nem pensou em embrulhar: colocou no bolso da bermuda e fez o caminho de volta. Tinha ido muito longe, o caminho de volta seria fatigante. Mas era um daqueles dias onde fazemos coisas idiotas, e M. sabia disso mais que ninguém. Por que dar um presente desses quando tudo agora é cinzas, pensou. Era uma pergunta importante, mas M. sabia que a resposta poderia ser qualquer uma, até mesmo uma resposta dada em forma de engano: saudade, desejo de criar uma fantasia, dívida com o passado que insiste em voltar. Ela nunca acreditara nele mesmo. Se não acreditasse na sinceridade daquele presente, era apenas mais uma incredulidade de mulher. Afinal, ele era um homem, e segundo o catecismo feminino homens são seres que mentem usando palavras cobertas com açúcar. Saber que ela pensava assim o fazia sofrer, e ela, quietinha, também ao seu modo sofria. Mas quando M. mirava aqueles olhos cheios de brilho e falava "gosto de você, menina", a sua alma era só emoção e nas suas palavras só existia verdade. E era a verdade deste sentimento que o fazia mexer no bolso da bermuda e apalpar o colar. Ansioso como nunca, ia mais rápido para a casa dela. Queria entregar o presente, queria beijá-la mais uma vez, sentir o calor de um abraço que já conhecia, mesmo que fosse para nunca mais. Era um dia comum em São Paulo, com seu ar tórrido de rush e buzinas e gente cheirando a estresse - mas graças à ansiedade de M. as avenidas eram como corredores de um sonho e as pessoas desfilavam em harmonia abrindo-se em seu caminho. E na casa dela, M. tira o colar do bolso e mostra cheio de orgulho. Demorou pra achar um do jeito que você falou, mas enfim encontrei. Ela agradece, voz baixinha, misturando um pouco de timidez com uma dose generosa de alegria. Aproximam-se, pé ante pé, parece que vão se beijar pela primeira vez, assim é o beijo dos apaixonados, carregam os mistérios de Vênus na tensão que o antecede. Mas enfim não se beijam, apenas se abraçam, e é um abraço que parece poesia, o rosto de M. mergulhado no perfume dos cabelos dela, e a face de menina-mulher brilhando feliz ao sentir o másculo amplexo. Minutos infinitos eles ficam ali, absolvidos na emoção do reencontro, afogados no momento que querem a todo custo reter e fazer gelar, e sabem que não vão conseguir, que terão que se soltar e encarar-se; e a vida, que em momentos atrás parecia um sonho vivido, vai esbofetear o rosto destes dois apaixonados e fazê-los acordar. Mas até lá, M. ficará mergulhado naqueles olhos feitos do mais doce brilho, e vai dizer novamente “gosto de você, menina” - e ela, desta vez, vai acreditar.

5.06.2007

Noite insone



As noites insones são as maiores delícias mortas na vida de alguém. É como se o tempo passasse sem passar, como se carro do Sol se levantasse e trouxesse um dia novo, sem parecer que o dia que foi ontem se foi para sempre. As noites insones te levam do quarto para a cozinha em busca de algo para beber e aquecer aquele frio que insiste em entrar pelas frestas da janela, e no meio do caminho ainda há uma tentativa de ligar a TV, mas logo se percebe que aquele mundo da telinha não é mais para você. As noite insones são acúmulos de horas que inquietam o espírito. Os olhos buscam leituras, letras, frases, períodos, poemas que balbuciam dores em cada verso, romances que esbofeteiam, filósofos tão incompreensíveis como as razões que te deixam desperto e com batimentos cardíacos acelerados em plena 4 horas de uma quarta-feira qualquer.

As noites insones castigam mais do que os remorsos dos velhos, aqueles remorsos de uma vida que foi perda, ruína e covardia. E não é demais pensar que o próprio Cristo teve a sua noite insone, no escuro Getsemâni, a procurar uma razão para seu sacrifício. Cristo compreende os insones. Ele conhece a agonia de querer dormir, do corpo pedir descanso e encontrar a resistência de pensamentos que não cessam de reclamar. A tolice ainda aumenta quando o cigarro é aceso, a nicotina afasta o sono como cruzes afastam maus espíritos, e ainda busca-se um café para completar o desastre, ou chá, ou os dois, mesmo o chá verde tem cafeína, um veneno a mais para a desgraça de ficar confinado entre o azedume característico das lembranças que não querem partir.

As noites insones são todas. Não lembro quando tive a última noite de sono saudável, regular noitinha gostosa envolto entre cobertas cheirosas das 22 às 7, uma delícia, acorda-se com a disposição de um conquistador, come-se pão fresquinho com um leite vaporoso de quente. Agora a minha hora é inversa a da maioria e eu estou a mil quando o mundo estaciona em letargia. Adormeço por momentos, resmungo, os sonhos são tristes e eu invejo aqueles que jamais se lembram deles. Como muito mal. Às vezes esqueço de tomar banho. Respiro o ar de um quarto que nunca está com a janela aberta, odeio vizinhos bisbilhoteiros. Sei que Deus me vê agora, este Deus absurdo que brinca com os homens em suas ironias, mas Ele eu tolero e não tenho como evitar. Penso como foi triste a agonia no Getsemâni, afinal Jesus não tinha livros, nem computador, nem café para lhe fazer companhia, e os folgados dos apóstolos estavam é dormindo. Era só Cristo com o desespero de uma noite que não se dorme. Eu sempre achei que estes infernos noturnos me seriam negados, mas eu estava errado.

E nas noites insones leio, escrevo, penso, leio mais, escrevo mais um pouco, busco uma saída e o presente de encostar a cabeça no travesseiro e simplesmente repousar - mas não acontece. Desejo que Hipnos embale meu pensamento e o deixe dócil, pequeno, envolto em nuvens etéreas - e ele não aparece. Ao contrário, tenho um coração que não pára e uma ânsia de absoluto que fica ao meu lado sugerindo planos para o próximo dia. Sou um atleta do devir. Especialista em fazer de noites inteiras um laboratório de tormentos e lágrimas, e com a sensação de estar enlouquecendo por isso sem ao menos dar importância.

4.09.2007

Escolhas

Em um minuto, S. precisava tomar uma grande decisão. Pouco tempo para muita responsabilidade. Afinal, quase como o destino de seu coração o que estava sendo decidido: precisava escolher entre o cheiro de um perfume que lhe causava as mais fortes ereções ou o prazer de tórridas aventuras sexuais nas suas tardes de vagabundagem.

Era uma decisão difícil. A primeira tinha xx anos, a segunda yy. Era uma diferença banal, mas significativa para S., que beirava os 30 e estava em busca de alguém que pudesse, quem sabe, regar com ele as flores de seu jardim no futuro vetusto. Ele adorava esta imagem, regar com juntos as flores de seu jardim, leu isso em Voltaire e achou lindo, e a imagem dele com brancos cabelos, alguns netos e um jardim era coroada pela presença da esposa, igualmente de cabelos brancos, junto com ele no cuidados de crisântemos e papoulas.

Mas tudo poderia ser apenas sexo, tanto com uma ou com outra. Pegou o telefone da primeira, pegou o da segunda, somou números, procurou combinações, tentando achar algum indício cabalístico de quinta categoria. Explicar número de telefone pela cabala, era só o que faltava, realmente S. precisava de ajuda, ou ao menos de um pouco mais de canalhice, ficava com uma hoje e a outra amanhã, elas jamais saberiam, bastaria levá-las para lugares diferentes. Lembrou dos seios de T., logo em seguida da bunda de M., comparou-as, bela bunda, belas tetas, seria bem melhor se S. fosse algum tipo de deus que pudesse leva a bunda de uma pro corpo com as tetas da outra. Por um momento este pensamento o absorveu, nem deu tempo de dar-se conta do absurdo no qual se metera, e logo sacou os papéis de telefone de novo e ficou pensando para qual delas ligar.

Não deu tempo: o celular tocou. Olhou o visor, era uma garota de tempos atrás. Que estranho ela ligar assim, mas alegrou-se, ela era um avião, S. adorava gírias antigas. A conversa fluiu imbecil como todas as conversas entre pessoas que há tempos não se vêem, saudades, vamos sair?, eu te ligo, a gente combina, e assim ficou acertado que S. ligaria para ela na sexta, iriam num bar para matar saudades, certamente ela queria mesmo era o velho vai-e-volta acelerado, mulheres também são filhas de deus.

Então S. viu os telefones em sua mão, olhou bem para cada um deles, xx anos em um, yy anos no outro, em uma aquela vida de delícias sentimentais, na outra uma ninfeta tarada na qual era difícil confiar - anotou ambos na agenda do celular, acendeu um cigarro e foi até a janela. Não ligaria para nenhuma das duas, estava decidido, disse baixinho para si mesmo. Tentava levar o pensamento para longe daquela confusão de nomes e seios fartos, para longe daqueles nomes, para longe daquelas vozes femininas cheias de veneno. E por mais que tentasse apaziguar seus pensamentos, S. olhava a cidade com a estranha sensação de que estava perdendo a mulher de sua vida para sempre.

11.04.2006

Justificativa

R. estava no banheiro de seu apartamento e escovava os dentes com violência. Eram movimentos rápidos pelos caninos, pelos médios e molares, movimentos furiosos, urgentes; ele cuspia, enchia a boca com água, um bochecho veloz, um pouco mais de água, novas escovadas diretas, vigorosas; os movimentos subiam e desciam, a mão já estava cansada, um olhar para o espelho, mãos apoiadas na velha pia.

- Ainda não.