10.24.2016

Entrevista com Pharzhup (Lucifer Luciferax zine)



Essa é a primeira de outras entrevistas que desejo publicar aqui com pessoas ligadas ao Caminho da Mão Esquerda e que desenvolvem algum tipo de trabalho relevante para a Senda, seja através da escrita, música, pintura, etc. As entrevistas tem como pretensão explorar não somente o trabalho específico desenvolvido por cada um, como também saber um pouco sobre por quais vias chegaram ao Caminho Obscuro, quais foram suas primeiras inspirações e, claro, planos para o futuro.

Pharzhuph, editor do excelente zine Lucifer Luciferax, é o primeiro entrevistado. Na ativa desde 2008, o zine já conta com 10 edições, sendo uma dessas em inglês. Conheci o fanzine em 2010, quando participei do projeto I Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Independentes realizado pela Ugra Press. Dos fanzines que resenhei para o Anuário, de longe o Lucifer Luciferax foi o mais marcante, não apenas pelo tema - inusual na comunidade zineira - mas pela autenticidade que se desprendia de suas páginas. Reproduzo aqui a resenha que fiz da edição 7:

Publicação Pan-Daemon-Aeônica para uma era francamente vulgar: lemos isso logo na capa desse primor editorial satanista. Com textos excelentes, Lucifer Luciferax foi, sem sombra de dúvida, um dos zines com mais personalidade que recebemos. Não há espaço para superficialidades em suas páginas: as matérias, escritas por especialistas, são ricas em conhecimentos sobre gnose luciferiana, goetia, cabala de mão esquerda, O.N.A. e outros temas de caráter sinistro. Pontos a se destacar: a seção de resenhas de livros e a longa entrevista com Mark Alan Smith, autor de Queen of Hell, livro lançado pela Ixaxaar, casa editorial finlandesa dedicada às artes negras tradicionalmente conhecida por suas edições luxuosas. Um magnus opus luciferiano para corações negros e mentes livres.

Agradeço a Pharzhuph pela cordial disponibilidade em ceder essa entrevista. E sem mais delongas, ei-la.

Dissolve//Coagula: O primeiro número do Lucifer Luciferax foi lançado em março de 2008. Já se passaram mais de oito anos desde então, e nesse período foram publicadas dez edições. O que motivou o lançamento do fanzine e o que o mantem ativo até hoje?

Pharzhuph: Costumo dizer que a iniciativa surgiu da necessidade e da vontade de conhecer algo similar à Lucifer Luciferax. Era minha vontade ler uma espécie de revista com os assuntos que costumo abordar na publicação, mas não conhecia nenhum trabalho dessa espécie. Por volta de 2005 passei a desenvolver a ideia, pois já contribuía para outras publicações relacionadas ao Caminho da Mão Esquerda, mas de maneira um pouco diferente. Com a ideia na cabeça e um par de horas livres passei a editar a Lucifer Luciferax com a única e egoísta pretensão de tentar fazer uma espécie de revista que me agradasse. Acho que uma das chamas fundamentais que ainda fomentam a publicação é essa minha perseguição em fazer algo desse tipo que seja importante para mim e que possa espalhar algumas sementes de questionamento, destruição, morte e luz.


O mote do Lucifer Luciferax, presente em todas as capas dos zines, é "Publicação Pan-Daemon-Aeônica" para "uma era francamente vulgar". Eu vejo nesse nome algo inspirado na teoria das quatro idades (Yugas) hindu, que diversos autores utilizaram com abordagens distintas - de acepções mais, digamos, "espiritualizadas", como Frithjof Schuon e René Guenon, até outras alinhadas com a extrema direita, como Julius Evola. Para mim é muito claro que a Lucifer Luciferax não se enquadra em nenhuma dessas duas abordagens. Qual é, então, o sentido que você pretendia dar para a Lucifer Luciferax ao adotar esse mote?

Nas capas da primeira e da segunda edição achei interessante inserir algumas referências sobre os temas abordados na publicação.

Na capa da primeira edição, logo abaixo do nome Lucifer Luciferax, estava escrito “Zine, Ocultismo, Left Hand Path, Magick, Underground, Contracultura, Música Extrema, 1ª edição, março, 2008 e.v.”.
Na segunda edição as referências se expandiram um pouco e incluí alguns temas, daí a capa trazia os dizeres “Zine, Ocultismo, Left Hand Path, Magick, Underground, Contracultura, Música Extrema, Luciferiano, Draconiano, Setiano, Thelema, Dramaturgia, Humor Negro, Liberdade, Chaos, 2a edição, junho, 2008 e.v.".

Foi na terceira edição que surgiu o mote, sem muita pretensão ou sentido profundo. A ideia era dizer que a publicação estava de certa forma associada a numerosos assuntos não muito ortodoxos, um ‘pandemonium’, para furtar de Milton uma palavra.  A brincadeira se estende se formos pensar na etimologia de cada palavra e nas implicações das relações com as principais teorias das eras, mas essa é uma tarefa para cada mente.


O primeiro número que li foi o 7, na ocasião em que atuava como colaborador do projeto I Anuário de Fanzines da Ugra Press, EM 2010. Era pré-requisito do projeto receber uma cópia impressa do fanzine para poder participar do anuário. Hoje, ao que parece, a divulgação é exclusivamente online. Você distribui (ou já distribuiu) o zine impresso?

Lembro-me perfeitamente do belíssimo trabalho que a Ugra Press realizou com o anuário! Parabéns para Vocês! Admiro muitíssimo o que eles produzem e estimulam!

Sempre houve uma pequena tiragem de fanzines impressos e tivemos uma experiência em tentar manter impressões a um custo acessível para as pessoas interessadas, mas a procura pelo material impresso foi muito baixa. Ainda tivemos problemas com a qualidade das impressões e com algumas colaborações que acabaram não dando muito certo. Então preferimos manter somente a edição eletrônica das dez primeiras edições.

A Editora Coph Nia, de Curitiba, publicou duas edições especiais da Lucifer Luciferax, impressas profissionalmente com capa dura. O trabalho foi belíssimo e felizmente todas as cópias foram rapidamente vendidas e se esgotaram na fonte.


Acompanhando as edições ao longo dos anos, percebi que a densidade dos seus textos foi sendo incrementada, com a presença de textos de nomes importantes do Caminho da Mão Esquerda a nível mundial, como Thomas Karlsson , E. A. Koeting e Asenath Manson. Parece que ficou ali registrada a sua trajetória, seu desenvolvimento na Senda Obscura. Podemos considerar que o Lucifer Luciferax é uma espécie de "grimório público" de Pharzhuph?

Certamente a Lucifer Luciferax acaba carregando muitas impressões minhas e reflete algo da minha condição interior, mas não posso dizer que seja uma espécie de “grimório público”. Costumo evitar publicar material que eu mesmo tenha produzido em demasia e na maioria das vezes aproveito textos que escrevi há muito tempo. Felizmente pude sempre contar com outros autores valorosos nessa empreitada e com colaborações de vários amigos e irmãos nessa jornada. Muitos outros nomes importantes e conhecidos figuram na lista de colaboradores, mas ainda não tivemos oportunidade de publicá-los.


Ainda sobre os textos de sua autoria: a presença da Goetia nas páginas do zine é uma constante desde a primeira edição. Qual o papel da goetia em sua jornada?

Eu tenho uma impressão muito particular sobre a Goetia, penso em algo muito além de um universo de “sistemas” mágickos de labor na senda sinistra. Embora já tenha utilizado largamente os sistemas padronizados “enlatados”, vejo na Goetia uma senda artística de consecução mágicka na qual os espíritos e as inteligências podem atuar na transformação do universo pessoal do “praticante” em termos interiores e exteriores, promovendo as circunstâncias de embate para que o magista vença a si mesmo, trazendo aspectos inconscientes para a consciência juntamente com a manifestação essencial dos espíritos além de nossa própria constituição interna. Penso que é uma maneira ímpar de fundir e forjar um bom aço – o que evidentemente requer bem mais do que reunir materiais e aquecer uma pira. 


O escritor Adriano Camargo Monteiro, autor das obras "A Revolução Luciferiana" e "A Cabala Draconiana", dentre outros, é colaborador do Lucifer Luciferax desde a segunda edição e certamente é um dos maiores nomes da Mão Esquerda no Brasil. Qual é a importância dessa colaboração para você? Ela continua ativa?

Eu tenho muito apreço pelo Adriano, é um grande amigo e colaborou muito para a Lucifer Luciferax. Não falamos há tempos, mas não houve nenhum problema com nossa relação. Minha memória é um tanto falha, mas acho que fomos afiliados a uma mesma ordem internacional ligada ao Caminho da Mão Esquerda. É um autor que admiro bastante e com o qual tenho muitas ideias em comum. Há a possibilidade dele continuar colaborando sim.


Outro tema que apareceu mais de uma vez nas páginas do fanzine é a Ordem dos Nove Ângulos (ONA). O que você acha desse sistema?

Eu devo dizer que não tenho uma opinião devidamente formada sobre o sistema da ONA, acho que essa seria a melhor resposta. Conheci algumas poucas pessoas verdadeiramente envolvidas com o sistema e com a ONA, mas elas sempre estiveram totalmente fora dos holofotes. 


Parece haver, já alguns anos, uma efervescência no campo editorial do Caminho da Mão Esquerda, com editoras e autores novos surgindo em todo o mundo, além de relançamentos de obras clássicas e inéditas aqui no Brasil. Você sempre manteve a coluna "Index Librorum Prohibitorum" no Lucifer Luciferax, com breves resenhas de livros, o que me faz concluir que, além de leitor voraz, está sempre procurando saber o que está rolando de novidade não só no Brasil, como no mundo. Que novas editoras e autores, aqui e lá fora, você gostaria de destacar para os leitores?

Em nosso país eu não chamaria de efervescência, mas admito que há um levante de novas editoras surgindo por aqui.

Eu acho que falta cultura fundamental e conteúdo referencial básico aos estudantes ocultistas, especialmente os brasileiros. Alguns indivíduos compram livros somente para tê-los empoeirando nas estantes após divulgarem fotos ao lado de adagas, crânios e castiçais. 

Hoje eu citaria as editoras Coph Nia, Capelobo e Penumbra.

A Editora Coph Nia trabalha hoje numa importante coleção de grimórios que deve começar a ser lançada até o final do ano, a Bibliotheca Diabolica. O primeiro título será o Dragão Vermelho, obra na qual colaborei com revisões e introdução. Provavelmente surjam 11 títulos em capa dura, dentre os quais figurarão o Grimório do Papa Honório e outros títulos inusitados. 

A Editora Capelobo, extensão literária do Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra, também tem publicado excelentes livros sobre a Quimbanda Brasileira. Em poucas semanas devem lançar o segundo volume do livro Quimbanda, Fundamentos e Práticas Ocultas no qual há um texto de minha autoria.

A Penumbra já publicou um título de Kenneth Grant – O Renascer da Magia – [NOTA DO EDITOR: confira a resenha sobre esse livro feita aqui no Dissolve Coagula] e está lançando uma dupla obra importante de Peter J. Carroll, o Liber Null e Psiconauta.

Nos Estados Unidos, a Editora Black Moon está reavivando a publicação The Occult Digest – A Journal of Esoteric Thought, Practise and Expression, que deve ser lançada em breve. Uma iniciativa bastante interessante dessa antiga e conhecida casa editorial da qual eu também estou participando.


Continuando no mesmo tema: que livros e autores foram fundamentais em sua trilha no Caminho da Mão Esquerda?

Vários autores e várias obras, a lista seria muito extensa, mas alguns foram (e são) realmente fundamentais, basilares.
Aleister Crowley e sua obra me marcaram profundamente, mas não antes de Eliphas Levi, Papus e Guaita. Kenneth Grant, Austin Osman Spare, Michael Bertiaux, Linda Falorio, LaVey, Jack Parsons, John Dee, Thomas Karlsson e muitos outros.


Já foram criadas as mais diferentes definições para Magia. Crowley a definiu como "a ciência e a arte de produzir mudanças através da vontade". Qual é a definição de Pharzhuph para Magia?

Eu sou propenso a concordar em linhas gerais com a definição que Aleister Crowley apresenta em Magia em Teoria e Prática.


Vamos falar sobre sua experiência prática com a Magia. Você pertence/pertenceu a alguma Ordem ou senda específica?

Sim, “pertenci” ou fui afiliado a algumas ordens e associações similares. Minha “formação elementar” – se é que posso utilizar esse termo aqui – é basicamente Thelêmica, “Luciferiana” e um tanto independente, com raízes na Quimbanda.

Fui membro da Ordo Templi Orientis, da Ordo Templi Orientis Antiqua, do Monastério dos Sete Raios, da Le Couleuvre Noire, da Ordo Nox Magistralis, da Ordo Baphometis, da Sociedade Polímata, da Dragon Rouge e de mais algumas outras entre os anos de 1995 e 2015. Conheci pessoas interessantíssimas nas ordens brasileiras e internacionais e tenho contatos com muitas organizações de cunho iniciático.

Atualmente, tenho uma grande aproximação com o Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra e estudo um pouco do Culto de Ifá.

Para minha “formação pessoal” achei interessante manter algumas afiliações no passado, com algumas estive muitíssimo comprometido, aprendi muito com a experiência coletiva. Hoje já não tenho mais inclinações dessa espécie.


No terreno da prática mágicka, vemos uma expansão cada vez mais forte, aqui no Brasil, da Quimbanda como caminho iniciático para a Mão Esquerda. Não sei se estou certo em minha interpretação, mas vejo que a Corrente 218, nascida do Temple of Black Light, especialmente através da figura do Dissection, foi componente fundamental para divulgar a Quimbanda para um grande público. Isso ajudou a preencher um certo vácuo de identidade que havia nas práticas sinistras aqui, auxiliando muitos a saírem de um estágio de simples blasfêmia metaleira para uma senda séria de prática e estudo. Comente.

De alguma maneira o Dissection auxiliou a espalhar diversas formas sinistras que se infiltraram em alguns indivíduos no sentido de fazê-los saírem de um certo estágio de estagnação, mas não acho que tenha sido algo especial com relação à Quimbanda para um grande público.

Há alguns pontos obscuros que envolvem o Templo da Luz Negra da Suécia e valorosos Quimbandeiros brasileiros, pontos sobre os quais eu prefiro não comentar, pois certamente chocariam os indivíduos mais presos à imagem e mais distantes do cerne das Correntes 218 e 49.

Acho que há, infelizmente, um certo modismo no que tange à Quimbanda nos dias de hoje, algo similar ao efeito “anticósmico” causado pelo Black Metal e por fatos relacionados. É até curioso como o efeito de rebanho surge justamente onde deveria não existir.


Como foi a experiência de fazer uma edição em inglês?

Foi extensamente gratificante e onerosa.

Não domino o idioma bretão e tive que recorrer ao auxílio de tradutores e amigos que ajudaram com tradução e revisão. Conseguimos até bons preços com as traduções mais difíceis, mas ainda assim acho que o investimento foi um pouco alto para uma publicação que não estava preocupada em obter lucro (ou, pelo menos, cobrir os custos fundamentais).

Algo que me surpreendeu bastante foi a receptividade do trabalho em outros países. As edições regulares, em português, circulam livremente pela Internet, mas é muito raro eu receber algum tipo de Feedback ou crítica dos leitores brasileiros. Já a edição experimental em inglês recebeu dezenas de críticas variadas, elogios e feedbacks.

Foi graças a esse trabalho que recebi o convite da Editora Black Moon para participar da publicação The Occult Digest – A Journal of Esoteric Thought, Practise and Expression, que deve ser lançada em breve nos Estados Unidos.


O que podemos esperar do Lucifer Luciferax para o futuro?

O futuro é incerto, mas alguns estratagemas estão sendo profundamente analisados.
Posso adiantar que não haverá mais lançamentos de edições digitais. A partir da próxima edição haverá somente exemplares impressos. O formato de fanzine será abandonado e a publicação se tornará em algo como uma revista [o que ainda está sendo pensado].

Há duas propostas firmes para publicarmos versões impressas em inglês e português da Lucifer Luciferax, mas ainda há algum trabalho a ser feito nos bastidores antes disso acontecer.

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