3.18.2013

Nichos de mercado, minorias e as trombetas de Kali-yuga



A notícia de que alguns homens consideraram preconceituoso o comercial da Gillete (veja a matéria aqui) soou aos meus ouvidos como mais uma das trombetas a anunciar a micareta de Kali-yuga.

Se antes o coro de reclamações contra os padrões estéticos era composto majoritariamente por mulheres, agora é a vez dos homens se juntarem a essa “luta” e, também eles, colocarem a cruz da opressão sobre seus másculos ombros – que já não são tão másculos assim, ou melhor, o próprio conceito de masculinidade, homem e virilidade estão sendo colocados em cheque, relativizados e atuando como mais uma substância a compor o cenário pós-moderno da sexualidade, onde o continuum amorfo é a regra.

É importante partir, antes de tudo, do óbvio: eu não nego que a mídia adote um padrão de beleza. Aliás, não apenas um, mas vários: aquele mundo onde a televisão, os jornais, o cinema, etc propagavam apenas UM padrão, apenas UMA estética aceitável, este mundo está morto e claramente se decompondo perante nossos olhos, embora seu estado de putrefação ainda não nos tenha levado a desistir de analisar a realidade com as carcomidas óticas herdadas do passado. Os grandes grupos de mídia e as agências de publicidade aprenderam que a diversidade vende: a pluralidade de cores de pele, tipos de cabelo, orientação sexual e crenças são fatores que, se bem administrados, podem gerar muitos lucros. Os usos estereotipados que miseravelmente algumas novelas e programas humorísticos ainda fazem de negros e homossexuais, acredito, diminuirão cada mais, até ao ponto de se tornarem inexistentes. Como fatores dessa mudança, de um lado está a pressão realizada por grupos de direitos humanos, e do outro os interesses comerciais que encaram essas “minorias” como nichos de mercado - e esse último fator é, decisivamente, o que tem mais força e influência. O caso mais recente é a negociação aberta entre Rede Globo e o pastor Silas Malafaia para uma mais do que provável “novela evangélica”.

A tática que está por trás de tudo isso: antes os tentáculos da opressão determinavam dois grandes adversários bem definidos – Capital versus Trabalho. Porém, pelo menos desde o Maio de 68, a ala dos trabalhadores se esfacelou em uma miríade de fronts. Já enfraquecida pelo corporativismo sindical, responsável pela separação dos trabalhadores em sindicatos de categorias tão numerosos quanto ineficientes, o Trabalho foi ainda mais segmentado pelas ações de “guerra cultural”, que torna o trabalhador também um “estudante”, “mulher”, “negro”, “homossexual” e diversas outras micro-identidades, incomunicáveis entre si. E mais do que incomunicáveis, tais identidades terminam por obscurecer a identificação dos oprimidos como pertencentes a um grupo infinitamente mais vasto, em antítese fundamental com o onipresente Capital. A “causa histórica” do Trabalho contra o Capital cede à tentação da luta cultural, quando na verdade deveria manter-se dentro dela o tempo todo, como única forma de gerar uma oposição realmente significativa. Mas não é isso o que acontece: especializam-se de tal forma as frentes de luta e radicalizam-se tanto as posições que terminam por, finalmente, tornarem-se herméticas; perde-se o foco em relação a opressão de fundo econômico, invisível mola propulsora de todas as demais; todos enfrentam seus próprios e customizados moinhos de vento, tomando-os por gigantes; e sem grandes obstáculos para enfrentar (greves, por exemplo), os negócios prosperam. Patrões de todo o mundo, regozijai-vos

Achei muito curiosa a solidariedade entre homens e mulheres no choramingo contra a imposição de um “padrão” de beleza. Uma solidariedade não declarada, decerto, mas que mostra homens reivindicando uma bandeira que era antes um patrimônio (quase exclusivamente) feminino. Antes de lançar alvíssaras a isso, como os mais exaltados poderão fazer (sempre é bom desconfiar dos exaltados), quero observar como ambos os sexos distanciaram-se, nas últimas décadas, de seus respectivos, vamos chamar assim, “arquétipos”, galgando passos rumo a um novo paradigma de comportamento ainda impossível de vislumbrar com clareza, mas dos quais podemos observar contornos ainda difusos.

Primeiro as mulheres: sai de cena o modelo de “mãe” e “dona de casa”, ocupa seu lugar a mulher “independente”, cuja máxima realização é a “executiva bem sucedida”. Não apenas uma profissional altamente qualificada, mas também sexualmente ativa, buscando conscientemente parceiros/as sem a pretensão de laços firmes e duradouros. No linguajar comum, a mulher "ganha espaço". A versão sentimental e apaixonada de uma mulher em busca de um marido e do sonho da maternidade é trocada por outra onde o “sucesso” compensa a quebra do dogma reprodutivo ("você tem que ser mãe"), visto como acessório para a realização plena como mulher. É importante frisar que esse arquétipo, socialmente determinado, encontra portanto gradações, aliás muito interessantes: quanto mais burguês é o núcleo social de uma mulher, quanto mais possibilidades financeiras ela possui, tanto mais fácil é abraçar esse novo arquétipo. Em outras palavras: é o grau de riqueza, de condições materiais, que permite a essas mulheres o acesso a uma liberalidade antes exclusiva para os machos. Além disso, justamente essa riqueza proporciona a chance de subtrair-se de atividade tipicamente “femininas”: a “mãezona executiva” contrata babás e empregadas para efetuar as tarefas domésticas. E quanto mais empregadas ela tem para efetuar tais tarefas “menores”, tanto mais bem sucedida ela é. Resultado: cria-se uma “casta” de sub-empregadas, que enxergam nas patroas bem-sucedidas um exemplo, não raro admirado com inveja – e não se percebe, de nenhum dos lados, que a “executiva bem sucedida” e a “empregada do lar”, no final das contas, são ambas  desgraçadamente esmagadas nas engrenagens do MESMO sistema, e forçadas a enxergarem-se entre si com desconfiança, como autênticas inimigas [essa matéria aqui sobre "caçadoras de babás" é bem ilustrativa, além de ser um convite ao vômito]. E esse desprezo pelas tarefas domésticas é ainda mais acentuado – que ironia! – nesse país miserável que é o Brasil, onde qualquer palerma classe média contrata uma empregada para ir na sua casa de quinze em quinze dias, por achar que limpar banheiro, esfregar o chão é algo “menor”, “cansativo”, e que convém pagar para outra pessoa – no caso, sempre uma mulher pobre – para fazer o serviço “sujo”. 

Claro: há muitas outras que ainda nutrem o sonho da maternidade, de encontrar um “bom marido”, de se apaixonar e criar laços duradouros. Constituir um lar, enfim. Isso certamente ocorre e em uma quantidade absurda, mas o importante aqui é constatar que esse arquétipo da “mãe” perde sua hegemonia e convive, sem hostilidade, com o da “executiva bem sucedida”. Ocorre, inclusive, simbioses bem curiosas: a diretora de uma companhia torna-se ainda “mais mulher” quando consegue equilibrar o sucesso profissional com a maternidade e um casamento feliz. Amálgama de ambos os modelos, a “mãezona executiva” é, mais que uma síntese, o sintoma de uma época de transição que não ainda não desprendeu-se totalmente das formas do passado, que ainda caminha incerta em direção ao seu futuro. Mas os fatos contemporâneos indicam que será a executiva, mais do que a mãe, que por fim “vencerá” a “disputa”: relações pessoais cada vez mais virtualizadas e sujeitas a um compromisso “líquido” (Zygmunt Bauman); o imediatismo disso decorrente, não havendo mais espaço e sequer sentido ter filhos; o dinheiro mediando cada vez mais amplamente as interações entre as pessoas (nesse sentido, o mediano “Pagando por sexo” chega a ser profético) são alguns dos elementos favoráveis à cristalização de um novo arquétipo feminino que nada mais é que a plena realização do self made man em uma versão feminina, espécie de femme fatale não apenas para os homens, mas também para os mundos dos negócios.

sim, é um boneco Ken que faz a barba ¬¬
E os homens? Bem, estes nada ganharam – pelo contrário, inconscientemente desesperam-se com a perda de seu maior prestígio arquetípico: a manutenção de um lar. Não são mais imprescindíveis como “chefes de família”. Há mulheres que ganham o mesmo ou até mais que eles. De todas minhas experiências profissionais significativas – três ao total – em TODAS eu tive como chefes não homens, mas mulheres. A visão de um respeitável homem chegando em casa após o trabalho, com a íntima convicção de ter labutado pelo sustento dos filhos, essa visão não é mais possível: em nossas cidades cada vez mais caras, o salário de apenas um membro não garante o sustento da família. Em outras palavras: se antes o capitalismo, em sua fase mais áurea, proporcionava à classe média o nobre sonho do pai-de-família-provedor--e-esposa-rainha-do-lar, agora esse mesmo capitalismo necessita que ambos, pai e mãe, vendam suas energias para as engrenagens do sistema girar. Olhando por esse prisma, a "conquista" feminina é relativizada e mostra-se como uma caminhada da prisão doméstica em direção ao inferno das relações trabalhistas.

Mais uma vez insisto: o que importa discutir aqui é o “modelo arquetípico”, e não as particularidades sociais de sua aplicação. Sabemos que, entre os pobres de qualquer lugar, sempre foi regra todos os membros da família trabalharem como única forma de garantir o sustento do lar. Isso, ao invés de contradizer, serve como comprovação do que eu disse acima, isto é, que as condições do capitalismo atual estão ainda mais brutais do que aquelas do nascente mundo industrial: apenas chegamos em um estágio onde a exploração é tão ostensiva que termina por ocupar TODOS os aspectos da vida, sendo impossível fazer um contraste entre situações livres e opressivas (Lembro de um caso citado por um amigo meu, professor de Língua Portuguesa em um renomado – e caro – colégio paulistano: um aluno, após ler um texto, pergunta a ele: “professor, essa palavra que aparece toda hora no texto, ´opressão´, o que é? Eu não conheço essa palavra...´ – e pela reação silenciosa da classe dava a entender que MUITOS ali também não sabiam... Se você sequer sabe o significado da palavra “opressão”, conseguirá identificar uma situação opressiva?).

Outra perda arquetípica que os homens sofreram: a hegemonia nos jogos da conquista amorosa. Nem falo a respeito do cortejo galante, esse sonho de poetas, mas na conquista carnal pura e simples nos bares e boates. Antes, era ao homem que cabia a ação de "chegar junto". Hoje, nem apenas isso não acontece como são elas que, muitíssimas vezes, tomam a iniciativa perante mancebos e mesmo homens maduros completamente apalermados. Tal como qualquer homem, elas também buscam uma noite sem compromisso, uma simples "curtição” descartável, um fugaz prazer imediato que se resolve com o encontro entre líquidos seminais. No final das contas, foi bom para todos que as mulheres tenham ganhado maior liberdade nos jogos amorosos: mais desinibidas, mais vorazes, podendo experimentar posições e sensações que antes estavam marcadas pelo estigma do pecado. Entretanto, falo de outra coisa: a triste constatação de que essa doce liberalidade também ganhou aspectos ridículos. Vemos que todos aqueles comportamentos antes censurados nos homens, e antes exclusivos deles (ser “comedor”, beberrão, dado a brigas, etc), são então compartilhados com a esfera feminina, em uma democrática distribuição de tudo o que é desprezível. Igualados nos vícios e nas burradas, homens e mulheres “baladeiros” são o fruto inesperado do Maio de 68, fruto com o qual ninguém sabe ao certo como lidar.

Há somente “perdas” para os homens? Não necessariamente. Agora, é possível que eles sejam mais vaidosos, que se preocupem mais com a aparência, que se dediquem a comprar roupas e a se vestir com mais cuidado. Não estou falando de cortar o cabelo, fazer a barba e não usar roupas rasgadas: que fique claro que não foram os metrossexuais que inventaram a vaidade masculina. Ela sempre existiu, mas antes circunscrita a determinados procedimentos mais restritos e “austeros”. Falo da vaidade que motiva homens a buscarem cirurgias plásticas para afinar o nariz, clínicas para depilar a perna, salões de beleza para hidratar o cabelo – ou seja, práticas que antes eram exclusivas das mulheres. O Doctor Ray é o paradigma desse tipo de homem que nutre uma verdadeira obsessão pela aparência. Adotam práticas “femininas”, como fazer as unhas com uma manicure, sem se sentirem “menos” homens por isso.

Então é esse o cenário pós-moderno: mulheres agregando características “masculinas” ao seu comportamento (funcionárias altamente qualificadas, sexualmente livres, independentes), enquanto homens tornam-se mais “femininos” (cuidados com a aparência, divisão de tarefas domésticas). O resultado disso parece ter como resultado o prenúncio de novo tipo de ser humano, amorfo, capaz de transitar por padrões e comportamentos que, no passado, estavam enraizados e constituíam uma identidade mais ou menos sólida. Em outras palavras: coloca-se no torvelinho todas as opções comportamentais, faça com que todas se misturem promiscuamente sem restrições; acrescente a essa mistura desaprovação de qualquer limite que se queira impor a essa tendência aglutinadora; permita que seja dado livre fluxo a uma enxurrada de mutações, simbioses e reformulações sobre qualquer tipo de comportamento antes sexualmente determinado – desde que, é claro, todas essas combinações possam ser enquadradas em um canto na prateleira das opções de identidade e, consequentemente, comercializada como tal. O que importa, sempre, é categorizar tais identidades como potenciais nichos de mercado. O Sacro Consumo santifica tudo. Já é assim hoje: por exemplo, na Frei Caneca, rua paulistana que se tornou o point da cultura GLS da cidade, a especulação imobiliária construiu diversos condomínios residenciais de alto padrão, com foco exclusivo para o “segmento GLS masculino” – considerado um “público” formado por profissionais altamente qualificados e, portanto, bem remunerados. Importante ressaltar que se trata de uma fatia do GLS: até onde é meu conhecimento, nunca pensaram em fazer condomínios com foco em abrigar travestis, que dentro do espectro GLS estão entre os mais marginalizados e onde o envolvimento com a prostituição é muito mais acentuado – em uma palavra, são pobres, não podem pagar o altíssimo padrão de vida da região. E não por acaso, são os que mais sofrem preconceito e violência nas ruas das cidades. 

O que surge, então, no horizonte dos arquétipos? É impossível ver com clareza: tudo o que temos diante dos olhos é um amontoado de contornos difusos que, no limite, apontam para uma quimera que reúne em si tudo o que é de Si e do Outro, anulando qualquer diferença. É o sonho igualitário hipertrofiado de tal forma que nada mais resta a não ser indivíduos completamente padronizados, indistinguíveis, agindo mediante os mesmos impulsos e motivações. Não creio que isso se concretize algum dia, entretanto: seria esperar da História algo tão extremo que não tem possibilidade de existir no mundo dos homens. O desafio é saber distinguir nos discursos oficiais, na cultura televisiva, etc aquilo que é meramente propaganda do ideal igualitário proposto pelo Deus Mercado (que na verdade é a supressão de toda a diferença) do que é corajoso combate contra a violência voltada a negros, mulheres, gays, etc. Retomando o comercial da Gilete, mola propulsora desse texto, não se tratava ali de nenhuma “violência” contra homens peludos, mas tão somente uma estratégia publicitária que precisava de planejamento, para não deixar os “Tony Ramos style” com raivinha. Certamente na próxima eles acertam, e aí ninguém vai reclamar: todos se sentirão igualmente representados nos rituais de consumo – esses sim, jamais devem ser questionados. É aí que está o nosso fracasso: aceitar o dogma do mercado, assumir que todos são consumidores e portanto merecem seus “direitos” quando, na verdade, deveríamos questionar as megaestruturas do consumo e do trabalho – que não permanecem somente intactas mas prosperam sobre todos, com crises ou sem crises, sejam “minorias” ou não.

2 comentários:

  1. Botei fé no argumento central: a diversidade parece estar vencendo porque ela virou mercadoria. A princípio concordo com tudo, mas acho que tem questões que podem ser mais problematizadas. Por exemplo essa mulher bem sucedida, como vc disse: "uma caminhada da prisão doméstica em direção ao inferno das relações trabalhistas." Na verdade ela não saiu realmente da prisão doméstica. E prisão dompestica não tem só a ver com a casa, mas agrega tbm a questão do corpo e o “papel do cuidado”. Acho que temos que discutir, que no momento em que ela vai pro mercado de trabalho, há uma sensação de que a estrutura patriarcal é quebrada, mas não é porque, tirando alguns exemplos específicos dessa super mulher executiva, o que temos hoje são mulheres se fazendo em mil para dar conta da dupla jornada e ainda da ditadura do corpo. Ou seja, ela foi pro mercado de trabalho competir com o homem, mas continua sendo responsável pela casa. Mesmo pagando outra mulher mais pobre para fazer, é ela a responsável por monitorar, pagar, é ela a responsável pelas reuniões de “pais” nas escolas, é ela responsável a utilizar também aquele dinheiro suado pra cuidar dos idosos. A responsabilidade do cuidado ainda é da mulher. A questão da liberdade sexual também rola mas com vários poréns, como falam as teorias do "backlash": qto mais adentra o mundo do trabalho, maior tem sido a opressão do corpo perfeito. Temos um monte de mulher aí "chegando" nos caras, mas com certeza essa atitude só é merecida depois de ter ralado muito na dieta e na academia para se sentir segura. A segurança dessa mulher desinibida, claro, em geral, ainda está presa no corpo e não é fruto de uma visão sua de sujeito. Acho que é muito mais um "já que estou gatona e jovem AINDA", quero aproveitar e se eles não chegam eu chego.
    Então essa coisa de um ir pro espaço do outro, não quis dizer que vamos compartilhar/competir em todos os espaços, mas penso que as mulheres só agregaram responsabilidades do mercado e as resposabilidades do doméstico, por outro lado, não foram compartilhadas. Acho que essa "liberdade sexual da mulher" é muito mais uma mercadoria (das academias, das lojas de lingerie, das revistas Cláudia, da indústria de cosméticos, da indústria do aspartame, etc) do que uma nova consciência sobre autonomia do corpo e sexualidade, e concordo com vc, que por isso muita mulher acaba fazendo coisas sem noção por aí e se dando mal. Inclusive os estupros não deixaram de ocorrer porque as mulheres usam roupa curta. Enfim, só pra lembrar que a sigla GLS foi cunhada por empresários mesmo (e não pelo movimento), né? E acho que justamente a diferença entre “GLS” e “LGBT” é o centro do seu argumento. O mercado nos quer fazer acreditar que temos direito como LGBTs, quando o que há é uma identidade de altão padrão de consumo – GLS - gay masculino sendo imposta/vendida. Tnato que para o senso comum “gays ganham mais que héteros e por isso viajam mais”. E fodam-se as travestis e todas/os LGBTs pobres, né?
    Apesar do meu pessimismo da crítica feminista, eu espero sim que os Tony Ramos se juntem a nós mulheres e que essa massa amorfa de identidades um dia se torne um “livre ser”, independente do quanto o mercado explore isso.

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    1. Clarissa!

      Em primeiro lugar, devo dizer que gostei bastante do seu comentário, que ajudou a problematizar alguns aspectos que meu texto não deu conta - e alguns deles são bem importantes. Vou comentar cotejando alguns trechos de seu comentário:

      "Acho que temos que discutir, que no momento em que ela vai pro mercado de trabalho, há uma sensação de que a estrutura patriarcal é quebrada, mas não é porque, tirando alguns exemplos específicos dessa super mulher executiva, o que temos hoje são mulheres se fazendo em mil para dar conta da dupla jornada e ainda da ditadura do corpo. Ou seja, ela foi pro mercado de trabalho competir com o homem, mas continua sendo responsável pela casa": concordo. A própria linguagem mostra isso, quando vejo homens comentando que "ajudam nas tarefas domésticas" - por ajudar, entende-se que a tarefa NÃO é dele, e o máximo a ser feito é dar uma mãozinha. Essa dupla jornada de trabalho torna-se ainda mais brutal quanto mais pobre é a mulher, aliás.

      "Acho que essa "liberdade sexual da mulher" é muito mais uma mercadoria (das academias, das lojas de lingerie, das revistas Cláudia, da indústria de cosméticos, da indústria do aspartame, etc) do que uma nova consciência sobre autonomia do corpo e sexualidade": exato, não é uma nova consciência, mas está se tornando uma. A influência do mercado sobre os COMPORTAMENTOS é clara, e no estágio atual do capitalismo não podemos desconsiderar a influência que ele exerce também na PSIQUE das massas (aliás, é preciso esclarecer: hoje, vejo o mercado não apenas como uma "entidade" que abarca o aspecto econômico da vida, mas como uma manifestação concreta de tendências meta-históricas, digamos, "aeônicas", cujas influências procuram materializar todos os aspectos da vida e destruir qualquer possibilidade de transcendência, tornando a existência algo unidimensional. Por isso, essa "liberdade sexual" é uma mercadoria sim, mas TAMBÉM mais um componente nessa "guerra espiritual" que é ainda muito mais vasta e difícil de compreender, mas isso é tema para depois...). A sensibilidade mais "libertina" (lembrando que é sempre uma "libertinagem" pautada pelo mercado) espraia-se pelo tecido social como uma praga, e aí temos o ato sexual, que é das experiências mais íntimas que uma pessoa pode ter, sendo colocado como simples "curtição" - e PRINCIPALMENTE curtição, não mais algo que tem um sentido de êxtase, conexão, etc. No vácuo disso, prospera a indústria pornô de massa, os Viagras e a infelicidade conjugal que busca sua válvula de escape nos puteiros da vida.

      Ah: eu cito no texto o "Pagando por sexo", e só agora vi que não linkei com uma matéria. Acho que você vai se interessar: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/07/chester-prefere-pagar-pelo-sexo.html

      :***

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