1.30.2013

Tom & Jerry e a globalização



Eu estava em um churrasco de final de semana e, em um horário já adiantado da noite, a tortuosa conversada embalada por cervejas e outros sortilégios etílicos descambou para a temática social: protestos, greves e essas coisas. Em um dado momento, comentei sobre como foram excitantes as manifestações anti-globalização, ocorridas nos anos da virada da primeira década do século XXI; de como eu e meus amigos daquela época nos preparamos para os embates com tropa de choque, comprando bolinhas de gude para jogar nos coxinhas, etc; do clima de contestação geral que fez com que o centro velho de São Paulo e a avenida Paulista fossem tomados por milhares de pessoas em um combativo protesto para denunciar os rumos nefastos, aceleradamente neoliberais, que o mundo estava tomando. 

Eis que então uma moça participante da conversa diz: "ter participado de uma manifestação anti-globalização denuncia sua idade". Todos riem. Eu também.

A conversa seguiu adiante, mudou de rumo, todo mundo ficou bêbado, a noite foi passando e dezenas de outros temas foram discutidos até ela terminar. Mas aquela frase - "ter participado de uma manifestação anti-globalização denuncia sua idade" - ficou comigo. Mais precisamente: o que ficou comigo foi o destaque dado pela moça ao prefixo "anti". No contexto, o indicativo de minha "velhice" estava no fato não de eu ter participado de uma manifestação no longínquo ano 2000, mas sim em participar, justamente, de um protesto contra a globalização. A risada geral tinha um pouco disso: como é possível que as pessoas tenham protestado contra algo que é tão natural? Afinal, a globalização começou lá com as navegações, quando os europeus chegaram à América, e então as trocas entre os países se aceleraram em tal velocidade, quantidade e constância que, hoje, almoçamos comida italiana feita por imigrantes bolivianos em um restaurante de São Paulo cujos donos são descendentes de poloneses. Que grande absurdo alguém querer protestar contra a globalização. É quase como se fossemos às ruas reivindicar que a chuva molhasse menos as coisas. Todos riem. Eu deveria rir também, mas não consigo mais.

No verbete da Wikipedia sobre o termo "anti-globalização", coloca-se que este "é um movimento que reivindica o fim de acordos comerciais e do livre trânsito de capital" e  que os seus adeptos opõem-se "à formação de blocos comerciais como o NAFTA e a ALCA". Mais adiante, cita um trecho de obra de Daniele Conversi, que define a globalização "como a importação, em via de mão única, de itens culturais estandartizados e ícones de um único país, os Estados Unidos, numa 'americanização' altamente superficial, incoerente, fracional e deficiente, em que os outros povos 'como macacos, imitam algo que eles nem mesmo entendem'". Motivações ambientais, culturais e étnicas também fazem parte do amplo espectro de reivindicações anti-globalistas, que em fins dos anos 90 e início dos anos 2000 ajudaram a formar um bloco de oposição que unia comunas, socialistas, anarcos e tantos outros. Uma honesta descrição do período pode ser lida aqui.

De certo modo, naquele mundo pré-11 de setembro, era legítimo questionar a globalização, que nada mais era que um pomposo nome, relativamente novo, para designar a expansão do capitalismo financeiro. Vendia-se a globalização como algo "inevitável" e "positivo", capaz de "gerar empregos" e "diminuir a pobreza". Nunca se falava, entretanto, que o que estava sendo ensinado era a agir como macaco, a imitar o american way of life, a incorporar no cotidiano os hábitos e padrões mentais estadunidenses. Claro que, naquela época, ninguém prestava a mínima atenção nas críticas que eram feitas. Duvido muito que algum almofadinha que trabalhava na Paulista, ao ver a avenida tomada por milhares de jovens gritando slogans contra a globalização, tenha de repente pensado "é verdade, esses caras estão certos" (é mais sábio esperar das pessoas o comportamento de rebanho inconsciente que elas sempre tiveram. Desde a Queda é assim, e até o Final dos Tempos assim será).

Entretanto, após os eventos do 11 de setembro de 2001, a balança do poder pendeu favoravelmente à expansão dos Estados Unidos que, sob a desculpa de "lutar contra o terrorismo", causou um dano avassalador no cada vez mais forte movimento anti-globalização. De repente, levantar essa bandeira passou a ser considerado quase que como uma declaração de pró-terrorismo para a mídia mais coxinha. E ser a favor do terrorismo era (é) um ato de profunda selvageria, de insensibilidade perante a "catástrofe" que se abateu sobre os Estados Unidos - e apesar disso nada se dizia (diz) sobre os ferozes gastos bélicos desse país, de todos os bombardeiros por eles orquestrados, por todas as destruidoras campanhas armadas na Coréia, Vietnã, Iraque, Afeganistão e dezenas de outros países. Enfim: o 11 de setembro simplesmente foi um dos melhores acontecimentos que a política externa estadunidense poderia querer, pois garantiu que sua esfera de influência se estendesse por praticamente todo o planeta. A globalização, então, alcança as condições para tornar-se uma realidade.

Realidade total, absoluta e inquestionável. Realidade que nos envolve completamente, sem espaço para o pensamento ir além de seus limites - afinal, como ir além de algo que não se pode sequer ver

Ter participado de uma manifestação anti-globalização coloca-me como uma espécie de homem cujo tempo já passou. A globalização deixou de ser um conceito, um tema para discussão e um motivo para sair às ruas em protesto: ela é a própria realidade. E se tomarmos como principal base ideológica da globalização o liberalismo e a sua proposta de ordenar a vida como um grande mercado, subscrevo letra por letra as palavras de Alexander Dugin quando diz que, na pós-modernidade (= o mundo que vive a vitória incontestável da globalização), o liberalismo deixa de ser um arranjo ideológico para ser o único conteúdo da existência, para ser "uma ordem objetiva de coisas cujo desafio não é apenas difícil, mas tolo" (grifo meu). 

É por isso que todos riram quando aquela moça falou, com certa ênfase no prefixo, em "manifestação anti-globalização". Riram porque o humor é feito disso: de coisas tolas, absurdas. Quando eu era pequeno, ria muito vendo o rato Jerry jogando um piano sobre o Tom: o pobre gato ficava achatado como uma pizza. Depois ele assoprava o dedo, inflava e voltava ao normal. A graça estava justamente nessa irrealidade tão boba. Talvez incitar a criação de um olhar crítico sobre a globalização nas condições atuais seja tão inútil quanto explicar para uma criança que o desenho do Tom e Jerry é uma coleção de impossibilidades. Seja como for, caso subsistam registros materiais de nosso tempo para os homens do futuro (esqueçam essa história de que o mundo vai acabar, que todos os homens morrerão: nossa espécie é tão amaldiçoada que não seremos agraciados com a dádiva do Fim) espero que eles reconstruam a pós-modernidade de um modo honesto, isto é, sem festas ou coloridos, sem sorrisos ou meias-palavras, mas com o devido rigor e coragem que, nos homens de hoje, estão em níveis tão baixos; e que nessa reconstrução consigam mostrar o horror que é esse mundo sem face, onde o dinheiro nivela tudo no chão, na lama da mediocridade, onde não há espaço para nenhuma diferença que não seja aquela que reza o credo do consenso liberal e suas leis.

Um comentário: