8.12.2012

Exposição "Gatinhos fofinhos"


Conheci o Shoker faz alguns anos, no circuito psychobilly de São Paulo. E como é comum nesse tipo de subcultura, acabamos por conhecer apenas uma faceta das pessoas, mesmo que se mantenha algum grau de relacionamento com ela. Assim, após anos de contato, eis que descobri que Shoker é, também, um artista de engenhosa habilidade, produzindo telas que já abocanharam duas recentes exposições em São Paulo.

A mais recente série de telas dele, "Gatinhos fofinhos", foi analisada recentemente para a exposição que ocorreu na festa de dois anos da casa Lab, na rua Augusta. Rigorosamente analisada, diga-se de passagem, e trazendo à tona as diversas camadas de significado e influências pop que instigam sua produção. Resolvi publicar essa análise aqui. Você pode ver as obras e saber mais sobre o Shoker em sua página do Facebook: https://www.facebook.com/shokerart

Gatinhos fofinhos
O tema unificador da coleção, como seu curioso título "Gatinhos Fofinhos" indica, está no uso sugestivamente exagerado de padrões decorativos com o formato dos felinos sobre cenários bélicos, místicos, industriais e psicodélicos. Dentre as obras expostas, dou destaque para "Ronronando", na qual o interior de gatos movidos por engrenagens é retratado - engrenagens estas que remetem diretamente ao ícone da 'clockwork fruit', eternizado na arte de "Laranja Mecânica" de Anthony Burgess. Tomo esta obra por exemplar pelo fato de ela poder, de forma elucidativa, trazer à luz o tipo de registro conceitual que ganha corpo no trabalho do artista conforme nos deparamos com o restante de suas obras. Autodidata no campo, o início do envolvimento prático de Shoker com o campo das artes plásticas não se dá nas academias, mas diretamente na prática, mais propriamente em seu trabalho conjunto com o ex-restaurador da Pinacoteca do Estado e artista multitalentos Luiz Antônio Barbosa, o "Labar"( @Luiz Antonio Barbosa ). Na condição de pupilo, Shoker aprende com o mestre o ofício da restauração de patrimônio histórico e técnicas mistas exploradas por grandes nomes do Modernismo brasileiro. As marcas mais evidentes destes anos de aprendizagem se deixam ver na série em atual desenvolvimento - sugestivamente entitulada 'Restauração de patrimônio histórico' - na qual restaura-se, ao invés de painéis e catedrais, escapamentos e objetos de uso pessoal de tempos imemorais - objetos achados relegados ao esquecimento que tomam forma novamente nas mãos do artista, recuperando não apenas seu estatuto de coisa propriamente dito, como também ganhando marcas do questionável gosto atual pelo decorativo, pelo ingênuo, pelo 'cute'. Em outras palavras: há neste rito de passagem da técnica, digamos, do mestre para o pupilo, um polêmico questionamento acerca dos fins da arte enquanto repositório de resultados histórico-culturais, da convicção daquilo que precisa ser restaurado, para quem algo precisa ser restaurado... Aqui reside o cerne conceitualmente frutífero presente nos trabalhos do jovem pintor. Ao voltarmos nossa atenção para a coleção 'Gatinhos Fofinhos', reencontramos o mesmo jogo com a razão de ser do objeto de arte, ainda que em chave distinta. Nela, opta-se pela exposição de signos quaisquer espalhados pelo mundo (pentagramas, baús de armamentos, vasos), sendo retratados na tela sempre em conjunto com padrões decorativos. Este se trata não de um decorativo que representa, mas que sobra, que banaliza, ao menos em face daquilo que ele traz por trás de si. Ele é um decorativo que lá está ironicamente com o fim de garantir seu apelo para nosso tipo de geração de fruidores de imagens; uma geração de especialistas em coisas que lhe causam apelo visual, cujo apetite estético é alimentado por mecanismos que nos propõem o mundo sem que tenhamos que sair de casa. A última série que tive oportunidade de ver, 'Jogatina frenética', instalação autodeclarada "mista: beneficiada por técnicas como 'cocaína sobre tela' e mais objetos achados", deixa ver o interesse no uso de técnicas multivariegadas do artista - assim como seu repertório ganhando corpo e maior solidez. Aguardo desenvolvimentos posteriores deste empenho em explorar algumas questões básicas da expressividade artísticas - estranhamente repletas de tabús e protecionismos por parte da academia - a partir da delicada percepção de que produzir algo em um formato 'artístico' corre o constante risco de resultar em uma incorporação de mais um objeto a este gigantesco repositório de signos que reconhecemos sob a alcunha de 'artes plásticas'.

Um comentário:

  1. Que bacana isso!
    Adorei as cores "psicodélicas".

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