5.02.2012

O equivocado orgulho do Primeiro de Maio


Sempre tive orgulho de minhas raízes proletárias. Nascido em um círculo familiar do ABC paulista, acostumei-me a desde muito cedo a ouvir conversas sobre linhas de montagem, tornos mecânicos e sindicatos. Esse ambiente moldou em larga medida minhas coordenadas culturais, a ponto de render um exemplo para lá de elucidativo: minha irmã e eu adorávamos ouvir os LPs e compactos da família em um toca-discos portátil, sendo que o preferido era um compacto ao vivo do James Brown; o disquinho começava com um entusiasmado discurso de Mr Brown que durava alguns bons minutos, acompanhado pelas manifestações ruidosas do público - e devido a isso, sempre me referia ao compacto como o disco do "homem da greve". Duvido muito que um garoto que não fosse do ABC usaria uma expressão semelhante àquela.

Se ainda guardo um orgulho das raízes proletárias é mais por um elemento sentimental que ideológico. Anos atrás eu seria capaz de bater no peito ao dizer que estava nas fileiras da "classe trabalhadora", e isso seria feito por uma motivação que nada tinha a ver com minhas lembranças oitentistas. Certamente hoje em dia gosto de perceber como me tornei independente do círculo familiar originário mediante os meus próprios esforços, afinal a vida adulta chega e não se pode ficar para sempre debaixo das acolhedoras asas paternas. Mas essa percepção está a anos-luz de distância de qualquer orgulho que se possa ter em pertencer à classe mais lembrada hoje, no Primeiro de Maio.

Não há orgulho porque não há motivos para isso. Ou pelo menos não há vontade para um auto-engano de tal proporção que veja na escravidão motivos para o riso. Pois é isso o mundo do trabalho: a venda do tempo de vida por um punhado de moedas. E veja a lógica pérfida que está na base dessa relação: sem moedas, a existência torna-se impossível. Ou nos vendemos, ou morremos de fome. Isso soa exagerado, mas se pensarmos que até mesmo um copo d´água tem o seu preço percebe-se que não há exagero algum.

Não consigo mais aceitar também a visão de que alguns usufruem de uma vida melhor às expensas do suor alheio. Podem ter uma vida com mais dinheiro, mas não necessariamente melhor: o exemplo mais recente e extremo foi o programa Mulheres Ricas. Assisti a alguns episódios e a conclusão é que a vida que aquelas senhoras levam é incrivelmente triste. Preocupam-se o tempo todo com aparência, com o preço de seus luxos, no que vão gastar logo em seguida e, o mais importante, com segurança: estão sempre com medo de assaltos, seqüestros, invasões. Não vi nenhuma delas lendo um livro, escutando música, enriquecendo o espírito, nem mesmo simplesmente se divertindo com amigos sem que houvesse a intermediação do consumo de alguma coisa (bebida, comida, viagens, etc).  E talvez nisso esteja mais um elemento do capitalismo: a capacidade de artificializar as relações entre as pessoas, em especial onde há mais riqueza. É isso o que encontramos no invejável mundo das mansões: um substrato combinando medo, máscara e botox.

Não se trata de fazer apologia de um hipócrita voto de pobreza e estigmatizar a riqueza como algo "demoníaco" e "pecaminoso". Pelo contrário: o dinheiro abre portas, que vão desde aquelas que conduzem ao mundo da alta cultura até as salas de cirurgia dos melhores hospitais. A César o que é de César. O ponto para mim é que conferir méritos ao típico working class hero como algo mais "nobre" do que um endinheirado qualquer é fazer um elogio não apenas a uma classe, mas ao sistema como um todo. Em outras palavras: não há mérito algum em ser trabalhador assim como não há mérito algum em ser burguês. Atribuir certos valores a um é, ao mesmo tempo, conferir valores (mesmo que indiretos) ao outro, pelo simples fato de que ambos os lados são participantes de um mesmo e único sistema baseado no desespero. 

Disse antes que "ambos os lados são participantes", trabalhadores e burgueses. Importante dizer a essa altura que apenas utilizo essa dicotomia como procedimento retórico - imaginar o mundo como algo capaz de ser dividido entre "bons" de um lado e "maus" do outro é tentador, já que parece ser o modo mais fácil de eliminar as dificuldades de entender essa aberração multiforme na qual sobrevivemos. Mas sabemos que a retórica não é o mundo, e portanto abstrações tais como "classe trabalhadora", "burguesia", "nação", "povo", etc são meros conceitos, e portanto maleáveis e sujeitos a deformações. O problema se encontra em utilizar a linguagem do século XIX para explicar os fatos do XXI; e sendo a cultura atual tão fortemente influenciada pelos pensadores de duzentos anos atrás, me parece que vivemos uma espécie de continuum perpétuo das influências de 1848 (por acaso há algum pensador contemporâneo que não seja um devedor em larga escala de Marx e Nietzsche, apenas para citar dois nomes?). Inseridos em uma realidade que a nossa capacidade analítica não consegue apreender totalmente (por suas características já mencionadas de grandeza e multiplicidade expansiva), vivemos reproduzindo discursos que não mais encontram ressonâncias nos fatos, mas cujos ecos, produtos do choque desses discursos com seus próprios erros, proporcionam ao homem moderno uma certa ilusão de conhecimento que conforta (e paralisa ao mesmo tempo). Assim, algumas das melhores mentes de hoje continuam a aceitar o Primeiro de Maio como o Dia do Trabalhador com um certo sorriso no rosto, acreditando que nele está a chave para um mundo melhor quando, na verdade, é o trabalhador um produto genuíno desse mundo desgraçado e qualquer novo mundo que nasça das mãos do trabalhador será, tal como ele, algo que merece ser destruído. Logo, não se trata de dia de festa nem de "luta", mas de vergonha e horror; um dia para todos ficarem com nojo das fábricas, dos escritórios, das lojas e dos cursos profissionalizantes; um dia para animar a sede de destruição de legiões de Unabombers por toda a vasta extensão do planeta; um dia para inspirar um ódio geral tão magnânimo, tão profundo, tão soberbo, que as pessoas só teriam um único desejo: dar fim a tudo o que as cerca de modo definitivo porque nada mais vale a pena ser salvo.

Um comentário:

  1. É isso mesmo, cara. E o que mais enoja é como tantas pessoas estufam o peito pra dizerem orgulhosas que trabalham 12, 14 ou até 16 horas por dia. Como se matar de trabalhar fosse uma qualidade, quando na verdade é uma completa estupidez.

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