11.11.2010

Histórias de amantes IX


F. tinha um especial prazer em escolher as calcinhas, sutiãs e meias para suas mulheres. Gastava algumas horas imaginando como as amantes ficariam com as peças delicadas. Nos momentos de ócio excitava-se em múltiplas visões mentais e lembrava-se do branco de uma microcalcinha a contrastar com a pele morena de Renata, ou o negro das meias 3/4 que modelavam as coxas grossas de Cassandra, ou vermelho que caía tão bem nos apetitosos seios de Gabriela. Comprava tais peças às dezenas e as oferecia com gestos ensaiados de cavalheiro conquistador, desejoso de que os agrados despertassem o gênio da Lascívia em suas amantes. E mesmo cientes de que tudo era o interesse de um jogo nada secreto de segundas intenções, elas agradeciam os mimos luxuosos e aceitavam as regras, sorridentes e umidecidas.


O prazer de F., entretanto, não se limitava a comprar as peças e vê-las no corpo de suas amantes. Maravilhado ficava mesmo quando os corpos nus daquelas mulheres, recém-saídos de um longo banho, ainda mais macios pelo efeito acalentador das águas, eram lentamente encobertos por aqueles pedaços minúsculos de pano. Que prazer observar Renata passando a calcinha entre os pés pequeninos, para depois, já em pé, escorregar a calcinha até a cintura em um movimento absurdamente lento (e os olhos negro-amendoados fixos nos de F., encarando-o com severidade); ou então era Cassandra que, sentada em uma cadeira em frente a cama, levantava as pernas de uma forma tão depravada que um foguete surgia dentro da cueca daquele homem, já quase babando de excitação observando o deslizar da meia calça negra engolindo aquelas coxas brancas e volumosas (e Cassandra dizia coisas depravadas e tocava-se e gemia); ou então era Gabriela que pedia ajuda para prender o sutiã, ela segurando os seios com suas mãos mágicas e ele com a habitual inabilidade tentando unir o fecho, tudo isso apenas para observar os seios maravilhosos agora emoldurados (e Gabriela encostava a bunda sedenta no pau de F. e puxava-o para si, já de olhos semifechados, já se deixando levar).

Um dia F. acordou e estava completamente cego. Familiares, amigos e amantes vieram lhe confortar. Ouvia atento as palavras que lhe eram ditas, e agradecia os gestos de carinho, gestos que não mais podia ver. Apartado para sempre do reino da visão, sofreu por dias e noites a privação das leituras, das manhãs calmas vistas da janela de sua casa, de tudo aquilo que só damos valor quando perdemos. E então aprendeu -não sem dores, não sem esforços mil- a encontrar beleza e prazer nos aromas doces de Renata, na respiração ofegante de Cassandra, nos gemidos delicados de Gabriela. As lingeries, antes o preâmbulo das noites daqueles amantes, agora eram tão somente eventos passados: fulgurava entre eles um fogo de outra natureza, borbulhava em F. um vigor diferente e sensual, um vigor intenso que nascia da extrema ousadia de gozar com todos os seus sentidos.
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Histórias de amantes é uma série que iniciei aqui ano passado. Abaixo os posts anteriores:

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