3.09.2010

Histórias de Amantes VIII


VIII

Gostavam de passar as tardes juntos, caminhando pelas longas praias da cidade, usufruindo da companhia um do outro, da agradável sensação de ser alvo dos mimos e cuidados de alguém. E de fato tudo entre eles era sincero e bonito, mesmo quando visto de longe; devido a isso, uma enorme quantidade de corações feridos os miravam tocados pela inveja, ou então com um suspiro, que nada mais é do que uma inveja impotente e ressentida.

As areias das praias, acostumadas que estavam com os passos daqueles amantes, em uma certa tarde sentiram a falta deles. Na tarde seguinte também. E igualmente na outra. Foi assim por incontáveis dias, até que a mulher apareceu sozinha, sem aquele homem segurando sua mão nos passeios sem fim ao longo das areias das praias. Desnecessário dizer que seu caminhar era mais lento, que sua cabeça pesava em uma atitude de subserviência ao Irremediável - e dizer isso é o suficiente, já suspeitamos do que ocorreu, já nos entristecemos por aquela mulher deixada sozinha para caminhar na praia, relembrando as conversas com aquele homem que agora era uma coisa, um amontoado de células que se desfazem, um arremedo da virilidade que tantos prazeres lhe tinha proporcionado.

Passo após passo ela todavia continua andando, e os olhares da inveja que outrora acompanhavam seu caminhar agora não existem mais. Aqueles passeios vespertinos, celebração de um amor calmo e inabalável, são agora nada mais do lembranças; em seu luto, tentou manter acesas a todas elas, como uma ode ao seu querido que se foi para o Nada; apesar disso, teve que reunir forças sobre-humanas para voltar à praia, para mais uma vez percorrer, agora solitária, aquele trajeto que por anos pertenceu inteiramente a eles. E naquele cortejo fúnebre de uma mulher só os ventos litorâneos pareciam cantar uma nênia antiqüíssima, e ela chorava a cada novo passo com toda a força de seu ser despedaçado. Com cicatrizes profundas, daquelas que rasgam o espírito, conhecia uma verdade que não pode ser ensinada, conhecia um mistério que só se penetra pela experiência: que dor nenhuma, absolutamente dor nenhuma nesse mundo é comparável àquela de ser testemunha da morte de alguém que se ama.

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