1.12.2010

A inspiração da série Histórias de Amantes

O Ian, um dos caras mais geniais e preguiçosos do universo (e também um grande amigo e influência para diversas coisas em minha vida) enviou para mim o último conto da série "Histórias de amor" que ele criou para o zine O Idealista, nos anos 90. Hoje, além de ser um dos seres do Espaço Impróprio, ele participa do coletivo Você Tem Que Desistir. Se os deuses permitirem, colocarei os zines para baixar aqui no Dissolve//Coagula no próximo final de semana.

Como eu disse em um post anterior, o texto do Ian foi descaradamente chupinhado por mim. Roubar idéias alheias é sempre uma boa idéia. Aprendi isso com o Ian, não me culpe, sou inocente.


Décima primeira história de amor

Os amantes são incansáveis como foguetes em direção ao sol. Ainda incertos de como chegarão lá, ainda incertos se irão se inflamar de paixão e desejo de uma vida verdadeiramente “livre”, ou se voltarão como frustrados e insignificantes corpos carbonizados cujos corações ressecados não conseguem mais amar. Recusando todo tipo de conceito e definição, com marretas em punho eles destróem tudo o que haviam construído, esperando então construir algo que seja maior e mais puro. Algo que os dê a liberdade que um dia tiveram, sem assim abrirem mão da perpétua companhia um do outro. Confinados e ainda procurando por solidão e individualidade eles deixam sua torre para trás e experimentam e tentam e fodem e deixam sua imaginação correr livre, procurando por sexo estampado em muros quebrados e azulejos trincados, se esforçando para não pensarem no outro enquanto pensam em si mesmos. Eles machucam e se machucam e caem e mutilam e gritam, avançando cegamente por tropas inimigas até desgastarem cada pedaço de corda que os amarrava um ao outro. Um dia eles olham à volta e se sentem vitoriosos; com amantes respectivos em mãos, eles se encontram como cúmplices cheirando a sexo, e são incapazes de sentir algo que machuque ou inspire. Em meio ao sangue e fumaça eles sabem que venceram o ciúme, mas só quando a fumaça se dissipa é que eles podem realmente ver onde estão; solitários como o capitão de um navio de tolos, navegando por um oceano de lágrimas salgadas à procura de algo desconhecido; e somente quando a tripulação morrer e a comida for envenenada este capitão olhará para a neblina gasta e se derramará no oceano, preso sem poder progredir ou regredir, se afogar ou flutuar. Pois quando os amantes finalmente mataram qualquer tipo de ciume dentro de si eles também aniquilaram tudo o que havia de belo e ousado entre eles, e agora, indiferentes e entorpecidos, estão incertos se estão livres, ou mortos. Eles olham um para o outro, olham para seus respectivos amantes, e inexplicavelmente choram, vendo nada mais do que olhos desconhecidos de estranhos perfeitos, eternamente procurando por uma paixão em línguas mortas...

4 comentários:

  1. Po cara, se vc realmente disponibilizar esses zines ae eu agradeceria muito.valeu. até mais.

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  2. Vou colocar aqui com toda certeza. Os zines são ótimos e, embora tenham sido feitos para "degustação tátil", ao menos é uma forma de ter uma idéia de como eles são.

    Abraço

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  3. Opa também estou na espera desses zines,essa idéia de se apropiar de idéias, textos me fez lembrar coisas do Stewart Home, muito legal.Pensando bem na vida nada é original, nossas atitudes são reflexos de nossas leituras, vivências,experiências.Nada surge do nada.
    Uma ótima sugestão é um texto sobre plágio, originalidade essa coisas hein?
    Abração Márcio, to sempre conferindo suas ótimas postagens.

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  4. Olá Kaska,

    Caramba, você citou Stewart Home, lembrei do ótimo Assalto à Cultura (o capítulo sobre o Class War é instigante).

    Sim, concordo contigo: a dita originalidade mais parece um mito moderno que um fato. A Antigüidade desconhecia essa ambição: a arte era mais a imitação de modelos perfeitos, meras aproximações de um ideal de Beleza e Perfeição. E como "plagiavam-se"!

    Acho que rende um texto sim. É um assunto legal de abordar. Vou compartilhar algo com vocês aqui. Valeu!

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