12.19.2009

Histórias de amantes

Ela chorou, completamente entregue ao seu desespero e dor que pareciam infinitos (a dor que sentimos é amplificada pela loucura de nos acharmos únicos, e na verdade somos cinzas e pó, apenas cinzas e pó).

Ele nada fazia a não ser chorar também, igualmente triste, igualmente sentindo o mesmo pesar, mas mantendo a serenidade, talvez pela exigência de se portar como insensível, inabalável perante aquele aperto na garganta que antecede as lágrimas, que antecede os choros memoráveis dos apaixonados (memoráveis porque insistimos na loucura de nos acharmos únicos, e na verdade somos cinzas e pó, apenas cinzas e pó).

Tudo porque entre os apaixonados houve um desentendimento, e não cabe a nós investigar suas causas: os efeitos, neste caso, são excessivamente mais interessantes. Pois eles contém a chave interpretativa de seus corações, a lente que perscruta os detalhes, os meandros de suas imperfeições, imperfeições que lhes são negadas porque todo amor comporta uma espécie de cegueira.

Os apaixonados estão sentados frente a frente. Limpam os olhos. Dão-se as mãos. O contato físico é pequeno, é suave, é feito quase com temor, mas ativa os laços psíquicos que os unem, ativa as regiões espirituais de suas almas em comunhão. Há quem jure que tudo isso existe porque insistimos em embelezar a atração carnal com atributos que lhe são estranhos, que tudo é um teatro que antecede a ejaculação, mas insistimos em permanecer no palco, gostamos de estar lá, quase imploramos por estar (e tudo isso porque insistimos na loucura de nos acharmos únicos, e na verdade somos cinzas e pó, apenas cinzas e pó).

Pouco importa tudo o que foi dito para aqueles dois: beijam-se apenas, e naquele contato de salivas ficam sutilmente maravilhados. Dali sugam o néctar de seu amor, daquele amor construído entre tempestades, e provam um na língua do outro (provam das cinzas e pó que são o outro) o mesmo açucarado sabor dos primeiros dias, a mesma febre de sensações dos primeiros dias.

4 comentários:

  1. Adoro textos com refrão! Quero os próximos capítulos :D

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  2. Sim, os outros chegarão em breve ;-)

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  3. Se as brigas não fossem ruins, poderíamos viver só de reconciliações.

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  4. As reconciliações são sempre maravilhosas. E esse maravilhamento é a única explicação que eu acho cabível para aqueles relacionamentos onde há mais separações do que bons momentos.

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